Showing posts with label Mega Bog. Show all posts
Showing posts with label Mega Bog. Show all posts

21 September 2021

27 August 2021


(sequência daqui) O que, na voz de quem, candidamente, confessa “I haven’t aged since I was four years old”, ganha, naturalmente, muito particulares sentidos aos quais, como acontece com os filmes de David Lynch, há que permitir que nos conduzam, sem resistência nem busca de explicação racional. Por que motivo a demolição sonora de "Bull of Heaven" desagua, sem pausa, no lirismo translúcido de "Obsidian Lizard"? Como coabitam ambos em "Before a Black Tea" onde Erin incorpora a voz de Mimi Goese (Hugo Largo)? Pode, num momento, dizer-se “take me for the music, take me for a human” e, no seguinte, “I've never been a human, but I'm a good friend”? Existe matéria nesta surreal ópera noturna para a imaginar (sugestão de Erin) como episódios inéditos das Canterbury Tales criados à imagem de The Wall (Pink Floyd), Until the End of the World (Wim Wenders) e da reinvenção da arquitectura de Nova Iorque por June Jordan e Buckminster Fuller? Ela também não sabe mas isso não tem importância nenhuma.

25 August 2021

ELA TAMBÉM NÃO SABE

Dolphine, publicado em 2019, foi o último grande álbum da era pré-pandémica. Inspirado num mito segundo o qual, durante o processo evolutivo, algumas criaturas marinhas optaram por não trocar os oceanos pela terra e permaneceram protegidas no mar, sob a forma de golfinhos, era uma imensa e assombrosa metáfora de Erin Birgy/Mega Bog acerca do deslumbre e dos riscos da vida no planeta, alimentada pela ficção de Ursula K. Le Guin e (ainda que absolutamente singular), inviamente, pela música de Robert Wyatt ou Laurie Anderson. Agora, Life, and Another, dá o tiro de partida para a inquietante nova era: concebido durante um isolamento de vários meses – partilhado com James Krivchenia (companheiro, produtor, engenheiro de som e baterista dos Big Thief) –, numa cabana no Novo México, junto ao Rio Grande, é como se os tórridos dias do deserto tivessem feito convergir a coabitação com a natureza agreste, o mergulho nos alçapões da memória e as inquietações dos tempos numa única substância. (daqui; segue para aqui)

26 December 2019

MÚSICA 2019 - INTERNACIONAL (IV)

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 40)























 




 



* a ordem é razoavelmente arbitrária...

Esqueçam a lista de dez que acabaram de ler. Não só a ordenação é consideravelmente arbitrária como, nos lugares que esses ocupam, se escolhidos noutro dia e a outra hora, poderiam, sem grande esforço, residir outros tantos igualmente valiosos. Para que constem: Robert Forster – Inferno, Bill Callahan – Shepherd In A Sheepskin Vest, The Monochrome Set – Fabula Mendax, Trash Kit – Horizon, Vanishing Twin – The Age of Immunology, Trupa Trupa – Of the Sun, Modern Nature – How to Live, Laurie Anderson – Songs From The Bardo, Gauche – A People’s History of Gauche, Jesca Hoop – Stonechild, The Delines – The Imperial, Sunwatchers – Illegal Moves, Sleater-Kinney – The Center Won’t Hold, School of Language – 45, Rickie Lee Jones – Kicks, Edwyn Collins – Badbea, Filthy Friends – Emerald Valley, Sean O’Hagan – Radum Calls, Radum Calls, Divine Comedy – Office Politics, Orchestra of Spheres – Mirror. Sim, foi um ano muito bom.

14 December 2019

Mega Bog - "I Hear You Listening (To The Bug On My Wall)"

07 August 2019

Mega Bog - "Untitled (With 'C')"

(daqui) 

"'Untitled (with ‘C’)' was written for Philando Castile the day after his murder" (aqui)

17 July 2019

Mega Bog - "Truth in the Wild"


"‘Truth In the Wild’ came together scrapbooking through the multiple realities simultaneously experienced in a summer driving endlessly around the eastern coast, living in my partner’s van, having the first moments of solitude in my adult life that I embraced. The title is a quote from an Ian Cheng interview I was read aloud and very moved by. The scenes in the song are quotes, ideas, and observations from Assateague Island, The Met, the window of my cabin at The Outlier Inn, a childhood dream that Zach and I both had where we first met, David Bowie, and the milk of my own perspective on these things”

16 July 2019

BORRÃO DE RORSCHACH

  
Diz Erin Birgy: “É fantástico ver alguém aperfeiçoar um determinado objecto de paixão. Mas o que me mantém interessada na música é precipitar-me literalmente no desconhecido. É muito mais divertido divagar do que decidir, de uma vez por todas, como uma banda irá soar, de acordo com uma perspectiva ou um desejo singular”. Divaga Erin Birgy: “A minha maior fantasia erótica era ser um cavalo negro enviado do Inferno, galopando através do mato, ao crepúsculo, como numa cena de Darby O’Gill and the Little People (um filme da Disney, de 1959)”. Recorda Erin Birgy: “Durante os últimos oito anos, a banda alargou-se e deambulou, num crescendo em direcção à liberdade musical”. Sintetiza (em "Truth In The Wild") Erin Birgy: “Energised by uncertainty, confusion, disruption, this song’s for me”. Lateralmente, uma memória antiga ajuda a compreender ainda melhor: “A minha mãe costumava levar-nos, em passeios de um dia, a explorar os diversos lugares de Washington Oriental. Uma vez, fomos a Metaline Falls e, durante cerca de uma hora, não conseguíamos ver nada do lado de fora do carro de tal modo o ar estava opaco de borboletas monarca. Isso ficou em mim para sempre”



Naturalmente, nada dispensa a escuta de Dolphine mas, daqui, podem extrair-se já algumas coordenadas para o que nos aguarda. Isto é, nada do que podemos imaginar será sequer parecido com o que iremos descobrir. Até porque este quarto álbum assinado Mega Bog – "nom de plume" de Birgy – pode servir de modo útil como uma espécie de “borrão de Rorschach”: se ela própria admite ter-se alimentado de Robert Wyatt, Laurie Anderson, Bridget St. John, Nina Simone, Marianne Faithful, Nico, a ficção de Ursula K. Le Guin e a poesia de Alice Notley, nada nos impede de, ao escutá-la, identificarmos os traços de Julia Holter, This Is The Kit, Joni Mitchell, Shara Worden, Poliça, Judee Sill, Jesca Hoop ou Hugo Largo. Uma sucessão de imprevisibilidades sonoras articuladas como peças de "puzzles" diferentes no perímetro de cada canção: ziguezagues melódicos enroscados em dissonâncias de veludo, psicadelismos subaquáticos em montanha russa "free-form", bordados folk com acabamentos "avant-pop", abstraccionismos rítmicos em coreografias reptilianas, preciosas jóias electro-acústicas que, afinal, são apenas o confessado desejo de “perpetuar aquele género de perspectiva misteriosa que, para mim, não é realmente um mistério”. Ou, encarando-o sob um ângulo mais esclarecedor: o álbum avassalador que, desde Volta, Björk procura sem encontrar.