CONTER A AVALANCHE
Pelo fim dos anos 80 e início dos 90, era relativamente frequente entrar-se por um ou outro bar de província do centro de Portugal e deparar-se com o anúncio de que, numa dessas noites,
Martin Stephenson, dos mui estimáveis Daintees – hoje, praticamente apenas recordados pela canção “Boat To Bolívia” –, com o chapéu que pertenceu a James Cagney invariavelmente na cabeça, lá iria aparecer para tocar as canções que muito bem lhe apetecesse (aparentemente e, de acordo com o calendário de concertos afixado na sua página da Net, continua a proceder da mesma forma, agora, em “private parties” e lugares ignotos da Escócia...). Após vários e consecutivos concertos de estádio dos Rolling Stones em Portugal, apetece dizer que eles já só seriam verdadeiramente notícia se, sem se fazer notar demasiado, decidissem apresentar-se no coreto de um qualquer arraial trasmontano para animar as festas de Agosto locais.
Embora um bocadinho caricaturalmente – por entre os festivais da já instituída “temporada de Verão” (mais de duas dezenas), programações das salas de espectáculo “tradicionais” e iniciativas públicas e privadas crescentemente descentralizadas (de Norte a Sul), de pop/rock, folk, jazz, clássica, margens experimentais ou “world music” –, deve dizer-se que já estivemos bastante mais longe de tal vir a acontecer.
E nem há-de ser demasiado arriscado prever que, mais tarde ou mais cedo (provavelmente, muito mais cedo do que tarde), isso tenderá a ser um facto razoavelmente banal. Como
os textos de Jorge Lima Alves acerca do MIDEM de Cannes de Janeiro passado (então publicados no “Actual” do Expresso) deixaram absolutamente explícito, o estado de demencial desnorte dos responsáveis da indústria discográfica – dos grandes tubarões aos pequenos peixes do charco – perante o imparável avanço da guerrilha global dos “downloads” ilegais (atenção, o assalto a sério sobre a indústria cinematográfica virá já seguir!) permitiu ouvir, das bocas menos previsíveis, proclamações acerca da inevitável gratuitidade futura da música gravada, da gradual extinção do CD como suporte físico ou até da curta esperança de vida do que nos habituámos a conhecer como “direitos de autor”. Naturalmente, isto continua a ser acompanhado por antigos tiques difíceis de erradicar como o grotesco “sigilo” em relação a discos que meio mundo há muito descarregou da Internet ou a habitual válvula de escape de fazer rolar cabeças (caso mais recente: David Ferreira, na EMI) que, a menos que novas políticas para o novo mundo em que já vivemos sejam accionadas, serão substituídas por outras igualmente destinadas ao cadafalso. Daí que uma das soluções de recurso mais imediatamente à mão seja procurar recuperar pelo lado dos espectáculos ao vivo o que, nas vendas de rodelas de plástico, dia a dia, vertiginosamente encolhe.

Teremos, então, cada vez mais concertos, sempre novos festivais (o clima é amigo e não há grande motivo para que eles tenham de se circunscrever ao Verão), a descentralização ampliar-se-à como nunca antes e, porque a ideia de música gravada tendencialmente gratuita permitirá legitimá-lo, preparemo-nos para que os preços dos bilhetes passem a incluir uma “taxa de compensação” oculta que procurará concretizar o milagre contabilístico de equilibrar as contas. Nada disto, evidentemente, será simples e linear – contemos ainda com escaramuças e manobras desesperadas de intimidação várias – e outras tentativas de conter a avalanche emergirão. Mas, de um modo geral, dos regressos da tumba de todos os Police, Jesus & Mary Chain, Mutantes e Smashing Pumpkins deste mundo aos novíssimos avidamente aguardados (Arcade Fire, The National, Artic Monkeys, Architecture In Helsinki) ou aos sempre bem-vindos “clássicos” (Laurie Anderson, Aimee Mann, Sonic Youth e Elvis Costello – este no Lake Resort de Vilamoura... sim, aprendamos a não o estranhar), viveremos inundados de música como nunca antes. E, quem sabe se, um dia, não veremos uns Stones octogenários a partilhar um palco com a tuna de Carvalhais?... (2007)