Showing posts with label Low. Show all posts
Showing posts with label Low. Show all posts

19 December 2021

(álbum integral)
 
(sequência daqui) Como, agora mesmo, voltou a suceder. Ao ponto de as fontes sonoras se terem tornado dificilmente identificáveis. “É mais um resultado da forma como, hoje, abordamos a música. Temos as canções – textos, melodia, acordes – mas o objectivo é chegar a algo que nunca tenhamos ouvido antes. Gosto de tocar guitarra mas há qualquer coisa na expressividade dela que não quero que soe como uma guitarra. Tecnologicamente, podemos explorar imensas vias para dilatarmos os limites do que é possível e nos aproximarmos do ponto onde tudo rebenta e coisas interessantes acontecem”. E como, afinal, ao longo de quase três décadas, não tem parado de acontecer: “Fazemos música juntos há 28 anos, já tocámos com imensas bandas. No entanto, há casos especiais – como aconteceu com os Dirty Three ou com os Swans – em que sentimos ter sido um privilégio raro conhecer e ter estado com artistas tão extraordinários. Mesmo agora, já bastante mais velhos, como não estremecer quando descobrimos, por exemplo, Alice Coltrane? Porque nunca a tínhamos ouvido? De onde saiu ela?...”

14 December 2021

 
(sequência daqui) O que estava, entretanto, no ponto de partida, em 1993, quando os Low iniciaram a caminhada? “Quando era miúdo, a música, para mim, era magia. Nessa altura – final dos anos 70, início de 80 – vivíamos numa comunidade agrícola, bastante longe da cidade. A informação acerca do que se passava era muito escassa. Lembro-me de ouvir os discos dos Doors do meu pai e até... os Emerson, Lake & Palmer ou In-A-Gadda-Da-Vida, dos Iron Butterfly!... Isto, antes de começarmos a comprar os nossos próprios discos: David Bowie, The Clash, Hüsker Dü, R.E,M., Violent Femmes, todos a que pudéssemos deitar a mão”. Tudo isso ter tido lugar em Duluth, Minnesota, chão sagrado do Nobel da Literatura de há 5 anos, não terá feito pairar um permanente fantasma sobre as cabeças de Alan e Mimi? “Só um bocadinho... Quando já era mais velho, costumava ir aborrecer o dono de uma loja de intrumentos e ele contava-me que tinha frequentado a mesma escola do Bob Dylan e recordava-se de histórias que lá tinham acontecido. Quando fomos para a universidade, em Duluth, aí sim, tive a noção de que, embora de uma forma discreta, a cidade orgulha-se de Dylan. A minha rendição a ele, contudo, só aconteceu há cerca de 15 anos. Antes disso, escutava Joy Division, Bauhaus, The Cure, Brian Eno, La Monte Young, Swans, Velvet Underground”. E, no meio dessa floresta de referências, quando sentiram ter encontrado a vossa via? “Isso acontece quando escrevemos a nossa primeira canção. Desejamos ser originais e trilhar um caminho próprio. Às vezes, de uma forma tão obsessiva que chega a cegar-nos para o facto de, se calhar, sermos iguais a todos os outros! (risos) Mas sentimos que descobrimos qualquer coisa que estava escondida e mais ninguém conhecia”. (segue para aqui)

12 December 2021

 
(sequência daqui) Há várias formas possíveis de olhar para a relação entre Double Negative e Hey What: se um poderia ser encarado como a fase aguda do desenvolvimento de uma infecção no interior de um corpo belíssimo, o outro representaria a passagem a um estado crónico no qual, embora ainda presente, a doença está já sob controlo; o primeiro encontro com uma nova linguagem e a posterior capacidade de a dominar e utilizar com fluência... Mimi entusiasma-se: “ Uau!... É certamente uma forma muito interessante de colocar a questão. Também poderia dizer que foi uma semente que plantámos e que, agora, desabrochou numa lindíssima flor. Uma lindíssima e ruidosa flor. Quem sabe o que virá a seguir? Por enquanto, satisfaz-nos continuar a ir para o estúdio e descobrir o que possamos lá achar. Em Double Negative, deitámos abaixo algumas barreiras, descobrimos coisas novas e, desta vez, tentámos apanhar alguns desses destroços e pensar no que poderíamos ser capazes de construir a partir daí. Derrubada a porta, quisémos conhecer o que haveria do outro lado”. (segue para aqui)

10 December 2021

 
(sequência daqui) Há várias formas possíveis de olhar para a relação entre Double Negative e Hey What: se um poderia ser encarado como a fase aguda do desenvolvimento de uma infecção no interior de um corpo belíssimo, o outro representaria a passagem a um estado crónico no qual, embora ainda presente, a doença está já sob controlo; o primeiro encontro com uma nova linguagem e a posterior capacidade de a dominar e utilizar com fluência... Mimi entusiasma-se: “ Uau!... É certamente uma forma muito interessante de colocar a questão. Também poderia dizer que foi uma semente que plantámos e que, agora, desabrochou numa lindíssima flor. Uma lindíssima e ruidosa flor. Quem sabe o que virá a seguir? Por enquanto, satisfaz-nos continuar a ir para o estúdio e descobrir o que possamos lá achar. Em Double Negative, deitámos abaixo algumas barreiras, descobrimos coisas novas e, desta vez, tentámos apanhar alguns desses destroços e pensar no que poderíamos ser capazes de construir a partir daí. Derrubada a porta, quisémos conhecer o que haveria do outro lado”. (segue para aqui)

07 December 2021


(sequência daqui) O ponto de viragem estética na música dos Low ter coincidido com as convulsões que sacudiram os EUA (e o resto do mundo) não deverá servir, porém, como explicação de causa e efeito pronta a usar: “Fazemos a música que, agora, fazemos porque tivemos bastante tempo para a pensar e trabalhámos com muitas pessoas diferentes. A cada passo, aprendemos um pouco mais e fomos ganhando confiança e clarificando o nosso rumo. Double Negative foi uma grande mudança. Já tínhamos trabalhado em Ones And Sixes com o BJ Burton, que nos tinha feito entrever uma nova direcção e, nesse álbum, mergulhámos de cabeça, sem qualquer hesitação. Agora, procurámos ir além disso, transcender essas técnicas e abordagens”. Na verdade, apesar de antes terem experimentado confiar-se a diversos produtores da nata norte-americana - Kramer, Steve Albini, Jeff Tweedy, Dave Fridmann – foi BJ Burton quem lhes desbloqueou a visão: “É um engenheiro de som muito audacioso, sempre interessado em descobrir novas sonoridades e conduzir ao limite as possibilidades tecnológicas. Desde os Beatles – ou até os Père Ubu – que essa vontade de tirar o máximo partido do potencial dos estúdios é uma da áreas mais interessantes. Tornou-se um grande amigo e colaborador nosso”. (segue para aqui)

04 December 2021

O PONTO ONDE TUDO REBENTA

Há três anos e ao 12ª álbum, os Low - Mimi Parker, Alan Sparhawk e, então ainda, Steve Garrington – despiam definitivamente a pele do "slowcore" (que, na verdade, sempre haviam rejeitado) e entregavam-se a um exercício de autêntica metamorfose: Double Negative, um dos mais assombrosos álbuns de 2018, soterrava as canções em avalanches de estridência e dissonância, electrocutava melodias e harmonias e, numa reacção quase instintiva aos anos da peste-Tump, autorizava que, pelo meio da tempestade electro-acustica, se decifrasse uma espécie de SOS invertido: “It's more let it out than let it go, it's not the end, it's just the end of hope”. Agora que, com Hey What, se dispõem a cartografar o território então descoberto, Alan e Mimi conseguem já traçar as linhas que unem esse tempo com o do pesadelo pandémico que se lhe seguiu e que esteve também como pano de fundo do novo álbum: “Tínhamos tudo isso na cabeça, evidentemente. Mas somos ambos muito pouco deliberados no que escrevemos. Não planeamos os tópicos sobre que vamos escrever. O que acaba por surgir são as nossas reacções ao que acontece à nossa volta. No ano passado, houve também os enormes protestos Black Lives Matter. Foi como um grande despertar profundo da América sobre a necessidade urgente de pensarmos o que deveríamos fazer. Ainda estamos a sair dos anos Trump... foi uma época horrível para a qual a pandemia foi a cereja em cima do bolo. E houve todos aqueles medos que vieram à superfície: o que irá acontecer se não puder sair daqui? Se não puder estar com a minha família e com os meus amigos?... ‘Days Like These’ foi escrita imediatamente antes da pandemia e era um olhar sobre quão ridícula a atmosfera política e social se havia tornado. E sobre quem, na realidade, somos e tudo aquilo que supúnhamos indiscutível, enquanto raça, género... Darmo-nos conta quando já somos mais velhos, de que a nossa forma de ver as coisas está errada, é bastante estranho”. (daqui; segue para aqui)

31 December 2018

2018 - Videoclips

Poliça + s t a r g a z e - "How Is This Happening"
 



Laurie Anderson & Kronos Quartet - "CNN Predicts a Monster Storm"





Low - "Dancing and Blood"




Anna Calvi - "Don't Beat the Girl out of My Boy"




Exit North - "Spider"
 




The Monochrome Set - "Stage Fright"
 



David Byrne - "Everybody's Coming To My House"
 



Goat Girl - "Scum"
 



Stick In The Wheel - "Abbots Bromley Horn Dance"
 



Tune-Yards - "Honesty"




Toda a colecção "Thankful Villages" (Darren Hayman)

27 December 2018

MÚSICA 2018 - INTERNACIONAL (VI)

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 32)











* a ordem é razoavelmente arbitrária...

Explícita ou implicitamente, a quase totalidade dos grandes álbuns publicados em 2018 não conseguiu – nem tentou – esquivar-se a ser um reflexo dos tempos de cólera actuais: quer intervindo aberta e militantemente no combate político (caso de Marc Ribot), quer dando testemunho do mal estar e do abalo impossíveis de dissimular (os belíssimos registos de Laurie Anderson, Poliça, Low, Julia Holter, Richard Thompson, e Rolling Blackouts), quer – caso de David Byrne – usando a ironia como bússola para não perder o rumo no meio da tormenta. E isso seria ainda muito mais óbvio se, acrescentássemos o que, olhando à volta sob os mais diversos ângulos, publicaram Stick In The Wheel, Tune-Yards, Gruff Rhys, Laibach, Parquet Courts, Anal Trump, Virginia Wing, Levellers ou Goat Girl: o mundo dos humanos nunca foi um lugar particularmente frequentável mas, raras vezes como hoje, teremos estado tão perto de o tornar literalmente maligno.

02 October 2018

A REALIDADE EM COLAPSO


Os Embaixadores (1533) é um quadro a óleo sobre madeira de Hans Holbein, o Jovem, no qual o pintor representou Jean de Dinteville, embaixador do rei de França em Inglaterra (representante do poder temporal), e Georges de Selve, bispo e diplomata (representante do poder espiritual). Ao centro, entre ambos, nas prateleiras em que se apoiam, observamos símbolos de riqueza, poder e conhecimento – um globo terrestre e outro celeste, um relógio de sol, um tratado de aritmética, um alaúde, um quadrante, um estojo de flautas, um livro de hinos luteranos – mas o que sobressai, em primeiro plano, é um estranhíssimo “objecto” oblongo, que parece flutuar sobre o chão. É necessário observá-lo de um determinado ângulo para podermos descobrir que se trata, afinal de uma anamorfose (imagem deliberadamente distorcida) de um crânio humano, um memento mori que apenas pode ser identificado se ignorarmos o resto do quadro, um ruído visual propositado que convida a recordar a morte inevitável para lá da ilusória opulência. 



Double Negative, dos Low, poderá bem ser um supremo exemplo de anamorfose musical: mais do que um imprevisível caso de banda que, ao 12º álbum, decide mudar radicalmente de pele, o que Mimi Parker, Alan Sparhawk e Steve Garrington propõem é um teste de resistência cujo objectivo consiste em desocultar as canções por entre tempestades de electricidade estática, enxergar corais de vozes desencarnadas rasgados por abismos de estridência, reconhecer que, em vez de um exercício sobre a dissonância, o ruído é já a própria canção – uma forma de dar a ouvir aquilo que, de outro modo, não escutaríamos, de reflectir a realidade em colapso como um espelho deformante. Segredam pistas (“The truth is now something that you have not heard”, “Before it falls into total disarray, you’ll have to learn to live a different way”) e, em entrevista à “Wire”, abrem totalmente o jogo: “Montámos este disco peça a peça, ao longo de toda a mudança que ocorreu na América, desde o desastre das eleições até hoje. Muito do que antes se pensava importante parece, agora, tolo e mesquinho. Não temos respostas, esta é apenas uma forma fragmentária de exprimir o que está a acontecer. Como dizer isto? Como saber o que vale a pena? O que é mentira e o que é verdade e residirá aí ainda algum dilema moral?” Talvez em "Dancing and Fire" se encontre uma síntese de tudo isso: “It's more let it out than let it go, it's not the end, it's just the end of hope”.