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07 December 2017


"Mme. Saint-Ange, mulher atraída por uma enorme curiosidade erótica, já 'fodida por mais de dez ou doze mil indivíduos', propõe ao cavaleiro Mirval, seu irmão, e a Dolmancé, libertino empedernido, que em conjunto levem a cabo a educação de Eugénie de Mistival, ingénua de quinze anos. Apenas num dia de diálogos seguidos de exemplificação, a jovem aluna mostra-se tão hábil a assimilar o catecismo transgressor que, no final do livro, declara: 'Já sou, ao mesmo tempo, incestuosa, adúltera e sodomita, e tudo isto numa rapariga que só hoje foi desflorada...'" (Portugal em Sade, Sade em Portugal, seguido de o Affaire Sade' de Lisboa - Aníbal Fernandes / Pedro Piedade Marques)

17 March 2016

ORGIA

Imagine-se uma gigantesca orgia em que participariam os Talking Heads, Peter Gabriel (pré-"world music"), XTC, Prince, Squeeze, Van Dyke Parks, Robert Fripp, os Neptunes, Nile Rogers, Gang of Four e Prefab Sprout, organizada pelos irmãos Peter e David Brewis (aliás, Field Music). Eles desejariam ter também convidado Stravinsky, Thelonious Monk, Serge Gainsbourg, os Roxy Music, Beatles, The Left Banke e The Band mas, por motivos devidamente justificados, nenhum destes pôde comparecer. O programa obrigatório consistiria de uma rigorosa execução colectiva da totalidade das posições do Kama Sutra, acrescidas daquelas inúmeras variantes acrobáticas introduzidas pelo Divino Marquês. Os orgasmos, a acontecerem, porém, teriam de ser puramente cerebrais. Não em consequência de um pré-conceito tântrico ou taoista mas, sim, exclusivamente musical. Na ausência de confirmação ou desmentido oficiais, não será demasiado especulativo supor que, daí, teria resultado Commontime, registo da intrincada geometria sonora que tais coreografias haveriam de segregar.



Aparentemente e contra todas as probabilidades, tal estratégia destinar-se-ia a tornar o sexto álbum dos Brewises – publicado quatro anos após o imaculado Plumb - mais… err… acessível (“I am okay with the word ‘accessible’” diria o Brewis, David): em vez dos habituais labirintos rítmicos, a reconfortante vulgaridade do "common time" (o banalíssimo quaternário da silva); no lugar de uma variante civilizadamente contemporânea do prog, o pezinho erudito a fugir para a chinela pop. Deverá, então, dizer-se que, nessa exacta medida, Commontime é um glorioso fracasso. É verdade que, embora continuem a predominar os deleites do pescoço para cima, aqui e ali, vai-se sentindo, agora, também, qualquer coisinha funk da cintura para baixo. Mas, de um modo geral, é (felizmente) impossível dizer que os moços se esquivaram a incluir um solo razoavelmente atonal de sax na quase "crowd pleaser", "The Noisy Days Are Over”, que a arquitectura maniacamente detalhada de "Trouble At The Lights" é coisa para ser digerida de uma vez só, que os arranjos, simultaneamente económicos e expansivos do Crude Tarmac String Quartet são matéria óbvia ou que a pasmaceira metronómica tomou o poder. Era só que faltava.

07 March 2016

28 April 2015

HONRAR O MARQUÊS


Caso exemplar de articulação da teoria com a prática, A Filosofia na Alcova, do Marquês de Sade, nos sete “diálogos” que compõem a obra, combina, de forma pedagogicamente avançada, a dissertação filosófica com a entusiástica aplicação imediata dos preceitos expostos. É no quinto capítulo desse processo de ilustração moral, política e religiosa da (por muito pouco tempo) virginal Eugénie que o Chevalier de Mirval – um dos três diligentes educadores da donzela ávida de conhecimento – se lança numa extensa e empolgada diatribe contra a religião, a monarquia e a virtude, e a favor de uma transgressiva amoralidade exuberantemente libertina que inclui tudo quanto (como, ainda hoje, ensina o sábio César das Neves) não seria suposto pensar-se, proclamar-se e, muito menos, exercer-se. Tem como título “Français, encore un effort si vous voulez être républicains” o qual, às mãos do Situacionista René Vienet, já havia sido submetido ao obrigatório "détournement" sob a forma do filme de 1977, Chinois, Encore Un Effort Pour Être Revolutionnaires, exercício de agit-prop maoísta invertida.



Em versão abreviada – Encore Un Effort – é, agora, o nome no bilhete de identidade do último álbum dos Milky Wimpshake, maravilhosas e obscuríssimas criaturas (apesar de uns bons vinte anos de árduo labor materializado em meia dúzia de CD e miudezas avulsas) de Newcastle, aliás, Pete Dale e cúmplices vários, com actividade paralela na já falecida micro-indie, Slampt Underground Organisation. De acordo com a "job description", confeccionam “love songs for punk rockers and protest tunes”, nunca esconderam a devoção por Phil Ochs, em banho "no nonsense" de Buzzcocks, Billy Bragg e Orange Juice, nem por uma certa anarco-delinquência suave (“Let me tell you that I take stuff from work, I take books and pens and machinery, no, I'm not ashamed of my thievery ‘cos I'm just taking back what was stolen from me”). No mais puro francês "geordie", "Le Revolution Politique" é capaz de derreter empedernidos corações direitistas (o dueto vocal com Sophie Evans, nesta e noutras faixas, é decisivo) e, entre outras, o hino à guerra de classes, "Coming Soon", bem como a explícita "Heterosexuality Is A Construct", nunca ofenderiam a memória de Donatien Alphonse François.

15 June 2011

MAS QUE MAL TE FIZ EU, LEOPARDO?



1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Existe: leio e releio, incansavelmente, a Bíblia. Em rigor, não é “um livro” mas uma colecção de 66 livros. Prefiro, claramente, o Antigo Testamento – repleto de mais sangue, violência, traição, inveja, pornografia, ficção-científica, estupro, incesto, irracionalidade e ódio do que qualquer um dos seus equivalentes cinematográficos realizados em Hollywood ou no San Fernando Valley – ao Novo, excessivamente "hippie avant la lettre" para o meu gosto (embora também tenha dois ou três belos nacos para ferrar o dente). Mas, aqui, é necessário dizer que a melhor versão da “parte que interessa” do Novo Testamento se descobre em A Vida de Brian. Sempre fui de opinião que uma correcta e massiva divulgação da Bíblia contribuiria de forma decisiva para a diminuição do número de crentes.

2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

O cliché do costume: Ulysses, de James Joyce.

3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, de Laurence Sterne. Lido pela primeira vez numa viagem de avião de ida e volta Lisboa-Nova Iorque-Salt-Lake City. A ficção-Mormon pareceu-me encaixar-se de modo assombrosamente perfeito no remoinho narrativo do Shandy. Mil vezes que se lhe pegue, nunca é o mesmo livro.

4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

A Divina Comédia, Dante. Assustou-me de morte ter compreendido que, para o descodificar integralmente, precisaria de um trabalho prévio de, para aí, uma vida.

5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?

O Passageiro Clandestino, primeiro capítulo de A História do Mundo Em 10 Capítulos e Meio, de Julian Barnes.

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Sim. Júlio Verne. Tintim. Asterix. Mark Twain. Blake & Mortimer. Lucky Luke. As biografias de Geronimo, Carzy Horse e Buffalo Bill. Kipling. Robinson Crusoe. A Ilha do Tesouro. Walter Scott. Os Cinco. Jack London. Os Tarzans, do Rice Burroughs. Mas, aos quinze, já lhe estava a dar na Filosofia na Alcova, do Sade.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

Não nasci para sofrer. Já larguei vários a meio.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Não é pergunta que se faça. Mas, reduzindo a coisa ao osso, é mais ou menos isto: Poesias, Rimbaud; Français, Encore Un Éffort Si Vous Voulez Être Républicains (o “miolo” filosofante da Alcova, do Sade); Alberto Caeiro; Nietzsche, retirado, às cegas, da prateleira; os já falados Sterne e Bíblia; Obras Completas, de Oscar Wilde; Poesias, de Rumi; A Ilha do Dia Antes, Umberto Eco.

9. Que livro estás a ler neste momento?

Lentissimamente (está quase a fazer um ano), The Inheritance Of Rome/A History Of Europe From 400 to 1000, de Chris Wickham.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário:

Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. Não é coisa “bíblica”, é só bom senso convivial.

(2011)

12 March 2011

MERCADO LIVRE
(détournement III)















"Encontramo-nos à porta da 'Prada'. Se aquilo correr mal, assaltamos a 'Prada'".

(com o alto patrocínio de Belmiro de Azevedo)

(2011)

20 December 2009

NANOMICROPEQUENAZIMÉDIAS EMPRESAS ASSIM
NÃO HÁ CRISE QUE LHES POSSA METER MEDO




Em 5 dias (ó valorosos oleiros das Caldas!), não se conseguiria ainda arranjar um bonequinho de presépio catita a condizer com o chafúrdio local?... não havendo tempo para, com a Torre de Belém, esculpir devidamente a vermelho uns maxilares relevantes, este até servia muito bem como solução de recurso.

Portugais, encore un effort si vous voulez être républicains!

(2009)

12 June 2009

O AMOR DA JULIETA


Charles Ogier de Batz de Castelmore, Comte d'Artagnan
(estátua de Gustave Doré)

Esta deve ser daquelas que, em modo-resposta-falhada-de-concurso-de-TV, se costuma justificar com o magnífico "Ah e tal... nessa altura, eu ainda não tinha nascido". Seja a pergunta "em que ano foi a Revolução Francesa?", "quem escreveu A Filosofia na Alcova?" ou "a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado de hipotenusa é o enunciado do Teorema de: a) José Sócrates?; b) Pitágoras?; c) José Mourinho?". Mas foi, até agora (ontem), um dos grandes momentos de cinema de 2009: na sequência inicial de O Almoço de 15 de Agosto, de Gianni Di Gregorio, um já não-jovem filho lê à praticamente mumificada mãe uma passagem de Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Primeiro, franze-se o sobrolho. Depois, sai um "OMG!...". A seguir (acontece, pelo menos, três vezes), são puríssimas epifania, poesia e amor: o bom do "D'Artagnan" aparece sempre, sempre, sempre traduzido nas legendas como... "Dartacão"!. O qual, sendo "o amor da Julieta", só pode ser, naturalmente, uma personagem de Shakespeare. William Shakespeare, aquele actor do filme do Baz Luhrmann.



(2009)