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08 April 2026

"God’s Lonely Man" (feat. Iggy Pop)
 
(sequência daqui) Em 2020, publicaria Hunted, álbum de revisão de temas de Hunter entregues a Joe Talbot (Idles), Courtney Barnett, Julia Holter e Charlotte Gainsbourg; e, em variadíssimas coordenadas espaciais e temporais, veria o seu nome associado aos de Colette, Gucci, Vogue,Fendi, Lagerfeld, Chanel ou Burberry (com EP Live For Burberry incluído, 2017); não menor cometimento seria a banda sonora para a soberba série de TV Peaky Blinders (Peaky Blinders: Season 5 & 6 (Original Score, 2024) à qual se sucede agora o EP Is This All There Is?. Apresentado como o primeiro de uma trilogia de gravações "que explora a identidade como uma metamorfose, moldada e remodelada pela experiência da paixão", o que Calvi busca - acompanhada por Matt Berninger,Laurie Anderson, Perfume Genius e Iggy Pop - é estimular a eclosão de um desdobramento de personalidades, da fria racionalidade à mais física colisão sonora.

21 May 2023


(sequência daqui) Com apoio externo das duas primeiras páginas do Frankenstein, de Mary Shelley, tirado ao acaso de uma prateleira (“O livro começa com a narrativa de um viajante próximo do Círculo Polar Ártico e essa imagem de alguém à deriva ajudou-me a escrever sobre a sensação de estar isolado, perdido e sem objectivos”, justifica-se Matt) e dos convidados Taylor Swift, Phoebe Bridgers e Sufjan Stevens, tratar-se-á, então, como assegura Aaron Dessner, de “uma obra maior, à altura de Alligator (2005), Boxer (2007) ou Sleep Well Beast (2017) dos quais se escutam referências aqui”? Relativamente a este último, é possível que tenha razão: foi exactamente aí que teve início o processo de lenta implosão da banda, um exercício, deliberado ou não, de poupança energética, no qual o som e a fúria de Alligator e – mais que perfeitamente controlados – de Boxer, sem se acharem extintos, actuavam essencialmente como memória em segundo plano.
 
 
Mas o mais exacto paralelismo que deve estabelecer-se é com I Am Easy To Find: tal como nesse álbum, o desenvolvimento das canções é quase processionalmente moroso, os arranjos orquestrais limitam-se a simular crescendos e a procurar acolchoar o muito espaço deixado vago por melodias preguiçosamente monossilábicas, e a tonalidade geral é de queixosa resignação. Naturalmente, poderemos sempre contar com os textos de Berninger para nos obrigar a parar tudo e voltar a escutar (“I get myself twisted in threads to meet you at The Alcott, I go to the corner in the back where you'd always be, and there you are sitting as usual with your golden notebook writing something about someone who used to be me”, de "The Alcott", um dueto com Taylor Swift que é, inesperadamente, a melhor canção do disco) ou fazer-nos ver um momento como se lá tivéssemos estado presentes (“I keep what I can of you, split second glimpses and snapshots and sounds, you in my New Order t-shirt, holding a cat and a glass of beer, I flicker through, I carry them with me like drugs in a pocket, you in a Kentucky aquarium talking to a shark in a corner”, de "New Order T-Shirt"). Mas já vimos lâminas bem mais afiadas acercando-se da artéria radial.

16 May 2023

The National - "Tropic Morning News"
 
(sequência daqui) Depressão ou “burnout”, procurou uma terapia de despoluição fisiológica – zero álcool, zero cannabis – acompanhada por tratamento com antidepressivos. Acima de tudo, receava ter “incorporado a personagem misantropica que, em palco, me habita” e que sempre canalizara para a música. “Escrevi música triste e deprimente durante tanto tempo que, quando ela chocou comigo, quando me apanhou, já não queria escrever mais naquele registo. Não era capaz de me orientar pelo meio do nevoeiro. Não queria pô-lo em palavras. Tudo me parecia feio e grosseiro e todos os pensamentos na minha cabeça eram pequenos, amargos e assustadores”. Foi o momento no qual todos os elementos da banda se concentraram numa espécie de terapia colectiva (“Em vez de nos zangarmos, apoiámo-nos uns aos outros e ao trabalho que íamos realizando em torno das canções, como se estivéssemos a cuidar da nossa família. Conseguimos recuperar os laços que nos têm unido e ver as coisas sob um outro ângulo. É como se tivéssemos entrado numa nova era”, diz Bryce) à qual Matt – de modo arriscadamente pouco científico – atribui todos os méritos da reabillitação: “Conseguir voltar a escrever uma canção foi o medicamento que me curou. Os antidepressivos comigo não resultam”. (segue para aqui)

13 May 2023

"Your Mind Is Not Your Friend" (feat. Phoebe Bridgers)

(sequência daqui) Na realidade, porém, não foi tudo assim tão fácil. Agora que (quatro anos após I Am Easy To Find), First Two Pages Of Frankenstein, o novo álbum da banda, é publicado, Matt confessa que, mais do que em qualquer outro momento anterior, o fim dos National esteve prestes a acontecer: “Mesmo que, sempre que estamos a trabalhar num álbum haja discussões e muita ansiedade, esta foi a primeira vez que sentimos que as coisas poderiam ter chegado irremediavelmente ao fim. Estava num buraco muito negro, não era capaz de escrever uma letra nem de criar uma melodia. Foi assim durante um ano”. E, à “Uncut”, em modo cirurgia de coração aberto, contaria tudo sobre aquele momento “em que o comboio descarrilou”: "Habitualmente, quando atravesso períodos conturbados, consigo lidar com isso, escrevo uma canção sobre o que me perturba o que contribui muito para resolver o problema. Mas, desta vez, eu não queria fazê-lo. Tinha perdido o interesse pela minha própria dor e pelos meus problemas. Sentia-me até, se calhar, envergonhado por causa deles. E quanto mais tempo passava sem exercitar aquela parte de mim responsável pela escrita, mais difícil se tornava reestabelecer a ligação com ela”. (segue para aqui)

10 May 2023

QUANDO O COMBOIO DESCARRILOU 

Há dois anos e meio, ninguém o adivinharia. Falando a partir da Califórnia por ocasião do lançamento do seu álbum a solo, Serpentine Prison, Matt Berninger referia-se à paralização geral a que o confinamento resultante da emergência pandémica obrigara (“Toda a gente tem de repensar a forma como lida com a vida. Foi tudo virado de pernas para o ar. Não parou apenas a indústria musical, parou praticamente tudo. Tem sido uma situação dramática. Não é possível planear coisa nenhuma”), expelia fel sobre a tenebrosa era-Trump (“Custa a acreditar como uma nação se deixou dominar por um criminoso patético e transparentemente maligno e dói ver a aceitação de tal brutalidade. Teremos de reconstruir a América praticamente a partir de zero mas acredito que o ideal americano mantém a força suficiente para, optando por Biden e Kamala Harris, reinventar o país”), mas, quando lhe perguntei qual o critério para distinguir o que viria a ser uma canção dos National de outra para o seu reportório pessoal, respondeu: “Tenho escrito bastante. Estou sempre a escrever, nunca paro. Há muitos músicos e autores de canções amigos que me enviam esboços de ideias. Quando o Aaron, o Bryce, o Brian ou o Scott me enviam alguma coisa, será uma canção dos National”. (daqui; segue)

"The Alcott" (feat. Taylor Swift)

09 November 2021

"You Was Born To Die" (feat. Kyshona, Margo Price, & Jason Isbell)
 
(sequência daqui) Agora, com A Southern Gothic – variação negro-americana sobre o género literário que os branquíssimos Faulkner e Flannery O’Connor brilhantemente praticaram –, Victoria (“singer-songwriter, blues poet, folklorist, historian, and sociologist“) alarga o horizonte: “Não me interessa a História contada sob o ponto de vista dos conquistadores. Interessam-me as pessoas cujas histórias foram silenciadas. Gostaria que a minha música fizesse reflectir sobre a forma como caminhamos pelo mundo e como o mundo caminha através de nós”. Escoltada nessa reflexão por T-Bone Burnett (produtor imaculado), Mason Hickman, Margo Price, Jason Isbell, Kyshona e Matt Berninger (The National), Southern Gothic é um perfeitíssimo mosaico de farrapos de História ("Magnolia Blues"), hipnótica pop de câmara ("Please Come Down") e "murder ballads" em registo "trip hop" ("Deep Water Blues"). E o infinitamente mais que exige ser descoberto.

01 November 2020

16 October 2020

Matt Berninger - "Distant Axis" 
(Live from EastWest)
 
(daqui; ver também aqui)

14 October 2020

HEMORRAGIA LENTA


Na lista das experiências formativas essenciais, Tom Waits inclui ter sido empregado de mesa, em San Diego, na Napoleone's Pizza House: “O que San Diego tinha de bom era haver muitas lojas de tatuagens. Tenho o mapa da Ilha de Páscoa nas costas. E o menu completo da Napoleone's Pizza House na barriga. Quando lá trabalhava, a partir de certa altura, desistiram de imprimir os menus. Eu ia até às mesas e levantava a camisa”. Matt Berninger não anda muito longe disso quando recorda como, nos anos 80, era entregador de pizzas, em Cincinnati: “Fazia pouco mais do que viajar pela cidade, fumando e ouvindo uma estação de rádio, a 97X, Foi o emprego mais musical que tive”. E, à “Uncut”, acrescenta: “Depois, trabalhei num campo de golfe, como cortador de relva, e ouvia os Smiths, enquanto aqueles imbecis ricos tentavam acertar-me com as bolas. Foi a minha educação musical”.
 

Após 20 anos a bordo dos National, publica, agora, o primeiro álbum a solo – Serpentine Prison – e anuncia que se trata de uma nova etapa na aprendizagem de escrita de canções. Tudo terá começado com a adaptação do Cyrano de Bergerac, por Erica Schmidt, para o Daryl Roth Theatre, de Nova Iorque (“Metade escrita de canções e metade paraquedismo”, explicaria Berninger) mas, concluída a experiência de “entrar na cabeça das personagens e exprimir as suas emoções”, pareceu-lhe que era altura de “voltar a chafurdar no meu próprio lixo e isto foi a primeira coisa que daí saiu”. Na verdade, houve uma tentativa anterior de um álbum de versões (Velvet Underground, The Cure, Morphine e Beastie Boys faziam filinha para o abate) que o produtor convidado, Booker T “Green Onions” Jones, desencorajou ao escutar os originais de Berninger co-escritos com Scott Devendorf, Andrew Bird, Walter Martin (Walkmen), Mickey Raphael e Gail Ann Dorsey. E fez muito bem: no mesmo registo acolchoadamente (des)confortável que, desde há dois álbuns, é o dos National, Serpentine Prison é melancolia outonal, hemorragia lenta e quase feliz, um afago resignado antes de encarar o precipício.

12 October 2020

REAPRENDER A ESCREVER


Vai ser necessário “reconstruir a América praticamente a partir de zero” depois dos quatro anos no poder de “um criminoso patético e transparentemente maligno”, diz Matt Berninger, dos National, no momento em que se prepara para publicar o primeiro álbum a solo, Serpentine Prison, produzido pelo lendário Booker T Jones. A partir de Venice, Los Angeles, o presente não é propriamente animador mas Berninger confia que o futuro não há-de ser irremediavelmente negro.  

    Como têm sido estes últimos meses? Tem estado em confinamento? 

Isto, por aqui, está muito mal. A Califórnia é o estado com maior número de casos. E estamos, praticamente, em “lockdown”. Não estamos em quarentena todo o tempo mas usamos sempre máscara. E não há propriamente grande actividade. 

    Para os músicos estes tempos são particularmente estranhos... 

Tenho escrito bastante. Mas tudo muda muito rapidamente. Toda a gente tem de repensar a forma como lida com a vida. Foi tudo virado de pernas para o ar. Não parou apenas a indústria musical, parou praticamente tudo. Tem sido uma situação dramática. Não é possível planear coisa nenhuma. Não faço a mais pequena ideia de quando puderá fazer-se um concerto dos National a sério. Não consigo imaginar um concerto sem 10 000 pessoas que eu possa tocar e sobre quem possa mergulhar, coberto de amor e saliva. (risos) Tenho muito medo de que tenhamos de esperar ainda muito tempo até que isso possa acontecer. Entretanto, toda a gente tenta descobrir formas de sobrevivência enquanto a Natureza não nos oferece uma solução. Estamos a pensar tocar em clubes muito pequenos que correm o risco de fechar. 

    Todas as canções de Serpentine Prison foram escritas antes da pandemia? 

Estavam todas escritas antes do ‘lockdown’. Nenhuma delas foi directamente influenciada pela situação actual. Mas, quando as canções resultam de algum tipo de ansiedade, acabam por ser relevantes para qualquer circunstância atribulada. 

    De qualquer modo, existem referências e alusões bastante explícitas ao estado desgraçado da política norte-americana em “Total frustration, deterioration, nationalism, another moon mission, total submission”... 

Claro que sim. Mas, quando falo do nacionalismo, também posso estar a pensar nos National e “moon mission” pode referir-se a "Return To The Moon", da minha outra banda, EL VY. Quando escrevo, gosto de duplos e triplos sentidos, gosto que a mesma coisa posso ser entendida de formas muito diferentes. 

    Qual é o seu critério para distinguir entre o que será uma canção dos National e outra que poderá incluir num álbum a solo? 

Estou sempre a escrever, nunca paro. Há muitos músicos e autores de canções amigos que me enviam esboços de ideias. Quando o Aaron, o Bryce, o Brian ou o Scott me enviam alguma coisa, será uma canção dos National. Mas, entre Sleep Well Beast e I Am Easy To Find, o Aaron e o Bryce escreveram também toda a música para o musical Cyrano. Por isso, nessa altura, já tinha esgotado todos os esboços de canções que eles me iam enviando. A ideia inicial era gravar um álbum de versões, um pouco inspirado no Stardust, do Willie Nelson. Mas, depois, acabei por pegar nas canções meio alinhavadas que outros amigos me tinham proposto. A ideia nunca foi iniciar outra banda mas dar uma sequência bastante orgânica aquilo que se ia desenvolvendo entre mim e essa comunidade de músicos.

    Mas a própria noção do que são os National não se foi transformando ao longo do tempo? Em I Am Easy To Find, a sua voz, por vezes, praticamente desaparece pelo meio daquela brigada de vozes femininas, os irmãos Dessner e Devendorf têm projectos e colaborações paralelas... Não serão os National, hoje, apenas um ponto de encontro onde, ocasionalmente se juntam para criar música para além daquela com que, individualmente, se ocupam? 

Os National existem quando surge uma ideia ou no momento em que há um certo número de canções a borbulhar. Quando o realizador Mike Mills apareceu com a ideia de fazer um filme em torno do qual se estruturou I Am Easy To Find, tudo se orientou no sentido muito claro de conceber um filme musical e o álbum é quase apenas um subproduto do filme, resultante desse processo de vai e vem entre nós e o Mike. Quando se vê o filme, compreende-se por que motivo a minha voz não está sempre presente. Mas gosto que isso possa ter ampliado a noção do que são os National. No caso do Cyrano, estávamos a compor para personagens específicas o que nos fez aprender ainda uma outra forma de escrever canções. O que, de forma indirecta, acabará inevitavelmente por ter consequências na música dos National. 

    Porque lhe ocorreu convidar Booker T Jones para produzir o álbum? 

Conheci-o há cerca de 12 anos e sabia que ele também tinha produzido o Stardust, do Willie Nelson, que tem uma atmosfera incrível, quase se consegue escutar o som das cadeiras a ranger. Conhece tudo sobre música clássica, blues, jazz, disco, country... A minha intenção era trabalhar com alguém que fosse capaz de se aperceber exactamente de como deveria ser a identidade emocional de cada canção. Quando ele diz que aquela "take" é a "take" certa, ninguém discute. 

    Recordo-me de, numa entrevista anterior, ter dito que prestava sempre muito mais atenção aos textos do que às canções enquanto canções. Neste álbum, dir-se-ia que está no polo oposto: todos os pormenores contam... 

Enquanto gravava estas canções ia também registando algumas das versões em que tinha, inicialmente, pensado e isso fez-me prestar mais atenção à forma das canções e à estrutura das melodias de um modo que nunca antes tinha feito. E pude reparar, por exemplo, como em "Killing Me Softly", da Roberta Flack (uma das grandes canções de sempre), existe o truque estrutural de apresentar logo o refrão no início, e, quando, finalmente, chega o momento “certo” de o escutar, bate-nos de um modo muito mais forte por já termos tido previamentes uma antevisão dele. Estou, realmente, a reaprender a escrever e este álbum permitiu-me concentrar nas melodias e na emoção. As melodias vão atrás da emoção... quando falamos com alguém, a nossa voz sobe para os agudos e desce para os graves em movimentos melódicos. O Booker T estimulou-me a concentrar-me muito nisso. 

    Vai sobrar alguma América depois de Trump? 

É aterrador. Custa a acreditar como uma nação se deixou dominar por um criminoso patético e transparentemente maligno e dói ver a aceitação de tal brutalidade. Teremos de reconstruir a América praticamente a partir de zero mas acredito que o ideal americano mantém a força suficiente para, optando por Biden e Kamala Harris, reinventar o país.

13 May 2019

I Am Easy To Find - A Film by Mike Mills / An Album by The National


With director's commentary by Mike Mills

With commentary by Matt Berninger & Carin Besser

The National & Mike Mills: I Am Easy To Find Q&A From New York's Beacon Theatre with Julien Baker

20 December 2017

UMA MIGALHA DE VERDADE


“Em A Sort Of Life, a autobiografia de Graham Greene, ele confessava que, escrever era absorver todo o caos à sua volta e destilá-lo sob uma forma em que conseguisse compreendê-lo. Há também outra citação literária muito boa do Raymond Carver acerca de, nos seus contos, existir uma migalha de verdade em torno da qual ele desenhava uma imagem bonita. Como escritor de canções, sinto-me algures, entre esses dois”, diz um tipo de Northampton, de 41 anos, mas que soa como um velho de 80, habituado a beber "bourbon" desde o berço. De acordo com as melhores fontes, anda por aí já há mais de uma década, primeiro com uns ilustremente desconhecidos Absentee (“Lou Reed mas com impressões digitais mais encardidas”, alguém sentenciou acerca deles), depois, numa outra encarnação enquanto Dan Michaelson and The Coastguards, pouco mais do que uma assinatura colectiva para Michaelson-autor individual. Vale a pena dar uma volta pelas esquinas da Internet e procurar travar conhecimento com o que estiver disponível de Saltwater (2009), Shakes (2010), Sudden Fiction (2011), mas, sobretudo, da trilogia Blindspot (2013)/Distance (2014)/Memory (2016). 



Nada disso, contudo, será suficiente para nos introduzir à experiência de First Light, “um lugar onde cada momento íntimo se materializa e nos descobrimos cercados pelos escombros das emoções”, segundo Dan Michaelson, a propósito de "Old Kisses" – “The last thing you said as we came to the end, don't dwell on old kisses, you'll only regret" –, o exacto tipo de canção que, só por distracção, não aterrou em Songs Of Love And Hate, de Cohen (os arranjos de Arnulf Lindner, para orquestra de câmara, em todo o álbum, poderiam bem ser de Paul Buckmaster). Mas que também Bill Callahan, Nick Cave ou um Matt Berninger, no ponto exacto de alcoolémia inspiradora, certamente, invejarão. A meio caminho de uns Tindersticks menos sentimentalmente filigranados e de uma versão não tão "cinemascope" dos Anywhen, acerca destas nove peças de elegantissimo desmazelo emocional, bastaria saber que Michaelson imagina ser "Careless" (“Love makes you give more than you think you can, the emptiest well floods 'til it's ready to spill”, sobre um quase requiem orquestral) “a primeira canção com alguma esperança que escrevi e que estabelece a atmosfera de todo o álbum”, para ficarmos preparados para o que nos espera. Nunca ficaremos.

12 September 2017

SEM CORPO A CORPO


Era claramente um progresso desde os tempos em que, acabado de chegar a Nova Iorque, Matt Berninger fora habitar num "loft" de Gowanus, zona industrial desclassificada no sul de Brooklyn, onde os locais incendiavam os automóveis para receber o dinheiro do seguro e cujas ruas as produtoras de lacticínios usavam como local de despejo para produtos fora de prazo: agora, Aaron Dessner tinha uma casa em Ditmas Park, um dos Distritos Históricos de Brooklyn, e alugava o andar de cima a Matt que, sozinho e alcoolicamente estimulado q.b., o ocupava como sala de partos poética, Bryce Dessner morava num apartamento da mesma rua (era ele quem cozinhava para Aaaron e Matt e lhes deixava as refeições à porta) e os irmãos Devendorf também não viviam longe. Quando chegava o momento de dar corpo a um álbum, a garagem no jardim de Aaron estava mesmo ali à mão. Foi assim durante cerca de dez anos e cinco discos – Sad Songs For Dirty Lovers (2003), Alligator (2005), Boxer (2007), High Violet (2010) e Trouble Will Find Me (2013). Hoje, os 5 elementos dos National vivem dispersos pelo mundo, separados por milhares de quilómetros. Não serão os primeiros a quem tal acontece. Mas, no caso deles, nota-se. 



Segundo a versão oficial, nada disso teria implicado qualquer perda criativa. Quando necessário, dizem, juntam-se em locais vários para sessões de trabalho colectivo nas quais a velha alquimia da banda volta a borbulhar nas retortas. Mas, na verdade, escutando Sleep Well Beast, é difícil não reparar que, se o espírito e a tensão de Alligator ou Boxer não se extinguiram, tudo é muito mais calculado do que instintivo, mais jogo de guerra digital do que combate corpo a corpo. Continua a haver nervo mas há menos nervos à flor da pele, o que, aliás, em entrevista à “Stereogum”, Bryce Dessner, falando sobre o trabalho de composição do grupo, eloquentemente explica: “É como construir um edifício no interior de outro edifício. Depois, demolimos o edifício exterior e construimos outra estrutura semelhante a primeira, fazemos ajustes nas janelas e retiramos o telhado”. As canções dos National nunca foram, de facto, matéria para arrebatamentos adolescentes mas também nunca como hoje música tão adulta para náufragos que, numa jangada à deriva, insistem em conhecer os minutos e segundos exactos em que abandonaram o navio. 



Se Berninger não abdica da ironia para se referir à linguagem cada vez mais elíptica e desbastada dos seus textos (“Não escrevo prosa nem escrevo poesia. Escrevo bons emails e envio mensagens com piada”) é em consequência dessa cerebral frieza que "Walk It Back" é um prometedor esboço que não chega a descobrir o rumo e disfarça o desnorte com um solo de guitarra, "Guilty Party" e "The System Only Dreams in Total Darkness" são o género de canções que têm tudo para nos submergir mas apenas nos deixam a reparar na sobrenatural inteligência das extrassístoles rítmicas de Bryan Devendorf e ficamos a desejar que, por exemplo, a via de "The Day I Die"– uns Joy Division mais ricamente texturados – ou o descontrolo de "Turtleneck" tivessem sido previlegiados.