"(...) dei por mim a ouvir a cantora Mariza, mandatária de Fernando Medina para a Câmara Municipal de Lisboa, discorrer sobre a visão dela para a cidade. Num vídeo disponível no Youtube com a duração de dois minutos e treze segundos, a palavra que mais se destaca é o adjectivo 'típico'. 'Lisboa típica', Lisboa dos 'bairros típicos', das 'marchas populares típicas', Lisboa das 'pessoas mais típicas' … ('as pessoas mais típicas', arriscamos depreender, habitam 'os bairros típicos'). Ela própria, Mariza, canta fado, que é uma música típica, e vem de um bairro típico. Apesar de vir de um bairro típico, viajou muito, conheceu mundo, 'tantas cidades do mundo'. Sabe por isso o que é a modernidade (se não tivesse viajado, tinha-se ficado pelo típico, o que seria uma grande perda para ela… e para o mundo). Apesar de abraçar de coração a tradição e o 'very typical', a mandatária acha que Lisboa deve entrar na Europa (a parte de que já estamos na Europa há bué, pelo menos desde 1143 que antes disso não existíamos, parece ter-lhe escapado... (...)" (Ana Cristina Leonardo)
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06 August 2021
23 November 2016
Para ser assim uma coisinha mesmo catita, era convidar também a Mariza e o "dentro de mão" (e a Vasconcelos podia criar uma maravilhosa Fatinha gigante feita de latas de atum Tenório)
11 July 2016
24 February 2016
17 April 2015
03 September 2014
O "fado" daquela cujo "som é igual nas tabernas de Lisboa (?) ou nas mais prestigiadas salas de espectáculo no mundo" é exactamente como a sua foto: carregado de toneladas de photoshop
03 April 2013
SEM O GRILHÃO NO PÉ
No sábado 23 de Março, a última página do primeiro caderno do “Expresso” informava-nos que a Secretaria de Estado do Turismo admitia apoiar o financiamento de um filme que Woody Allen viesse a rodar em Lisboa. Mas, garantia o secretário de Estado, “Qualquer apoio, terá de ser dirigido a um filme com manifesto potencial de captação de turistas e que projecte realmente o destino”. A sequência de projectos cinematográficos europeus de Allen iniciada, em Londres, com Match Point (2005) e continuada, entre outros, com Vicky Cristina Barcelona (2008), Midnight In Paris (2011) e To Rome With Love (2012), na sua qualidade global de descomprometidos "scherzi" filosóficos, não terá vindo a ser justamente valorizada – apesar de Midnight In Paris se ter transformado no seu maior sucesso de bilheteira de sempre –, mas, para o que agora importa, como o próprio realizador deixou claro aquando das filmagens em Itália, “Os europeus começaram a financiar os meus filmes muito generosamente mas fizeram-no de acordo com as minhas regras: não interferem de maneira nenhuma, não lêem os argumentos, não fazem ideia do que estou a fazer, confiam apenas que o filme não embarace ninguém”.
Pelo que não é, de todo, provável que ele esteja muito virado para aceitar que o esqueleto do argumento possa, hipoteticamente, ser o video do Turismo de Portugal divulgado há um mês – em que o amabilíssimo Sr. António, diligentemente, dobra camisas, sorrindo, e as hormonas da holandesa, Marilie, fervem só de pensar no instrutor de golf, Daniel –, “enriquecido” com umas sombras pessoanas, meia dúzia de pastéis de nata e Mariza, a bordo do cacilheiro da Vasconcelos, “castafiorando” o património imaterial.
Deve ser por não digerir facilmente empadões de estereótipos identitários que Cristina Branco, mesmo quando canta fado (e fá-lo como muito poucos), sempre tenha colocado sérias reticências a encarar-se como fadista (“Não me sinto fadista porque ser fadista é quase uma atitude de vida. Não sou uma mulher sofrida, uma ‘mulher do fado’. Aquela ideia do xaile, aquele dramatismo, não têm nada a ver comigo. Canto a vida, a minha vida. Apetece-me ter a liberdade de cantar o que me der na gana, não quero esse tipo de grilhão no pé”). E se, desde o início, isso era evidente, Sensus (2003), Kronos (2009) e Não Há Só Tangos Em Paris (2011) esclareceram de vez que, ainda que possua tudo o que é necessário para, por exemplo, atirar-se ao reportório de Amália (Live, 2006), limitar-se a tão acanhado perímetro seria de menos.
Alegria, definitivamente, eleva-a a um outro plano: dos textos de Miguel Farias, Manuela de Freitas, Jorge Palma ou Gonçalo M. Tavares, emerge gente entre “o coração das trevas e a glória de todos os dias”, da "Alice No País dos Matraquilhos", de Godinho, à "Branca Aurora" que, quando lhe oferecem um cocktail, opta por um Molotov, ao proletário da "Construção", de Buarque, ao kafkiano "Desempregado Com Filhos", ou à "Cherokee Louise", de Mitchell, ecoando o fado, sim, mas, igualmente, riquíssima outra filigrana musical, em virtual estado de imponderabilidade na voz de Cristina. Que, por acaso, até nem ficaria nada mal num filme de Woody Allen. (Concertos: 5 de Abril, S. Luiz, Lisboa; 7 de Abril, Casa da Música, Porto)
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23 March 2013
WOODY, MY MAN, O GUIÃO É ESTE; AGORA, ARRANJAS MANEIRA DE METER O PESSOA NA FLORIDA DA EUROPA, A COMER PASTÉIS DE NATA ENQUANTO A MARIZA, DO CACILHEIRO DA OUTRA, LHE UIVA O PATRIMÓNIO IMATERIAL E A COISA ESTÁ FEITA! *
"A Secretaria de Estado do Turismo quer Woody Allen em Portugal (...) mas 'qualquer apoio a existir por parte do Turismo de Portugal, terá de ser dirigido a um filme com manifesto potencial de captação de turistas e que projecte realmente o destino'" (aqui)
* nova produção conjunta "É muito triste ser parolo" (X) & "Les Portugais sont toujours gais" (XLIII)
* nova produção conjunta "É muito triste ser parolo" (X) & "Les Portugais sont toujours gais" (XLIII)
15 September 2012
É MUITO TRISTE SER PAROLO (PARTE VI)
"(...) De gala como se estivesse na sua sala, passeia, gesticula. Diz que
“estes últimos 11 anos” de vida em que tem cantado “Portugal, o fado”
lhe fizeram sentir “que a música é universal”. Anuncia que vai “mostrar
porquê”. E canta o fado anterior todo em “brasileiro”: “Aqui adôrrrmici
pêsádámêntchi…” A galeria onde a repórter está sentada treme com a
reacção: “BRAVO!”
Segue-se uma guitarrada (destaque para José Manuel Neto na guitarra portuguesa) e Mariza convida toda a gente a cantar o fado seguinte, “Rosa Branca”. Será o mais longo momento-Xuxa da noite, com a diva a instruir o teatro por camadas, desde a galeria à plateia, franzindo a testa a uns e encorajando outros. “Como estão os meus amigos do terceiro andar?” Levanta a cabeça cá para cima. “Façam um pouquinho de barulho para a gente ouvir cá em baixo!” A galeria obedece. “E os do segundo andar?…” “E os do primeiro andar?…” “E os do rés-do-chão?…” É quase o teatro dos amiguinhos da Xuxa. Mariza fala de uma prima nordestina, imita-lhe o sotaque. “Por isso eu acho que Portugal e Brasil não têm distância. Isso não existe. Vamos cantar todos juntos.” E abana o traseiro justo de cetim, pede palmas. “DIVA!”, grita a galeria. A repórter começa a receber sms de amigos brasileiros na plateia a pedir socorro (...) Despede-se outra vez: “Despeço-me mais uma vez agradecendo ao nosso grande banco português Caixa Geral de Depósitos.”". (Alexandra Lucas Coelho, aqui; o texto integral é de leitura obrigatória)
09 March 2012
REGRESSO À MATRIZ

Carminho - Alma
(2012)
Carminho - Alma
Fadista que era fadista, nos tempos heróicos ainda apenas à distância de três ou quatro gerações (criatura castiça que Pinto de Carvalho/Tinop, na sua História do Fado, definia como “produto heteromorfo de todos os vícios” que realizava a proeza de atingir “a perfeição ideal do ignóbil”), movimentava-se no interior de um universo cujo raio – se descontarmos a romântica tese acerca das origens do fado a bordo das caravelas – era pouco mais amplo do que o do homem medieval: entre a taberna e o beco, a coreografia da navalhada e o “círculo vicioso dos coquetismos perturbadores e ligeiramente exóticos do canalhismo", desenhados na “atmosfera microbiana dos bairros infectos” que esse “Valmont de espelunca” preferia frequentar. E a descrição das suas companheiras de arte e farra era absolutamente a condizer.
Carmo Rebelo de Andrade, fadista, 28 anos, licenciada em Marketing & Publicidade, antes de gravar o primeiro álbum (Fado, 2009), fez questão de viajar por quase duas dezenas de países da Ásia, Oceânia e América do Sul para respirar mundo e se envolver em acções humanitárias. A área do terreno pisado, sem dúvida, dilatou-se mas, curiosamente, o fado de Carminho (sem ser, de modo algum, idêntico ao que se imagina que seria o das Severas, Marias Romanas e Umbelinas Cegas), de entre as novas vozes – em Fado mas igualmente, agora, neste Alma –, é o mais arrebatadamente tradicional. Se Cristina Branco ou Camané, com enorme economia de gestos, lançaram uma outra luz sobre ele, Carminho (note-se: infinitamente mais valiosa que qualquer Mariza comum), no estilo vocal, na escolha dos textos e temas, parece ter optado pelo recuo em direcção à matriz primordial. O que, se lhe vai, indiscutivelmente, a carácter, também a encerra num figurino demasiado estreito e desnecessariamente purista.
(2012)
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30 January 2010
A ONU E A UE ENTREGAM A PORTUGAL
A PESADÍSSIMA RESPONSABILIDADE
DE PRESSIONAR O GOVERNO CHINÊS
COM ARMAS DE DESTRUIÇÃO MASSIVA

Mariza e Sónia Tavares actuam em Xangai
(2010)
A PESADÍSSIMA RESPONSABILIDADE
DE PRESSIONAR O GOVERNO CHINÊS
COM ARMAS DE DESTRUIÇÃO MASSIVA
Mariza e Sónia Tavares actuam em Xangai
(2010)
24 December 2009
O VERDADEIRAMENTE HORRENDO DOS "NOUGHTIES" (I)
(segundo "The Word" mas com aplicação local)


Cristiano Ronaldo
(segundo "The Word" mas com aplicação local)
The Vocal Stylings of Mariah Carey
The signature sound of the decade, universally imitated across the talent shows until look at me melismatic gymnastics drove actual singing out of town. Did more damage to pop music than Napster and Aids put together.
Aplicação local: Dulce Pontes; Mariza.
Cristiano Ronaldo
Undeniably a world-class player but such a charmless, petulant, arrogant brat that even his own supporters at Manchester United never really learned to love him. At next year's World Cup an England player will clatter him and win a knighthood.
Aplicação local: o próprio.
(2009)
19 August 2009
É TÃO TRISTE SER PAROLO

É verdade: "há pormenores que fazem toda a diferença". Ser ou não ser parolito é, sem dúvida, um deles. Mas, depois do "Allgarve" e da "West Coast Of Europe", era, provavelmente, inevitável que viessem aí as "Contas Woman", as "Soluções Woman", os "Cartões Woman" e a "Caixa Woman". Pode tirar-se um gajo da parvónia mas nunca se tira a parvónia de dentro do gajo.


(2009)
É verdade: "há pormenores que fazem toda a diferença". Ser ou não ser parolito é, sem dúvida, um deles. Mas, depois do "Allgarve" e da "West Coast Of Europe", era, provavelmente, inevitável que viessem aí as "Contas Woman", as "Soluções Woman", os "Cartões Woman" e a "Caixa Woman". Pode tirar-se um gajo da parvónia mas nunca se tira a parvónia de dentro do gajo.
(2009)
17 December 2007
O "F" DE FADO
Na edição de Julho da "Uncut", Garth Cartwright inicia assim a crítica a Transparente, de Mariza: "After José Mourinho, Mariza is currently Portugal's most famous export". Em bom rigor, alguém lhe deveria ter chamado a atenção para uma importante omissão: Fátima, de agora em diante ainda mais exportável com a imagem de marca da brevemente santa, Irmã Lúcia. Até porque há que reconhecer de uma vez por todas que, no que à utilização dos famigerados três F (futebol, fado e Fátima) diz respeito, a péssima reputação do Estado Novo é inteiramente imerecida: em comparação com o "carpet bombing" mediático actual, a actividade de propaganda e intoxicação de massas dos responsáveis pelo "marketing" ideológico salazarista não passou de um tosco trabalho de amadores pelintras. Mas concentremo-nos agora no fado. Porque parece começar a instalar-se a perigosa ideia de que, se a internacionalização da música (e dos músicos) portugueses é para levar a sério, existe uma e só uma possibilidade: apostar tudo no fado, vender os velhos mitos e lendas devidamente "modernizados" (tal como Mourinho já sabe comer com faca e garfo e Fátima está disponível em DVD) e, no interior dos circuitos internacionais da "world music", conquistar meia dúzia de praças fortes onde, em puro reflexo condicionado, uma vez pronunciada a palavra "fado", a resposta seria, invariavelmente, "compro!".
Convém, porém, recordar que, desde que, numa noite do Verão de 87, no "Empress Of Russia", cerca de três dezenas de representantes de editoras independentes, promotores de concertos e jornalistas inventaram a designação de "world music", se esta ganhou, sem dúvida, uma notoriedade que, antes, não tinha, tudo se processou, inevitavelmente, segundo as mais estritas regras da eleição da "playmate do mês": em Janeiro, descobrem-se as vozes búlgaras, em Fevereiro, os reformados e pensionistas cubanos, em Março, Cesária Évora, em Abril, a folk escandinava, em Maio, o canto gutural de Tuva, em Junho, os sufis do Paquistão, em Julho, as polifonias corsas e por aí adiante, de "centerfold" em "centerfold". Com essa prodigiosa invenção da "música céltica" (na verdade, maioritariamente, peças e danças de salão europeias dos séculos XVII e XVIII) sempre como pano de fundo. Claro que, em Agosto, já muito poucos se recordarão da Miss Janeiro a menos que ela possua outros dotes e meios de afirmação... O fado deve ter sido, para aí, a Miss Novembro. À qual, assim que os canais de divulgação ficarem entupidos e sobrecarregados, estará reservado o mesmo destino (o que, diga-se, é muito fadista) das colegas dos meses anteriores. A menos que ela (ou alguém por ela), entretanto, seja capaz de ir explicando que, lá de onde vem, conhece uma ou duas amigas um bocadinho diferentes mas igualmente simpáticas. (2005)
02 October 2007
UMA PRODIGIOSA SUCESSÃO DE ACONTECIMENTOS CONDUZIU-ME A RESSUSCITAR UMA MÃO-CHEIA DE "OFF-THE RECORDS", DE NOVO (plus ça change...), DESGRAÇADAMENTE PERTINENTES (V)
ÁFRICA NOSSA
A umas centenas de quilómetros de Londres e menos de uma semana antes de a rapaziada explosiva de Bin Laden ter exemplificado muito graficamente o que uma parcela do Terceiro Mundo pensa do G8, houve quem tentasse uma versão reivindicativa consideravelmente menos dotada de "valores de produção" do que a dos operacionais da Al Qaeda. Se um número importante dos "filthy rich" da pop do Primeiro Mundo condescendia em ceder algum tempo de antena de uma mega-promoção planetária da sua música — com retorno imediato — a favor de um pedido de perdão à dívida africana (tendo, contudo, a precaução de não se referir às quadrilhas de gangsters que governam a maior parte de África e têm por hábito abocanhar as ajudas que o Ocidente para lá envia), parecia mal que o próprio continente negro ficasse remetido à posição de espectador mendicante. O beato Geldof não tinha pensado nisso mas Peter Gabriel resolveu o berbicacho: em Saint Austell, na Cornualha, ergueu a extensão africana de última hora do Live 8, "Africa Calling".
A boa notícia para Portugal é que, aparentemente, saímos finalmente da cauda da Europa para integrarmos, bravíssimos, o pelotão da frente africano. Sim, Portugal, ali representado por Mariza, é África e, pelos vistos, o fado resolveu de vez os enigmas da sua origem. Naturalmente, como confessou à "Única" da semana passada, "Como era um festival, teve que ser um fado mais rock'n'roll, para puxar um bocadinho pela audiência". "Honi soit qui mal y pense": ninguém ignora que também o rock tem raízes africanas e Mariza faz questão de sublinhar que nasceu em Moçambique e é mestiça. Embora loura.
Pensando bem, isto só pode ter consequências positivas: se Mariza, Portugal e o fado são africanos, é assaz provável que, enquanto nação do Terceiro Mundo, estejamos um pouco mais ao abrigo de ameaças terroristas. Nunca se sabe, mas antes assim. Melhor ainda: ai da Comissão Europeia se não nos perdoar, a nós, pobres zulus, a cratera do défice! Depois, a partir de agora, até George W. Bush terá legitimidade para alegar — contribuindo, desse modo, para a distensão internacional — que os EUA são a maior superpotência africana por causa de James Brown e Miles Davis e Jimi Hendrix e Coltrane e (porque não? se a Mariza pode...) Michael Jackson.
E, enfim, quando pensarmos nos valentins, isaltinos, fátimas, avelinos e outros jardins, escusamos de, uma vez mais, nos entregar, avinagrados, ao "live hate". Bastar-nos-à suspirar, olhando, ao longe, a savana: tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é África!... (2005)
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