(sequência daqui) Se RPG não quebrar esse reflexo condicionado, nada o fará: de manobras de corte e costura sobre "field recordings" a "samples" de farrapos de diálogos, "loops" vocais, alusões a jogos de vídeo, exercícios de "cadavre exquis" e ressuscitações corais de relíquias em Middle English do século XIII, o autoconfessado "mish-mash of sounds and influences, from folk to electronic, ambient, jazz and art-pop", na companhia dos sopros de Faye MacCalman e do contrabaixo de John Pope, conduziu-a a lugares que Meredith Monk, Julia Holter, Modern Nature ou This Is The Kit não tiveram ainda oportunidade de desbravar. Um maravilhoso delírio partilhado que tanto pode emergir do contacto com outras formas de arte como da "leitura da História, da visão de uma paisagem ou de um ruído fortuito, de passagem".
23 September 2023
UM RUÍDO FORTUITO
Jayne Dent (aliás, Me Lost Me) deveria ser mais cautelosa na forma como revela detalhes da sua biografia. Porque, a partir do momento em que contou como cresceu a escutar música folk ("À excepção de um curto período de rebelião adolescente quando descobri o punk e o metal e decidi que odiava a folk, ia, frequentemente, com os meus pais a concertos e festivais folk. Vivi sempre rodeada de instrumentos musicais estranhos - o meu pai tocava vários, a concertina em particular - e de Morris dancers. Adoro as características melódicas, o ritmo, a total ausência de pretensiosismo e a forma como tudo isso pode ser divertido, estranho, sombrio e belo"), nunca mais impediria que esse carimbo a perseguisse. Por muito que se tenha esforçado por contextualizar o modo como, entre múltiplas outras refências isso determinaria o rumo da sua música futura ("Dei por mim a imaginar como, contadas no futuro, essas histórias tradicionais seriam. Não apenas os grandes mitos mas também as pequenas histórias"), até hoje, seria sempre arrumada na secção "folk" da imprensa musical. (daqui; segue para aqui)