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10 May 2024
03 June 2021
PERSONAL ANARCHY
O mistério do cérebro perdido de Ulrike Meinhof. A história fantástica de Jack Parsons, pioneiro aero-espacial, espião e ocultista da seita de Aleister Crowley. O Situacionismo e a guerrilha urbana. A "sci-fi" neo-swiftiana sobre uma comunidade hiper-libidinosa de mutantes de 6 centímetros. Uma discografia – em nome próprio ou sob as designações de The Auteurs, Baader-Meinhof e Black Box Recorder – com perto de 30 títulos, entre os quais The Oliver Twist Manifesto (2001), Das Capital (2003), 9 1/2 Psychedelic Meditations on British Wrestling of the 1970s & Early '80s (2011), Adventures In Dementia (2015), British Nuclear Bunkers (2015) e o inédito e confidencial The State Funeral of Winston Churchill (2005). Três livros – Bad Vibes: Britpop and My Part in Its Downfall (2009) Post Everything: Outsider Rock and Roll (2011) e o “psychedelic cookbook”, Outsider Food And Righteous Rock And Roll (2015) – e uma extensa lista de canções pelas quais, em estados variáveis de desfiguramento, desfilam Andy Warhol, Liberace, Ramones, Jacqueline du Pré, Captain Beefheart, Donovan, Maria Callas, Valerie Solanas, Nick Lowe, Klaus Kinski, Gene Vincent, Lou Reed, Peter Hammill, Marc Bolan, Bruce Lee, Roman Polanski e os futuristas russos. É, pois, inteiramente legítimo afirmar que, no imenso caldo de cultura pop/rock, não existe quem, sequer remotamente, se assemelhe a Luke Haines, adepto confesso da “personal anarchy” e supremo praticante da modalidade. (daqui; segue para aqui)
"Ex Stasi Spy"
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15 April 2019
24 July 2015
David Bowie Star Special | 20.05.79
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31 August 2009
PASSADO A FERRO

David Bowie - VH1 Storytellers (DVD + CD)
Não é necessária uma exploração demasiado exaustiva das entranhas do YouTube para nos apercebermos de como, actualmente, muito do que mais interessante acontece em matéria de música ocorre no interior dos estúdios de televisão de diversos canais (tradicionais e online) e sob os mais variados formatos. Isto, claro, naquelas zonas libertadas do universo que não estão submetidas à dominação exclusiva do conceito de televisão enquanto contentor de resíduos audiovisuais. O VH1 Storytellers é uma delas, desafiando os artistas que nele se apresentam perante um público quase de sala-de-estar a combinar canções e as histórias a elas associadas. Este, com David Bowie, de 1999, foi o 40º da série, que já vai em 70. Talvez porque date da altura do pouco memorável Hours..., não é, seguramente, um Bowie vintage aquele que aqui parece, ainda que, desse álbum, apenas inclua dois temas. A faceta de "adult entertainer" assenta-lhe desconfortavelmente e, se alguns dos episódios que conta (envolvendo Iggy Pop, Steve Marriott, Marc Bolan) conseguem provocar dois ou três sorrisos, esta sua versão de crooner passado a ferro para público complacente não é um dos seus (nem do VH1 Storytellers) melhores momentos.
(2009)
David Bowie - VH1 Storytellers (DVD + CD)
Não é necessária uma exploração demasiado exaustiva das entranhas do YouTube para nos apercebermos de como, actualmente, muito do que mais interessante acontece em matéria de música ocorre no interior dos estúdios de televisão de diversos canais (tradicionais e online) e sob os mais variados formatos. Isto, claro, naquelas zonas libertadas do universo que não estão submetidas à dominação exclusiva do conceito de televisão enquanto contentor de resíduos audiovisuais. O VH1 Storytellers é uma delas, desafiando os artistas que nele se apresentam perante um público quase de sala-de-estar a combinar canções e as histórias a elas associadas. Este, com David Bowie, de 1999, foi o 40º da série, que já vai em 70. Talvez porque date da altura do pouco memorável Hours..., não é, seguramente, um Bowie vintage aquele que aqui parece, ainda que, desse álbum, apenas inclua dois temas. A faceta de "adult entertainer" assenta-lhe desconfortavelmente e, se alguns dos episódios que conta (envolvendo Iggy Pop, Steve Marriott, Marc Bolan) conseguem provocar dois ou três sorrisos, esta sua versão de crooner passado a ferro para público complacente não é um dos seus (nem do VH1 Storytellers) melhores momentos.
(2009)
14 June 2008
A HUMANIDADE NO SEU PIOR
Na margem do lago de Lucerna oposta aquela onde se situa o magnífico Centro Cultural projectado por Jean Nouvel, no café do hotel em que Stefan Winter e restante "staff" da Winter & Winter se hospedavam, as entrevistas quase simultâneas com "the Winter man" e Uri Caine (a cargo de Jorge Lima Alves e "yours truly"), a pretexto das incontornáveis Goldberg Variations na "versão Caine", já tinham há muito terminado. Mas, na minha mesa-Caine, com um gravador alimentado a pilhas chinesas compradas, de urgência, na única loja apropriadamente chinesa aberta, numa tarde de sábado, no irritantemente perfeito paraíso social suíço, a conversa informal pós-entrevista ainda continuava. E, a propósito de John Zorn, que ele próprio referira e com o qual também já colaborou, apeteceu-me pedir-lhe que, de uma vez por todas, me explicasse o que — sendo tanto ele, Uri Caine, como Zorn, de ascendência judaica — significavam realmente aquelas coisas da "Radical Jewish Culture" e da "Great Jewish Music" a que Zorn, na sua editora Tzadik (isto é, a "Justiça" hebraica mais fundamentalista), se dedicara de alma e coração, identificando como especificamente judeus músicos como Burt Bacharach, Marc Bolan ou Serge Gainsbourg que, para nós, desgraçados ignorantes da correcção étnica e política, eram apenas optimos... músicos.
E, de caminho, exibi-lhe o meu nariz, muito judeu: "Em Portugal, se calhar, somos quase todos árabes, celtas, judeus e tudo o que por lá passou. Mas praticamente ninguém quer saber disso, é um ancestral dado multicultural em que nunca nos lembramos sequer de pensar". E a América culturalmente sofisticada de Caine (muito mais culta do que a recente América "PC" de Zorn) depôs imediatamente as armas e reconheceu o equívoco: "Quase sempre, a invocação cega dessa herança cultural, étnica e política, acaba, como no caso de John Zorn, por coincidir com os programas da extrema-direita mais radical, mesmo quando — e será o caso dele — não se tem consciência disso. O horror do Holocausto, como o dos índios, dos vietnamitas, dos kosovares ou dos africanos não tem raça, é apenas a humanidade no seu pior". A seguir, contou-me duas histórias. A do pai dele, Caine (advogado, liberal, judeu-americano, que sempre educou os filhos nas tradições e preceitos judaicos inteiramente assumidos), que, quando pressionado para tomar posição pública contra uma manifestação de rua anti-semita, advogou o direito dos manifestantes a desfilar, como todos os outros, e, perante esse acto, a serem julgados pelo que faziam. Pelo que teve a casa violenta e agressivamente cercada pelos defensores do fundamentalismo judeu, talvez muito "PC", mas bastante pouco democráticos.
E, depois, a do próprio Zorn, judeu, familiar, cultural e etnicamente reprimido, que, como mecanismo de emancipação, arvorou o judaísmo (também como "marketing ploy") enquanto bandeira de algo que ele próprio não conhece assim tão bem. Ao ponto de, antes de um concerto na Holanda, se ter permitido provocar um seu devotadíssimo admirador perguntando-lhe, arrogantemente, se a comunidade judaica local tinha sido formalmente convidada. Ao que este, lhe respondeu que as entradas, naturalmente, eram livres... Uri Caine — também presente — tomou nota e, quando se encontravam os dois na sinagoga local, fez questão de lhe ler os nomes das vítimas do Holocausto, ali escritas, na parede, em hebraico. "Mas.. tu és capaz de ler hebraico?!", espantou-se Zorn. "Claro", respondeu-lhe Caine, "e tu que gostas de te mostrar como um judeu tão radical, empenhaste-te em aprender a falar japonês por motivos culturais, mas és incapaz de ler uma linha em hebraico". Moral da história: não será este, afinal, senão mais um episódio, na vertente cultural, daquela estúpida e eterna tragédia a que Amin Maalouf chamou As Identidades Assassinas?
(1999)
09 March 2008
O AMIGO SEBASTIAN

Ele não o revelou mas é bastante provável que a citação que Nick Cave, em “We Call Upon The Author”, confessa ter feito do seu amigo Sebastian Horsley seja “He said: everything is messed up round here, everything is banal and jejune, there’s a planetary conspiracy against the likes of you and me in this idiot constituency of the moon”. O tiro até poderá errar o alvo mas assentaria como uma luva ao extravagante dandy, cultor do deboche, “socialite”, alcoólico, pintor, escritor, “junky”, cronista e “performer” que se gaba repetidamente de, dos dezasseis anos aos actuais quarenta e cinco, ter “consumido” mais de 1 000 prostitutas (“das de 20 libras do Soho às de 1000, já dormi com todas as nacionalidades, em todas as posições”) e, pública e descomplexadamente, teoriza sobre o assunto: “De todas as perversões sexuais, a monogamia é a menos natural. Recordo-me bem da primeira vez que estive com uma prostituta, ainda tenho o recibo. Tanto quanto me apercebi, a rapariga estava viva. As piores coisas da vida são gratuitas. O valor exige uma etiqueta com o preço. Como poderíamos respeitar uma mulher que não se atribui um valor? Uma prostituta existe fora do ‘establishment’. Porque é rejeitada ou porque a ele se opõe. Ou ambas as coisas. É preciso coragem para pisar este risco. Merece o nosso respeito, não o nosso castigo. E, de certeza, nunca a nossa piedade ou as nossas orações. O sexo é uma das coisas mais saudáveis, maravilhosas e naturais que o dinheiro pode comprar”.
A crucificação de Sebastian Horsley
Oscar Wilde-de-sarjeta filho de milionário mas não menos citável que o modelo original, Cave conheceu-o em 1995, quando julgou aperceber-se que a sua namorada da altura se encontrava com ele: “Fui a casa dele com a ideia de lhe cortar os dedos ou coisa parecida. Toquei à campaínha e um homem de fato de veludo côr-de-rosa pálido abriu a porta. Nessa altura, compreendi que as minhas preocupações não tinham fundamento. Convidou-me a entrar, conversámos sobre arte e literatura e rapidamente se tornou claro que partilhávamos outros interesses que não a minha namorada”. Em Agosto de 2000, o ateu Horsley viajou até às Filipinas para se fazer crucificar, como método expedito de inspiração para uma série de quadros sobre a Paixão de Cristo. Já com os pregos de 10 cm cravados (sem anestesia) nas mãos, o apoio dos pés soltou-se e Sebastian só por pouco não teve o fatal destino do seu hipotético antecedente histórico… mas sem o bónus três dias depois. Em Setembro do ano passado, publicou a autobiografia Dandy In The Underworld - título tomado de empréstimo à obra do seu único deus, Marc Bolan - recebida com críticas, previsivelmente, divididas e extremadas. (2008)
Ele não o revelou mas é bastante provável que a citação que Nick Cave, em “We Call Upon The Author”, confessa ter feito do seu amigo Sebastian Horsley seja “He said: everything is messed up round here, everything is banal and jejune, there’s a planetary conspiracy against the likes of you and me in this idiot constituency of the moon”. O tiro até poderá errar o alvo mas assentaria como uma luva ao extravagante dandy, cultor do deboche, “socialite”, alcoólico, pintor, escritor, “junky”, cronista e “performer” que se gaba repetidamente de, dos dezasseis anos aos actuais quarenta e cinco, ter “consumido” mais de 1 000 prostitutas (“das de 20 libras do Soho às de 1000, já dormi com todas as nacionalidades, em todas as posições”) e, pública e descomplexadamente, teoriza sobre o assunto: “De todas as perversões sexuais, a monogamia é a menos natural. Recordo-me bem da primeira vez que estive com uma prostituta, ainda tenho o recibo. Tanto quanto me apercebi, a rapariga estava viva. As piores coisas da vida são gratuitas. O valor exige uma etiqueta com o preço. Como poderíamos respeitar uma mulher que não se atribui um valor? Uma prostituta existe fora do ‘establishment’. Porque é rejeitada ou porque a ele se opõe. Ou ambas as coisas. É preciso coragem para pisar este risco. Merece o nosso respeito, não o nosso castigo. E, de certeza, nunca a nossa piedade ou as nossas orações. O sexo é uma das coisas mais saudáveis, maravilhosas e naturais que o dinheiro pode comprar”.
A crucificação de Sebastian Horsley
Oscar Wilde-de-sarjeta filho de milionário mas não menos citável que o modelo original, Cave conheceu-o em 1995, quando julgou aperceber-se que a sua namorada da altura se encontrava com ele: “Fui a casa dele com a ideia de lhe cortar os dedos ou coisa parecida. Toquei à campaínha e um homem de fato de veludo côr-de-rosa pálido abriu a porta. Nessa altura, compreendi que as minhas preocupações não tinham fundamento. Convidou-me a entrar, conversámos sobre arte e literatura e rapidamente se tornou claro que partilhávamos outros interesses que não a minha namorada”. Em Agosto de 2000, o ateu Horsley viajou até às Filipinas para se fazer crucificar, como método expedito de inspiração para uma série de quadros sobre a Paixão de Cristo. Já com os pregos de 10 cm cravados (sem anestesia) nas mãos, o apoio dos pés soltou-se e Sebastian só por pouco não teve o fatal destino do seu hipotético antecedente histórico… mas sem o bónus três dias depois. Em Setembro do ano passado, publicou a autobiografia Dandy In The Underworld - título tomado de empréstimo à obra do seu único deus, Marc Bolan - recebida com críticas, previsivelmente, divididas e extremadas. (2008)
15 October 2007
DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (XI)
FILOSOFIA GREGA
FILOSOFIA GREGA
Devendra Banhart - Smokey Rolls Down Thunder Canyon
Eis-nos perante uma questão hermenêutica assaz bicuda: a) Devendra Banhart admite publicamente que o elemento catalisador para Smokey Rolls Down Thunder Canyon foi a sua separação de Bianca Cassady, uma das duas manas Coco; b) quase no mesmo fôlego, informa-nos que “um filósofo grego, talvez Aristóteles, um desses gajos, disse que a alma é húmida e que tudo o que é seco representa o mal. Portanto, a masturbação é uma arma contra o mal e é por isso que vemos tantos pénis na arte grega. O esperma, sendo húmido, é uma protecção, uma metralhadora que possuímos para nos defender contra a secura e, consequentemente, contra todos os males”.
É exactamente este o ponto em que o rigor exegético nos obriga a uma crucial interrogação: deveremos estabelecer uma relação de causa e efeito entre a) e b), constituindo o álbum o nexo explicativo ou, talvez mais precisamente, a prova material ela mesma, que demonstra factualmente que de uma coisa decorreu necessariamente a outra? A interpretação parece inteiramente plausível, tanto pelo que resulta da escuta de Smokey Rolls Down Thunder Canyon como pela revelação complementar segundo a qual “este foi o pior ano da minha vida”. Há karmas terríveis e o de Banhart não é dos mais fáceis: filho de uma devota do Guru Maharaji Pram Rawat que, previsivelmente, o baptizou como Devendra (isto é, “Rei dos Deuses”), por volta dos nove anos, forças que não comandava conduziram-no a entrar no quarto da mãe e a experimentar um dos vestidos dela, instante místico transfigurador que mudaria para sempre a sua vida: “Transformei-me numa mulher o que, praticamente, me autorizou a cantar, utilizando aquela outra parte de mim. Senti como se tivesse desbloqueado o lado feminino da minha alma. Nunca me tinha sentido particularmente talentoso, nunca me tinha visto como músico, por isso, precisava de alguma coisa, dentro ou fora de mim, que me desse essa permissão”.
Para o autor da dificilmente esquecível linha poética “comiendo una peira en Santa Maria de la Feira”, esse foi o momento catártico que (podendo também, eventualmente, contribuir para compreender melhor o desentendimento com a mana Bianca), anos mais tarde – após outras experiências enriquecedoras como aquela em que, na companhia dos índios Ianomani da Amazónia (entre os quais, segundo notícias recentes, existirão, aparentemente, 200 militantes do PSD), tripou desvairadamente sob o efeito do Yopo -, o levaria a gravar álbuns como Oh Me Oh My... The Way The Day Goes By The Sun Is Setting Dogs Are Dreaming Lovesongs Of The Christmas Spirit (2002), Rejoicing In The Hand (2003), Niño Rojo (2004) e Cripple Crow (2005), textos sagrados e pedras inaugurais do “freak-folk”. Smokey surge, então, como porto de abrigo de um doloroso calvário existencial que, inevitavelmente, lhe pulverizou a personalidade – será ele Caetano Veloso? Neil Young? Manu Chao? Carmen Miranda? Marc Bolan? Bing Crosby “on acid”? – mas lhe proporcionou, por fim, algum alívio. Será um alívio solitário mas, por agora, terá de servir. (2007)
26 March 2007
Off The Records:
A COR DA MÚSICA

A história tem o carimbo vincadamente idiota do "politicamente correcto" norte-americano. Mas que, nem por isso, deixa de ser incomodativo e, pior, perigoso: Stephin Merritt, o óptimo autor de canções dos Magnetic Fields, teria tido a ousadia de declarar que não gosta de hip-hop, detesta os OutKast e Beyoncé e — ultrage supremo — pensa que "Zip-A-Dee-Doo-Dah" (um tema do musical Song Of The South, de Disney, de 1946, comummente considerado como racista) é uma excelente canção.
Será ou não. Mas a verdade é que pouco importou que ele tivesse acrescentado que essa é a única coisa aproveitável do musical, adiantando que "todo o resto é terrível". Imediatamente os críticos Sasha Frere-Jones, do "New Yorker", e Jessica Hopper, do "Chicago Reader", trataram de atiçar as brasinhas inquisitoriais, denunciando Merritt perante o universo enquanto vil exemplo de peçonhento racista. Outras provas adicionais de culpa seriam o facto de, em Maio de 2004, quando convidado pelo "New York Times" para escrever sobre alguns discos recentemente publicados, Merrit só se ter pronunciado sobre artistas brancos e de, numa lista solicitada pela "Time Out/New York" (um disco por cada ano do século XX), apenas 11% serem de músicos negros.
Curiosamente (apesar de me circular no sangue uma significativa percentagem de genes africanos para lá lançados há quatro gerações), eu, como muita gente de todas as etnias, também não morro de amores pelo hip-hop — que nem é já exclusivamente negro —, nem tenho especial apreço por Beyoncé ou pelos OutKast. Servirá como atenuante gostar de Coltrane e de Miles Davis? E achar que o cinema de Leni Riefenstahl ou de Einsenstein são dois cumes da arte do século XX, converte-me, instantaneamente, em nazi ou comunista?
Por outro lado, Frere-Jones e Hopper sentirão a música árabe tão instintivamente natural e próxima como eu, inexplicavelmente, sinto? E se, ao escutarem ópera clássica chinesa, se aperceberem da existência de um universo cultural no qual, dificilmente, alguma vez penetrarão, deverão fustigar-se violentamente em expiação de um terrível pecado "pc"?
Conduzamos o raciocínio ao limite: caso Stephin Merritt fosse, de facto, racista (o que só muito improvavelmente será verdade), isso desvalorizaria, de um momento para o outro, todo o seu magnífico "songbook"? Deixem-me só com mais uma angustiante interrogação: terei eu amado como ela realmente merece a música de Burt Bacharach, Marc Bolan e Serge Gainsbourg até ao momento em que John Zorn (na colecção "Great Jewish Music") teve a caridade de me fazer descobrir — assunto em que nunca me detivera um segundo a pensar — que eles eram judeus? (2006)
A COR DA MÚSICA
A história tem o carimbo vincadamente idiota do "politicamente correcto" norte-americano. Mas que, nem por isso, deixa de ser incomodativo e, pior, perigoso: Stephin Merritt, o óptimo autor de canções dos Magnetic Fields, teria tido a ousadia de declarar que não gosta de hip-hop, detesta os OutKast e Beyoncé e — ultrage supremo — pensa que "Zip-A-Dee-Doo-Dah" (um tema do musical Song Of The South, de Disney, de 1946, comummente considerado como racista) é uma excelente canção.
Será ou não. Mas a verdade é que pouco importou que ele tivesse acrescentado que essa é a única coisa aproveitável do musical, adiantando que "todo o resto é terrível". Imediatamente os críticos Sasha Frere-Jones, do "New Yorker", e Jessica Hopper, do "Chicago Reader", trataram de atiçar as brasinhas inquisitoriais, denunciando Merritt perante o universo enquanto vil exemplo de peçonhento racista. Outras provas adicionais de culpa seriam o facto de, em Maio de 2004, quando convidado pelo "New York Times" para escrever sobre alguns discos recentemente publicados, Merrit só se ter pronunciado sobre artistas brancos e de, numa lista solicitada pela "Time Out/New York" (um disco por cada ano do século XX), apenas 11% serem de músicos negros.
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