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20 April 2017

Ou como (evocando o trafulha do Freud) a literatura lusa continua fixada na fase oral (I)

La Toilette de Venus - William Bouguerau (1873)

Que ninguém ouse duvidar: haverá, inevitavelmente, um AM e um DM (antes das mamas e depois das mamas) na história da literatura portuguesa! Para sempre o deveremos às 33 páginas do enciclopédico ensaio "As mamas na literatura portuguesa", publicado por João Pedro George, no número da Primavera-2017 da revista "Ler". Tão erudita investigação sobre a dimensão eminentemente glandular da escrita dos nossos maiores vultos não poderia aqui passar despercebida. Inicia-se, pois, uma série na qual, por assim dizer, se dará o devido relevo a alguns dos mais saborosos nacos. Da prosa de JPG.

"Quem leu Camões, Eça de Queirós, Mário de Sá-Carneiro, David Mourão-Ferreira, Baptista-Bastos, Maria João Lopo de Carvalho, Nuno Júdice ou Margarida Rebelo Pinto, entre outros, não terá por certo deixado de notar a abundância e variedade de mamas. Os personagens dos romances de Miguel Sousa Tavares, por exemplo, são propensos a ver mamas em toda a parte, vivem dominados pelo desejo de mamas, parecem não ter outra ideia, outro objectivo que não seja a busca de um genuíno par de mamas. (...) A este mesmo grupo pertence o fabuloso criador de O Códex 632, de A Fórmula de Deus e de tantos outros livros em que as descrições das mamas, combinando a sugestão freudiana e o estilo proustiano, são da maior importância para a compreensão e interpretação do pensamento literário de José Rodrigues dos Santos".

07 August 2012

SHE FEELS LOVE IN DIGITAL STEREO


Saint Etienne - Words And Music By Saint Etienne
  
Custa um pouco a acreditar mas, segundo um estudo recente da YouGov – uma empresa "online" de "market research" – a forma mais popular para o público descobrir uma música continua a ser a rádio, o local preferido para se ler críticas de música ainda é a imprensa escrita e o prazer de comprar um disco físico supera o de o descarregar da Internet. Nós podemos duvidar mas os Saint Etienne, não. Simultaneamente, fãs e clássicos académicos pop – Bob Stanley e Pete Wiggs foram jornalistas e críticos de música –, ao oitavo álbum, optaram por tornar absolutamente explícito aquilo que, anteriormente, era apenas o subtexto latente da sua discografia: a pop como guia para a vida e ferramenta para decifrar o mundo.



Exactamente da mesma forma que Rob Fleming (o protagonista de High Fidelity, de Nick Hornby), organizava a sua colecção de discos não alfabeticamente mas autobiograficamente, na capa de Words And Music, exibem o mapa de uma localidade imaginária onde todas as ruas e artérias têm nomes de canções – "Tobacco Road", "Thunder Road", "Penny Lane"... – e todo o disco é uma gigantesca madalena de Proust pronta a fazer disparar os gatilhos da memória. Que a voz de "indie sex-kitten" bem comportada de Sarah Cracknell evoca, sussurrando “I used Top Of The Pops as my world atlas”, “I feel love in digital stereo”, “I was in love, and I knew he loved me because he'd made me a tape" ou defendendo “the strange and important sound of the synthesiser”. Coisa “estranha e importante” que foi sempre a matriz da sua "indie dance music" amável e literata e que, em Words And Music (título esclarecedor sugerido por Lawrence, dos Felt), tem o seu instante de autocelebração, no qual, ao contrário, de Rob Fleming, nunca vacila na sua fé.