("Never Said", de Exile In Guyville, na íntegra aqui)
Showing posts with label Liz Phair. Show all posts
Showing posts with label Liz Phair. Show all posts
24 October 2025
03 January 2022
TODOS OS NEURÓNIOS ILUMINADOS
A linhagem musical e o círculo de relações dos dB’s eram imaculados: Chris Stamey, Peter Holsapple, Gene Holder e Will Rigby caminhavam nas pegadas dos Television, Big Star, Kinks e Elvis Costello mas, sobretudo, dos britânicos The Move e, em circunstâncias diversas, tinham-se cruzado ou haveriam de cruzar-se com Richard Lloyd (Television), Don Dixon (produtor dos R.E.M., Smithereens e Guadalcanal Diary), Mitch Easter (fundador dos Let’s Active e produtor dos R.E.M., Pavement e Suzanne Vega), Chris Bell (Big Star) e Scott Litt (produtor de Nirvana, R.E.M. e Liz Phair). Mas, entre a chegada a Nova Iorque, em 1978, dos quatro nativos da Carolina do Norte e a publicação – apenas no Reino Unido – dos dois primeiros (e preciosíssimos) álbuns – Stands for Decibels (1981) e Repercussion (1982) – haveria de passar-se demasiado tempo durante o qual, contudo, a banda não esteve, de modo algum, inactiva. Sob várias designações e configurações, deixaram um muito razoável baú de gravações (essencialmente, singles e registos ao vivo) do tempo em que, como conta Stamey nas suas memórias, Spy In The House Of Loud: New York Songs And Stories, imaginavam a sua música à imagem de uma máquina de flippers “quando as luzes disparam ao mesmo tempo, uma espécie de resposta cerebral instantânea, com todos os neurónios iluminados”. (daqui; segue para aqui)
05 June 2018
Quando, muito relutantemente, no Outono de 1991, Liz Phair deixou, por fim, convencer-se a entrar num estúdio, a primeira canção que gravou foi "Chopsticks" na qual, sobre o acompanhamento dos célebres "Martelinhos", cantava: “I met him at a party and he told me how to drive him home, he said he liked to do it backwards, I said, that's just fine with me, that way we can fuck and watch TV”. Acabaria por surgir apenas como faixa de abertura no segundo album de Phair, Whip-Smart (1994), sendo esse lugar ocupado no disco de estreia do ano anterior, Exile In Guyville, por "6'1"" (“And I kept standing six-feet-one, instead of five-feet-two, and I loved my life and I hated you”) – irmã de armas feminista de "50ft Queenie" (“50ft queenie, force ten hurricane, biggest woman, I could have ten sons”), de PJ Harvey, incluída em Rid Of Me, dado à luz mês e meio antes e, como Guyville, exibindo na capa, uma fotografia a preto e branco e em tronco (quase) nu da sua autora. Faltavam ainda mais de duas décadas para a detonação do #MeToo mas, na privadíssima colecção de canções (Girly Sound) que Liz Phair nunca sonhara libertar das cassetes que registara domesticamente num gravador de 4 pistas, fermentava algo cuja ressonância seria de bem maior alcance que a sublevação "riot grrrl".
O conceito de Guyville era tão simples quanto certeiro: “Como se estivesse a defender uma tese, peguei em Exile On Main St., dos Rolling Stones, e, praticamente canção a canção, reescrevi-o sob um ponto de vista feminino”. Em 18 faixas – tantas quantas as do álbum duplo dos Stones – vertidas num modo "faux-naïf", algures entre os Feelies e Lou Reed, Liz, sem cerimónias, demolia todos os estereótipos da feminilidade bem comportada (“I jump when you circle the cherry, I sing like a good canary, I come when called, I come, that's all “), invertia-os (“Every time I see your face, I get all wet between my legs, (…) I want to fuck you like a dog, I'll take you home and make you like it”), e assumia o comando (“It makes me want to rough you up so badly, makes me want to roll you up in plastic, toss you up and pump you full of lead”). 25 anos mais tarde, acrescentado de dois CD extra com as “Girly Sound Tapes” (“Têm coisas humilhantemente más...”, arrepia-se Phair), Girly Sound To Guyville mantém intacto o potencial explosivo. (ver aqui)
20 December 2011
VINTAGE (LIV)
Liz Phair - "Chopsticks"
I met him at a party
And he told me how to drive him home
He said he liked to do it backwards
I said, "That's just fine with me,
That way we can fuck and watch TV"
It was four a.m. and the light was gray,
Like it always is in paperbacks
He asked if I liked playing jacks
I told him that I was good to sixes
But all hell broke loose after that
I told him that I knew Julia Roberts
When I was twelve at summer camp
We didn't say anything after that
I dropped him off and I drove on home
'Cause secretly I'm timid
(2011)
23 March 2009
FORA DO RADAR
Lloyd Cole - Cleaning Out The Ashtrays
Se pararmos um segundo para espreitar debaixo da carpete da memória, vamos facilmente reparar na considerável quantidade de músicos e escribas de canções que, sem que realmente déssemos por isso, há muito não deixam rasto no radar pop contemporâneo. Ou que, se o fazem ainda, não o poderiam desenhar de modo mais discreto, tal é a forma como passam despercebidos sob os raios cruzados dos focos luminosos. Onde andam, por exemplo, Suzanne Vega, Martin Stephenson, Liz Phair, Andy Partridge, Neil Hannon, os magníficos It’s Immaterial de Life’s Hard And Then You Die e Song? É verdade que o universo pop nunca demonstrou grande vocação para acarinhar aqueles que não inscrevem diariamente na agenda a obrigação de aparecer em todo o talk-show disponível, da entrada ritual na clínica de desintoxicação ou de exibir a "trophy-wife" ou o "trophy-husband" do trimestre. Mas, mesmo assim, uma tão curta memória de médio prazo deveria ser objecto de estudo científico.
Lloyd Cole, ele da mesma época em que ilustres desaparecidos em combate como os Bluebells, Sundays ou Waterboys edificavam a glória da música britânica, bissextamente, faz prova de vida com um álbum que ocupa uma ínfima parcela de página nas revistas “da especialidade”, sacia fugazmente o apetite dos seus cento e catorze fãs e esfuma-se. Agora, porém, excedeu-se: uma caixa de quatro CD (esta, de que nos lança a côdea de um sampler de dez títulos) e a promessa de dois live em modo “Folksinger Series”. A avaliar pelo isco, se a maioria das 56 sobras, lados B e raridades for da estatura de algumas das aqui reunidas (“I Will Not Leave You Alone” ou “The Steady Slowing Down Of The Heart” são Cole-vintage instantâneo) só se poderá afirmar que, mesmo que sejam poucos a reparar nisso, quando Lloyd Cole limpa os cinzeiros (pobre ingénuo que, um dia, me garantiu que eu haveria de deixar de fumar), há que correr para lhe tirar o saco do lixo das mãos.
(2009)
03 September 2007
JOY?
Jenny Owen Youngs - Batten The Hatches
Jenny Owen Youngs - Batten The Hatches
Só pode ser uma muito negra ironia que, das iniciais do nome de Jenny Owen Youngs, resulte a palavra “joy”. Ou, então, faz o mais perfeito sentido. Porque, embora em praticamente todas as canções de Batten The Hatches (inicialmente publicado, de modo quase confidencial em 2005, mas agora reeditado) a tonalidade seja predominantemente amarga e sarcasticamente autodepreciativa, o perfil musical é o de uma pop muito amadurecidamente clássica, aqui e ali a escorregar para a folk ou o jazz, mas nunca lúgubre e morbidamente melancólica.
Bem pelo contrário: “Fuck Was I” é o género de canção que agrafa palavras como “Love grows in me like a tumor, a parasite bent on devouring its host, I'm developing my sense of humor, till I can laugh at my heart between your teeth, till I can laugh at my face beneath your feet (...) maybe I’ll be the one that doesn’t burned, what the fuck was I thinking?” ao amável desenho de uma valsa e “Voice On Tape” sobrepõe um ar de ingénua “lullabye” à frieza de “since I don’t need you physically around, I’ve got your voice on tape, I’ve got your words in me, I don’t want anything else”. Pensem no melhor de Aimee Mann, Regina Spektor, Fiona Apple, Jolie Holland, Liz Phair e Suzanne Vega. Andarão muito perto de Batten The Hatches, um daqueles discos de estreia que prometem quase tudo. (2007)
Subscribe to:
Posts (Atom)