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10 May 2025

"Endless Tree" 
 
(sequência daqui) Se, a propósito do anterior The Moon And Stars: Prescriptions for Dreamers (2021), ela não hesitava em reivindicar o papel de cúmplice de apropriação cultural - “Ouvi a versão dos Nirvana para ‘Where Did You Sleep Last Night’, do Leadbelly. O rapaz branco conduziu-me até aos blues. Ali estava eu à procura das minhas raízes” -, desta vez, recorre â suprema realeza funk, George Clinton, que justificava o facto de para ele redescobrir a música negra (os old blues que a mãe escutava), ter sido necessário ter como intermediários Eric Clapton e os miúdos brancos da Brit Invasion. Ou, como ele dizia,"olhá-la com outras lentes". Valerie foi-se também apoiando em Little Richard, Sister Rosetta Tharpe, Ma Rainey e Elizabeth Cotten. E, para os seus álbuns, em produtores brancos mas musicalmente poliglotas como Dan Auerbach, Jack Splash ou, agora, M. Ward, erudito recrutador de tropas com currículo nas hostes de David Lynch, Tom Waits, T Bone Burnett ou The Blind Boys Of Alabama. Capaz de encarar e resolver as necessidades de canções que, afinal, "apenas desejavam encontrar-se com outras pessoas" ou de conduzir June â infinda gratidão perante quem lhe depositou tão perfeitas canções no regaço: "Thank you for giving it to me. Thank you whoever the fuck you are!"

06 March 2015

NÓSTOS + ÁLGOS


Por muito que a “marca Portugal” (inserir aqui um discreto “lol”) desejasse deter o "copyright" mundial sobre a palavra e o conceito de “saudade”, a verdade é que foi o médico suíço, Johannes Hofer, quem, em 1688, a partir dos termos gregos nóstos e álgos, literalmente inventou a “nostalgia”, ou "mal de Suisse", quadro clínico afim da melancolia, que afectava os soldados em campanha, longe da terra mãe. Se este padecimento, originalmente, se definia por um afastamento territorial, não foi preciso muito para que passasse a incluir também o "longing" ou "yearning" (duas óptimas traduções para a “intraduzível” saudade que, curiosamente, em gaélico irlandês, se diz “fadó”), esse anseio por tempos idos, real ou imaginariamente, “de ouro”. Isto é, a matriz para todas os futuros ímpetos nostálgicos e retro que conduziriam Simon Reynolds, a declarar, trezentos e alguns anos depois, que “the avant garde is now an arrière garde”



Alvo de uma crítica decididamente afirmativa foi, em Maio de 71, a loja de moda "vintage" londrina, “Biba”, atacada à bomba pelos anarquistas da Angry Brigade que, parafraseando Dylan, proclamavam: “If you’re not busy being born, you’re busy buying”. E acrescentavam: “Na moda, como em todo o resto, o capitalismo apenas pode andar para trás, não tem para onde ir, está morto. O futuro é nosso”. Não podiam estar mais errados. Se, no século XXI, as provas da sua esmagadora derrota abundam, na pop, pode considerar-se humilhante: o império-retro é avassalador e o recente Classics, de She & Him, outra lança em território inimigo. She é Zooey Deschanel – assim baptizada em homenagem a Zooey Glass, personagem de Salinger, “nascida” 45 anos antes dela –, a eterna Manic Pixie Dream Girl americana, e Him é M. Ward, criatura de credenciais indie, desde 2006, via S&H, convertido a uma minuciosa operação de reciclagem das preciosas antiguidades detectáveis no perímetro Motown/Spector/Tin Pan Alley/Nashville. Desta vez, o empreendimento não recorre à cosmética fake ao jeito-Lana Del Rey: Deschanel e Ward atiram-se de frente a treze temas dos anos 30 a 70 popularizados por Johnny Mathis, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Aznavour ou Frank Sinatra (vendo bem, se Dylan pode, porque não eles?) e o resultado é, deveras, "cute". Os avós vão adorar. 

17 May 2010

COFFEE-TABLE MUSIC



Agnès Jaoui y El Quintet Oficial - Dans Mon Pays

Deve ser um tropismo dificilmente domesticável o que atrai irremediavelmente número considerável de actores para uma carreira paralela de intérpretes pop. E, se é verdade que o movimento migratório em sentido inverso também existe (de um modo geral, com idênticos resultados pouco memoráveis), neste, em particular, contam-se pelos dedos de uma mão mutilada os casos que não se limitam a satisfazer essa fantasia privada. Em rigor, nos tempos mais recentes, apenas Zooey Deschanel com Matt Ward e – lá bem mais atrás – Scarlett Johansson, poderão reclamar um módico de respeitabilidade. Agnès Jaoui (óptima actriz e estimável realizadora e argumentista) não é apenas uma amadora curiosa como Jeanne Balibar ou Maria de Medeiros e com uma escolha de reportório multiafrolatina – canções de e com (entre outros) Bonga, Camané, Chico Buarque e Roberto Gonzalez Hurtado – desembaraça-se com à vontade e razoável liberdade de movimentos. Mas, em nenhum instante, se fica com a sensação de que, por esta via, Jaoui atingirá estatuto equivalente ao que detém no cinema. Pura "coffee-table music", embora “de marca”.

(2010)

05 May 2010

PERIOD PIECES



She & Him - Volume Two

É publicado agora mas, há dois anos, poderia muito bem ter sido o outro CD de uma edição dupla de She & Him, isto é, Zooey Deschanel e Matt Ward em modo de delicados arcaísmos pop. Melhor: se, na data de publicação, fossem referidas as décadas de 50, 60 ou 70 e não houvesse nenhuma informação adicional acerca dos autores, dificilmente se descobriria que se trata de gente actual e (no caso de Zooey) consideravelmente jovem. Só mais um ajuste: daqui a dois meses, com temperatura e calendário a coincidirem devidamente, seria a banda sonora ideal para os instantes de mais aguda paralisia cerebral que os calores do Verão induzem.



Até porque um certo abandono mental é indispensável para não reparar demasiado quanto o conceito She & Him é pouco mais do que um conjunto de "period pieces", do girl pop ao pastiche-Beach Boys, de Spector a Carole King, do bubblegum de liceu ao romantismo country, uma espécie de Last Picture Show em sessões contínuas. Está lá tudo no videoclip de “In The Sun”: Zooey, num corredor de "high school", por entre cacifos e armários, dança e sorri, leve como uma bola de sabão, brinca com hoola-hoops, e, no final, afasta-se num saltinho inocente. Se fosse mesmo necessário, nesse momento, tudo lhe seria perdoado.

(2010)

30 November 2009

NÃO VALIA A PENA



Monsters Of Folk - Monsters Of Folk

Esqueçamos por um instante que a história do pop/rock transformou a palavra "supergrupo" num palavrão a evitar cuidadosamente em sociedade. Façamos por não reparar que Conor Oberst (Bright Eyes), Jim James (My Morning Jacket), Matt Ward (She & Him) e Mike Mogis (Bright Eyes), ao reunirem-se para uma série de concertos em 2004, e ao publicarem, agora, o reportório comum daí resultante, optaram por se pôr a jeito, designando-se como Monsters Of Folk. Concentremo-nos, sem demasiados preconceitos, apenas em cada um deles e no que resulta do encontro dos quatro, tal como poderíamos pensar em relação aos Crosby, Stills, Nash & Young ou aos Traveling Wilburys. Que resulta, então, daí? Pois... não há outra forma de o dizer: apenas uma versão assaz requentada dos CSN&Y e dos Wilburys, metastizada pelos territórios dos Beatles, dos Byrds, de Woody Guthrie, dos Monkees e, sim – na faixa de abertura, "Dear God" –, até pelo falsetto charoposo, versão-Bee Gees. Com derivações pontuais para os tiques mais estereotipada e imediatamente reconhecíveis de Neil Young, Gram Parsons e várias outras luminárias que apenas por crueldade e demasiado espaço disponível seria de enumerar. Não valia a pena terem-se incomodado.

(2009)

15 March 2009

A CAPELA SISTINA PINTADA A METRALHADORA



Neko Case - Middle Cyclone

Há que ser absolutamente honesto e reconhecer que, se Neko Case se agrafou ao imaginário do bom povo indie, deve-o tanto à sobreexcelência da sua música como a duas ou três sessões fotográficas – nomeadamente, uma particularmente interessante onde, de forma assaz persuasiva, fazia uma convincente demonstração da sua destreza diante de uma mesa de snooker. Iconografia à parte, a designação country-noir deverá ter sido criada de propósito para ela. Ou, na verdade, por ela, em Blacklisted (2002) e Fox Confessor Brings the Flood (2006), dois tornados de pesadelos lynchianos em tonalidade "american-gothic" eléctrica vermelho-sangue.



Middle Cyclone representa-a, agora, na capa, em pose de valquíria, de sabre em punho, cavalgando um Ford Mustang, e derrama sobre nós o imenso deleite de a ouvir expelir tições em brasa como “She is the centrifuge that throws the spires from the Sun, the Sistine Chapel painted with a Gatling gun” ou “I lie across the path waiting just for the chance to be a spiderweb caught in your lashes”, por entre um batalhão de seis pianos resgatados para o seu celeiro do Vermont, versões de Harry Nilsson ("Don't Forget Me") e dos Sparks ("Never Turn Your Back On Mother Earth"), um coral de 30 minutos de criaturas silvestres (“Marais La Nuit”, a última faixa), gente amiga como M Ward, Garth Hudson, e "old acquaintances" dos Calexico, Giant Sand, Los Lobos e New Pornographers.

(2009)

15 February 2009

PARAR O TEMPO



M. Ward - Hold Time

Não é muito frequente que, com tanta precisão, todo o programa de um álbum se concentre completamente no título. Mas, no caso de Hold Time, há que ficar grato a M.Ward por, de tal modo, nos poupar mil palavras desnecessárias para caracterizar suficientemente a gravação que, após a aventura She & Him, em dueto com Zooey Deschanel, agora publica. Na verdade, tudo começou aí porque, tal como nesse divertimento paralelo sucedia, é de “parar o tempo” outra vez que se trata.



Exactamente na mesma época – década de sessenta e margens limítrofes – mas explorando outros filões: já não tanto o território compreendido entre a Motown, Tin Pan Alley e Nashville mas antes o que se situa num perímetro definido por Dylan, Neil Young, os Beach Boys, os Buffalo Springfield de Again e, menos concentradamente, o espírito genericamente “folk-pop-country” da atmosfera canabinóide da época. A pequena diva Zooey reaparece e vem acompanhada de Lucinda Williams, Rachel Blumberg (Decemberists) e Jason Lytle (Grandaddy), uma espécie de minisupergrupo da nomenclatura “indie” contemporânea, amável mas não indispensável.

(2009)

26 October 2008

IS THE WORLD ON FIRE?



Jolie Holland - The Living And The Dead

Estirados sobre a cama, Jack Kerouac, Joan Vollmer (a mulher de William Burroughs que este, acidentalmente, mataria a tiro) e Edie Parker (companheira de Kerouac) conversam: "What's that black smoke rising, Jack? Is the world on fire? What's that distant singing? Is it a heavenly choir of the living and the dead?". É o cenário de “Mexico City”, o painel de abertura de The Living And The Dead, o último álbum de Jolie Holland.



Mas que, ao contrário dos tomos anteriores, se afasta da reconstituição das atmosferas a preto e branco da velha América cinematográfica de “speakeasy”, preferindo-lhe as tonalidades “country/folk” que M Ward e Marc Ribot transportam na paleta. Poder-se-ia dizer que ela entra melhor numa personagem do que na outra mas a verdade e que, a Jolie Holland, ambas assentam bem. O “comic relief” final, “Enjoy Yourself”, de Guy Lombardo, é uma queda de pano contrastantemente adequada.

(2008)

19 October 2008

TEATRO RETRO



She & Him - Volume One

Começou muito bem: em 2006, durante a rodagem de The Go-Getter, o realizador Martin Hynes sugeriu a Matt Ward (que se ocupava da banda sonora) a ideia de, para o genérico final, ele e a actriz principal, Zooey Deschanel, gravarem uma versão de “When I Get To The Border”, de Richard & Linda Thompson. O proverbial “marriage made in heaven” musical – com os melhores padrinhos – estava encontrado. Volume One é apenas a sequência natural (e quase inevitável) desse episódio inicial onde a luminária “alt./country/folk” Ward actua como catalisador e eminência parda da beldade “indie” e lhe oferece o cenário ideal para que o seu talento de actriz floresça.



Sim, porque, neste requintado exercício de retro-pop/country, Deschanel vai desempenhando sucessivamente os papéis de Tammy Wynette, Linda Ronstadt, Carole King, das Ronettes ou de Karen Carpenter, num desfile de modelos que cobrem todo o espectro que vai de Phil Spector à Motown e de Tin Pan Alley a Nashville. Acrescente-se que o argumento é também dela: dez das doze canções são suas (uma a meias com o actor Jason Schwartzman) e as duas restantes dos Beatles e de Smokey Robinson.

(2008)