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27 April 2021

Dry Cleaning - "Oblivion" (Grimes)
 
(sequência daqui) Mas o que era, na verdade, aquilo a que se convencionou chamar “o som 4AD”, o qual, mesmo antes de comprarmos um álbum, podíamos, de certa maneira, antecipar? “Não me parece que a 4AD fosse assim tão diferente de outras como a Mute, a Factory, Rough Trade ou Cherry Red. Isso valia apenas para alguma música. A maior banda da 4AD, os Pixies, não se encaixava nessa matriz sonora em que temos tendência para pensar. É um grande tema de reflexão que não cabe numa peça jornalística mas penso que a 4AD era muito mais variada do que se supõe. Quando se afirma que a editora, nos anos 80, tinha uma sonoridade muito própria, é apenas verdade até certo ponto, não na totalidade. Isso resulta do modo como tendemos a encarar o passado: mesmo quando essa percepção não corresponde à realidade, a memória que dele construimos substitui a realidade”. No entanto, ainda que os Cocteau Twins não fossem os Pixies e os Dead Can Dance nada tivessem a ver com as Breeders, poder-se-ia, ainda assim, desenhar um retrato-robot da típica banda 4AD? “Nessa percepção da editora, eu diria que a clássica banda-4AD foram, realmente, os Cocteau Twins. Os Dead Can Dance também, por aquela sensação de alargamento do horizonte, de assombro... É assim que a maioria das pessoas continua a ver a 4AD. Porque, nos anos 90, falavam dela mas, na verdade, não a conheciam. Apenas identificavam a estética das capas e os Cocteau Twins. Passa-se o mesmo com a Factory: sobreviveu a música dos Joy Division e a ideia de tratar-se de um bando de gente infeliz de Manchester mas esqueceram-se as toneladas de lixo que publicaram. As pessoas gostam de olhar para as memórias do passado e acreditar que tiveram um significado importante. E de imaginar um passado que foi muito melhor do que o presente”. (segue para aqui)

26 May 2020

O AZUL DISTANTE


Quando, no dia seguinte a ter estado presente numa reunião da Socialist League, William Guest acorda, descobre-se, inesperadamente, num mundo maravilhoso onde não existem propriedade privada, sistema monetário, tribunais, casamentos, prisões, nem autoridade, e toda a estrutura social assenta na propriedade comum dos meios de produção. Porém, tal estado de felicidade não se atingira através da industrialização e do progresso tecnológico que libertaria a humanidade do pesado fardo do trabalho mas pelo regresso a uma idílica sociedade agrária respeitadora da natureza, na qual toda a actividade deveria ser livre, criativa e fonte de prazer. Durante a sua deslumbrada viagem de barco pelas águas límpidas do Tamisa, vai descobrindo igualmente que a Hammersmith Bridge que sempre conhecera feita de aço fora substituida por outra, em pedra, mais bela que a Ponte Vecchio de Florença, o barqueiro que o conduz veste-se à maneira do século XIV, a fétida Manchester fora apagada do mapa, e, de um modo geral, tudo à sua volta se parecia com uma tela de Bruegel. 

Muito resumidamente, é este o enredo, situado em 2102, de News From Nowhere (1890), o romance de ficção política do escritor, socialista e figura central do movimento Arts & Crafts, William Morris, que, em Electric Eden, Rob Young cita, observando: “A mente britânica, até certo ponto, não parece ser capaz de imaginar o futuro senão sob a forma do passado”. Justamente aquilo que poderia dizer-se acerca de The Weight of the Sun, terceiro tomo do quarteto Modern Studies. O que, no caso, não é sequer depreciativo: essencialmente pastoral e bucólico, o álbum da banda de Emily Scott, Rob St. John, Joe Smillie e Pete Harvey (gente com pedigree do conservatório, ao rock, à folk, e à "sound art"), gerado entre o Lancashire e a Escócia, não fecha as portas ao presente mas, na sua equação de “classicismo e experimentalismo com uma canção pop no meio”, escutam-se distintamente ecos dos Fairport Convention (revistos pelos Stereolab), dos Velvet Undergound ("Sweet Jane" a viver numa eterna "Sunday Morning") ou do "chiaroscuro" dos Elysian Fields e Mazzy Star. Uma folk de câmara, outonal e suavemente psicadélica, impressionista e de harmonias tangenciais, a dar corpo às palavras de Rebecca Solnit que, em "The Blue Of Distance", evocam: “The world is blue at its edges and in its depths. This blue is the light that got lost”.

13 November 2015

British Sea Power - "Carrion" 
(no Observatório de Jodrell Bank)
 

15 February 2012

O MUNDO NÃO PRECISA DE MAIS UMAS CASSETES MANHOSAS DOS JOY DIVISION, MAS 1,3 MILHÕES DE EUROS DÃO MUITO JEITO

Gravações raras dos Joy Division encontradas na cave do novo restaurante de Jamie Oliver: "Nas obras de remodelação de um novo restaurante em Manchester, em Inglaterra, o chef britânico encontrou vários cofres, com jóias, dinheiro, armas e, nada mais nada menos que, cassetes com gravações raras dos Joy Division e dos New Order. O valor total do achado é de 1,1 milhão de libras (cerca de 1,3 milhões de euros)".



(2012)

05 October 2011

O UNIVERSO E TUDO À VOLTA



A intenção seria simplificar mas Biophilia, o oitavo álbum de estúdio de Björk, transformou-se numa desmedida “meditação sobre a música, a natureza e a tecnologia” que, recorrendo à Internet, instalações, iPad, jogos, partituras, alegorias visuais interactivas, concepção de novos instrumentos, David Attenborough (sim, esse mesmo) e à possibilidade de o utilizador modificar os próprios temas, não anda muito longe do que a sua criadora – quase parafraseando involuntariamente Douglas Adams – admite ser um ensaio sobre “life, the universe and everything”. Apresentado na qualidade de embrião ainda em processo (ininterrupto) de gestação no Manchester International Festival de Julho passado, foi lá que a ouvimos explicar em detalhe como decidiu começar tudo de novo.

Em todo este seu projecto que concebeu como uma exploração multimédia do universo, da natureza, da música e da tecnologia, e acerca da forma como o som se relaciona com tudo isto, com toda uma enorme diversidade de possibilidades e aplicações, nunca receou estar a oferecer uma quantidade demasiado grande de informação para o público actual?
Antes de mais, parece-me que existe uma contradição no interior deste projecto. O meu objectivo era simplificar as coisas e não complicá-las. Esta é uma primeira resposta à sua pergunta. Estava no final do meu contrato com a editora, portanto, livre. A situação que se vivia na Islândia, o facto de todos os velhos sistemas terem entrado em colapso, também mexia comigo. Por questões de defesa ambiental, tinha-me, igualmente, envolvido bastante em iniciativas que procuravam encorajar as pessoas a pensar que existem coisas mais importantes do que construir mais umas quantas fábricas de alumínio. Por outro lado, de um ponto de vista pessoal, na última tournée, fiquei sem voz o que me obrigou a fazer exercícios diariamente, consultar médicos, professores de técnica vocal, preocupar-me com a dieta... Portanto, tudo o que antes funcionava bem, pura e simplesmente tinha deixado de funcionar! (risos) Entretanto, à minha volta, só ouvia gente a queixar-se de que a indústria discográfica, com todos os problemas da pirataria, tinha chegado ao fim. Tomei, então, uma decisão: ok, se já nada funciona, há que deitar fora tudo o que está em cima da mesa e simplificar. Não podemos continuar a fazer as coisas como há dez ou vinte anos, temos de descobrir o que funciona agora. Os touchscreens tinham-me interessado muito, pareciam-me um enorme avanço a diversos níveis, por isso, de certo modo, esta foi a minha porta de entrada neste projecto. Porque, pelo menos, entre os 5 e os 15 anos, fui uma aluna de música frustrada – era um ensino demasiado académico e eu preferia que ele tivesse sido mais intuitivo –, sempre sonhei criar uma escola de música.



Mas de que forma os touchscreens poderiam ser uma via de acesso a essa relação mais intuitiva com a música?
Através dos touchscreens, apercebi-me de que talvez pudesse recuperar uma forma mais natural de lidar com as estruturas musicais: um compasso não tem de ser obrigatoriamente 4/4, pode ser 5/4 ou 11/4 sem que isso se transforme, inevitavelmente, num assunto friamente matemático. Por isso, quando me familiarizei com os touchscreens, pensei logo: não vamos apenas brincar com isto, vamos compor! Podia conceber um programa diferente para cada canção, baseando cada uma num elemento diferente da natureza, abordando-o, ao mesmo tempo, sob um ângulo emocional e musicológico. Enquanto trabalhava nisto, colaborava também com amigos na Islândia que se dedicavam à criação de empresas "startup", sem nos apercebermos realmente de que esse espírito pioneiro, muito "low budget" e DIY, nos estava a contagiar uns aos outros. Ao fim de alguns meses, pensei que talvez pudesse tirar partido de um dos muitos edifícios desocupados que existem na Islândia e localizar cada canção num espaço diferente: um seria reservado à canção do relâmpago ("Thunderbolt"), outro à da lua-cheia ("Moon") que, controlariam, cada um, a estrutura das canções. Este foi o ponto de partida que acabou por não funcionar mas não desisti. Nessa altura, a National Geographic fez-me também uma proposta que, à partida, me entusiasmou mas que, embora isso possa ainda vir a acontecer, não se concretizou. Durante estes dois anos, no entanto, as ideias tinham amadurecido e, quando surgiu o iPad, dei-me conta de que tinha encontrado o meu suporte natural. O problema é que, justamente quando eu procurava simplificar tudo – dizia, por exemplo, “reparem, os arpejos não nada muito complicado, são como relâmpagos” – ao escrever sobre isso para os "press releases", tornava-se, outra vez, académico e, no papel, extremamente complicado!... (risos) Era como se estivesse a elaborar um projecto sobre o Universo e tudo à volta! Se quisermos explicar a uma criança como se propaga o som numa sala, não é muito diferente do que se passa com os átomos, os planetas ou numa mesa de bilhar. E a música pode ser capaz de reunir esse lado mais científico e matemático com o outro mais emocional. O motivo porque, neste projecto, existe uma canção sobre o sistema solar, outra sobre vírus e outra sobre o DNA é porque o modo como nos movemos é semelhante ao do som.



Li algures que este seu projecto é algo que poderia ser comparado ao nascimento do cinema ou da ópera pelo facto de englobar tantas áreas e formas de expressão e comunicação diferentes. Concorda?
Não!... Compreendo a intenção na medida em que a ópera, como o cinema, foram plataformas que chamaram a si diversas artes. Mas isto é também uma reacção contra o que muitos amigos me dizem acerca dos "downloads" estarem a matar a música. E eu digo-lhes que não, a música nunca dependeu do formato. Quando a rádio surgiu, também houve logo quem dissesse que nunca mais haveria concertos.

E o vídeo exterminaria o cinema e o eBook liquidaria o livro...
Exacto. Mas, no fim, há sempre quem continue a fazer música e quem deseje escutá-la. E aprendemos a adaptar os formatos anteriores aos novos: de certeza, que nas primeiras transmissões de música sinfónica pela rádio, o som era muito mau. Para mim, sempre se tratou de descobrir e sugerir soluções.



Em Retromania, o Simon Reynolds, em contraponto com a obssessão contemporânea dominante de reciclar infinitamente o passado, no último parágrafo cita-a como “uma das heróicas e isoladas figuras modernistas que remam contra a maré”. Sente-se, de facto, nesse papel?
Encaro isso como um elogio. Mas, sob diversos aspectos, acho que sou bastante conservadora embora as pessoas não se apercebam disso. Tenho as minhas raízes e, enquanto cantora, terei sempre a mesma voz, com todas as suas limitações. Claro que gostaria de poder ter uma voz diferente todos os dias e não precisar de ter cuidados com ela. Mas não posso. É aborrecido mas, ao mesmo tempo, dá-nos a dimensão exacta da nossa importância. Quando oiço dizer que já foram escritas todas as canções possíveis é como se dissessem que, a partir de hoje, todas as crianças que irão nascer serão iguais às anteriores. Se confiarmos na natureza, será muito mais difícil copiar do que não copiar.

Mas, como o vosso vulcão islandês nos confirmou, convém não confiar demasiado na natureza...
Em países como a Islândia e o Japão, tudo isso vem envolvido em mitos e lendas que falam da humildade em relação à natureza. É impossível construir sociedades totalmente separadas da natureza, cortar esse cordão. No Japão, existia o xintoísmo e, a seguir, chegou o budismo que não eliminou o xintoísmo, mas coexistiu com ele. Quando os cruzados chegaram à Islândia e pretendiam converter à força a população ao cristianismo, houve uma reunião no parlamento, e um dos líderes pagãos, Þorgeir Ljósvetningagoði, depois de dormir uma noite sob uma pele de carneiro, propôs uma solução: quando eles aqui chegarem, dizemos-lhes que já somos cristãos. Daí surgiu uma lei que ainda existe que autoriza que, em privado, cada um possa praticar a religião que quiser. É por isso que os cultos pagãos continuam a ser populares: é essencial não cortar a ligação com a natureza e aprender a colaborar.

(2011)

02 October 2011

CIDADES (XXXI) / CITY GHOSTS (LIII)

Manchester, Reino Unido, 2011











(2011)

01 September 2011

CIDADES (XXX)

Manchester, Reino Unido, Madonna del Rosario Procession, 3 de Julho de 2011











(2011)

21 July 2011

07 July 2011

06 July 2011

ALGUMAS SUGESTÕES ÚTEIS PARA A MOTIVAÇÃO
ACADÉMICA DOS ALUNOS DO ENSINO SUPERIOR






(clicar nas imagens para ampliar)

(2011)

23 November 2010

IDENTIDADES TROCADAS
 

München - Chaquiego
 
 

Peixe:Avião - Madrugada

Só pode ser um caso de personalidades trocadas. Porque, havendo que optar por um nome que se colasse como luva à mão para descrever a música dos autores de Chaquiego e Madrugada, muito mais facilmente se diria que o primeiro seria assinado por uma banda de nome Peixe:Avião e o outro por uns tais München. Confirma-se em absoluto: vivem-se tempos interessantes na música portuguesa e o facto de não ser exactamente intuitivo adivinhar a quem atribuir os documentos de identificação correctos é apenas mais um sintoma de que as coordenadas estéticas se encontram saudavelmente baralhadas e desalinhadas.

Prestemos, então, atenção a Chaquiego. Há quatro anos, Fala Mongue aterrava discretissimamente, qual tuna de selenitas em demanda daquela espécie de “surruralidade” de que terão ouvido Tom Waits falar, numa emissão de rádio captada, por acidente, a 384.405 quilómetros de distância. Eles mesmos preferem aludir a “mecanismos de precisão enferrujados, cordas em desuso e percussões em multiusos”, num processo deliberado de “confundir próprios e alheios”.



João Nicolau (que também realiza filmes com barcos de piratas tecnológicos, caleidoscópios felinos e personagens que praguejam "Holy Santa Maria fuck!" enquanto actuam de acordo com o lema, "sonho, amor, arte, ciência, literatura, música, tecnologia, café e rum" – falo do recente A Espada e A Rosa exibido no festival de Veneza), Mariana Ricardo (que, com Nicolau, recentemente sonorizou “The Secret Museum of Mankind”, uma singularidade fotográfica de 1935) e restante trupe de variabilíssima geometria reincidem, pois, agora, soltando o dirigível baptizado Chaquiego, programa de legos sonoros em défice de peças, de valses-musettes interpretadas por mendigos ébrios da Transnístria, de canções de roda para infantes com cometas encravados na garganta, de cerimónias tribais dos pigmeus do jardim das Hespérides. Aquele género de música que, sem se esforçar demasiado, Alexandre O’Neil poderia ter definido como “em forma de assim”. Ou, empenhando-se um pouco mais, “em forma de peixe:avião”.



Madrugada, cujos autores, frequente e equivocadamente (desde 40:02, de 2008), se têm visto visto associados à descendência-Radiohead, é objecto francamente urbano. E muito mais daquela urbanidade musical – mesmo que eles não se apercebam disso – com que o mundo travou conhecimento há vinte e tal anos, fruto de sismo estético com epicentro no eixo-Manchester-Liverpool. Quase invisível e subliminarmente, contaminada igualmente pelas réplicas locais tal como a Sétima Legião, na altura, as registou, ocorrência só neste momento, porém, de consequências verificáveis, mais a Norte, em Braga. O que, com tal perfil (para mais, enriquecido e amplificado pelas participações de Manuela Azevedo, dos Clã, e de Bernardo Sassetti) seria coisa para se imaginar criada por uma agremiação a quem um nome geograficamente definido vestiria bem. Como Warsaw. Ou Portishead. Ou Beirut. Ou München.

16 November 2007

MANCHESTER NUNCA EXISTIU



24 Hour Party People - realização de Michael Winterbottom

Manchester, como se sabe, não existe. E o mesmo se passa, evidentemente, com Bristol, Seattle, Berlim, Glasgow ou Reikjavik. Quero dizer, enquanto "centros produtores" e "origem" de "um som" ou de "uma cena", todas elas foram criações dos media e da indústria discográfica, sempre ávidos de desencantar a novidade seguinte e de a impôr através da estratégia de marketing ("o som de") mais rápida e mais rapidamente rentável. Não é preciso ser bruxo para adivinhar que os músicos de Bristol não soam todos como, um dia, a meio dos anos 90, os Portishead sonharam ou que todas as bandas de Seattle não juram pela matriz dos Nirvana. E em Manchester — tanto na versão "early eighties"/Joy Division/Durutti Column/A Certain Ratio como na posterior Madchester/Happy Mondays/Stone Roses — também não há nada de peculiar na água que ponha todos os seus músicos a tocar os dós, os rés e os mis da mesma forma. Simplesmente, aqui e ali, um ou outro caçador de talentos, produtor ou responsável editorial mais astuto detectou a tempo a diferença emergente e a máfia do "hype" tratou do resto.



24 Hour Party People conta a história de como isso aconteceu em Manchester sob os auspícios de Tony Wilson, da sua editora Factory e do clube Haçienda mas fá-lo de uma forma tal que — caso se desconheça a história real — deixa imaginar que tudo aquilo decorreu numa região geográfica isolada do restante universo onde aqueles que o filme apresenta, não coexistiriam, ao mesmo tempo, por exemplo, com os Echo & The Bunnymen, Sound, Comsat Angels, Bush Tetras, Rip Rig & Panic, Theoretical Girls, Cabaret Voltaire, Gang Of Four, Talking Heads, This Heat, ou The Feelies: segundo a versão de Michael Winterbottom, Manchester só começou a existir no final da década de 70 e só voltou a reemergir no final da seguinte, tudo se deveu a Tony Wilson e à Factory e o resto do mundo (o próprio resto do Reino Unido...) assistiu deslumbrado e sem qualquer espécie de contribuição. Talvez um pouco mais tolo ainda é que todo o desenrolar da narrativa se fique pelos "fait divers", pelos lugares mais comuns e pela anedota da época: Joy Division e New Order seriam ou não alusões nazis, Shaun Ryder e os Mondays conseguiam, sozinhos, esgotar o stock de dez farmácias (e as drogas, não é verdade? dão cabo de tudo), Martin Hannett não batia bem, se não fossem os Sex Pistols nada disto tinha acontecido e, na boa e velha tradição rock'n'roll, as mulheres são "a good shag", troféus de caça ou, pura e simplesmente, putas que podem acumular ou não essa função com a de "backing singers". Com mais ou menos ironia e distanciamento "pós-modernos" (e como isso já soa irremediavelmente datado e francamente metido a martelo!), saber o que representou a música de Ian Curtis, de Vini Reilly, dos Magazine, The Fall ou A Certain Ratio no panorama da pop britânica e mundial seria pedir claramente demais ao filme de Michael Winterbottom. Ele só quer contar umas piadas "cool" e, às vezes (mas só às vezes...), até tem graça. (2002)

15 November 2007

CONTROLO REMOTO


Ian Curtis, 18 de Maio de 1980. Martin Hannett, 18 de Abril de 1991. Rob Gretton, 15 de Maio de 1999. Tony Wilson, 10 de Agosto de 2007. A lista dos nomes de praticamente todas as personagens que orbitaram em torno dos Joy Division, num período de vinte e tal anos, lê-se como uma página de necrologia. Paira, sem dúvida, uma sombra de morte muito negra – dir-se-ia quase uma maldição – sobre a história de uma banda que, como muito poucas outras, sempre pareceu atraír para si mesma aquela atmosfera que, na linguagem estereotipada dos arquivistas musicais, ficou conhecida como “urbano-depressiva”. A verdade é que nem esse carimbo nem o de “pós-punk” chegam para explicar tanto o estatuto lendário que o quarteto de Manchester – Ian Curtis, Peter Hook, Stephen Morris, Bernard Sumner –, logo a seguir à sua extinção, em 1980, e, desde então até hoje, adquiriu, como as razões para que, durante a sua existência, nunca tivesse ultrapassado a dimensão de culto razoavelmente marginal.



Pode pôr-se em cima da mesa o caso equiparável dos Velvet Underground – o tal grupo que apenas uns escassos milhares, à época, escutaram, mas que (de acordo com o mito) todos os que o fizeram trataram de formar imediatamente uma banda – e, nesse exercício de comparação, os Joy Division até sairão beneficiados: embora só postumamente, “Love Will Tear Us Apart” chegou ao 13º lugar da tabela de singles britânica e Closer entrou no top-10 de álbuns. Mas é preciso recordar também que o público mais vasto que alguma vez os viu em palco – a 31 de Agosto de 1979, no Electric Ballroom de Londres – não contava mais de 1200 pessoas. Apesar de tudo, um considerável progresso relativamente à sua estreia londrina do ano anterior, a 27 de Dezembro, no Hope And Anchor, de Islington, onde apenas foram vendidos 30 bilhetes ao preço de saldo de 60 pence.


Nunca actuaram nos EUA (na véspera da sua primeira digressão norte-americana, Ian Curtis suicidar-se-ia, por enforcamento, no nº 77 de Barton Street, Macclesfield, nos subúrbios de Manchester – a condição de “lugar sagrado” não lhe aumentou o valor de mercado: foi colocado à venda por 64.950₤) e, fora do Reino Unido, apresentaram-se apenas onze vezes (seis na Holanda, duas na Bélgica, duas na Alemanha e uma em França) e sempre em locais de reduzida dimensão como o Paradiso de Amsterdão, no qual, por ausência da banda que deveria fazer a primeira parte, aceitaram dar dois concertos pelo cachet de um só. E, se deixaram descendência estética, imediatamente após o óbito (o eixo Comsat Angels/A Certain Ratio/Sound/Cure/Bunnymen e todo o arquipélago Manchester-Liverpool-Sheffield à volta – a melhor de todas, porém: A Um Deus Desconhecido, da Sétima Legião) e contemporaneamente (Interpol, Editors, She Wants Revenge), ela também não foi, de modo nenhum, dominante nem deu sequer origem a qualquer veio persistente na pop das últimas décadas.



Qual foi, então, a singularidade que criou o mito-Joy Division? Muito possivelmente, encontramo-la no ponto de intersecção de várias outras: Manchester, Tony Wilson/Factory, Peter Saville, Martin Hannett e, inevitavelmente, a personalidade-Ian Curtis. Quando, em 1979, Anton Corbijn viajou da Holanda para Inglaterra com o objectivo de estar próximo da banda e fotografá-la, o que mais o impressionou foi a paisagem desoladora: “A música que aqui se fazia nos anos 70 era extraordinariamente importante para quem optava por ela: as pessoas viviam em bairros sociais de que procuravam fugir. Por isso, a forma como encaravam a música era muito mais séria e profunda e não enquanto hobby subsidiado pelo Estado como acontecia na Holanda. O que verdadeiramente me chocou foi a pobreza. Acabado de chegar da Holanda, mal conseguia acreditar quão pobre a Inglaterra era; aos meus olhos, parecia um país do Terceiro Mundo. Mas isso contribuía para a intensidade da música e teve o mesmo efeito sobre o meu trabalho”.


“Lúgubre para além de tudo o que se possa acreditar” é como Jon Savage descreve Manchester em Rip It Up And Start Again, de Simon Reynolds, o qual acrescenta: “Nos anos 7O, a primeira cidade industrial do mundo, tinha sido também uma das primeiras a entrar na era pós-industrial. A riqueza tinha-se evaporado mas o ambiente desolado e desnaturado persistira. As tentativas de a renovar apenas haviam piorado as coisas. Como acontecera noutras cidades por todo o Reino Unido, os responsáveis pelo urbanismo demoliram os velhos edifícios Vitorianos. As comunidades operárias há muito aí estabelecidas foram desmembradas e os seus residentes compulsivamente realojados no que rapidamente se transformou em laboratórios de atomização social: edifícios de muitos andares e bairros sociais. (…) Frank Owen, da banda pós-punk Manicured Noise, fulmina: ‘Todos esses urbanistas deveriam ser enforcados. Fizeram muito pior a Manchester do que todos os bombardeamentos alemães durante a Segunda Grande Guerra – e tudo isso sob a máscara benévola da social-democracia’. Mesmo hoje, se nos aventurarmos para fora do centro da cidade, o seu passado como capital mundial da manufactura industrial de algodão torna-se evidente: linhas de caminho de ferro, canais da cor de chumbo, armazães reconvertidos, fábricas e terrenos baldios cobertos de entulho de construção civil e lixo”.


Foi, pois, nesta matéria árida que um muito jovem Ian Curtis (esquartejado interiormente por uma epilepsia insuficientemente medicada e uma vida emocional à beira do precipício) literalmente esculpiu canções de mármore, claustrofobia e aço, um editor – Tony Wilson – suicidariamente generoso se decidiu a publicá-las numa “independente” (a Factory) destinada ao fracasso, um artista gráfico – Peter Saville – as encadernou por entre cordilheiras de ondas de rádio emitidas por estrelas moribundas (Unknown Pleasures) e painéis funerários da Paixão (Closer“Com estas canções foi tudo muito estranho, como se os textos se escrevessem a si mesmos”, Ian Curtis) e um produtor – Martin Hannett – se dedicou a aplicar um banho de esmalte sonoro sobre a austeridade quase teutónica daquela música feita de espasmos, farrapos de Ballard e Burroughs e a pedra de catedrais. “Tínhamos crescido no interior de uma paisagem de tal modo brutal que não desejávamos senão tudo o que pudesse ser belo e majestoso”, confessou, mais tarde, Bernard Sumner. Àcerca de Curtis, diria Martin Hannett “Sobre o palco, o Ian ficava verdadeiramente possuído, era como um condutor eléctrico”. A 18 de Maio de 1980, após ter escutado The Idiot, de Iggy Pop, e visto Stroszek, de Werner Herzog, Ian Curtis cortou a corrente: “This is the way - step inside”. (2007)