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06 February 2019

23 June 2018

É tão, tão, tão bom...


"Apesar da ‘nobre indiferença muçulmana pelo autoclismo, o esgoto, a árvore frondosa e a ânsia de ar das ruas novas’ de que falava Aquilino dando razão a Boris, e da falta de pergaminhos que já em 1758 era notada pelo prior Sebastião de Sousa, Olhão mantém um lastro de glória. Industriais, pescadores e vates contrabandistas continuam a partilhar o desrespeito pela lei e o culto do Senhor dos Aflitos, numa vila pródiga em dândis e espanholas, estrangeiros e aventureiros, sardinhas e anarquistas, operários e fedor. Tresanda, resume Raul Brandão. Não exagera o simbolista. Ao peixe que apodrece sob o calor africano junta-se a matéria fecal que escorre a céu aberto, húmus pestilento que Captain Zorra nunca conseguiu olvidar, memória primeva que nos conduz, um pouco abruptamente, é certo, a Marilyn Monroe, actriz que nunca veio a Olhão" (Ana Cristina Leonardo - O Centro do Mundo: Retrato Imaginário do Russo Apátrida Boris I de Andorra e Mano-Rei de Olhão, Agente dos Ingleses e Oficial da Wehrmacht, Preso e Condenado aos Gulags da Sibéria)

24 October 2017

REQUIEM


David Lynch sabe do que fala quando, sobre as particularidades da banda sonora no cinema, afirma: “Há efeitos sonoros e efeitos sonoros abstractos; há música e há música abstracta. E, algures por aí, a música converte-se em efeito sonoro e os efeitos sonoros em música. É uma área um pouco estranha”. Se, evidentemente, isso se aplica a toda a obra de Lynch, Blade Runner, de Ridley Scott (1982), transformou-se num caso particularmente exemplar de como essa “área estranha” pode assumir um papel determinante na definição profunda da natureza de um filme. Vencedor, no ano anterior, do primeiro Oscar para uma BSO maioritariamente executada em sintetizadores (Chariots of Fire), seria Vangelis o autor da partitura – a ilustração de uma densa e húmida atmosfera de pesadelo urbano neo-noir, feita de despojos do romantismo, farrapos de jazz e electrónica ambiental – que vivia tanto da música como convencionalmente a entendemos quanto da constante polifonia de computadores, néons, zumbidos de electricidade estática e de todo o tipo de ruídos de uma metrópole sci-fi pós-apocalíptica, tal como Philip K. Dick e Scott imaginaram que ela seria em 2019. 


Em Blade Runner 2049, Dennis Villeneuve, Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, não fizeram tábua rasa do riquíssimo legado do capítulo inicial mas – ainda que de modo imperfeito – amplificaram-no desmedidamente: K, aliás, Joe K (um Josef K desqualificado?), deambula por um mundo de (raras) árvores petrificadas, de desertos calcinados côr de fogo habitados pelos destroços das estátuas do “Ozymandias”, de Shelley, durante um teste psicológico recita um poema extraído de Pale Fire, de Nabokov, voluntariamente ou não invoca e materializa os espectros de Marilyn Monroe, Elvis Presley e Frank Sinatra (que, em "One For My Baby", lhe canta “Set 'em' up Joe, I got a little story I think you oughtta know”), e, quando activa Joi, a namorada virtual, faz soar os dois primeiros compassos de Pedro e o Lobo, de Prokofiev. Mesmo quando não é inteiramente aparente, já há aqui muita música. Mas Zimmer e Wallfisch, ultrapassando a sua condição de pistoleiros a soldo da indústria dos "blockbusters" – assim acontecera também com o Vangelis pomposamente "new age" –, oferecem-lhe uma moldura sonora implacável, sinistra e descarnada, um uivo mecanicamente sufocado, qual requiem agreste, por vezes quase ligetiano, por uma civilização dizimada e já incapaz de identificar a linha que distingue o humano do não humano.

14 August 2011

(O ANO A SEGUIR AO) ANO DO TIGRE (LVII)

Fotos de gente praticamente anónima (e que não foi
fácil identificar) autopromovendo-se na companhia
de esplendorosos tigres























Marilyn Monroe























Marianne Faithfull






















Gloria Grahame























Isabelle Huppert























Joan Baez

(2011)

03 May 2010

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO (XVI)
(join the dots)


Mão Morta - Pesadelo Em Peluche
 
Mão Morta - Mão Morta (1988-1992)

Segundo o dicionário “Collins”, “Ballardian” é um adjectivo aplicável às circunstâncias descritas nos livros de J. G. Ballard, em especial, a modernidade distópica e os efeitos psicológicos do desenvolvimento tecnológico. A ele, porém, muito mais do que um adjectivo, devemos uma obra literária situada entre a escrita experimental, a antecipação do cyberpunk e a autobiografia, num registo que Martin Amis descreveu como o “que se dirige a uma zona diferente – e pouco utilizada – do cérebro do leitor”. Atrocity Exhibition (1970) foi um momento de viragem: constituído por um conjunto de “condensed novels” (com prefácio de William Burroughs) ordenadas arbitrariamente, era como que um viveiro de muito do que viria a seguir, do esboço de Crash – livro e filme – aos espectros de Marilyn e dos Kennedy (à deriva pelo labirinto mental/espelho distorcido dos media do protagonista) ou ao quase ensaio clínico “Why I Want To Fuck Ronald Reagan” (que, em 1980, seria distribuído por activistas situacionistas na Convenção Republicana de Detroit). Ignorando questões de precedência cronológica (o que, no universo ballardiano também é moeda corrente), é difícil decidir se foi Ballard que nasceu para se cruzar com os Mão Morta ou o inverso. Escutada a caixa que reúne os quatro primeiros álbuns do grupo e o exercício de contenção e diversificação estilística pop em fundo de neurose que é o novo Pesadelo Em Peluche, de uma coisa não restam dúvidas: mesmo antes de o saberem, os Mão Morta eram já ballardianos. Trabalhar à transparência sobre Atrocity Exhibition só lhes apurou os reflexos.

(2010)

09 March 2009

NA ETERNA BUSCA DO RACCORD PERFEITO,
ESTA HISTÓRIA ALINHA-SE MUITO BEM AQUI



Captain Manuel Zora

"Marilyn nunca veio a Olhão. A actriz que Billy Wilder foi dos poucos a levar a sério ― garantindo, a contracorrente, que ela não precisava de lições de representação, apenas de se inscrever no colégio suíço Ómega, «onde dão cursos de pontualidade superior» ― ainda não era nascida quando Manuel Zorra ― Captain ou Manny Zora nos States ― troca as águas do Algarve pelas margens do rio Hudson. Era a segunda fuga". (continua aqui e conclui ali)

(2009)

25 September 2008

O FIM DO IMPÉRIO



Randy Newman - Harps & Angels

No princípio, era o tio Alfred: 45 nomeações para o Oscar de melhor banda sonora (segundo mais nomeado de sempre) e 9 troféus da Academia no currículo. Havia também o tio Lionel, director musical de todos os filmes de Marilyn Monroe para a Fox, 11 nomeações e um Oscar para Hello Dolly. Embora de menor fulgor, não esqueçamos o tio Emil, diligente trabalhador musical em mais de 200 filmes e programas de televisão e uma nomeação para Oscar. Descendo na árvore genealógica, refiram-se os primos Thomas Montgomery Newman (8 nomeações) e David Newman (uma nomeação) e o sobrinho Joey (música para cinema, televisão e videojogos). Não será ainda uma dinastia como a dos Bach mas a família Newman para lá caminha. Pelo que não é de admirar que, com tal linhagem, Randy Newman, para além de um indiscutível clássico da canção popular norte-americana (e, claro, da “film music”: 15 nomeações e um Oscar), seja, acima de tudo, um classicista. Parcimonioso na publicação da obra – 10 álbuns de originais em 40 anos de carreira –, decantador dos licores das mais nobres castas (do vaudeville ao jazz de New Orleans, da pop-Tin Pan Alley a Weill ou Cole Porter), desde Bad Love (1999) que não lhe púnhamos os ouvidos em cima (descontando The Randy Newman Songbook Vol. 1, de 2003, regravação de temas anteriormente editados).



Harps & Angels – pouco mais de 35 minutos e dez novas canções – é, porém, prova mais do que suficiente de que ainda há-de vir longe o tempo em que Randy Newman despirá aquela sua pele de “songwriter” que abriga no mesmo corpo o avô rabujento, o filósofo da escola de pensamento “yellow cab” e o requintado estilista musical. No caso, com as garras particularmente afiadas e o sarcasmo a ferver: “A Few Words In Defence Of Our Country” começa por declarar que “the leaders we have, while they’re the worst that we’ve had, are hardly the worst this poor world has seen” estabelecendo, então a cruel comparação com Calígula, Hitler, Estaline e a Santíssima Inquisição e concluindo com a profecia “the end of an empire is messy at best, and this empire is ending like all the rest, like the Spanish Armada adrift on the sea, we’re adrift in the land of the brave and the home of the free”; “Korean Parents” apela à importação de pais/educadores coreanos para meter os indisciplinados fedelhos americanos na ordem; “A Piece Of The Pie” fustiga o desgoverno social (“living in the richest country in the world, wouldn’t you think you’d have a better life?”) e dispara alfinetadas na direcção da "santidade" de Bono e Jackson Browne, e, com essas e as restantes (acompanhado por notabilidades como Mitchell Froom, Greg Cohen ou Pete Thomas), coloca-nos nas mãos mais outro precioso “songbook”.

(2008)

01 June 2008

SEX KITTENS, VESTIDOS E FLUÍDOS ORGÂNICOS



Vários - Divas/Exotica

Ao contrário do que possa pensar-se, a história dos vestidos com manchas incriminadoras de fluídos orgânicos masculinos não começou com Bill Clinton e Monica Lewinsky. Mamie Van Doren (a única sobrevivente das famosas três "M" de Hollywood, juntamente com Monroe e Mansfield), por exemplo, garante que, na realidade, Rock Hudson não era irredutivelmente gay mas sim bissexual e que possui um vestido com as nódoas apropriadas capazes de o provar. Para além disso, a "first sex kitten in cyberspace" de quem se dizia que "a terceira coisa em que nela se reparava era o facto de não saber, de todo, cantar" não se incomodava nada com a má língua e cantava mesmo, como se comprova em Divas/Exotica, uma extensão da colecção Ultra Lounge que reune um conjunto de dezoito sereias cantoras do cinema e da música, dedicada a uma missão: "corrigir todos aqueles que pensam que já ouviram tudo". É nessa exacta medida que este álbum se assume como "um antídoto contra o grunge de quatro acordes e o drum'n'bass de um só acorde. Aqui se encontram dezoito mulheres com idade para serem vossas avós e com uma única ideia na cabeça. Aqui se descobrem algumas melodias que nunca imaginámos que regressassem e outras que nunca desapareceram. Umas já eram autenticamente estranhas quando apareceram, outras foram justamente celebradas como clássicos. Outras ainda, exploravam um mundo crepuscular à maneira de Ed Wood onde um certo entusiasmo tonto vencia o mau gosto e uma devastadora ausência de talento".



Colocada a questão de outra maneira, não há nenhuma razão plausível para que quem viaja até ao sétimo céu na companhia dos Pizzicato Five não seja capaz de se fazer transportar até ao mesmo lugar pela mão destas divas. Elas podem ser bastante entradotas (ou nem sequer já serem vivas) mas, acreditem, não foram sempre assim. E, quando gravaram estas canções, estavam ainda suficientemente capazes de ensinar meia dúzia de coisas a todas as Madonnas e Sharon Stones deste mundo. Ann Margret — a loiríssima sueca que contracenou com Elvis Presley — era uma deusa, para a mais "antiga" Marlene Dietrich gravar um quase-rock como "Near You" equivalia a uma heresia, "Teach Me Tiger", de April Stevens, era uma condenação às eternas labaredas do inferno e "That Makes It", de Jayne Mansfield, "Let's Misbehave", de Eartha Kitt (segundo Cole Porter), "Heatwave", de Marilyn Monroe ou "Go, Go, Calypso" de Mamie Van Doren tinham o que bastava para convocar uma reunião de urgência do Comité Central da Santíssima Inquisição de todas as épocas.



Claro que a passagem do tempo atenua (e até valoriza) os tais "mau gosto e devastadora ausência de talento" mas, nesta compilação, se, de um lado, há as puríssimas transgressões de Brigitte Bardot ("Je me donne a qui me plait ça n'est jamais le même mec"), a saborosa frivolidade de Sophia Loren em "Zoo Be Zoo Be Zoo", a "gaieté" parisiense de Josephine Baker de "Don't Touch My Tomatoes" ou a gloriosa descerebração luso-tropical de Carmen Miranda em "Mamã Eu Quero", por outro lado, também existem outras coisas um bocadinho mais sérias (mas que não estragam o bom ambiente geral) como "Do Your Duty", de Billie Holiday, o magnífico "Forbidden Fruit", de Nina Simone, "Jezebel", de Edith Piaf, a acetinada sofisticação de Astrud Gilberto em "So Nice", o bondiano "Goldfinger" de Shirley Bassey, o exotismo "over the top" e supostamente étnico da voz de múltiplas oitavas de Yma Sumac ou o outro calypso ("Since Me Man Has Done Gone And Went") de Maya Angelou, poetisa, historiadora, actriz, escritora, dramaturga, activista dos Direitos Civis, nomeada para o prémio Pulitzer e — lá vamos nós outa vez... — devota de Bill Clinton, para além de bailarina sensual e competentíssima cantora de calypsos.



(1999)

21 May 2008

AS MANGAS E OS BOTÕES



Scarlett Johansson - Anywhere I Lay My Head

Com ele, nunca há garantia de se tratar da verdade ou apenas de mais uma efabulação. Mas, quando a “Pitchfork” perguntou a Tom Waits se tinha conhecimento de que Scarlett Johansson estava a gravar um álbum com versões de canções dele, a resposta foi “Sim, soube disso pelos jornais”. Sem qualquer irritação, no entanto. Bem pelo contrário, acrescentava mesmo um “more power to her” e explicava que “se escrevemos canções é para serem escutadas e reinterpretadas. É um sinal de que não são assim uma coisa tão pessoal que outros não possam abordar. Não faço ideia do que ela irá fazer, mas, se pegamos nas canções de outra pessoa, é para as fazermos nossas, não há outra solução. E isso, habitualmente, exige uma certa arte de alfaiataria: corta-se umas mangas, cose-se uns botões... cria-se sempre algo de diferente, é a tradição”. Até agora, não se conhece outra reacção de Waits a Anywhere I Lay My Head. Mas do que não pode haver dúvidas é que Scarlett Johansson e o produtor David Sitek (dos TV On The Radio) não hesitaram em usar e abusar da tesoura, da linha e das agulhas: quem apenas conheça de passagem a discografia de Tom Waits, sem esclarecimento prévio, dificilmente reconheceria nestas dez canções (mais um original – “Song For Jo” – de Johansson/Sitek) a assinatura dele. Aparentemente, o objectivo foi exactamente esse: pôr de lado o “respeitinho” e lidar sem grandes cerimónias com o reportório do mestre.


(experiência prévia)

Arredemos nós também o preconceito relativamente aos actores-que-se-lhes-meteu-na-cabeça-cantar. Desde Marlene Dietrich a Marilyn Monroe, Johnny Depp ou Nico (sim, ela era uma “singing-actress”), a questão nunca foi a de ousar pisar outro território que não “o seu” mas sim a de saber se havia perna suficiente para arriscar tal passo. Nos sítios da Net onde se discutem os temas reais que podem fazer vacilar o movimento da terra em torno do seu eixo imaginário, parece assente que Johansson mede pouco mais que um metro e cinquenta e cinco. Perna curta, portanto. Pelo que, sensatamente, Sitek optou por lhe utilizar o timbre de contralto exclusivamente como mais uma tonalidade da paleta – em dois temas, a voz de David Bowie é ainda outra – com que pinta um bizarro fresco algures entre os Cocteau Twins, Sinead O’Connor, Phil Spector, Debbie Harry a bordo dos My Bloody Valentine, ou Nico (lá está...) em part-time com os Mercury Rev. Quando falham – “I Don’t Wanna Grow Up”, por exemplo –, estatelam-se mas, nos momentos em que o alinhamento planetário é mais propício (“Fannin’ Street”, “Town With No Cheer”, “Green Grass”, “I Wish I Was In New Orleans”, “No One Knows I’m Gone”), a experiência chega a ser intrigantemente sedutora.



(2008)