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03 February 2013

CONTINUE, SFF


















Andrew Bird - Hands Of Glory

Andrew Bird confessa sem hesitar que uma das suas actividades favoritas é estabelecer regras para si mesmo, quebrá-las, e, porque sim, voltar a aceitá-las. Porque sim, mas igualmente porque “são necessárias até para, quando isso for importante, ir contra elas”, e porque “o peso das expectativas e das inúmeras possibilidades” de que dispõe o obrigam a impor-se uma espécie de código de conduta estética que discipline minimamente o que, de outra forma, esbarraria contra o inevitável problema dos sobredotados: dispersar-se infinitamente por mil áreas e, embora falhando gloriosamente, não chegar ao fundo de nenhuma. Uma delas era “se não conseguir reproduzi-lo em palco, não vale a pena grava-lo em estúdio”. Claro que, entretanto, também já a violou e, naturalmente, regressou, agora, a ela com este Hands Of Glory (mini álbum ou EP encorpado – como se preferir – de oito temas), adenda ao excelentíssimo Break It Yourself e coisa doméstica gravada no (a caminho de lendário) celeiro do Illinois, à beira do Mississipi, à volta de um único microfone. 



O minimalismo tecnológico combina bem com a selecção do reportório, uma espécie de demonstração descontraída de como não existe qualquer incompatibilidade entre o estatuto de instrumentista e "songwriter" virtuoso, barroco e adepto da frase que exige ser reescutada e recorrer ao dicionário (caso este possa servir de apoio...) e o do fulano que, com dois ou três cúmplices, se entretém a interpretar canções de Ramblin’ Jack Elliott, Townes Van Zandt, The Handsome Family e dos Alpha Consumer (seita de Minneapolis onde exerce o companheiro de estrada, Jeremy Ylvisaker, quando não alinha com o fidelíssimo Martin Dosh em The Cloak Ox – todos aqui presentes) ou a virar do avesso uma ou duas das suas. Como ele diz, “sinto que já provei tudo o que pretendia provar e posso fazer o que me apetecer”. Continue, sff.

08 February 2009

RITUAIS IMAGINÁRIOS



Andrew Bird - Noble Beast

O que pensa Andrew Bird (ou as personagens que, por ele, pensam) acerca do mundo? “Tenuous at best was all he had to say when pressed about the rest of it, the world, that is, from Proto-Sanskrit Minoans to porto-centric Lisboans, Greek Cypriots and harbour sorts who hang around in ports a lot”. O futuro da espécie sob um ponto de vista darwiniano ou só o futuro dele mesmo? “They took me to the hospital, they put my body through a scan, what they saw there would impress them all, for inside me grows a man who speaks with perfect diction as he orders my eviction, as he acts with more conviction than I”. E sobre o estado de conservação do planeta, as questões ambientais, o caso Freeport? “No peace in the valley, malarial alleys where the kittens have pleurisy, donning my goggles, valerian ogles, to see microscopically”. Na verdade, nem sequer é certo que todas estas citações dos textos de Noble Beast se refiram ao mundo, à evolução do Sapiens sapiens ou ao episódio Freeport. Por aqui e por um cerrado labirinto de “calcified arhythmetists”, “Uralic syntaxes” e “anthurium lacrimae”, o que – sob um hipotético ângulo de sci-fi kafkiana – se desenha é o mapa neurolinguístico do cérebro de Bird em pleno processo de criação.



Em entrevista ao A.V. Club, ele explicou o método: “Por vezes, não tenho grandes hipóteses de escolha. Sigo sempre o instinto e presto atenção ao que me vai pela cabeça. Essa é a minha regra número um. Quando uma coisa começa a ganhar um certo peso penso ‘Tem de ser, tenho de incluir Cipriotas Gregos nesta canção’. É um pequeno desafio interior: criar rituais imaginários para ajudar a transição de uma canção da não-existência para a existência. Muitas vezes, começo por uma interrogação. Uma palavra desperta-me o interesse, gosto do modo como soa, mas desconheço-lhe o significado. E, durante algum tempo, não ligo a isso. Depois, sou capaz de perguntar a amigos o que ela quer dizer. O que conduz a conversas bastante mais interessantes do que o que, de facto, se encontra no dicionário”. Aqui, é imprescindível acrescentar uma outra dimensão que torna a música de Andrew Bird absolutamente singular: o conflito entre “os irreprimíveis impulsos pop para escrever canções concisas e atraentes” e “aquela espécie de inquietação que me faz manter interessado nela e me conduz a divagar imenso”.



Chegámos ao ponto: Andrew Bird, neste e nos anteriores álbuns, resolveu como muito poucos antes o dilema de arrumar o desejo de complexidade do vetusto prog-rock no interior de um vocabulário pop satisfatoriamente legível. E fá-lo de modo admiravelmente elegante, alinhando canções mais extensas com microfaixas incidentais (ou exclusivamente instrumentais, no segundo CD, Useless Creatures, da edição deluxe), costurando os loops que o cada vez mais indispensável Martin Dosh lhe cozinhou com o seu violinístico experimentalismo de câmara, uma ou outra alusão tropicalista, duas ou três manipulações “a bit like Brian Eno”, algum tempero "fake-ethnic" e um sistema nervoso de amáveis carrosséis rítmicos. Ele sintetiza tudo melhor do que eu o faria: “As palavras têm o poder de nos iludir, estão carregadas de subtexto, muitas delas estão gastas e tornaram-se lugares-comuns. São traiçoeiras. As melodias são honestas, só podem ser aquilo que são”. Queiram confirmar.

(ler também o óptimo texto de Rui Tavares no "Ípsilon")

(2009)

22 December 2007

AVE RARA



Andrew Bird - Armchair Apocrypha

Andrew Bird é (trocadilho deliberado) uma ave rara: o exacto tipo de músico e escritor de canções que, não só nasceu com o cromossoma do classicismo pop firmemente implantado no ADN criativo, como, a essa bênção genética, soube acrescentar um muito subtil apetite pela minúcia da arquitectura instrumental, uma queda para o experimentalismo discreto só detectável à lupa, o talento para a escrita de textos que nem sequer precisariam da bengala melódica e uma voz que é tudo aquilo que Rufus Wainwright sonharia ser mas não é.



Se The Mysterious Production Of Eggs (2005) era um luminoso caleidoscópio de joalharia pop, Armchair Apocrypha (criado, a quatro mãos, com Martin Dosh, um dos prodígios da Anticon) aprofunda a mesma via, enriquece-a de uma nova densidade eléctrica e rítmica e, por entre as infinitas portas de entrada que oferece (diria ele “across the great chasms and schisms and the sudden aneurysms"), lança-nos mais meia dúzia de epigramas como tema de meditação. Um para amostra: “with hearts and minds and certain glands, you gotta learn to keep a steady hand”. À beira da perfeição. (2007)