Vivienne Westwood (1941-2022)
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30 December 2022
15 January 2019
DÓ MAIOR
Em O Resto é Ruído, Alex Ross conta que, fugindo ao regime nazi (que considerava a sua música “degenerada”) e emigrado nos EUA desde 1934, Arnold Schoenberg, a partir de determinado momento, “passou por aquilo a que chamou um ‘arrebatamento do desejo da tonalidade’. (...) Como professor, manteve-se muito rigoroso e exigente, mas não impunha os seus métodos aos alunos da UCLA. Ao louvar a arte sinfónica tonal de Sibelius e Shostakovich, que poderia esperar-se que deplorasse, provocava dúvidas. Quando um dos alunos começou a atacar Shostakovich, Schoenberg mandou-o calar e disse: ‘Esse homem é um compositor nato’. Uma ou duas vezes apanhou a turma de surpresa ao anunciar que ‘ainda falta escrever muito boa música em Dó maior’”. Por outras palavras, o compositor que – com Alban Berg e Anton Webern – desarticulara o sistema das hierarquias tonais que caracterizava toda a música erudita europeia anterior e a conduzira pelas vias do atonalismo e do serialismo dodecafónico, não era, afinal, visceralmente avesso a uma linguagem sonora mais tradicional.
No último número da “Mojo”, o tema volta duas vezes â baila pelos mais improváveis atalhos. Em entrevista a Paddy McAloon (Prefab Sprout) a propósito da reedição de I Trawl The Megahertz (2003) – na qual este revela que Cinqué Lee, irmão de Spike Lee, pretende realizar um filme musical baseado nas canções dos Sprout –, a certa altura, McAloon explica que, desde o início, tinha gostos musicais muito amplos: “Recordo-me de comprar, aqui em Durham, o Pássaro de Fogo, de Stravinsky, que imaginava ser algo que os Television poderiam ter feito”. E associava isso a uma incapacidade natural para “escrever uma canção convincente utilizando ferramentas tão básicas como os acordes de Dó, Fá e Sol 7. Se escutarem ‘I Never Play Basketball Now’ (de Swoon, 1984), descobrem 50 ou 60 formas diferentes". Em síntese, “o mais difícil para mim sempre foi e continua a ser – embora já não tanto – repousar sobre um acorde de Dó maior”. Meia dúzia de páginas antes, num perfil de Trevor Horn – “the man who invented the eighties", fundador da ZTT Records, co-criador dos Art Of Noise, produtor de Malcolm McLaren e de Frankie Goes To Hollywood –, ele confessa que, quando morrer, embora não seja capaz de adivinhar como será o Além, “se tiver de ir para algum lado, gostaria de ficar a viver num acorde de Dó maior de sétima, algures. Parece-me um sítio agradável”. Que é como quem diz, um porto de abrigo seguro faz sempre falta.
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06 December 2016
A 7 de Junho de 1977, coincidindo com a publicação de "God Save The Queen" ("God save the queen, she ain't no human being, there is no future in England's dreaming") e com a celebração do Jubileu de Prata da rainha Isabel, Malcolm McLaren e os Sex Pistols fretaram um barco que navegou pelo Tamisa e onde, frente ao Parlamento, a banda se lançou numa interpretação sísmica de "Anarchy In The UK". Exactamente quarenta anos após o lançamento de "Anarchy..." (a 26 de Novembro de 1976), Joseph Corré, filho de McLaren e Vivienne Westwood, cumprindo a promessa que havia feito em Março passado, a bordo de um outro barco, perto da Albert Bridge, em Chelsea, lançou fogo a uma arca de memorabilia punk avaliada em cerca de 5 milhões de libras, numa acção de protesto contra a “Punk Rock Swindle” que a declaração de 2016 como o “Year Of Punk” – uma iniciativa do British Film Institute, British Library, Design Museum, Museum of London, Photographers' Gallery, Rough Trade e Roundhouse – constituiria. Junto a efígies de David Cameron, Tony Blair, Theresa May e George Osborne (também incineradas), a uma faixa onde se lia “Extinction: your future” e sob bandeiras vermelhas carimbadas com nomes de multinacionais e bancos, Corré disparou: “Bem-vindos ao acto final do 'establishment' punk – uma era em que podemos comprar 'punky nuggets' no McDonalds, possuir cartões de crédito-Anarchy In The UK com uma anuidade de 19% ou calças 'bondage' Louis Vuitton!” E prosseguiu: “O punk nunca, nunca pretendeu ser nostálgico: ofereceu uma oportunidade para a geração 'no future' dos anos 70 descobrir um caminho: não confiar nos media, não confiar nos políticos, investigar a verdade pelos próprios meios. DIY. O punk morreu. É tempo de o incendiar e começar tudo de novo!”
O funeral do punk encenado por Corré terá, sem dúvida, um poder simbólico muito especial no UK do Brexit. Mas não custaria muito ter reparado como, pelo menos, desde há cinco anos, o testemunho foi passado às russas Pussy Riot que não apenas sofreram na pele as consequências dos seus gestos transgressivos – ano e meio nas cadeias do regime proto-fascista de Putin – mas, após a libertação (essencialmente, através da iniciativa de Nadya Tolokonnikova), não desistiram de manter-se permanentemente na ofensiva. Em particular, com uma brilhantíssima colecção online de videoclips: "Putin Will Teach You How To Love The Motherland" (pela libertação dos presos políticos), "I Can’t Breathe" (Nadya e Masha Alyokhina são sepultadas vivas com o uniforme da polícia de choque russa), "Refugees In" (uma performance na Dismaland – uma Disneyland transviada –, do "street artist", Banksy), "Chaika" (sobre o escândalo de corrupção do procurador geral russo, Yuri Chaika), "Straight Outta Vagina" (“Pussy is the new dick, ladies, oh bondage, up yours”), "Organs" (Nadya, num literal banho de sangue: “Shitfaced parliament bans condoms, agony, spasm, big bang of the falling down crown”) e "Make America Great Again" (uma Trumpland distópica). “Flowers in the dustbin, the poison in your human machine”.
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26 April 2016
The McLaren Westwood Gang
(aka Anarchy! The Last Revolution)
"Phil Strongman’s new documentary Anarchy! McLaren Westwood Gang is a politically-fueled, fashion-conscious deeper look at how the English punk explosion was ignited — how the bomb was built and under what circumstances, in other words. Coming in at almost two and a half hours with an incredible cast of characters, Anarchy! McLaren Westwood Gang traces Malcolm McClaren back to his birth with loads of never before seen films and photos, personal information and interviews with family members, friends and others, taking us into the all important mid-sixties where the real nucleus of the Sex Pistols concept begins to form within the Situationist movement, King Mob (the UK equivalent), art school and observing the tribal customs and costumes of rock ‘n roll fanaticism (...)" (aqui)
13 April 2016
NOT DEAD?
O caldo de cultura dos irmãos David e Stuart Wise era o Situacionismo de Debord e Vaneigem, vitaminado pelo niilismo estético radical de Pisarev e pelo anarquismo norte americano do “Black Mask” de Ben Morea e dos UAW/MF (Up Against the Wall Motherfuckers), também inspirador dos Yippies de Abbie Hoffman, Jerry Rubin, Phil Ochs e John Sinclair – inserir aqui derivação para o White Panther Party – e da guerrilha urbana dos Weathermen. Foi aí que, em Londres, entre o final de 60 e início de 70 do século passado, ao cuidado dos Wise, germinou o colectivo insurreccional King Mob, semente de inúmeras acções de choque como a ocupação selvagem de espaços públicos e universidades, a publicação de listas de celebridades a abater, a vandalização de cadeias de "fast food", as campanhas de panfletos de BD "détournée" e graffiti – o mais célebre: “Same thing day after day - tube - work - dinner - work - tube - armchair - TV - sleep - tube - work - how much more can you take? - one in ten goes mad, one in five cracks up” – ou a distribuição gratuita de brinquedos no Selfridges por um Pai Natal delinquentemente generoso. Em 1978, David Wise escreveria The End Of Music acerca do incêndio punk (em fase de rescaldo mas ainda activo) no qual tivera papel destacado um tal Malcolm McLaren, “inventor” dos Sex Pistols e, pouco tempo antes, um dos activistas da operação Selfridges.
Há três semanas, Joe Corré, fiho de McLaren e Vivienne Westwood, na boa tradição familiar, fez explodir outra bomba: perante a declaração – por iniciativa do British Film Institute, British Library, Design Museum, Museum of London, Photographers' Gallery, Rough Trade e Roundhouse – de 2016 como o “Year of Punk”, anunciou que, a 26 de Novembro, em Camden, por ocasião do 40º aniversário de "Anarchy in The UK", dos Pistols, lançará fogo à sua colecção de memorabilia punk, no valor de 5 milhões de libras, declarando “O punk transformou-se numa peça de museu. As pessoas estão anestesiadas, sentem que já não têm uma voz. Desistiram de lutar por aquilo em que acreditam. Temos de rebentar com esta merda toda outra vez!” Os ventos, porém, não estão de feição para os “gangsters of the new freedom” e é assaz duvidoso que venha a encontrar muitos aliados: do lado de lá do Atlântico, no Queens Museum, de Nova Iorque, entre 10 de Abril e 31 de Julho, será exibida a exposição “Hey! Ho! Let’s Go: Ramones and the Birth of Punk”. Punk’s not dead?
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12 February 2009
SO WRONG IT'S RIGHT

Too many of my columns here at Playground may have seemed to give the impression that pop music is over. Today I want to talk about what can save the medium and give it a future. It's slightly paradoxical, but I believe that pop can be saved by sounding broken. Pop can be saved by sounding wrong. Too much pop sounds too right too soon. The reason it sounds right is that it reminds us of something we've heard and accepted before. And the reason pop sounds initially wrong is that it's like nothing we've ever heard before. This "shock of the wrong" is incredibly important, because it's the most immediate indicator of a search for a new grammar and a new syntax in pop music.
That search must go forward if pop is to remain vital. Music has become so right it's wrong; it must become so wrong it's right. When I say "so right it's wrong" I mean that professionalism and production technology have made it very easy to achieve a certain kind of gloss and power - I call it "easy power". There are rock and pop colleges now where students learn the accepted and acceptable way to engineer and produce and play and sing on records. YouTube is full of musical experts teaching guitar and drum technique. These people are all so right they're wrong. Their advice must be ignored. Instead, we need to listen to people so wrong they're right. (...)

My most recent impressions of interesting wrongness have come from the Japanese artists I've called Matsuri-kei. Another revelation came when I heard a London band called No Bra. The song "Doherfuckher" is all out of time, shoddily recorded, uses an auto-accompaniment keyboard with cheap sounds, has odd lyrics and random-sounding backing vocals. And yet all these "errors" somehow become assets; the voice has something vulnerable and intimate about it, and the failure to develop the arrangement only adds to the track's authenticity and emotional directness. Here's No Bra's "She Was A Butcher" - less shockingly wrong than "Doherfuckher", but still startling. Check the abrupt ending, which sounds like a mistake:
The wrongness of popular music isn't confined to unprofessional or startling sound; it also has to include the personal morals of its creators and distributors. Malcolm McLaren has spoken often of the importance of delinquency and crime in rock's history; rock was the music of gangs and hooligans, distributed by underground cabals of business criminals and mafiosi. When that history of illegitimacy gets replaced by rock colleges and meetings with prime ministers, everything is upside down.
You can hear McLaren talking about the criminal rackets behind the Juke Box networks of the 1950s in this radio documentary. But be aware that I'm encouraging you to do something "wrong" here - to download an illegal torrent via a dubious file-sharing service. And that brings us to the criminal prosecutions by the RIAA of music fans in America who are caught file sharing. You can see these prosecutions in two ways. Either the RIAA, in their over-zealous attempts to enforce copyright and protect music industry professionals, are doing something so right it's wrong - criminalizing the very people the music industry depends upon, its audience - or they're doing something so wrong it's right: restoring a life-giving illegitimacy and danger to a medium which has become, in recent years, far too legitimate and far too safe for its own good. (post integral aqui)
(2009)
Too many of my columns here at Playground may have seemed to give the impression that pop music is over. Today I want to talk about what can save the medium and give it a future. It's slightly paradoxical, but I believe that pop can be saved by sounding broken. Pop can be saved by sounding wrong. Too much pop sounds too right too soon. The reason it sounds right is that it reminds us of something we've heard and accepted before. And the reason pop sounds initially wrong is that it's like nothing we've ever heard before. This "shock of the wrong" is incredibly important, because it's the most immediate indicator of a search for a new grammar and a new syntax in pop music.
That search must go forward if pop is to remain vital. Music has become so right it's wrong; it must become so wrong it's right. When I say "so right it's wrong" I mean that professionalism and production technology have made it very easy to achieve a certain kind of gloss and power - I call it "easy power". There are rock and pop colleges now where students learn the accepted and acceptable way to engineer and produce and play and sing on records. YouTube is full of musical experts teaching guitar and drum technique. These people are all so right they're wrong. Their advice must be ignored. Instead, we need to listen to people so wrong they're right. (...)
My most recent impressions of interesting wrongness have come from the Japanese artists I've called Matsuri-kei. Another revelation came when I heard a London band called No Bra. The song "Doherfuckher" is all out of time, shoddily recorded, uses an auto-accompaniment keyboard with cheap sounds, has odd lyrics and random-sounding backing vocals. And yet all these "errors" somehow become assets; the voice has something vulnerable and intimate about it, and the failure to develop the arrangement only adds to the track's authenticity and emotional directness. Here's No Bra's "She Was A Butcher" - less shockingly wrong than "Doherfuckher", but still startling. Check the abrupt ending, which sounds like a mistake:
The wrongness of popular music isn't confined to unprofessional or startling sound; it also has to include the personal morals of its creators and distributors. Malcolm McLaren has spoken often of the importance of delinquency and crime in rock's history; rock was the music of gangs and hooligans, distributed by underground cabals of business criminals and mafiosi. When that history of illegitimacy gets replaced by rock colleges and meetings with prime ministers, everything is upside down.
You can hear McLaren talking about the criminal rackets behind the Juke Box networks of the 1950s in this radio documentary. But be aware that I'm encouraging you to do something "wrong" here - to download an illegal torrent via a dubious file-sharing service. And that brings us to the criminal prosecutions by the RIAA of music fans in America who are caught file sharing. You can see these prosecutions in two ways. Either the RIAA, in their over-zealous attempts to enforce copyright and protect music industry professionals, are doing something so right it's wrong - criminalizing the very people the music industry depends upon, its audience - or they're doing something so wrong it's right: restoring a life-giving illegitimacy and danger to a medium which has become, in recent years, far too legitimate and far too safe for its own good. (post integral aqui)
(2009)
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18 February 2008
28 October 2007
O NOJO E A FÚRIA
PROTAGONISTAS
Malcolm McLaren – Bisneto de judeus Sefarditas portugueses, seguiu o percurso canónico do jovem rebelde-de-classe-média, via-escolas de Arte e insurreições avulsas associadas (Maio de 68 à distância, Situacionistas, glam-rock novaiorquino). Virgem aos vinte anos, foi Vivienne Westwood quem se empenhou – um tanto contra a vontade dele – em lhe modificar a condição,
Jamie Reid – Em 1976, Malcolm McLaren enviou um telegrama ao seu ex-colega do Croydon College of Art,
Johnny Rotten/Lydon – Descendente
Sid Vicious – O artigo genuíno em matéria de “bad boy”. Nascido John Simon Ritchie de uma mãe “drug dealer” em Ibiza, foi Rotten/Lydon quem o rebaptizou por lhe parecer existirem demasiados “Johns” à sua volta.
NEVER MIND THE BOLLOCKS
Teve uma versão “bootleg” anterior à data de publicação oficial (28 de Outubro de 1977) intitulada Spunk. Produzido por Chris Thomas (anteriormente, trabalhara com os Roxy Music, Procol Harum, John Cale e… Pink Floyd), era uma cacofonia deliberadamente primária (“Não me interessa a música, o caos é o que importa” – Johnny Rotten) e um ninho de víboras verbal : “God save the queen, the fascist regime, they made you a moron, potential H-bomb, God save the queen, she ain't no human being, there is no future, in England's dreaming” ou “I am an antichrist, I am an anarchist, dont know what I want but I know how to get it, I wanna destroy the passer by ‘cause I wanna be anarchy” definiram uma justíssima reputação blasfema e reforçaram um currículo confrontacional com editoras, cadeias de distribuição discográfica, o Estado e a monarquia. Desde então, nunca mais largou os lugares cimeiros de todas as votações de “all time best albums”.
ANTECEDENTES
MC5, The Stooges, New York Dolls, The Seeds, Ramones, The Kingsmen, Can, Roxy Music, The Pretty Things, garage-rock, reggae.
MC5 -"Kick Out The Jams"
DEFINIÇÃO
“Punk”: rufião, vadio, fedelho, bandido (“Go ahead, punk, make my day” – Clint Eastwood/Dirty Harry em Sudden Impact). Termo utilizado, em 1972, por Lenny Kaye na compilação Nuggets para definir o garage-rock.
ESTÉTICA
“Isto é um acorde... isto é outro... ainda um terceiro... Agora, forma uma banda” (do fanzine “Sideburns”, ilustrado com os acordes de Lá, Mi e Sol, de Dezembro de 1976)
APÓSTOLOS, HERÉTICOS E INIMIGOS
“Por um lado, Johnny Rotten/Lydon é um insecto zumbindo sobre as ruínas em massa de uma civilização arrasada por si mesma, o que, suponho, o justifica nesse papel. Por outro, é apenas mais um traficante de niilismo barato com tudo o que isso implica – racismo idiota, sexismo, etc. Vivo rodeado por psicóticos. Muitas vezes, suspeito ser um deles. É então que certos discos aparecem e percebo que não estou sozinho”.
“A questão, caro leitor, é que muito daquilo a que se chama punk reduz-se a dizer ‘eu não presto’, ‘tu não prestas’, ‘o mundo não presta’ e ‘estamo-nos nas tintas para isso’ – o que é… digamos… insuficiente. Não me perguntem porquê, sou apenas um observador. Mas qualquer observador poderá dizer que, se quisermos pôr as coisas em termos de Nós vs. Eles, dizer o que acima escrevi é exactamente o que Eles pretendem que Nós façamos, não passa de uma capitulação”. (Lester Bangs)
“Os punks eram feios. Sem quaisquer mediações. Um alfinete-de-ama de 25 centímetros que atravessa o lábio inferior e se cruza com uma suástica tatuada na bochecha não é uma afirmação de moda: um fã que enfia os dedos pela garganta para vomitar sobre as mãos e, depois, cospe o vómito sobre quem se encontra em cima do palco está a disseminar uma doença. Uma camada espessa de maquilhagem negra era uma sugestão de morte mais do que qualquer outra coisa. (…) Eles eram gordos, anorécticos, com marcas de bexigas e de acne, gaguejavam, eram aleijados, tinham cicatrizes, eram disformes e o que os seus adereços sublinhavam era o falhanço já carimbado sobre os seus rostos. De certo modo, os Sex Pistols permitiram-lhes aparecer em público como seres humanos, exibindo as suas mazelas como factos sociais”.
“Nada disto foi accidental porque Malcolm McLaren e Jamie Reid (que eram o Coronel Parker com educação universitária deste movimento) conheciam o Situacionismo e, de um modo errático, tinham estudado as políticas artísticas niilistas europeias até ao século XIX. Sabiam que a arquitectura podia ser tão repressiva como a lei. Acreditavam que a música que as pessoas ouviam todos os dias exercia um efeito tão grande sobre elas como aquilo que aprendiam na escola. Encaravam os discos como uma forma de desmontar conceitos que não eram postos em causa e que eram utilizados para assegurar a coesão social. Não penso que vissem os discos, as canções e os espectáculos como uma forma de mudar o mundo. Era mais como um atentado: ‘Vamos fazer explodir uma bomba e ver o que acontece’”.(Greil Marcus)
“Senti-me sujo durante 48 horas” (membro do Greater London Council, após um concerto dos Sex Pistols, in “New Musical Express” de 18 de Julho de 1977)
“Quando ouvimos ‘Anarchy In The UK’, dos Sex Pistols, o que imediatamente nos prende a atenção é que isto está realmente a acontecer! Isto é um tipo com a cabeça em cima dos ombros que, na verdade, está a dizer algo que sinceramente acredita estar a acontecer no mundo. E di-lo com veneno, com paixão autêntica. Toca-nos e assusta-nos – faz-nos sentir desconfortáveis. É como se alguém dissesse ‘Vêm aí os alemães e não há maneira de os fazer parar!’” (Pete Townshend/The Who)
ÓBITO
“Punk rock died when the first kid said ‘punk's not dead’” (David Berman/Silver Jews, in “Tenessee” de Bright Flight, 2001)
O MUNDO À VOLTA
20 de Janeiro – Jimmy Carter sucede a Gerald Ford como 19º Presidente dos EUA.
28 de Março – Através do embaixador Siqueira Freire, Portugal formalizou o seu pedido de adesão às Comunidades Europeias.
26 de Abril – A lendária discoteca novaiorquina “Studio 54” abre as portas.
28 de Abril – Um tribunal de Estugarda condena Andreas Baader, Gudrun Ensslin e Jan-Carl Raspe, elementos do grupo terrorista Facção do Exército Vermelho, a pena de prisão perpétua; seis meses depois, a 18 de Outubro, os três suicidam-se na prisão de Stammheim.
14 de Maio – No Hotel Ritz, a RTP organiza uma festa de lançamento da telenovela brasileira Gabriela, Cravo e Canela onde actuam Vinicius de Morais, Toquinho, Maria Creuza e um quarteto instrumental. O primeiro episódio será emitido dois dias depois e o último a 16 de Novembro. Nesse ano, existem, em Portugal, 150 aparelhos de televisão por cada mil habitantes.
5 de Junho – O primeiro computador Apple II é colocado à venda.
15 de Junho – Têm lugar as primeiras eleições democráticas em Espanha, após 41 anos de regime franquista.
13 de Julho – O grande apagão de Nova Iorque deixa a cidade sem energia eléctrica durante 25 horas, dando origem a inúmeros saques, assaltos e desordens – este acontecimento, tal como os assassínios em série de David Berkowitz (que será preso a 10 de Agosto), conhecido como “Son Of Sam”, figurarão no argumento de Verão Escaldante/Summer Of Sam, filme de Spike Lee (1999).
22 de Julho – O “Bando dos Quatro”, grupo dirigente da Revolução Cultural Chinesa, é expulso do PC da China e Deng Xiao Ping regressa ao poder.
NASCIDOS EM 1977
13 de Janeiro – Orlando Bloom, actor britânico
2 de Fevereiro – Shakira, cantora colombiana
8 de Junho – Kanye West, rapper e produtor musical norte-americano
1 de Julho – Liv Tyler, actriz norte-americana
17 de Julho – M.I.A., cantora e música britânica
17 de Agosto – Thierry Henry, futebolista francês
13 de Setembro – Fiona Apple, cantora e compositora norte-americana
MORTOS EM 1977
2 de Janeiro – Erroll Garner, pianista e compositor de jazz norte-americano
14 de Janeiro - Anaïs Nin, escitora francesa
26 de Fevereiro – Bukka White, bluesman norte-americano
10 de Maio – Joan Crawford, actriz norte-americana
2 de Julho – Vladimir Nabokov, escritor de origem russa
16 de Agosto – Elvis Presley, cantor norte-americano
19 de Agosto – Groucho Marx, actor cómico norte-americano
12 de Setembro – Steve Biko, activista do movimento de libertação sul-africano
13 de Setembro – Leopold Stokowski, maestro britânico de origem polaca
16 de Setembro – Marc Bolan, músico e compositor britânico; Maria Callas, cantora lírica norte-americana de origem grega
14 de Outubro – Bing Crosby, cantor e actor norte-americano
5 de Novembro – René Goscinny, autor francês da banda desenhada Asterix
5 de Dezembro – Roland Kirk, músico multi-instrumentalista de jazz norte-americano
19 de Dezembro – Jacques Tourneur, realizador de cinema francês
25 de Dezembro – Charlie Chaplin, realizador e actor britânico
FILMES ESTREADOS EM 1977
Guerra das Estrelas – George Lucas
Encontros Imediatos de 3º Grau – Steven Spielberg
Annie Hall – Woody Allen
Eraserhead – David Lynch
A Febre de Sábado à Noite – John Badham
Suspiria – Dario Argento
New York, New York – Martin Scorsese
The Spy Who Loved Me/Agente Irresistível (James Bond) – Lewis Gilbert
Este Obscuro Objecto do Desejo – Luis Buñuel
O Amigo Americano – Wim Wenders
O Homem que Gostava das Mulheres – François Truffaut
ÁLBUNS PUBLICADOS EM 1977
Animals - Pink Floyd
Plastic Letters - Blondie
Chic - Chic
The Clash - The Clash
Exodus - Bob Marley & The Wailers
Heroes e Low - David Bowie
The Idiot e Lust For Life - Iggy Pop
Let There Be Rock - AC/DC
Little Criminals - Randy Newman
Marquee Moon - Television
Pink Flag - Wire
Motörhead - Motörhead
My Aim Is True - Elvis Costello
No More Heroes e Rattus Norvegicus- Stranglers
Peter Gabriel - Peter Gabriel
Rendez Vous - Sandy Denny
Rocket To Russia - Ramones
Saw Delight - Can
Songs From The Wood - Jethro Tull
Talking Heads: 77 - Talking Heads
Trans Europe Express - Kraftwerk
Suicide - Suicide
Rumours - Fleetwood Mac
(2007)
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