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17 August 2022


(sequência daqui) Agarradas a essas palavras vieram as da escritora Joan Didion – também favorita de Lloyd Cole a quem insuflou a inspiração para “Rattlesnakes” – em “Atomized” (onde John Donne e Didion se cruzam: “Is each of us an island or more like Finland, here’s what I say to them: ‘Things fall apart’”) e “Lone Didion” (“Every Saturday night, she came in with him, table six in the back, tall beer and a gin, now she comes in alone, lone Didion”). E, por outra via, inesperadamente, as inflexões do Lou Reed era-Velvets indelevelmente carimbadas na matéria de “The Night Before Your Birthday”, “Stop n’ Shop” e “Never Fall Apart”. Escoltado por Alan Hampton (baixo), Mike Viola (guitarra) e Abe Rounds (bateria), e brandindo o extraordinário violino amestrado (escutem-no em "Eight"), prestemos a devida atenção a este singularíssimo exemplo de “an irrepressible optimist working with a fatal flaw”.

28 October 2019

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (LX)

(com a indispensável colaboração do R & R)

(última linha: "seu ofício de 'songwriter'"; 
clicar na imagem para ampliar)

Nota: é incrível como em tão curto espaço se pode escrever tanta asneira...

"When Love Breaks Down" (ok, o video é terrível...)

27 October 2019

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (LIX)

(com a indispensável colaboração do R & R)

(clicar na imagem para ampliar)

Lloyd Cole & The Commotions - "Grace"

12 April 2018

UM OVO DE FABERGÉ

  
Seria a música ou o cinema. “Grant falava-me da Nouvelle Vague e do ‘film noir’. Eu falava-lhe da grandeza dos Velvet Underground. Ele falava-me acerca da teoria dos autores e do génio de Preston Sturges. Eu falava-lhe de Dylan, a meio dos anos sessenta. Ele referia Godard e Truffaut. Tornámo-nos Godard e Truffaut. Brisbane não fazia a menor ideia disso mas havia dois miúdos de dezanove anos ao volante de um automóvel que pensavam ser realizadores de cinema franceses”. E, com um single – lado A, "Lee Remick", dedicado à actriz de Days Of Wine And Roses; lado B, "Karen", exercício de luxúria juvenil sobre as bibliotecárias da universidade de Queensland – e quase nenhum dinheiro no bolso, Robert Forster e Grant McLennan, em 1979, voaram da Austrália para Londres. Não conheciam ninguém e não tinham um único número de telefone útil. Com pernas demasiado curtas para andar, o plano de internacionalização-relâmpago dos Go-Betweens, naturalmente, teve de ficar entre parêntesis. Obrigado a aceitar emprego no arquivo de radiologia do St. Mary’s Hospital, Forster descobriu, por acaso, uma radiografia ao joelho do realizador de cinema, Nicolas Roeg. No último dia em que ali trabalhou, escondeu-a no sobretudo e, qual fetiche, levou-a. Como, agora, conta em Grant & I: Inside And Outside The Go-Betweens, “Foi o mais perto que alguma vez chegámos da indústria cinematográfica britânica”



Não desistiram, porém: já a banda tinha publicado os seis álbuns da primeira metade da carreira, Forster (durante uma tournée com Lloyd Cole com quem, em Lisboa, jogou golf) desafiou McLennan para a escrita do argumento de um filme de gangsters. Na pior altura: “Tarantino tinha aparecido e feito explodir o género – os diálogos dele cantavam”. Nas 350 páginas de Grant & I também cinematograficamente se canta (está dividido em “Reel One” e “Reel Two”) a história pública e privada dos Go-Betweens: a calorosa rivalidade entre Robert e Grant; o desmedido amor pelas canções; a extravagância (e posterior domesticação) de um e o progressivo afundamento na depressão do outro; o permanente nomadismo de editora em editora, na busca das condições ideais – ou apenas aceitáveis – para o merecido reconhecimento da sua música que, fora de um circuito de fidelíssimos fãs, nunca chegaria; a separação, o reencontro e a morte de McLennan. Algures para o final, Forster escreve: “Os Go-Betweens eram uma coisa rara, um ovo de Fabergé, e como tal deviam ser tratados”. Recordo-me de uma vez lhes ter chamado “os Smiths em melhor”.

02 May 2017

TRANSATLÂNTICO

  
Lloyd Cole nunca o admitiu mas tudo aponta para que partilhe aquela opinião de Oscar Wilde na qual ele confessava “Sou um homem de gostos simples. Para mim, o melhor basta”. Se não, repare-se: em 1988, aos 28 anos, recém-saído do divórcio – mais ou menos amigável – com os Commotions e acabado de se expatriar para Nova Iorque, quando pensa em guitarristas com quem poderia trabalhar, não faz a coisa por menos – Richard Thompson ou Robert Quine. Nunca saberemos (mas podemos sonhar muito alto...) o que poderia ter resultado caso a primeira hipótese se tivesse concretizado mas ninguém duvida que a contribuição do segundo – com quem gravou Lloyd Cole (1990), Don't Get Weird On Me Babe (1991), Love Story (1995) e Etc. (2001) – não subtraiu quaisquer pontos à reputação que conquistara com os Voidoids, Material, Tom Waits, James White, Lydia Lunch ou Lou Reed, e acrescentou muitos à de Cole. Por arrasto, veio o baterista e produtor Fred Maher (acabadinho de se sentar ao leme do avassalador New York, de Reed), com currículo nos Massacre (de Fred Frith e Bill Laswell), Material, Scritti Politti e ao lado de Quine. 



Já ao necessitar de um arranjador/orquestrador para Don't Get Weird..., o primeiro nome que lhe ocorreu foi o de Paul Buckmaster, sim, o de "Space Oddity", de Bowie, Songs Of Love And Hate, de Cohen, Terrapin Station, dos Grateful Dead, e On The Corner, de Miles Davis. E, porque a separação não tinha sido verdadeiramente litigiosa, os ex-Commotions, Blair Cowan e Neil Clark, haveriam de voltar ao redil para que todos os laços com o passado não fossem cortados nos primeiros quatro tomos da emigração transatlântica. O sucesso popular de Lloyd Cole and The Commotions nunca mais se repetiria mas isso – por mais que, igual a si mesmo, Lloyd não desista de ser o seu mais venenoso crítico – de modo algum significa que “a tetralogia de Nova Iorque” agora reunida na caixa de 6 CD Lloyd Cole In New York: Collected Recordings 1988-1996 (Lloyd Cole, Don't Get Weird On Me Babe, Bad Vibes, 1993, Love Story, Smile If You Want To – inédito mas cujas canções seriam publicadas em Etc. e Lloyd Cole & The Negatives, 2001 –, e uma recolha de Demos: 89-94), alojasse canções menos que excelentes. Ou seja, matéria de estudo e prazer obrigatórios.

26 July 2015

VINTAGE (CCLVII)

Lloyd Cole & The Commotions live 
at The Marquee, London (1986)

23 July 2015

A ELEGÂNCIA, NÃO A PAIXÃO

  
No curso de Literatura Inglesa e Filosofia da Universidade de Glasgow de 1981, Lloyd Cole era o tipo que jogava golfe, ia para as aulas de fatinho completo e fumava John Player’s sem filtro. Já tinha andado por Direito, no University College de Londres, mas não lhe tinha parecido um nicho ecológico da academia particularmente à sua medida. Em Glasgow, mesmo tendo chegado ao 2º ano do curso, Cole, contudo, dificilmente conseguia fugir à sua natureza oculta de "music trainspotter”: “Eu fazia as palavras cruzadas do ‘New Musical Express’ mais depressa do que qualquer outro da minha turma e conhecia todos os discos que todas as bandas ‘cool’ tinham publicado entre 1970 e 1980. Era, realmente, uma tristeza, mas a minha vida era assim”, contava ele, ao “Independent”, em 2003. 

Não seria, por isso, verdadeiramente imprevisível que o moço que sonhava, em simultâneo, com os Joy Division, James Brown, Booker T, Isaac Hayes e os Chic, mais tarde ou mais cedo, afixasse num placard da associação de estudantes um anúncio em busca de um teclista que fosse fã dos Television e Talking Heads. Respondeu Blair Cowan, adepto dos Kraftwerk, Steely Dan e Vangelis. A seguir, chegou Neil Clark, guitarrista profundamente convicto de que, em White Music, dos XTC, Andy Partridge soava exactamente como uma tradução punk de McCoy Tyner, e, pouco depois, o baterista Stephen Irvine (falhara, por uma unha negra, a hipótese de substituir Topper Headon, nos Clash) e o baixista Lawrence Donegan (ainda fresco de ter sido corrido dos Bluebells). 



Entretanto, antes, apenas com o trio inicial, já tinha ocorrido o satori criativo quando, em poucas semanas, "Are You Ready to Be Heartbroken?", "Perfect Skin", "Charlotte Street" e "Forest Fire", emergiram definitivas e perfeitas e, assim, criaram Lloyd Cole & The Commotions, mais do que eles as criaram a elas. Cole, hoje, confessa como "Perfect Skin" nunca teria podido existir, se, por essa altura, ele não vivesse embriagado de Dylan e de "Subterranean Homesick Blues" e, há doís anos, por ocasião da morte de Lou Reed, afirmava que, não fora este, e ele, provavelmente, teria “acabado como professor de matemática”.

Porém, no caminho que conduziria ao fantástico álbum de estreia, Rattlesnakes (1984), havia muito mais do que vénias aos mestres: o jovem literato, adepto de Raymond Carver e Joan Didion, fora capaz de reinventar uma pop para gente que sabe divertir-se tanto do pescoço para baixo como para cima, segundo a orientação que, há cinco anos, aquando da publicação de Broken Record, ele próprio me desvendaria: “Os Commotions sempre se dedicaram a formas musicais americanas submetidas a uma estética europeia. Se reparar nas diferenças entre os R.E.M e os Commotions – que tocavam tipos de música semelhantes –, na música deles havia qualquer coisa que os aproximava mais dos Allman Brothers do que dos Rolling Stones. Os Commotions, apesar de tocarem pop, partilhavam com os Stones o facto de tocarem música americana com uma estética britânica: interessava-nos mais a elegância do que a paixão, interessava-nos a concisão”



Havia, no entanto, uma inesperada pedra no caminho, na qual os Commotions haveriam de tropeçar. Ia a banda em alto voo pelos tops, quando Donegan confessou que, ele em particular (e também o grupo, em geral), sofria(m) de um síndroma raro: ao contrário do cliché habitual que garante que um crítico musical não é senão um músico frustrado, eles eram, de facto, críticos musicais falhados. Daí que, ninguém como eles, tenha jorrado tanta injusta bílis sobre o seguinte Easy Pieces (1985) – e, mais venenosamente, sobre a dupla de produtores Langer & Wintanley – mas também, embora em menor grau, em relação ao derradeiro Mainstream (1987). Até quanto ao mais que perfeito Rattlesnakes, em 1993, Cole rabujava acerca do vibrato da sua voz que teria transformado o álbum “numa fotografia óptima mas que saiu ligeiramente desfocada, um pequeno detalhe que pode estragar tudo”



Quase inevitavelmente, em 1989, os Commotions chegariam ao fim. Lawrence Donegan viria mesmo a ser crítico musical no “NME” e “Record Mirror” (e, posteriormente, de golfe, no “Guardian”), Blair Cowan é engenheiro informático, Neil Clark compõe para cinema e televisão e Lloyd prossegue uma discretamente magnífica carreira a solo: "Tenho uma ridícula vida paralela em que sou um especialista de golfe. Num livro que li, explicavam que, para desenhar um campo de golfe, é indispensável ter instinto artístico e talento matemático. Como, na escola, era um prodígio em matemática, talvez devesse ir por aí. Recordo-me, porém, claramente da primeira vez que passeei por Londres e nenhuma cabeça se voltou. A sensação não foi boa. Podia ter ido comprar pornografia que o ‘Sun’ não se incomodaria a tentar fotografar-me. Mas, depois de 15 anos de rock, poderia eu fazer outra coisa? Quereria eu fazer outra coisa?” A história toda, contada em 5 CD, um DVD e um "booklet" de cerca de 50 páginas, com as proverbiais raridades, inéditos e lados B, pode ser recordada em Collected Recordings 1983-1989. Mas continuamos impreparados “to be heartbroken”.

04 July 2015

VINTAGE (CCLII)

Lloyd Cole And The Commotions - "My Bag"



Hey I was walking my bag 
Through a 20 story non stop snow storm 
Pirrelli calender girls wrestling in body lotion 
My head's swimming with poetry and prose 
Excuse me one moment whilst I powder my nose 

Me and my good thing are just about as close as can be 
We gave up sleep at the age of 17 
My world's getting bigger as my eyesight gets worse 
I can't see the lines on my idiot board 
What about love? 
I don't let that stuff in my house 
This is the glamorous life there's no time for fooling around 

Lord have mercy I know what I'm doing 
I don't need an alibi I need a fire escape and an open window
It's my problem it's nothing I can't deal with 
I'm not chasing anything just jogging baby 
What's your bag? 

Hundred million dollar jam 
Got some traffic yes sir in my nose 
Motorcycle speed cops burning up my dust roads 
My baby left me heck ain`t that a shame 
She's over in the corner with my new best friend 
I'm doing fine with my whisky and wine 
And meet me in the john john meet me in the john john 

Lord have mercy... 

Spin spin whisky and gin I suffer for my art 
Bartender I got wild mushrooms growing in my yard 
Fix me a quart of petrol, clams on the half shell 
Feels like prohibition baby give me the hard sell 
More give me more give me more more more 
I'm your yes man yes maam I'm your yes man 

Lord have mercy...

23 April 2013

DING DONG! 

Red Wedge Tour


“When England was the whore of the world, Margaret was her madam”, escreveu e cantou Evis Costello em "Tramp The Dirt Down" (sétima faixa de Spike, publicado em Fevereiro de 1989), um dos mais fétidos vómitos de ódio alguma vez vertidos por um autor pop sobre uma figura política. Invectivando Margaret Thatcher por ela, aparentemente, supor que todo o povo inglês lhe deveria estar grato, “look proud and pleased, because you've only got the symptoms, you haven't got the whole disease”, Costello enterrava o punhal até ao fundo e não pesava as palavras: “I hope I don't die too soon, I pray the Lord my soul to save, oh I'll be a good boy, I'm trying so hard to behave, because there's one thing I know, I'd like to live long enough to savour, that's when they finally put you in the ground, I'll stand on your grave and tramp the dirt down”. O fel já fermentava há muito: no rescaldo da Guerra das Falklands/Malvinas (o tal arquipélago que Adrian Mole só a custo conseguiu descobrir no mapa, debaixo de uma migalha de bolo), em Punch The Clock (1983), "Pills And Soap", sibilava ameaças, entre dentes (“The sugar coated pill is getting bitterer still, you think your country needs you but you know it never will”), e "Shipbuilding", oferecida à voz desencarnada de Robert Wyatt, era um requiem envenenado.

The Specials - "Ghost Town"

Não foi a metralha cultural pop a afastar Thatcher do poder mas Costello esteve muito longe de ser o único a quem a personagem de valquíria (do nórdico arcaico, "a que escolhe os que irão morrer") socialmente devastadora de Thatcher despertou pulsões vingadoras: em Viva Hate (1988), Morrissey, docemente, insinuava “The kind people have a wonderful dream, Margaret on the guillotine”, The Beat reivindicavam 'Stand Down Margaret', Pete Wylie e os Hefner sonhavam com 'The Day That Thatcher Dies', e os Pink Floyd, Specials, The The ou o colectivo Red Wedge (vários dos anteriores mais Billy Bragg, Paul Weller, Jimmy Somerville, Lloyd Cole e diversos outros) agitaram quanto puderam. Já na altura, contudo, Costello não tinha dúvidas: “Podemos supor que uma canção contém algum potencial de mobilização mas isso pouco significa se estivermos a cantar para um grupo de pessoas que já comunga dos nossos pontos de vista. É a forma como o fazemos que importa”.

The Knife - "Full Of Fire"

É exactamente isso que, em contexto cultural inteiramente distinto, continua, agora, a preocupar o duo sueco The Knife, que, no monumental duplo Shaking The Habitual, afirma desejar “investigar o que poderá ser, hoje, uma canção de protesto: poderá ela integrar diferentes perspectivas sobre o mesmo tema, em vez de propor uma resposta?” A realidade, porém, tê-los-á esclarecido bem mais depressa do que esperariam: a canção que, para os seus eternos opositores, celebra – com a previsível controvérsia –, o desaparecimento de Thatcher é "Ding Dong! The Witch Is Dead", da banda sonora do filme O Feiticeiro de Oz. Apressadamente reeditada no dia seguinte à morte da ex-primeira ministra, em seis dias, atingiu o 2º lugar do top de singles da BBC Radio 1. A polissemia pop ou, se preferirmos, o "détournement" situacionista, são inesgotáveis.

04 August 2012

Sérgio Godinho - Caríssimas Quarenta Canções 
(livro, Abysmo, 2012)

Creio que foi Lloyd Cole quem, contrariando o habitual lugar-comum segundo o qual todos os críticos de música não passam de músicos frustrados, confessou que, no caso dele, se passava exactamente o oposto. Não garanto que Sérgio Godinho esteja disposto a afirmar outro tanto mas a verdade é que, durante quarenta semanas, no ano passado, nas páginas do “Actual”, ele foi o colega da coluna do lado, apresentando, uma a uma, as suas Caríssimas Quarenta Canções. O pretexto era o igual número de anos da sua discografia – iniciada em 1971 com Os Sobreviventes – e, como pouco frequentemente acontece quando se desafia músicos a escrever sobre música, as quatro dezenas de crónicas agora publicadas em livro não só não envergonharam os ilustres pares cá da casa como demonstraram ser "music-writing" do bom. Quase salomonicamente divididas (16 peças lusófonas, 18 anglófonas, 4 francófonas, 2 em castelhano), exibem o rol de clássicos previsível (de Dylan, a Presley, Beatles, José Afonso, Amália, Stones, Brel, Brassens, José Mário Branco, Caetano Veloso – embora nem sempre pelo lado mais evidente: não se está à espera que a entrada dos Beatles seja "Sexy Sadie" ou que Gainsbourg apareça a cantar "Sous Le Soleil Exactement", com Anna Karina), outras nem por isso (Klaus Nomi/Henry Purcell?...), umas quantas idiossincrasias particulares (António Mafra, Tony de Matos, Frei Hermano da Câmara), e uma literalmente intrigante (colega, a defesa de "Handle With Care", dos Traveling Wilburys, não me convenceu...). Com as ilustrações de Nuno Saraiva a potenciar o processo, como diz Godinho, “compreendemos sempre melhor os autores ao imaginarmos as frases que, quanto a nós, ou disseram sem eles saberem, ou pensaram sem nós sabermos, exactement.

06 February 2012

AMERICAN IDOL


Lana Del Rey - Born To Die

A lista de compras: Pabst Blue Ribbon, Diet Mountain Dew, Baccardi, um Bugatti Veyron, cocaína, um Pontiac branco, champanhe Cristal, vestido vermelho, óculos de sol em forma de coração, alojamento no Chateau Marmont, baton vermelho, Schnapps de cereja, gasolina da Chevron, verniz de unhas vermelho. Momentos poéticos-chave: “sometimes love is not enough and the road gets tough”; “the way I roll like a rolling stone”, “you made my eyes burn, it was like James Dean”; “you were sorta punk rock, I grew up on hip-hop”; “love hurts”; “heaven is a place on earth”; “you’re no good for me but baby I want you”; “heaven’s in your eyes”; “your face is like a melody”; “no one compares to you”; “then I saw your face and you blew my mind”; “take a walk on the wild side”; “I was lost but now I am found, I can see but once I was blind”. Personagens centrais: a menina boa e o rapaz mau e/ou a menina má e o rapaz mau. Autora: Lana Del Rey, aliás, Lizzy Grant, aliás (atenção: redundância!), “the gangsta Nancy Sinatra”, aliás, "torch singer" de um sonho húmido de David Lynch (considerar, em alternativa, Walt Disney), Lolita de série B, Rita Hayworth da era-YouTube, Jessica Rabbitt 3D, Peggy Lee ressuscitada para consumo adolescente.



Por que motivo, então, a propósito de Lana Del Rey (putativa "next big thing" em suposto figurino "noir") e Born To Die se precipitam, a galope, todos os clichés? Talvez – conferir em “lista de compras” e “momentos poéticos-chave” –, justamente, porque uma e outro não sejam mais do que um densíssimo concentrado de, como dizer?... clichés a que ninguém se deu ao trabalho de aplicar sequer um "spin" warholiano. Explicando melhor: o cliché é matéria-prima pop esssencial mas, para ser eficazmente processado, exige que, ao olharmos, por exemplo, para a representação de uma lata de sopa Campbell’s, o cérebro, sorrindo, nos dispare imediatamente a mensagem “ceci n’est pas une Campbell’s soup can”. E é por aí mesmo que (muito mais do que a questão de saber se Lizzy/Lana é coisa “genuína” ou fabricação industrial – polémica "unpop" por definição –, se pagou o imposto da vida pela tabela-Winehouse ou é "a rich daddy’s little pet") a construção desaba: o Pontiac é apenas um Pontiac, o “walk on the wild side” é só copianço, o Dean e a Hayworth descobrem-se sequestrados no casting para um "teenage drama" pateta, e, azar supremo, é pelos pesadelos e não pelos sonhos de Lynch que mais o veneramos. Não esquecendo (pormenor nada desprezível) que "name dropping" e "product placement" como combustível estético (não risível) para canções é território privativo de Lloyd Cole e Vincent Delerm.



Resulta, pois, romantismo kitsch e melodrama de cartoon, mas daqueles kitsch e cartoon embaraçosamente rudimentares que, aspirando a uma impossível bissectriz "low budget" entre Kate Bush, Portishead e Goldfrapp com fermento orquestral "mock"-épico, não destoariam em eliminatórias de festival da Eurovisão ou batendo-se bravamente por um lugar no pódium do American Idol. Não são o artifício e a manipulação que incomodam (venham sempre mais e, de preferência, em overdose generosa) mas sim o facto de os cordelinhos se verem claramente na imagem e a pose de ninfa trágica enfastiada ter cerca de metade da espessura shakespeareana de uma personagem de telenovela. Nada de grave, no entanto: se uma concha de bivalve sem molusco lá dentro é capaz de, a partir de uma Germanotta comum, gerar uma Lady Gaga pronta a competir no mercado, porque não há-de uma Lizzy banal ser o casulo de outra rentável Lana?

23 January 2012

MAS, COM CERTEZA, NINGUÉM DUVIDA; E O SIT DOWN COMEDIAN DA PÁTRIA PODIA TER ATÉ CONTADO AQUELA (OUTRA) PIADA QUE SÓ FAZ SENTIDO EM INGLÊS



There were these two guys having lunch one day when the first guy says to the second one, "You ever say one thing to someone when you meant to say something else?"

"How do you mean?" says the second one.

"Well last week I was at the airport in Philly and I wanted to come back here to Pittsburgh and the girl at the counter had these enormous breasts, so, instead of asking for two tickets to Pittsburgh, I asked for two pickets to Tittsburgh".

"I know what you mean", says the second guy. "Why just this morning I was having breakfast with my wife and I meant to ask her to pass the jelly but instead I said 'You're ruining my life, you stupid bitch!'"

(ouvi-a, pela primeira vez, numa entrevista com Lloyd Cole; na versão dele, era uma conversa entre dois psicanalistas, aterrados pela ideia de que, até com eles, tais lapsus linguae podiam acontecer)

(2012)

02 January 2011

MÚSICA 2010 - INTERNACIONAL (III)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 20)










The National – High Violet











Vampire Weekend – Contra











Field Music - (Measure)











Laura Marling – I Speak Because I Can











Laurie Anderson – Homeland











The Knife in collaboration with Mt. Sims and Planningtorock - Tomorrow, In A Year











The Gaslight Anthem - American Slang











Peter Gabriel – Scratch My Back











Lloyd Cole - Broken Record











Natalie Merchant - Leave Your Sleep

Não existiu, de certeza, um único ano na ainda curta história da música gravada (pouco mais de um século) acerca do qual se pudesse garantir que seria impossível seleccionar, pelo menos, dez discos capazes de permanecer longamente na memória. E, ainda que, no grande plano cósmico para a música das esferas, não assinalassem nenhum momento particularmente significativo, deles houve sempre matéria sonora suficientemente estimulante a retirar para a lubrificação do canal auditivo. 2010 deixa-se, facilmente, arrumar nesta última categoria despretensiosa mas decente e honesta. O que, se repararmos que, no top-10, poderiam também ter figurado, sem cunhas, The Divine Comedy, Johnny Flynn, Elvis Costello, The Magnetic Fields, Efterklang, The Walkmen, Fanfarlo ou Bonnie “Prince” Billy, ajuda a compreender como, com crises ou sem crises, a música é sempre uma fonte de energia renovável.

* a ordem é razoavelmente arbitrária...

(2011)

25 October 2010

LLOYD COLE: FILOSOFIA DE QUARTO DE HOTEL














Life after fame: Lloyd Cole on what your hotel room tells you about your pop career: (...) "Finally, Lisbon. We have been in love since 1985. The fiery passion long gone, but still, heads turn. It's late when I arrive at Hotel do Chiado – the place 10 years ago and still lovely, if a little frayed at the edges (touché). The porter shows me to my room. The view is spectacular; there isn't a better city view in the world. I know Tapete can't afford this room... Some days, some places, it is indeed good to be me. I should take a photo and post it on Twitter. I should. Instead, I take a whiskey on the balcony, and I then re-string my guitars, watching a Law & Order re-run".

(2010)