Punking Out (real. Maggi Carson, Juliusz Kossakowski, 1978)
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05 October 2018
02 May 2017
TRANSATLÂNTICO
Lloyd Cole nunca o admitiu mas tudo aponta para que partilhe aquela opinião de Oscar Wilde na qual ele confessava “Sou um homem de gostos simples. Para mim, o melhor basta”. Se não, repare-se: em 1988, aos 28 anos, recém-saído do divórcio – mais ou menos amigável – com os Commotions e acabado de se expatriar para Nova Iorque, quando pensa em guitarristas com quem poderia trabalhar, não faz a coisa por menos – Richard Thompson ou Robert Quine. Nunca saberemos (mas podemos sonhar muito alto...) o que poderia ter resultado caso a primeira hipótese se tivesse concretizado mas ninguém duvida que a contribuição do segundo – com quem gravou Lloyd Cole (1990), Don't Get Weird On Me Babe (1991), Love Story (1995) e Etc. (2001) – não subtraiu quaisquer pontos à reputação que conquistara com os Voidoids, Material, Tom Waits, James White, Lydia Lunch ou Lou Reed, e acrescentou muitos à de Cole. Por arrasto, veio o baterista e produtor Fred Maher (acabadinho de se sentar ao leme do avassalador New York, de Reed), com currículo nos Massacre (de Fred Frith e Bill Laswell), Material, Scritti Politti e ao lado de Quine.
Já ao necessitar de um arranjador/orquestrador para Don't Get Weird..., o primeiro nome que lhe ocorreu foi o de Paul Buckmaster, sim, o de "Space Oddity", de Bowie, Songs Of Love And Hate, de Cohen, Terrapin Station, dos Grateful Dead, e On The Corner, de Miles Davis. E, porque a separação não tinha sido verdadeiramente litigiosa, os ex-Commotions, Blair Cowan e Neil Clark, haveriam de voltar ao redil para que todos os laços com o passado não fossem cortados nos primeiros quatro tomos da emigração transatlântica. O sucesso popular de Lloyd Cole and The Commotions nunca mais se repetiria mas isso – por mais que, igual a si mesmo, Lloyd não desista de ser o seu mais venenoso crítico – de modo algum significa que “a tetralogia de Nova Iorque” agora reunida na caixa de 6 CD Lloyd Cole In New York: Collected Recordings 1988-1996 (Lloyd Cole, Don't Get Weird On Me Babe, Bad Vibes, 1993, Love Story, Smile If You Want To – inédito mas cujas canções seriam publicadas em Etc. e Lloyd Cole & The Negatives, 2001 –, e uma recolha de Demos: 89-94), alojasse canções menos que excelentes. Ou seja, matéria de estudo e prazer obrigatórios.
29 April 2014
HEREGES & SANTOS
“Somos todas Pussy Riot!”, foi o grito de guerra de Kathleen Hanna, em Agosto de 2012, na véspera da decisão final do julgamento que condenaria Nadia Tolokonnikova, Maria Alyokhina e Katia Samutsevich a 2 anos de prisão por terem desafiado publicamente Vladimir Putin com a "Punk Prayer" urrada na catedral de Cristo Redentor, de Moscovo. Mas seria igualmente verdade se Nadia, Maria e Katia tivessem declarado “Somos todas Bikini Kill!”. Fizeram-no, aliás, pouco antes da performance que lhes traria notoriedade mundial: “O que temos em comum é a insolência, as letras politicamente carregadas, a importância do discurso feminista e uma imagem feminina não convencional. A diferença é que as Bikini Kill actuavam em salas de concerto e nós em lugares proibidos. O movimento riot grrrl estava intimamente associado à cultura ocidental cujo equivalente não existe na Rússia”.
The Punk Singer, de Sini Anderson, um dos mais vibrantes documentários que serão exibidos no IndieLisboa 2014, conta a história de Kathleen Hanna (e, por arrasto, das Bikini e demais riot grrrls, jovens feministas punk radicais norte-americanas, da década de 90), ex-stripper que, tendo-se dedicado, inicialmente, ao "spoken word", optou pela modalidade “feminism and punk rock in the same sentence” após uma conversa com Kathy Acker. A atitude era violentamente confrontacional (“I have a fucking right to be hostile and I’m not gonna sit around and be peace and love with somebody’s fucking boot on my neck”), os fanzines e manifestos encarregavam-se da agit-prop (“I believe with my wholeheartmindbody that girls constitute a revolutionary soul force that can, and will change the world for real”) e, em conjunto com as Huggy Bear, Sleater-Kinney ou Bratmobile, sob a aprovação de figuras tutelares como Kim Gordon, dos Sonic Youth, e Joan Jett – todas depondo para o doc –, das Bikini para The Julie Ruin e Le Tigre (“a feminist party band”), aprofundaram aquela via que as Slits, Au Pairs, Patti Smith, Raincoats, Lydia Lunch e outras pioneiras haviam desbravado.
Outro padroeiro da história punk, Alan Vega (Suicide), surge também numa espécie de "extended videoclip" – Just a Million Dreams, de Marie Losier –, num registo doméstico algo deprimente, no qual o quase octogenário Vega, acompanhado do filho pré-adolescente e da esposa formato-MILF, faz esgares para a câmara, posa lendo uma biografia dos Suicide por entre maquinas de lavar roupa, vagamente ensaia na sala para um concerto (?) de que apenas enxergamos os segundos finais, debita frases do estilo “It’s so hard to be an artist, very hard to be revolutionary” e dependura um boneco de Elvis na árvore de Natal.
Já claramente no domínio da hagiografia, Springsteen & I, de Baillie Walsh, é uma colagem de testemunhos e confissões "homemade" de fãs de Bruce que abre com o próprio, em palco, em jeito de "preacher man", interrogando as massas “Can you feel the spirit?” e prossegue, em regime de acumulação: “Quando ele canta, percebe-se o esforço pelas veias inchadas do pescoço” diz uma miúda de 10 anos, recitando os santos valores da ética do trabalho; uma mãe confessa que mostrava ao filho as imagens sagradas de Bruce e lhe dizia que eram fotos do pai; outros exibem relíquias e memorabilia e aqueles que lhe viram o branco dos olhos ou, suprema beatitude!..., chegaram a tocá-lo, contam as suas histórias coroadas por acessos de pranto convulsivo; há quem revele que perdeu a virgindade ao som da Sua música, e tudo se resume – matéria de fé – em “You believe in Bruce, Bruce believes in you”. Springsteen é demasiado grande para precisar disto.
(Programação IndieMusic do IndieLisboa 2014)
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01 February 2010
AMÉRICA LENDÁRIA
Vários - We Are Only Riders: The Jeffrey Lee Pierce Sessions Project
Jeffrey Lee Pierce – jovem suburbano da periferia industrial de Los Angeles que, apesar de aluno brilhante, era dado a apresentar ensaios sobre Ernest Hemingway constituídos por dez páginas em branco –, no final dos anos 70, era crítico de música do fanzine punk, “Slash”, de Los Angeles, e escrevia sobre rockabilly, blues e reggae. Era também o presidente do clube de fãs dos Blondie e sonhava trabalhar para o departamento de música do Smithsonian Institute na pesquisa de velhas gravações de blues e country. Do mesmo remoinho do punk de LA que envolveria os X, Blasters, Circle Jerks, Germs e Black Flag, inventou The Gun Club, alucinação de vudu, psychobilly, Ornette Coleman, “Tales From The Crypt”, álcool, blues, heroína e country.
Fire Of Love (1981) iniciou o percurso que, em 1996, aos 37 anos, terminaria como conta Mark Lanegan: “No princípio de 96, foi para o Japão mas, imediatamente antes, tínhamos estado em casa da mãe dele a escrever canções. Parecia estar realmente em boa forma, o que nem sempre acontecia: por vezes, mal conseguia andar de tão desfeito que estava. Quando regressou do Japão, deixou-me meia dúzia de mensagens no atendedor de chamadas. Parecia completamente fora de si apesar de não estar embriagado. Uma coisa estranhíssima, dava a ideia de ter endoidecido. Alguém acabou por me contar que ele tinha voltado a beber, o fígado lhe havia intoxicado o organismo e sofria de dcemência. No hospital tinham-lhe dado alta dizendo que nada podiam fazer por ele. Pouco depois, recebo um telefonema: estava no Utah e, aparentemente, normal. Disse-me ‘Que raio, meu, toda a gente me diz que vou morrer, é sempre o mesmo’. Uma semana depois, entrou em coma e morreu”.
Nunca tendo alcançado verdadeiramente uma projecção universal (e, por hoje, razoavelmente esquecidos), os Gun Club e Jeffrey Lee Pierce deixaram, no entanto, um considerável culto em cujos fiéis se incluíram os R.E.M. White Stripes, Nick Cave, Wim Wenders, os Pixies ou Henry Rollins, entre diversos outros. Foi um deles, Cypress Grove (com Pierce, em 1992, gravaria Ramblin' Jeffrey Lee and Cypress Grove with Willie Love, essencialmente, um álbum de versões de blues de Howlin' Wolf, Lightnin' Hopkins e Skip James), que, ao arrumar gavetas, tropeçou numa cassete de maquetas e esboços que ambos haviam gravado pouco antes da morte de Jeffrey. A partir dali, iria ser possível reconstituir, então, a última parcela inédita da obra de Pierce, com a participação de fãs, discípulos e herdeiros, este We Are Only Riders. Porque o número de temas sobreviventes era escasso, alguns são objecto de duas e três interpretações mas, só pontualmente, as balas deste Gun Club parte-II falham o alvo.
Nick Cave, a solo e com Debbie Harry, em "Ramblin’ Mind" e "Free To Walk", é imperial, ela, sozinha, em "Lucky Jim", assina a sua melhor interpretação desde há muito, Mark Lanegan (com e sem Isobel Campbell), arrancam pelas tripas o Cash que se acoitava na alma de Jeffrey Lee, os Raveonettes projectam "Free To Walk" para um céu semeado de mazzy stars e Lydia Lunch, David Eugene Edwards, The Sadies, Johnny Dowd, Kid Congo Powers (ele, o nómada que circulou dos Gun Club para os Cramps, Die Haut, The Fall e Bad Seeds) Mick Harvey, Dave Alvin e os Crippled Black Phoenix (o inesperado único elo débil nesta colecção) – com aparições do fantasma da guitarra samplada de Pierce recuperada das cinzas – compõem aquilo que é tanto uma justíssima homenagem quanto um óptimo álbum de música daquela América "borderline" e lendária que nunca nos fatigaremos de escutar, ler e admirar.
(2010)
16 March 2009
ACTUALLY IT WAS ALL VERY SWEET AND INNOCENT


Gang Of Four no Hurrah's


E, algures pelo meio de uma extensa entrevista na qual Rhys Chatham é tudo menos minimalista no que a exaltar a sua genialidade diz respeito, de súbito, o âmbito da pergunta
You were witness to the NYC no-wave scene in the late 70s/early 80s; what were your impressions of what was happening then and its aftermath?
é admirável e surpreendentemente excedido pela resposta:
"Actually, Brian Eno had asked me to be on that No-Wave album he did, but I forgot about the recording session he had organized for the different groups over on Greene Street, so I didn't get to be on it, which was too bad, never mind. God, I had so much fun in NY during that period. There was this great club called Hurrah's that Jim Fouratt used to run. It was really slick and all the bands loved to play there 'cause Jim made sure everybody got paid decently; a nice, big, fat flat-fee rather than a crummy split-the-gate thing.
Gang Of Four no Hurrah's
One night there was this double bill with the Contortions and the Screamers that I particularly remember because I was helping out with the sound. James Chance was doing his usual thing of going out and beating up the audience, it was great. But the real highlight of the evening for me was meeting Mike Gira's ex-girlfriend, Anne-Marie. Mike was in Swans with an amazing drummer named Jonathan Kane (who I later ended up working with) and Anne-Marie was doing publicity for Jim Fouratt at the club. And she had just split up with Mike. It turned out that she was the same sign as me, Gemini, and that we knew all the same people: Lydia Lunch, Scott and Beth B., Vivian Dick, Pat Place, Arto, John Lurie, James Nares, Adele Bertei... the whole gang! Anne-Marie was from a small hamlet in France called St. Brieuc and was studying modern dance when she wasn't working for Jim. She had this wild, spiky blond hair that went all over the place, along with fine features over delicate bones. I really had a good time talking with her and gradually became sexually attracted as I was doing so, especially in retrospect. During the Contortions setup, we had many opportunities to speak together. As we were talking, I couldn't help but notice that she kept folding her arms over her breasts. At first I thought this was because they were cold (her breasts), but after she repeated the gesture a number of times over the course of the sound check I gradually began to suspect that it was because she wanted to hide them. Anne-Marie had large breasts for a dancer; I think they might have been a B cup, which isn't after all THAT big, but dancers are weird about that kind of thing, they think that breasts aren't aerodynamic, or some weird shit like that.
Hiding her breasts had the effect of making me want to covertly study Anne-Marie's body at every available opportunity, which I'm happy to report that I managed to do as the evening wore on. I was only hoping that I wasn't being too obvious about it. Her clothes, though torn in all the usual and correct places, were completely black making it difficult to see what she really looked like, so I had to use my imagination at first. Anyway, after the Contortion's set, Anne-Marie invited me to a private area at Hurrah's which was the nice, airy space they had on the third floor; it was quite comfortable. Sitting together on the couch over glasses of chilled vodka and certain other controlled substances, I told Anne-Marie what an amazing person I thought she was. I confided that I was sexually attracted to her and asked if I might rest my head for a time upon her breast as a kind of prelude to an evening of tenderness, passion and emotions. After a bit of circumspection and reflection, she decided to be kind to me, so I dived right in, I mean, it was the end of the seventies for god's sakes! I could have stayed there forever, kissing and engulfing her tender extremities with my trumpet player's lips. Naturally, after a while, I felt inspired to explore other parts of her body.
Accordingly, I removed her jeans and buried my face deep within the crevice of her buttocks, which was protected by a thin white cotton material. I kissed her fragrant orifice through the white cotton over and over again, invading it with my busy tongue through the fabric of her underwear. I wet-kissed all around her unmentionable entrance and gateway-to-heaven area, fondling repeatedly and using my tongue in order to push and explore, while at the same time gently cupping her breasts with my long, pianist's fingers. Eventually, I asked Anne-Marie if it would be all right if I removed her panties. After the consent, I allowed my tongue to dart lightly over the slightly darker skin of her back passage, gradually pressing deeper and deeper, inhaling a slightly musky scent as I did so. Finally, I couldn't control myself any longer, so after first turning Anne-Marie about, I whipped the pride of my manhood out of my jeans which by this time was rigid with aching desire and drove the old ramrod home again and again! Anne-Marie used her shapely dancer's thighs to grab me from behind in order to bring me closer still, milking every available drop of my manly essence deep within her. Thus spent, I tenderly caressed her face and I merged her lips with mine in a final loving embrace before we returned to our respective duties to help with the load-out of our musician friends. The early eighties on the no-wave scene in NY were really great, man. I mean, there was open sex happening in most the clubs, at least the better ones... Tier 3, the Mudd Club, in the back room at CBGB's, it's no wonder I forgot all about Brian's fucking recording session! Not that we were into sex all THAT much, it's just that it was there and available. This was during the pre-AIDS period... you know? Actually, it was all very sweet and innocent, when you think about it".
(2009)
06 March 2008
UTOPIA CONSUMPTIVA

Steroid Maximus - Ectopia
Jim Thirwell, aliás, J.G. Thirwell, aliás, Clint Ruin, Foetus, Wiseblood ou Manorexia, um dos mais reputados terroristas sónicos no activo que já colaborou com Lydia Lunch, Nick Cave, Nine Inch Nails ou Jon Spencer, encarna a nova persona Steroid Maximus, compositor ultra-barroco da estética "copy+paste" no subgénero banda sonora "noir". Ectopia — à letra, a deslocação de um orgão da sua posição normal — faz plena justiça ao título:
trata-se de uma eufórica celebração do universo de mil partituras para "spy movies", obscuridades "blaxploitation", policiais, séries de televisão, Bonds e outros "Get Smart" avulsos, com todos os tiques dos diversos Lalo Schiffrins e John Barrys deste mundo mas, num tal jogo de sobreposição, repetição e acumulação de efeitos e maneirismos, que literalmente a convertem numa espécie de monumental utopia deslocada do género, possivelmente imprestável para qualquer filme real mas verdadeiramente impressionante enquanto portentoso pastiche devoradoramente consumptivo. Obviamente "grand guignol" instrumental, esta modalidade da BSO negra enquanto metástase mutante é uma delícia para os ouvidos certos. (2002)
Steroid Maximus - Ectopia
Jim Thirwell, aliás, J.G. Thirwell, aliás, Clint Ruin, Foetus, Wiseblood ou Manorexia, um dos mais reputados terroristas sónicos no activo que já colaborou com Lydia Lunch, Nick Cave, Nine Inch Nails ou Jon Spencer, encarna a nova persona Steroid Maximus, compositor ultra-barroco da estética "copy+paste" no subgénero banda sonora "noir". Ectopia — à letra, a deslocação de um orgão da sua posição normal — faz plena justiça ao título:
trata-se de uma eufórica celebração do universo de mil partituras para "spy movies", obscuridades "blaxploitation", policiais, séries de televisão, Bonds e outros "Get Smart" avulsos, com todos os tiques dos diversos Lalo Schiffrins e John Barrys deste mundo mas, num tal jogo de sobreposição, repetição e acumulação de efeitos e maneirismos, que literalmente a convertem numa espécie de monumental utopia deslocada do género, possivelmente imprestável para qualquer filme real mas verdadeiramente impressionante enquanto portentoso pastiche devoradoramente consumptivo. Obviamente "grand guignol" instrumental, esta modalidade da BSO negra enquanto metástase mutante é uma delícia para os ouvidos certos. (2002)
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