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19 February 2019

TRANSGRESSORES 


Baba Rossa, Mos Iocos, EtonalE, Woild Boin e Farmerboy (aliás, Daniel Beban, Nell Thomas, Erika Grant, Riki Gooch e Reece McNaughten). Clarinete baixo, "ektara" paquistanesa, viola de arco, "biscuit tin guitar", "saz" iraniano eléctrico, sitar, bandolim, fagote, "ruan" chinês, sintetizador, gamelãs, theremin, carrilhão baixo, sax, oboé, "sexomouse marimba" e bateria. Dois mestrados em etnomusicologia não levados muito a sério (ou, se calhar, totalmente a sério). Centro de operações em Wellington, Nova Zelândia, a partir da Frederick Street Sound and Light Exploration Society. Fontes de alimentação? Kuduro, "kwaito" e "shangaan-electro" sul-africanos, "zeuhl" (conceito criado por Christian Vander, dos Magma, que se referia à “memória cósmica que conserva todos os sons existentes nas profundezas do nosso espírito”), "mbalax" senegalês, Brian Eno, free jazz, tarraxo angolano, minimalismo, Fela Kuti, Frippertronics, Sun Ra, "krautrock". O que, segundo a própria Orchestra Of Spheres – designação mais ou menos pitagórica mas também homenagem a Thelonious Sphere Monk –, converter-se-á, após digestão, em especialidades esotéricas tais que "psychedelic primary school disco", "fire music", "kosmische quiche", "witch doctor haus", "orgasmic brain rave", "polynesian no wave prog", "inner brain clap". Ou, para simplificar, "ancient future funk".  


“São géneros inexistentes mas não absurdos”, justifica-se Nell Thomas, “é muito difícil categorizar o que fazemos sem sentir que estamos a diminui-lo”. É neste momento que começamos a recordar-nos de mais antigos transgressores de fronteiras identitárias – Saqqara Dogs (novaiorquinos com os pés no Magrebe e a cabeça no Mediterrâneo oriental), C Cat Trance (África e Médio Oriente transfigurados pela "club culture" londrina), ou a brigada Nation Records (Loop Guru, Fun-Da-Mental e os formidáveis Trans-Global Underground da judaica-árabe-belga-britânica Natacha Atlas, “the dirty underbelly of world fusion”). Após Nonagonic Now (2010), Vibration Animal Sex Brain Music (2013) e Brothers And Sisters Of The Black Lagoon (2016), agora, em Mirror, a Orchestra Of Spheres poderá, por vezes, soar aos Velvet Underground capturados pela raga indiana, outras vezes, fará pensar em caravanas tuaregues acossadas pelo Art Ensemble of Chicago ou mesmo nuns Talking Heads de macumba infiltados num filme de Ed Wood. Mas nunca, nunca a escutaremos sendo capazes de adivinhar o que, em cada momento, os compassos seguintes revelarão.

16 January 2013

SALTOS DE PRANCHA 
















O Experimentar - 2: Sagrado e Profano

Para quem leva religiosamente a sério as proverbiais listas e balanços de fim de ano (que fique assente, de uma vez por todas: nunca são organizadas de ânimo leve mas, se em vez de terem ficado definitivamente estabelecidas numa sexta-feira à tarde, sob temperatura de 14ºC, isso tivesse acontecido noutro dia e a outras horas e temperatura, é assaz provável que não fossem exactamente iguais), convém dizer já que, se 2: Sagrado e Profano não constou da que, no que à música portuguesa diz respeito, poderia, facilmente, tê-lo sido. Tal como – e uma vez que de deambulações pelos trilhos das músicas tradicionais se trata – os volumes 2 e 3 das “diversões” das Unthanks, The Unthanks With Brighouse And Rastrick Brass Band e Songs From The Shipyards (desgraçadamente não distribuídos por cá), não precisariam de qualquer tipo de lobbying para assegurar lugar na lista internacional. Não porque qualquer deles necessitasse, verdadeiramente, de tal legitimação.


2: Sagrado e Profano, em particular, segunda encarnação do que, antes, se designava por O Experimentar Na M'Incomoda, é uma magnífica descendência do que a Banda do Casaco, Chuchurumel, Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge, Campanula Herminii e, muito em especial, a Sétima Legião de O Sexto Sentido (para referências exteriores, procurar em Hedningarna, Transglobal Underground ou Loop Guru), foram inventando tomando a tradição popular como potente prancha de salto. No caso, a da música dos Açores, partindo de matéria-prima sonora previamente recolhida e, entre Copenhaga, Lisboa e o Faial, transfigurada por Pedro Lucas e cúmplices (Carlos Medeiros, Zeca Medeiros, Pedro Gaspar, Miguel Machete, Nicolaj Høj) em algo de, simultaneamente, arcaico e contemporâneo, local e fulgurantemente global. 

06 November 2008

NAÇÕES UNIDAS


Trans-Global Underground - International Times

No quartel-general da Nation Records, sede de um trio tão essencial da música actual como os Loop Guru, Fun-Da-Mental e Trans-Global Underground, há uma espécie de mantra implícito que todos entoam em uníssono: "Existe, aí fora, um mundo inteiro cheio de sons. Ainda que nos possa parecer estranho, oiçamo-lo, usemo-lo e construamos a nossa música a partir desse planeta sonoro". Por isso, já lhes chamaram em conjunto "sampladelic troubadours". Mas se, de um modo geral, se referem obsessivamente a Brian Eno, às músicas árabes e orientais, a Steve Reich, La Monte Young, Can ou às técnicas de colagem de Robert Rauschenberg, os Trans-Global Underground preferem falar de si mesmos em termos menos transcendentes. Dizem simplesmente "We're the dirty underbelly of world fusion". Aliás, a própria designação da editora, Nation, deve ser lida em sentido lato, levando em devida consideração a ampliação do conceito que o título do primeiro álbum dos TGU propunha: Dream Of a 100 Nations. Assim mesmo: o sonho de uma rede sonora global, concretizando, em termos estéticos e musicais, o ideal de umas Nações Unidas onde, se existe tensão, ela se deverá resolver através do exercício de colisão criativa das diferenças.



Nesse disco que houve quem descrevesse como "um safari psíquico através do National Geographic Magazine", lado a lado e em sobreposição, coexistiam samples afro-indo-árabes, batidas de dança, assombrações de um universo virtual e, frequentemente, a voz simbolicamente judaica-árabe-belga-britânica de Natacha Atlas que fazia as suas interpretações descolar do solo e, em palco, ao caleidoscópio de um mundo em vertigem, acrescentava uma dança do ventre peculiar que tanto remetia para as mil e uma noites como para um terreiro de candomblé.



International Times, o segundo capítulo da saga TGU, é outra vez um remoínho de música de dança alojado no umbigo do planeta que atrai para si uma visão holográfica do mapa cultural: desmaterializado mas ainda tridimensional, eclético mas a denunciar a precisão de um conceito que a tudo impõe coerência, com um pé em cada cultura mas aspirando a uma universalidade para que o apelo rítmico serviria de livre trânsito. Como uma rosa dos ventos em rotação delirante sobre o código genético da espécie, transcrita em linguagem digital. De facto, enquanto mosaico eufórico de percussões magrebinas, guitarras eléctricas, ragga, rap, violinos egípcios, música de filmes indianos ou techno ambiental, a música dos TGU invoca um certo excesso metafórico. Mais exactamente, ela é esse mesmo excesso, colorido com uma "etnicidade" que a realidade não reconhece (se aqui existe alguma "etnia" é a do "melting pot" metropolitano) mas que faz todo o sentido em pleno contexto de contágio de eras, lugares e culturas. Se a música do universo real ainda não é esta, o seu espírito já começou a ser invadido. E é exactamente aí que se adivinha a imagem do mundo que vem a seguir.

(1994)

17 April 2008

SUPERMELODRAMA


Devotchka - A Mad And Faithful Telling

Tudo começou há vinte e tal anos com as experiências de fusão entre pop e “world music” de Paul Simon, David Byrne, Peter Gabriel ou Hector Zazou. Em rigor, terá começado, talvez, bastante antes disso, por impulso do Tropicalismo brasileiro – mas, como os ingredientes “world”, no caso, decorriam da natureza dos próprios músicos de quem partira a iniciativa da experiência, nem sempre é contabilizada como tal. Se insistirmos mesmo em colocar-lhe uma data fundadora, então, terá, inevitavelmente, de ser a de 29 de Junho de 1987 quando, no pub do norte de Londres, "Empress Of Russia", três dezenas de “media operators” cunharam a designação “world music".


Mas, no entanto, em todos os inúmeros exemplos que, desde aí, ocorreram, nas mais desvairadas declinações – dos Transglobal Underground e Loop Guru às “jams” de Lee Ranaldo com os Master Musicians Of Jajouka, aos Saqqara Dogs, Hedningarna ou Gaiteiros de Lisboa –, persistia um excesso de “desejo de autenticidade” e ausência de descaramento genuinamente “fake” que lhes impedia (quer o desejassem ou não) o acesso claro e indiscutível ao universo pop. Foi, justamente, isso que, provavelmente, começou a mudar nos últimos tempos com o aparecimento de diversas bandas que, não sentindo a menor necessidade de exibir “pedigree” na coisa folk/world, se apropriaram, sem cerimónias, do que imaginam – com “autenticidade” infinitamente variável – serem as diversas tonalidades das músicas do mundo e, como tal, as incorporaram naquilo que vão engendrando. Enumerem-se, pois, Vampire Weekend, A Hawk And A Hacksaw, Balkan Beat Box, Gogol Bordello, Beirut, Black Ox Orkestar, Golem, The World Inferno Friendship Society e, agora, os Devotchka. Por algum motivo, com excepção dos Vampire Weekend, todos garimpam na mesma mina eslava/balcânica/cigana e, a partir daí, em modo estético-do-it-yourself, inventam regiões demarcadas pop alternativas que dão por nomes como “gypsy punk”, “world culture clash” ou, segundo os Devotchka, “supermelodrama”.



A quem, por ínvios caminhos, o selo de garantia pop nunca poderá ser negado: originários de Denver, no Colorado, incluem um cantor-compositor de ascendência siciliana e cigana, um baterista-trompetista de raíz punk, devoto de mariachi e educado a escutar polcas lituanas, uma baixista/sopradora de sousafone com currículo em bandas revivalistas da Guerra Civil e um violinista de formação clássica. No muito promissor início de carreira, acompanharam os espectáculos de strip-tease “burlesque” da ex-Mrs Marilyn Manson, Dita Von Teese, num inesperado salto quântico, encarregaram-se da mui louvada banda sonora do oscarizado Little Miss Sunshine (2006) e, agora, com A Mad And Faithful Telling (título inspirado em Edgar Allan Poe), a banda portadora de um nome surripiado à Laranja Mecânica de Kubrick propõe-nos mais um soberbo pitéu de “post-millenial multiculturalism” que seria insensato recusar. Um dia, o filão de leste também há-de esgotar-se mas, por enquanto, o empreendimento até nem está a correr nada mal. (2008)