"Sob qualquer forma, em qualquer tempo, o diálogo é um sinal de civilização e de paz. Mas, pouco a pouco (...), quase todos se foram moldando à fala telegráfica, que é apenas uma maneira de evitar a fala, um substituto sintético da verdadeira fala. A invasão da língua pelo calão ou, pior, por meia dúzia de termos de calão, não é mais do que um aspecto desta redução da linguagem (do pensamento e da sensibilidade: da pessoa) a meia dúzia de lugares-comuns que pobremente se repetem até (quem sabe?) ao desgaste final da língua (do pensamento, da sensibilidade, das pessoas). Pouco a pouco, cedendo à pressão de tantas e tantas circunstâncias, a conversa no seu mais alto significado, que é o de desfiar a realidade a dois ou a três, o de reencontrar a realidade através do choque suave e compreensivo, do encontro tolerante (seja vivo, embora, seja entusiástico!) de duas ou mais visões opostas que, ao fim, se completam, esfumou-se. A maior parte das pessoas - e são professores, são advogados, são médicos, são até artistas - não suporta uma frase mais longa, uma observação que não pareça trazer, ao fim de dois minutos, a sua aplicação imediata, ou seja: a observação pessoal, o outro lado, a variedade, de que a vida se enriquece. Habituaram-nos a receber essa nova entidade, odiosa e esterilizante: o slogan. O sim ou o não, a chave que abre esta porta e se deita fora mal a abriu". (Mário Dionísio - Passageiro Clandestino I, 20/10/50)
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30 June 2021
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