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20 December 2009

LONGE DO DITO E NÃO DITO



Amélia Muge - Uma Autora: 202 Canções

Não é “best of”. Não é “ao vivo”. Não é “unplugged”. Não é “compilação” embrulhada à pressa, a pôr-se a jeito para as oferendas rituais, por ocasião do aniversário de Osíris, Mithra, Diónisos e do tardio Jeshua. Nas palavras da própria Amélia Muge, trata-se, sim, da escolha de “um sortido em carteira”, de onde “se vão retirando estas e não aquelas, consoante os locais de concerto, o número de músicos, os convidados, os espaços e os tempos disponíveis”. O ovo de Colombo conceptual começou a ser chocado há dois anos, e foi planeado para eclodir durante o concerto que se realizou em Dezembro de 2008, no Centro Cultural de Belém: o título (do álbum e do concerto), Uma Autora: 202 Canções, referia-se ao número de obras de Amélia registadas, até àquela data, na Sociedade Portuguesa de Autores e, evidentemente, não a nenhuma performance na modalidade maratona-de-palco. O resultado, porém, foi uma proliferação de (em quase todos os casos) radicalmente novas releituras de canções criadas para os álbuns anteriores, de recuperações de temas escritos para outros intérpretes como Camané, Mafalda Arnauth, Mísia, Mariana Abrunheiro e Ana Moura, e três inéditos que, por arrasto, se deixaram incluir facilmente incluir no cânone. E tão fértil o formato se revelou que “tomou forma de chão por onde se pode ir caminhando, paralelamente a outros novos e futuros trabalhos que possam aparecer”.



Caminhando, então, para onde? Se Bob Dylan nos avisou I’m Not There, Amélia quase lhe fez eco declarando Não Sou Daqui. E, agora, muito mais ainda se desterritorializa, retirando, uma a uma, as pedrinhas que deveriam marcar o caminho, na canção de despedida ("Hora de Ir Embora"): “Toca a andar que está na hora, isto é um aviso d’alerta! Já há caminhos no céu e nebulosas na terra, toca a andar p’ra bem longe, longe da paz e da guerra, longe do dito e não dito, do que se está mesmo a ver, da regra das audiências, do quem havia de dizer”. E a geografia vai pegando fogo (“Longe da bolsa em Berlim, das quedas em Nova Iorque, dos diários de Luanda e dos jogos em Banguecoque, do canivete suíço, do chá das 5 da tarde, das rendas todas de Flandres e do petróleo que em nós arde, dos terramotos na Índia, do pechisbeque chinês, do ouro branco do Chade, do destino português”), latitudes e longitudes incineradas, uma a uma, em dolorosamente irónico ternário. As restantes treze – embaladas em formato-livro bilingue de 68 páginas, com ilustrações/fotos de Amélia Muge e textos –, por entre fumos mais ou menos jazzy, impressionismos harmónicos de aquário, pegadas de Robert Wyatt e Laurie Anderson, acordeões, violoncelos, Áfricas imaginárias, sopros, piano e braguesa, seguem-lhe o (des)caminho, errando, magnificamente, por aí.

(2009)

10 November 2008

PIMBA CHIQUE

 

Madredeus & A Banda Cósmica - Metafonia

Quando Pedro Ayres de Magalhães inventou os Madredeus, os ingredientes conceptuais incluíam uma certa visão diluída de meia dúzia de estereótipos da “portugalidade” que costumam figurar nos folhetos turísticos (a melancolia indígena, a inevitável “saudade”, as sofridas mulheres de negro, o tremendo e épico mar e uma pitada de “folclorismo” urbano/rural sobre o pano de fundo de um “ersatz” do fado), concentravam-se num formato de ensemble acústico e, essencialmente, na voz de Teresa Salgueiro. Dando de barato que, de tal esquematismo concebido a régua e esquadro, dificilmente poderia resultar algo musicalmente muito interessante, é forçoso reconhecer que o que essa fórmula tinha para dar se esgotou nos dois primeiros álbuns, Os Dias da Madredeus (1987) e Existir (1990): cançonetas ligeiras e ingenuamente melodiosas, uma visão de Portugal retirada dos antigos livros da instrução primária e uma banda sonora que não incomodava nem os jantares pequeno-burgueses nem as recepções das embaixadas. O potencial “de mercado” era evidente, tanto entre fronteiras como, bem mais importante, “lá fora”. E o potencial concretizou-se e ampliou-se, mesmo que as publicações seguintes fossem já só uma penosa repetição da receita, esticada até às margens da “new age” menos potável. Com o abandono final de Teresa Salgueiro (restando, da formação original, apenas Pedro Ayres), a opção por uma dupla de cantoras e a inclusão de bateria, guitarra eléctrica, harpa e violino, o “produto Madredeus” afocinhou em plena indigência pimba-chique: a música é massacrantemente rudimentar (o que a longa duração da maioria das faixas ainda evidencia mais), os textos, confrangedores, dir-se-iam escritos por pré-adolescentes fraquinhos a Português (só dois exemplos: “Pedi uma muamba e já vou na segunda, se voltar a Luanda também tomo mais uma” e “Vozes em comoção, terra que não se faz, vozes que não se dão, não atingem a paz, tratam-se mal e sem razão, tornam mortal a situação”) e a Mariana Abrunheiro – uma belíssima intérprete que não merecia que lhe fizessem isto – e Rita Damásio pede-se apenas que mimetizem Teresa Salgueiro. O nadir absoluto.

(2008)