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02 July 2023

"John Ashbery Takes A Walk" (feat. Charlotte Gainsbourg)

(sequência daqui) Nos últimos dez anos, porém, na companhia de Carter Logan e do engenheiro de som Shane Stoneback, aliás, o trio Sqürl, experimentaria criar música para The Dead Don't Die e Paterson. Agora que Silver Haze, o primeiro álbum, é publicado, em jeito de manifesto, proclamam: "Sqürl gosta de pintar com guitarras ruidosas e lentas e bateria. Sqürl adora shoegaze, haze-rock, drone metal e trip hop. Sqürl aborrece-se com Auto-Tune". Com Charlotte Gainsbourg, Anika, e Marc Ribot a bordo, invoca a sabedoria dos Navajos ("Quando tecem uma manta que tem um padrão repetido totalmente simétrico, rejeitam.na e dizem que não possui magia. Só se mostrar alguma assimetria, ela poderá surgir") e acrescenta: "Não somos 'mainstream' nem 'underground'. Algures no meio. Mas as coisas verdadeiramente belas crescem nas margens". Sem dúvida.

18 January 2023

LUGAR DE INVENÇÃO
Há dois anos, na qualidade de metade do duo (com Sima Cunningham), Ohmme - hoje, Finom -, Macie Stewart, a propósito da publicação de Fantasize Your Ghost, explicava como um concerto de Marc Ribot no “Constellation”, de Chicago, lhes tinha transformado por completo a forma como encaravam a música: “Não fazia a mais pequena ideia de que podia tocar-se guitarra assim... Foi o clique. Estávamos um bocado nervosas com a ideia mas também sabíamos que tínhamos conhecimentos de música suficientes que nos permitiam lidar com algo que nos era tão estranho e ser capazes de avaliar se o que faríamos valia a pena ou não prestava”. Não poderia ter mais razão: da mui improvável articulação de perfeitíssimas harmonias vocais com fórmulas como “tratar o feedback como um anel de fumo a que damos forma e expandimos” resultaria um dos mais surpreendentes álbuns de 2020. Para Macie, contudo, havia algo que permanecia por explorar: ela, criatura de formação clássica desde os 3 anos, mas também parte activíssima da cena experimental/"improv" de Chicago, próxima de gente como Claire Rousay, Weather Station, Lia Kohl ou Ken Vandermark, reconhecia que, no interior das comunidades musicais, a “polinização cruzada” era indispensável mas que isso a impedira de se conhecer a ela mesma. (daqui; segue para aqui)
 

15 September 2021

Marc Ribot's Ceramic Dog (live on KEXP 2016)
 
(sequência daqui) Agora, com os Ceramic Dog (Ribot, Shahzad Ismaily e Ches Smith), Hope – gravado durante os confinamentos do ano passado como “uma mensagem na garrafa dirigida aos nossos (imaginários) ouvintes igualmente naufragados” – busca um outro território onde os alvos são as frívolas e impotentes personagens do lado supostamente certo da barricada: os “fabulosos” aspirantes a estrelas rock, os guitarristas mais rápidos que a própria sombra, os poetas “iluminados”, os filósofos “pós-modernos”, os “activistas” de todas e nenhuma causa, que, sob o sarcástico fogo eléctrico cerrado dos “Stooges e Sex Pistols da vanguarda novairquina”, um a um, tombam no cenário de canções “muito, muitíssimo mais deprimentes do que as Canções das Crianças Mortas, de Mahler” (Ribot dixit), adequadamente projectadas em registo punk de descarnada costela jazz.

13 September 2021

MENSAGEM NA GARRAFA


Sempre que alguém estéticamente sagaz e pouco apreciador de navegar por mares sobejamente navegados procura um guitarrista que não se limite a picar o ponto, é muito provável que acabe a mexer os cordelinhos necessários para recrutar Marc Ribot. A (imensamente incompleta) lista dos que o fizeram é já extensa e esclarecedora: John Zorn, Tom Waits, Lounge Lizards, Elvis Costello, Marianne Faithfull, Jazz Passengers, Allen Toussaint, T-Bone Burnett, Laurie Anderson, McCoy Tyner, Caetano Veloso, Jamaaladeen Tacuma, David Sylvian, Arto Lindsay... O que não o impediu de, a solo (em nome próprio ou com os Rootless Cosmopolitans e Ceramic Dog), ter registado mais de duas dezenas de álbuns. Há três anos, Songs of Resistance 1942 – 2018 – que, “cinco minutos após a eleição de Trump, decidira ser inevitável gravar” –, manifesto político para o qual convocou Tom Waits, Steve Earle, Meshell Ndegeocello, Fay Victor, Tift Merritt, Sam Amidon, Justin Vivian Bond, Ohene Cornelius, Syd Straw e Domenica Fossati, foi uma das mais soberbas peças de agit-prop de sempre pela qual ficaremos eternamente em dívida ao espantalho laranja. (daqui; segue para aqui)

"B-Flat Ontology"

08 January 2021

SIMPLES/COMPLEXO

 

Pete Seeger, nascido numa família de músicos (...) e desaparecido em 2014 aos 94 anos, foi o santo padroeiro do “folk revival” e da canção de protesto de raiz tradicional norte-americana e, tanto no período da sua militância comunista – entre 1942 e 1950 – como posteriormente, um enérgico activista em defesa do combate ao racismo, a favor do movimento dos Direitos Cívicos, apoiante das lutas sindicais e contra a guerra do Vietname, alvo da perseguição do House Committee on Un-American Activities e do tenebroso senador Joseph McCarthy. (...)

 

Long Time Passing: Kronos Quartet and Friends Celebrate Pete Seeger, estrategicamente publicado pouco antes das presidenciais americanas, trata de desmontar uma afirmação de Seeger – “Qualquer idiota é capaz de criar algo complexo. Para fazer coisas simples, é preciso génio” –, complexificando genialmente a simplicidade folk. (...) "Turn, Turn, Turn", "Where Have All The Flowers Gone" ou "Which Side Are You On?", com os 16 minutos da colagem "Storyteller" (farrapos de radio, passagens instrumentais, gravações de palco) enquanto eixo central, melodias e textos revestem-se de intrincadas harmonias, num digno sucessor de Songs Of Resistance (2018), de Marc Ribot.(daqui)

17 August 2020

O LIMITE


Chicago é o centro do mundo e o Constellation, um clube de música improvisada/experimental, é o centro de Chicago. É, pelo menos, o que dizem Sima Cunningham e Macie Stewart, aliás, Ohmme, autoras de Fantasize Your Ghost, o único álbum de 2020 (até agora) do qual pode verdadeiramente dizer-se não se parecer com nada. Isso mesmo. Meninas de formação clássica, nunca tinham posto as mãos numa guitarra eléctrica mas havia “qualquer coisa no tipo de energia que se consegue extrair da guitarra” que as fascinava: “Não estávamos realmente familiarizadas com o modo como a guitarra funcionava e com o que poderíamos fazer com ela. Mas sentíamos que tinha possibilidades ilimitadas e a ideia de explorarmos isso entusiasmou-nos. Também costumávamos ir ao Constellation e recordo-me especialmente de um concerto do Marc Ribot, um guitarrista espantoso! Não fazia a mais pequena ideia de que podia tocar-se guitarra assim... Foi o clique. Estávamos um bocado nervosas com a ideia mas também sabíamos que tínhamos conhecimentos de música suficientes que nos permitiam lidar com algo que nos era tão estranho e ser capazes de avaliar se o que faríamos valia a pena ou não prestava”, contou Macie à “Indie Midlands”. 

 
Vale muitíssimo a pena. Já era assim no álbum de estreia, Parts (2018) e, agora, Fantasize Your Ghost concretiza soberbamente o plano de entrançar harmonias vocais cirurgicamente precisas com perfeitamente modeladas devastações de turbulência eléctrica e a microexploração de timbres, "trompe l’oeil" rítmicos e resoluções improváveis – totalmente indiferentes à pertença a géneros musicais e muito mais estimuladas por ideias do tipo “tratar o feedback como um anel de fumo a que damos forma e expandimos” ou “a partir da percussão descobrir o caminho que conduz a uma melodia”. Um riquíssimo nó de contradições que, em "The Limit", expõem: “I reached my limit today, I tried to fly too high, can’t stomach the thought of it , although I’ve never tried, I move and move again, you went too slow, you moved a mountain, I tried to go below”.

01 August 2019

ENCORAJAR A RESISTÊNCIA


O programa da participação de Marc Ribot na próxima edição do Jazz em Agosto será centrado em Songs Of Resistance 1942-2018, o magnífico álbum de militância anti-Trump (e anti-direita xenófoba global) que, no ano passado, espicaçado pelo desastre presidencial de 2016, publicou, na companhia de Tom Waits, Steve Earle, Meshell Ndgeocello, Syd Straw, Sam Amidon, Tift Merritt, Cornelius, Fay Victor e Domenica Fossati. O guitarrista favorito da cena "downtown" de Nova Iorque tem um objectivo claro e não poupa as palavras.

    Antes de mais, queria dizer-lhe que, na minha opinião, Songs Of Resistance 1942-2018, tanto do ponto de vista musical como no que respeita à urgência da intervenção política, foi o melhor álbum de 2018.
Muito obrigado, é um enorme elogio.

    A primeira impressão ao escutá-lo foi de que se tratava de uma muito ilustre descendência contemporânea de Liberation Music Orchestra (1970) do Charlie Haden. O que, ao ler o que escreveu no "booklet", acabei por confirmar. Pode dizer-se que um funcionou como "template" para o outro?
Não lhe chamaria exactamente "template" mas é verdade que fui sempre fã da Liberation Orchestra. Tem piada que tenha referido isso porque estou numa digressão com a Diana Krall e o Joe Lovano que tocou com a orquestra do Charlie Haden faz parte da banda. Esse é um assunto acerca do qual conversámos várias vezes. Aliás, num álbum já antigo (Don’t Blame Me, 1995), fiz uma versão de "Song For Che". Tratou-se, na realidade, de sentir a urgência de reagir a uma determinada situação política.

    É interessante porque essa peça do Charlie Haden tem um significado muito especial para os portugueses: quando no primeiro Festival de Jazz de Cascais, em 1971, durante os últimos anos da ditadura, ele – com o quarteto de Ornette Coleman – interpretou "Song For Che", dedicou-a aos movimentos de libertação das colónias portuguesas...
E foi preso, eu sei.

    Como procedeu para realizar a escolha dos temas que iria abordar no álbum, existindo um tão grande arquivo de canções políticas e da luta anti-fascista?
Desde há bastante tempo que vou incluindo no meu reportório canções de resistência ou da luta pelos direitos cívicos nos EUA. Cresci com muitas delas. Mas, para este álbum, orientei-me por duas ideias: uma era que teria de escolher canções que não tivessem apenas uma importância histórica mas que fizessem sentido e fossem relevantes agora. E esse “agora” era o início de 2017, imediatamente após a tomada de posse de Donald Trump como presidente dos EUA. A outra era procurar incluir canções capazes de se dirigirem a um grande número de pessoas, o momento exigia uma política de frente popular contra aquilo que entendi como uma ameaça do ressurgimento de ideias fascistas.

    No "booklet", também afirma que há uma explícita intenção de agit-prop. Sente que têm funcionado como tal?
Não tenho a ilusão de que, pelo facto de alguém escutar estas canções, de súbito, vá pensar que, afinal, votar em Trump não é uma boa ideia. A intenção é, de certo modo, fazer saber a quem se sente desconfortável com a situação política que vivemos que não estão sozinhos, há mais gente que pensa como elas, encorajá-las a agir. Ninguém, na época da luta pelos direitos cívicos, participou no movimento apenas porque ouviu uma dessas canções. Por exemplo, "We Are Soldiers In The Army", que está neste album, era uma canção cantada no exterior das prisões quando alguém era preso, para transmitir coragem e sentir que tinham apoio.

    E uma canção como "Bella Ciao" que o Tom Waits interpreta magnificamente no álbum, proporciona, por outro lado, um alargamento da perspectiva histórica evocando os "partigiani" italianos... 
Queria muito que essa canção fizesse parte do álbum porque é escrita de um ponto de vista muito pessoal de alguém que se junta à resistência anti-fascista, e despede-se da namorada tendo perfeitamente consciência de que poderão não voltar a ver-se. É uma canção política e de resistência mas centrada num momento de intimidade.

    Como é que procedeu relativamente à escolha de quem iria interpretar cada canção?
Para algumas canções, eu já tinha uma ideia assente sobre quem desejava que a interpretasse. Ao Tom Waits, propus uma série de canções mas ele apaixonou-se imediatamente pela “Bella Ciao”.

    Já a conhecia? 
Creio que não. Mas foi imediatamente investigar tudo que podia acerca dela e ouvir as versões originais, tal como fez com as outras.

    Todos aqueles que convidou aceitaram participar ou houve algumas recusas?
Tentei convidar algumas pessoas que, por motivos de calendário ou outros quaisquer, não puderam participar. Quando se procura gravar um álbum colectivo como este, por vezes, umas pessoas estão disponíveis e outras não. Mas toda a gente nos deu um grande apoio e nos encorajou a prosseguir. E cada um dos que participaram teve uma entrega total e incondicional.

    Houve também o caso da intérprete mexicana de "Rata de Dos Patas" cuja identidade, por receio de retaliação política, não pôde ser revelada...
Ela temia que, caso pretendesse actuar nos EUA, a entrada lhe fosse negada. Gostaria imenso de poder dizer que os receios dela não tinham fundamento mas, infelizmente, não posso.

    Com uma tal diversidade de canções e intérpretes, de que forma pensou a unidade estética do álbum?
Bem... digamos que esperei que tudo corresse o melhor possível! O Kamilo Kratc que o misturou fez um trabalho extraordinário, foi tudo concretizado um pouco em cima da hora. Tínhamos feito uma pré-mistura mas foi no desfecho final que tudo encontrou o seu devido lugar e espaço.

    Para além da questão política imediata e concreta, já contou que existem igualmente razõess pessoais e familiares que o motivaram...
Sou judeu e os meus avós do lado do meu pai eram da Polónia e Bielorrúsia. Os do lado da minha mãe eram da actual Ucrânia, relativamente perto de Auschwitz. Praticamente todas as pessoas da família alargada dos meus avós foram exterminadas pelos nazis. Não digo que Trump seja nazi mas todas as pessoas que tenham algum conhecimento da História não podem deixar de ficar bastante nervosas com ele. Aquela combinação de irracionalidade e estupidez é extremamente perigosa.


    Prevê que as próximas eleições possam correr de maneira diferente?
Apoio o candidato escolhido pelos Democratas, qualquer que ele seja. Mais do que isso: irei, voluntariamente, de porta em porta, tentar convencer as pessoas da urgência de nos vermos livres de Trump. Em Nova Iorque, toda a gente irá votar contra ele, por isso, estou disposto a ir até aos lugares onde as pessoas possam ainda estar hesitantes. É o tipo de acção verdadeiramente importante que é indispensável realizar.

    Tem um candidato ou candidata Democrata preferido?
Tenho candidatos que prefiro mas não vou falar acerca disso. Na minha opinião, qualquer um deles é melhor do que Trump. O espírito do álbum é de unidade, uma proposta de frente popular que seja capaz de nos libertar deste tipo de gente que é, realmente, uma ameaça para a democracia. Por isso, tenho os meus favoritos, vou trabalhar com eles e votar neles mas, no final, apoiarei quem for escolhido para enfrentar Trump. Há quem defenda a teoria do quanto pior melhor, isto é, que, quando alguém é realmente tão mau quanto Trump, isso poderá contribuir para acelerar as mudanças sociais. É o género de treta política que me parece demasiado perigoso considerar sequer.

    Nesta digressão europeia, tem actuado em países como a Ucrânia, Polónia, Hungria ou Itália onde existem governos de direita xenófoba particularmente assanhada...
Tenho andado em digressão com a Diana Krall. Toquei em todos esses sítios que referiu mas, tratando-se da música dela que não é abertamente política, não era de esperar reacções particularmente significativas. Mas é verdade que em todos esses países que mencionou, especialmente na Hungria, existem problemas enormes que devemos empenhar-nos em resolver, enquanto for possível, da forma que for possível.

    Gostava que desenvolvesse uma ideia que referiu, aquando da públicação do álbum: como combater o inimigo sem nos transformarmos nele?
(risos) Sim, penso que existe sempre esse perigo. Num poema, o Yeats diz “Too long a sacrifice can make a stone of the heart, o when may it suffice?” Falava da luta dos irlandeses contra o que era a opressão do colonialismo inglês da altura e dirigia-se a uma mulher por quem estava apaixonado e que desejava ver mais dedicada a ele do que à luta política. (risos) Sempre existiram canções de combate por causas justas ou injustas. E são todas muito semelhantes. Mas o que estas canções têm de mais belo é o reconhecimento da fragilidade dos seres humanos, não se satisfazem em gritar “somos fortes, vamos vencer!” Em "We Are Soldiers In The Army", o segundo verso acrescenta logo “we've got to fight although we have to cry”. "Bella Ciao" é também uma canção muito triste: o protagonista imagina a possibilidade de morrer na luta pela liberdade. Uma outra canção (que acabou por não ser incluída no álbum) do movimento pelos direitos cívicos que descobri numa compilação da Folkways, "Kingdom of Heaven", diz “I am a pilgrim of sorrow, walking through this wild world alone, I have no hope for tomorrow but I’m trying to make Heaven my home”. Era cantada para encorajar as pessoas e foi com essa mesma intenção que eu pretendi partilhar estas canções de resistência. Pode parecer um chavão mas, a verdade é que acredito na democracia e na liberdade, o meu coração está com os corajosos estudantes de Hong Kong. Se a música pode contribuir para todos estes combates, é uma coisa boa.

    Já tocou várias vezes em Portugal. Sente alguma especial afinidade pelo país?
Na verdade, a primeira vez que toquei em Portugal foi em 1982, com o Wilson Pickett. Ele perdeu um avião e, por isso, passei três dias em Lisboa. Desde essa altura, Lisboa, em particular, e Portugal, em geral, passaram a ser um dos meus sítios preferidos no planeta. Lisboa é, evidentemente, muito diferente de Nova Iorque mas é "funky" de uma forma que Nova Iorque costumava ser. Por muitas razões históricas, Portugal é completamente distinto da Europa do Norte, racialmente diverso... quando passeio pelas ruas, recordo-me de Nova Iorque. Com a vantagem de aqui poder saborear sardinhas assadas!... (Anfiteatro ao ar livre da Fundação Gulbenkian, qui, 1 Ago / 21:30 – 23:00)

11 June 2019

O ESTADO DA NAÇÃO


Quando, um mês antes das últimas eleições presidenciais norte-americanas, Dave Eggers e Jordan Kurland lançaram o site “30 Days 30 Songs”, o objectivo (como o próprio nome indicava) era apenas, na recta final da campanha, criar um espaço onde, organizadamente, a comunidade musical pudesse dar o empurrãozinho que faltava no sentido de uma “Trump-free America”. Sabemos hoje demasiado bem que os disparos de Aimee Mann, Andrew Bird, R.E.M., Franz Ferdinand, Matt Berninger, Lila Downs, Adia Victoria, Mirah, Ani Di Franco, Bob Mould e vários outros não bastaram para impedir o desastre. Não foi necessário recorrer a poderes sobrenaturais para, logo no balanço de 2016, ter escrito “Talvez não seja motivo para, nos EUA, voltar a cantar-se já, já, ‘Strange Fruit’”, mas, no momento em que o mundo se dava conta de que “um candidato apoiado pelo Ku Klux Klan e pronto a partilhar o saque com um tirânico ex-director do KGB chegara à presidência dos EUA”, tudo fazia “adivinhar o renascimento de uma contracultura de protesto”. Inevitavelmente, durante os dois anos e meio seguintes, à medida que as piores previsões se iam concretizando, sob os mais diversos ângulos, de Fiona Apple a Hurray For The Riff Raff, Gnod, Lee Bains, Randy Newman, Sleaford Mods, Marc Ribot, Poliça, David Byrne, Stick In The Wheel, Anal Trump, Goat Girl, Sunwatchers, Vampire Weekend, Vera Sola, The National, Laurie Anderson, Gruff Rhys, Parquet Courts ou Richard Thompson, a resistência foi-se avolumando. Se “30 Days 30 Songs”, entretanto ampliado para “1000 Days 1000 Songs”, encravou na canção 172 – "My Country ‘Tis of Thy People You’re Dying", de Buffy Sainte-Marie – vale a pena recordar que foi aí que, através de "Despierta" (“Your time is over, your power’s peaked, adiós, senador, I have come to get the keys”), nos apercebemos da existência dos Filthy Friends, a coligação "indie" de Peter Buck (R.E.M.) e Corin Tucker (Sleater-Kinney) que, no Outono de 2017, publicaria o óptimo Invitation.


A atmosfera era, já nessa altura, previsivelmente inquieta mas, acerca do novo Emerald Valley, apenas pode dizer-se que é um discurso sobre o estado da nação em forma de – não se trata de outra coisa – colecção de canções beligerantemente de protesto. “Transformou-se numa espécie de manifesto. Não acredito que tenhamos deixado as coisas chegar a este ponto. Não é fácil compreender aquilo por que estamos a passar. Haverá alguma forma de olharmos para trás sem nos sentirmos envergonhados?” disse Tucker à “Nylon”, acrescentando: “São muito bizarras todas estas personagens que parecem saídas de livros de BD mas que são, afinal, pessoas reais”. Primeiro boneco, então, o vil e facilmente reconhecível "November Man", “Long skinny tie and hair of gold, you made the deal, our future sold (…) you sip White Russians, or a Moscow Mule, the ice in your glass tastes of power to you, but Winter comes to everyone, will yours be bitter, will yours be cold?” a quem, qual PJ Harvey em fúria sobre tornado eléctrico, dirige a dedicatória envenenada: “We don’t have no words, we don’t have no song, we don’t have no music, we don’t have no love, for November Man”. Panfletário e de garras afiadas, sim, mas também rock vibrante e enérgico, Emerald Valley é o lugar onde se apela à insubordinação (“Enough, enough, the people must speak up!”), se denuncia a miserável separação das famílias de imigrantes (“They are torn apart by fools from the arms of mothers, fathers, by some devil making rules") e, de uma ponta a outra, se toma a palavra na “partilha da tristeza, da raiva e do desespero”.

27 December 2018

Marc Ribot - "John Brown" 
(feat. Fay Victor)

MÚSICA 2018 - INTERNACIONAL (VI)

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 32)











* a ordem é razoavelmente arbitrária...

Explícita ou implicitamente, a quase totalidade dos grandes álbuns publicados em 2018 não conseguiu – nem tentou – esquivar-se a ser um reflexo dos tempos de cólera actuais: quer intervindo aberta e militantemente no combate político (caso de Marc Ribot), quer dando testemunho do mal estar e do abalo impossíveis de dissimular (os belíssimos registos de Laurie Anderson, Poliça, Low, Julia Holter, Richard Thompson, e Rolling Blackouts), quer – caso de David Byrne – usando a ironia como bússola para não perder o rumo no meio da tormenta. E isso seria ainda muito mais óbvio se, acrescentássemos o que, olhando à volta sob os mais diversos ângulos, publicaram Stick In The Wheel, Tune-Yards, Gruff Rhys, Laibach, Parquet Courts, Anal Trump, Virginia Wing, Levellers ou Goat Girl: o mundo dos humanos nunca foi um lugar particularmente frequentável mas, raras vezes como hoje, teremos estado tão perto de o tornar literalmente maligno.

28 October 2018

Marc Ribot - "How To Walk In Freedom" (feat. Sam Amidon & Fay Victor)

17 October 2018

08 October 2018

SE NÃO RESISTIRMOS 


Não é, de modo nenhum, um exagero voltar a escrever sobre Songs of Resistance 1942 – 2018, o álbum que Marc Ribot (juntamente com Tom Waits, Steve Earle, Meshell Ndegeocello, Fay Victor, Tift Merritt, Sam Amidon, Justin Vivian Bond, Ohene Cornelius, Syd Straw e Domenica Fossati), sentiu a urgência de gravar, imediatamente após a eleição de Donald Trump: “Os meus avós perderam irmãos, irmãs, primos, tias e tios no Holocausto e eu tenho amigos na Rússia e na Turquia, por onde viajei: sabemos bem quem é Trump e não é nenhum mistério onde acabaremos se não resistirmos. (...) A resistência – não apenas o protesto que, por definição, reconhece a legitimidade do poder a que se dirige – tinha de ser planeada. Sou músico, iniciei, então, a minha prática de resistência pela música”



Particularmente esclareceder dessa urgência é o que, na contracapa do CD, se pode ler acerca da intérprete da canção popular mexicana "Rata de Dos Patas" (composta por Manuel Eduardo Toscano a propósito do Presidente mexicano, Carlos Salinas de Gortari, e originalmente cantada por Paquita la del Barrio, mas, aqui, remetida para destinatário temporariamente residente na Casa Branca): “Devido ao receio de que a retaliação do regime de Trump pudesse ameaçar o seu visto de emigrante, a vocalista desta gravação pediu que fosse omitida qualquer referência à sua identidade. Não duvidamos que os seus receios são inteiramente justificados, por isso, actuámos de acordo com o seu desejo. Ficamos-lhe gratos pela maravilhosa interpretação e pela coragem de, apesar de tudo, ter participado na gravação. E ansiamos pelo dia em que a expressão política e artística não mais esteja sob a ameaça de uma repressão tão vingativa e racista. Venceremos!” Porém, embora admitindo que “os arranjos e as canções neste disco foram escritos e executados, abertamente, como agitprop”, isso não excluiu a intenção de que conseguissem actuar em diversos níveis: dispensando a veneração perante a “autenticidade histórica” e recorrendo a todas as matérias-primas – do free-jazz à country, ao cancioneiro antifascista e ao rock, à citação da poesia e textos de Yeats, Ginsberg, Pete Seeger, do economista Nicholas Stern, do “New Colossus” (de Emma Lazarus), do Génesis, ou à colagem de fragmentos de notícias e palavras de ordem escutadas nos protestos de rua –, Songs of Resistance 1942 – 2018 é a concretíssima demonstração de como, no século XXI e sempre que necessário, a música de perfil político continua de belíssima saúde estética e militante.

26 September 2018

Marc Ribot - "We Are Soldiers in the Army"  (feat. Fay Victor)