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23 March 2009

FORA DO RADAR

 
 Lloyd Cole - Cleaning Out The Ashtrays 
 
Se pararmos um segundo para espreitar debaixo da carpete da memória, vamos facilmente reparar na considerável quantidade de músicos e escribas de canções que, sem que realmente déssemos por isso, há muito não deixam rasto no radar pop contemporâneo. Ou que, se o fazem ainda, não o poderiam desenhar de modo mais discreto, tal é a forma como passam despercebidos sob os raios cruzados dos focos luminosos. Onde andam, por exemplo, Suzanne Vega, Martin Stephenson, Liz Phair, Andy Partridge, Neil Hannon, os magníficos It’s Immaterial de Life’s Hard And Then You Die e Song? É verdade que o universo pop nunca demonstrou grande vocação para acarinhar aqueles que não inscrevem diariamente na agenda a obrigação de aparecer em todo o talk-show disponível, da entrada ritual na clínica de desintoxicação ou de exibir a "trophy-wife" ou o "trophy-husband" do trimestre. Mas, mesmo assim, uma tão curta memória de médio prazo deveria ser objecto de estudo científico.

 
Lloyd Cole, ele da mesma época em que ilustres desaparecidos em combate como os Bluebells, Sundays ou Waterboys edificavam a glória da música britânica, bissextamente, faz prova de vida com um álbum que ocupa uma ínfima parcela de página nas revistas “da especialidade”, sacia fugazmente o apetite dos seus cento e catorze fãs e esfuma-se. Agora, porém, excedeu-se: uma caixa de quatro CD (esta, de que nos lança a côdea de um sampler de dez títulos) e a promessa de dois live em modo “Folksinger Series”. A avaliar pelo isco, se a maioria das 56 sobras, lados B e raridades for da estatura de algumas das aqui reunidas (“I Will Not Leave You Alone” ou “The Steady Slowing Down Of The Heart” são Cole-vintage instantâneo) só se poderá afirmar que, mesmo que sejam poucos a reparar nisso, quando Lloyd Cole limpa os cinzeiros (pobre ingénuo que, um dia, me garantiu que eu haveria de deixar de fumar), há que correr para lhe tirar o saco do lixo das mãos. (2009)

19 December 2007

ARTESANATO



Ai Phoenix - Lean That Way Forever

Baixa, baixíssima tecnologia para o maximo de esplendor: guitarras (eléctrica e acústica), baixo, banjo, um vetusto moog, acordeão e bateria. É quanto basta e sobra para que Lean That Way Forever, como se se tratasse da coisa mais evidente deste mundo, seja capaz de concentrar em si dez canções daquela variedade de pop assombradamente mágica em que, só muito episodicamente, tropeçamos. Eles chamam-se Patrick, Mona, Bosse, Espen, Robert e Odd-Erik, são de Bergen, na Noruega (o que só contribuirá para a felicidade dos descobridores de "cenas locais" geograficamente arrumadinhas), respondem colectivamente como Ai Phoenix e a música que criam dir-se-ia uma espécie de artesanato sonoro minimalista, qualquer coisa de rústico e poeticamente secreto que tanto parece resgatado da desolação dos desertos como inventado no crepúsculo de uma mansarda parisiense.



Mona canta como uma Hope Sandoval ainda mais glacialmente espectral — e o grupo, às vezes, soa como uns Mazzy Star que tivessem decidido levar à letra o laconismo espartano dos Young Marble Giants —, por todo o álbum paira o espírito paralisadamente narcótico dos primeiros Spain, aqui e ali entrevê-se o fantasma bizarro de Martin Stephenson e, de "valses-musettes" do Moulin Rouge como Nico as cantaria a miniaturas cripto-folk-country geradas num universo paralelo (em "Where Is Your Heart" ou "Hopscotch", o tempo verdadeiramente pára), eles reclinam-se para sempre sobre o nosso ombro e nós não queremos outra coisa. (2002)

25 June 2007

CONTER A AVALANCHE


Pelo fim dos anos 80 e início dos 90, era relativamente frequente entrar-se por um ou outro bar de província do centro de Portugal e deparar-se com o anúncio de que, numa dessas noites, Martin Stephenson, dos mui estimáveis Daintees – hoje, praticamente apenas recordados pela canção “Boat To Bolívia” –, com o chapéu que pertenceu a James Cagney invariavelmente na cabeça, lá iria aparecer para tocar as canções que muito bem lhe apetecesse (aparentemente e, de acordo com o calendário de concertos afixado na sua página da Net, continua a proceder da mesma forma, agora, em “private parties” e lugares ignotos da Escócia...). Após vários e consecutivos concertos de estádio dos Rolling Stones em Portugal, apetece dizer que eles já só seriam verdadeiramente notícia se, sem se fazer notar demasiado, decidissem apresentar-se no coreto de um qualquer arraial trasmontano para animar as festas de Agosto locais.


Embora um bocadinho caricaturalmente – por entre os festivais da já instituída “temporada de Verão” (mais de duas dezenas), programações das salas de espectáculo “tradicionais” e iniciativas públicas e privadas crescentemente descentralizadas (de Norte a Sul), de pop/rock, folk, jazz, clássica, margens experimentais ou “world music” –, deve dizer-se que já estivemos bastante mais longe de tal vir a acontecer. E nem há-de ser demasiado arriscado prever que, mais tarde ou mais cedo (provavelmente, muito mais cedo do que tarde), isso tenderá a ser um facto razoavelmente banal. Como os textos de Jorge Lima Alves acerca do MIDEM de Cannes de Janeiro passado (então publicados no “Actual” do Expresso) deixaram absolutamente explícito, o estado de demencial desnorte dos responsáveis da indústria discográfica – dos grandes tubarões aos pequenos peixes do charco – perante o imparável avanço da guerrilha global dos “downloads” ilegais (atenção, o assalto a sério sobre a indústria cinematográfica virá já seguir!) permitiu ouvir, das bocas menos previsíveis, proclamações acerca da inevitável gratuitidade futura da música gravada, da gradual extinção do CD como suporte físico ou até da curta esperança de vida do que nos habituámos a conhecer como “direitos de autor”. Naturalmente, isto continua a ser acompanhado por antigos tiques difíceis de erradicar como o grotesco “sigilo” em relação a discos que meio mundo há muito descarregou da Internet ou a habitual válvula de escape de fazer rolar cabeças (caso mais recente: David Ferreira, na EMI) que, a menos que novas políticas para o novo mundo em que já vivemos sejam accionadas, serão substituídas por outras igualmente destinadas ao cadafalso. Daí que uma das soluções de recurso mais imediatamente à mão seja procurar recuperar pelo lado dos espectáculos ao vivo o que, nas vendas de rodelas de plástico, dia a dia, vertiginosamente encolhe.


Teremos, então, cada vez mais concertos, sempre novos festivais (o clima é amigo e não há grande motivo para que eles tenham de se circunscrever ao Verão), a descentralização ampliar-se-à como nunca antes e, porque a ideia de música gravada tendencialmente gratuita permitirá legitimá-lo, preparemo-nos para que os preços dos bilhetes passem a incluir uma “taxa de compensação” oculta que procurará concretizar o milagre contabilístico de equilibrar as contas. Nada disto, evidentemente, será simples e linear – contemos ainda com escaramuças e manobras desesperadas de intimidação várias – e outras tentativas de conter a avalanche emergirão. Mas, de um modo geral, dos regressos da tumba de todos os Police, Jesus & Mary Chain, Mutantes e Smashing Pumpkins deste mundo aos novíssimos avidamente aguardados (Arcade Fire, The National, Artic Monkeys, Architecture In Helsinki) ou aos sempre bem-vindos “clássicos” (Laurie Anderson, Aimee Mann, Sonic Youth e Elvis Costello – este no Lake Resort de Vilamoura... sim, aprendamos a não o estranhar), viveremos inundados de música como nunca antes. E, quem sabe se, um dia, não veremos uns Stones octogenários a partilhar um palco com a tuna de Carvalhais?... (2007)