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12 January 2021

(a propósito deste post)


"Começam a revoltar-se contra o desprezo a que os lançaram. É ler as cartas dos soldados [do Corpo Expedicionário Português na Primeira Guerra Mundial], de onde transborda um fel de desespero. Outros, então, resvalando do desespero à melancolia e daí à indiferença apática, emparveceram. (...) Pálidos, magros, extenuados, os pulmôes roídos pelos gases, os pés triturados das marchas, sem esperança nem apoio moral, arrastam-se sob o imenso fogo que tomba do cèu, por essas estradas, como uma legião miserável de abandonados" (Jaime Cortesão, citado por Maria Filomena Mónica em O Meu País - Notas sobre Nacionalismo; ver também aqui, aqui, aqui, aqui e aqui)

26 May 2020


"(Charles François) Dumouriez é particularmente severo com o clero, não só por o julgar demasiado numeroso, como por ter demasiado poder: 'Num reino que apenas contém 2 milhões de almas, o número de monges, padres e freiras ultrapassa os 200 mil'. Além disso: 'Os frades acostumaram-se a viver na mais desenfreada libertinagem e, até ao dia de hoje, as freiras nada mais são do que cortesãs enclausuradas'. (...) Num dia a seguir a uma grande tempestade, relata o que lhe teria dito 'Milord Tirawley' sobre Portugal: 'O que fazer com uma nação cuja metade acredita no Messias e a outra no rei D. Sebastião?'" (Maria Filomena Mónica - O Olhar do Outro/ Estrangeiros em Portugal: Do Século XVIII Ao Século XX)

15 June 2019

 Um desígnio nacional?

"Dir-me-ão que eu sou absurdo, ao ponto de querer que haja um Dante em cada paróquia e de exigir que os Voltaires nasçam com a profusão dos tortulhos. Bom Deus, não! Eu não reclamo que o país escreva livros, ou que faça arte: contentar-me-ia que lesse os livros que já estão escritos e que se interessasse pelas artes que já estão criadas" (Eça de Queiroz, sobre o 10 de Junho original de 1880, citado por Maria Filomena Mónica em Os fiéis inimigos: Eça de Queirós e Pinheiro Chagas, pag. 11)

04 July 2017

COM HISTÓRIA DENTRO 


Em Vidas: Biografias, Perfis e Encontros, Maria Filomena Mónica conta como Cavaco Silva, tendo escolhido para o seu doutoramento, em 1971, a universidade de York (“uma instituição que, por ser recente, não tinha prestígio, mas que lhe pareceu adequada aos seus fins”), os dois anos e meio que ali viveu foram, para ele, pouco marcantes: “devido ao seu feitio retraído, os acontecimentos políticos e sociais” ter-lhe-ão irremediavelmente escapado. Nomeadamente, não terá reparado na “dureza do conflito entre os mineiros e o governo” – que acabaria por derrubar o gabinete conservador de Ted Heath –, preferindo recordar “o estoicismo com que a sua família encarou a falta de aquecimento durante o gélido Inverno de 1973”. Entre várias outras coisas, sgnifica isto que o ex-presidente dificilmente compreenderia um álbum como Every Valley, concebido como “uma história do declínio industrial, centrada nas minas de carvão do Reino Unido e do sul de Gales. (...) Uma história de que resultaram comunidades abandonadas e desprezadas e que conduziu ao ressurgimento de um tipo de políticas fundamentalmente malignas, cínicas e calculistas”

(words)

Quem o assina e assim o descreve são os Public Service Broadcasting, trio constituído por J. Willgoose, Esq. (guitarra e electrónicas), Wrigglesworth (bateria e teclados) e JF Abraham (baixo e fliscorne) que, nos dois álbuns anteriores – Inform - Educate – Entertain (2012) e The Race for Space (2015) – aperfeiçoou um modus operandi muito próprio de criar música com histórias (e História) dentro: construir – chamemos-lhes ainda assim – canções em torno de "samples" de documentários do British Film Institute, de arquivos de rádio e de programas informativos e educacionais, instalando memórias do passado numa rampa de lançamento para o futuro. Every Valley é, até, agora, o ponto culminante desse método: chamando a participar James Dean Bradfield (Manic Street Preachers), Traceyanne Campbell (Camera Obscura), as Haiku Salut, antigos mineiros e corais masculinos galeses, o fio da história que se desenrola sobre um tapete sonoro ora vibrantemente orquestral, ora kraftwerkiano, ora post-rock, obriga-nos a não ignorar “o orgulho, a raiva, a força e a derradeira derrota (...) do país de Gales das minas de carvão, do seu declínio e reestruturação. Ou, se não alinharem com o modelo thatcheriano, da sua destruição”.

30 January 2017

Organismo potencialmente em colapso me confesso

"No Ocidente, as leis foram evoluindo com base na tradição judaico-cristã. Deste ponto de vista, o corpo é o invólucro da alma, o que o tornaria sagrado. Segundo esta concepção, tudo o que acontece aos doentes terminais faria assim parte do desígnio divino. Por outro lado, na versão científica, a morte é algo que acontece a qualquer organismo quando o sistema entra em colapso. Sob este prisma, a morte de um homem é um acontecimento biológico que, na sua essência, não é diferente da de um gato, de um peixe ou de um eucalipto" (MFM)

08 January 2016

O que é particularmente terrível em análises deste género é não compreenderem como a peçonha que corrói por dentro o ME só pelo lado sindical é atribuível ao PCP; todo o resto - avidamente consumido, da direita à esquerda, sem grandes nuances - nasceu do prolífero ovo da serpente chocado por Roberto Carneiro, ministro de Cavaco Silva de 1987 a 1991, também teórico e prático das Novas Oportunidades. Antes de ser ministro, Nuno Crato sabia-o e dizia-o. Depois, esqueceu-se. É por isso que não merece perdão.

27 October 2014

"Há alguém particularmente incompetente, parecido com o Crato? Não há. Houve ministros bastante maus, mas eram relativamente cultos, tinham feito a Universidade de Coimbra, tinham tarimba nas Humanidades. Crato não fez. Saber o grego, o latim, a história clássica, é muito bom para um político, dá-lhe um peso e uma gravitas que os ministros não têm, por isso chegam ao poder e não sabem o que hão-de fazer. As Humanidades em Portugal estão pelas ruas da amargura. Nuno Crato tem algumas semelhanças com o alto funcionário do Ministério da Educação, Sousa Neto, uma figura que aparece em 'Os Maias', de Eça de Queirós. Só diz disparates"

"Passos Coelho é desinteressante. Mais uma vez falta-lhe cultura humanística. Para não falar no Sócrates, que nem licenciado é, pretende ser engenheiro. José Sócrates é uma espécie de Dâmaso Salcede, cuja única preocupação na vida é ser 'chic a valer', imitando tudo o que se faz em Paris. Passos Coelho, um fruto das juventudes partidárias, é um produto inexistente no século XIX"

"Enquanto eu não tiver um deputado que vá chatear todos os dias, porque tenho uma enorme capacidade de maçar as pessoas, voto em branco. Eu sei que é ridículo votar em branco, mas não tenho outra maneira de protestar" * (MFM)


* ter, até tem...

20 March 2014

"'Foram eles [todos os ministros da educação que se sucederam na pasta depois de 1974], e não os professores, que não souberam enfrentar o problema da massificação da escola; foram eles, e não os professores, quem elaborou os programas; e foram eles, e não os professores, quem levou as classes médias a retirarem os filhos do ensino público. (...) O que está a acontecer com a escola de massas é a proletarização da profissão docente e uma tentativa, caída de cima, de robotizar a profissão, com os professores a tentarem sobreviver, ignorando sempre que podem, e podem pouco, os disparates que caem de paraquedas, directamente do ministério'. Por acreditar que os professores precisam de se sentir acarinhados 'quer pelo poder quer pela sociedade', [Maria Filomena Mónica] considera que o melhor que Nuno Crato podia fazer pela escola pública era deixar os professores em paz. 'Deixá-los preparar lições, dar aulas e corrigir os exames dos alunos, em vez de os pôr a preencher relatórios que não servem para nada'". (MFM)

18 January 2014

"[Em França] foi decidido perguntar ao povo, via net, quais as mulheres que gostaria de ver 'panteonizadas'. Por mim, não tenho dúvidas. São elas três: Ségolène Royal, Valérie Trierweiler e Julie Gayet. O facto de terem suportado na cama um homem com cara de periquito faz delas umas heroínas". (Maria Filomena Mónica, "Expresso")

29 April 2012

FOOD FOR THOUGHT (VIII)



"Não sei quem são aquelas pessoas no parlamento, não votei nelas. Deixei de votar no PS, porque prometeram fazer a reforma eleitoral e não fizeram. De resto, o PSD também prometeu. E lá vêm aquelas listas cozinhadas pelo secretário-geral, com os nomes dos servos mais obedientes da corte partidária" 

"A evolução cultural leva tempo, é obra de duas ou três gerações. Falhámos a escola pública, que tem um papel fundamental, e isto afecta muito profundamente o país. Os meus filhos andavam numa escola pública, é através da escola pública que as gerações se podem tornar mais cultas, porque infelizmente os pais e avós não lhes podem dar o Verdi, não lhes podem explicar o que é a Traviata (...). Há uma responsabilidade política do Ministério da Educação. Sou relativamente crítica da ideia de que o Estado inunde a cultura de dinheiro. A excelência na arte é consagrada pela posteridade. Se o Estado der uma bolsa de estudo a um arquitecto para ser bom arquitecto, isto não funciona. O que tem de funcionar é a escola. Que tenham todos aulas de música, aulas de teatro, isto é uma mudança que compete ao Ministério da Educação" 

"O sistema de ensino deixou-se contagiar por uma ideologia pseudo-esquerdista que tentou fazer iguais todos os alunos, mas por baixo. A exigência não foi valorizada. Em 1974, a revolução apanhou-me a meio do doutoramento e pedi para ficar cá mais um ano, para poder participar. E estive a dar aulas, mas dois meses depois já não aguentava os alunos. Os estudantes diziam que não queriam notas, que eles é que faziam os curricula e que eu não mandava em ninguém. Respondi: 'Óptimo, vou-me embora'. E não é só culpa da esquerda, pois a direita está penetrada das mesmas utopias pseudo-igualitárias. Ministros como o Marçal Grilo ou o Roberto Carneiro, em vez de terem uma ideologia própria, reflectem este banho cultural que considera que aos alunos, coitadinhos, não se lhes pode dar más notas, pois ficam com auto-estima negativa. Devemos dar aos filhos dos pobres as mesmas oportunidades que aos filhos dos ricos e não baixar os níveis de exigência para que toda a gente passe, como durante anos aconteceu" 

"O PS não existe, nem sei o que é aquilo. O líder não tem carisma, não sabe o que há-de fazer, está condicionado pelo acordo com a troika. E sucede a um delinquente político chamado Sócrates, o pior exemplo que jamais, na História de Portugal, foi dado ao país: ir para Paris tirar um curso de “sciences po”, depois daquela malograda licenciatura – à qual não dou a menor importância, pois há muitos excelentes políticos que não são licenciados. O engenheiro Sócrates foi o pior que a política pode produzir. Depois de tantos processos em que mentiu, aldrabou, não depôs, ninguém percebeu o que se passou com o Freeport, os portugueses perguntam-se onde foi ele buscar dinheiro para estar em Paris. Quem é que lhe paga as despesas e o curso? A esquerda socialista tem ali este belo exemplar a viver no 16ème, e um sucessor que não inspira ninguém. O PCP vive num mundo antes da queda do Muro de Berlim, e o Bloco de Esquerda habita em Marte" (entrevista integral aqui)

27 October 2010

RECORDAR É VIVER (XII)

Cavaco Silva (da série "grandes vultos nacionais" - VIII)


A malandragem que ia matando de frio o pobre dr. Cavaco

[Cavaco Silva, para se doutorar em Inglaterra, em 1971] Escolheu a universidade de York, uma instituição que, por ser recente, não tinha prestígio, mas que lhe pareceu adequada aos seus fins. Os dois anos e meio que ali passou foram pouco marcantes, não só porque, casado e com filhos, não teve oportunidade de fazer parte da vida académica comunitária, mas por, devido ao seu feitio retraído, os acontecimentos políticos e sociais lhe terem escapado. Apesar de tudo, notou que havia diferenças entre a democracia inglesa e o regime sob o qual nascera, desde logo por o primeiro autorizar greves, coisa a que nunca tinha assistido. Curiosamente, o que guardou na memória não foi a dureza do conflito entre os mineiros e o governo, mas o estoicismo com que a sua família encarou a falta de aquecimento durante o gélido Inverno de 1973. No mês de Fevereiro seguinte, Ted Heath caía. Nas eleições subsequentes, o que mais o impressionou foi o magnífico bufete servido durante uma election party". (Maria Filomena Mónica, Vidas/Biografias, Perfis e Encontros)

Banda sonora sugerida: "The Testimony Of Patience Kershaw"

(2010)

14 May 2010

GRANDES VULTOS NACIONAIS (VIII)

Cavaco Silva


A malandragem que ia matando de frio o pobre dr. Cavaco

[Cavaco Silva, para se doutorar em Inglaterra, em 1971] Escolheu a universidade de York, uma instituição que, por ser recente, não tinha prestígio, mas que lhe pareceu adequada aos seus fins. Os dois anos e meio que ali passou foram pouco marcantes, não só porque, casado e com filhos, não teve oportunidade de fazer parte da vida académica comunitária, mas por, devido ao seu feitio retraído, os acontecimentos políticos e sociais lhe terem escapado. Apesar de tudo, notou que havia diferenças entre a democracia inglesa e o regime sob o qual nascera, desde logo por o primeiro autorizar greves, coisa a que nunca tinha assistido. Curiosamente, o que guardou na memória não foi a dureza do conflito entre os mineiros e o governo, mas o estoicismo com que a sua família encarou a falta de aquecimento durante o gélido Inverno de 1973. No mês de Fevereiro seguinte, Ted Heath caía. Nas eleições subsequentes, o que mais o impressionou foi o magnífico bufete servido durante uma election party". (Maria Filomena Mónica, Vidas: Biografias, Perfis e Encontros)

Banda sonora sugerida: "The Testimony Of Patience Kershaw"

(2010)

07 July 2009

ESTA GENTE, REALMENTE, NÃO SE ENXERGA


"Secretário de Estado da Educação [Valter Lemos] diz que a visão de que os exames nacionais são fáceis provocou 'efeitos prejudiciais' nos alunos, numa crítica à Sociedade Portuguesa de Matemática e aos partidos da oposição. 'O facto de se anunciar a facilidade do exame [de Matemática A] só pode ter efeitos prejudiciais sobre os alunos. É um desincentivo ao estudo e ao trabalho. Foram considerações baseadas em preconceitos e em acções políticas que não têm nada a ver com os exames', considerou Valter Lemos, admitindo estar a referir-se à Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) e aos 'partidos e pessoas com responsabilidades políticas'. O governante falava em conferência de imprensa, em Lisboa, para divulgar as notas da primeira fase dos exames nacionais do ensino secundário. A Matemática A registou uma descida de 12,5 valores para os 10 valores e uma duplicação da taxa de reprovação: 15 por cento, contra os sete por cento registados em 2008" (apesar de permanecerem dentro do "intervalo aceitável"). (aqui)

Tradução: elaboram provas vergonhosamente fáceis, os resultados, mesmo assim, descem, logo, os culpados são a SPM e os amaldiçoados "partidos e pessoas com responsabilidades políticas". O que vale é que, para o ano, com os "Magalhães" que não tiverem ido parar à Feira da Ladra já em "full flight", isto vai ser como da noite para o dia...

edit: ah!... e a comunicação social também.


(2009)