(sequência daqui) Filmado a preto e branco, há um ano, durante dois dias, num estúdio expeditamente montado na proximidade da modesta casa deste nos Hamptons, em Long Island (1 milhão de dólares face, por exemplo, aos 10,5 milhões da de Paul Simon), assistimos a uma conversa sem quaisquer preocupações de abordagem cronológica na qual Rick Rubin não desempenha o papel de entrevistador mas sim o de gatilho para a análise quase forense do método criativo e de utilização do estúdio de gravação por McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr. De forma desarmante, colocado perante a questão de como faziam os Beatles para, desde o início, possuirem um instinto infalível para criar melodias memoráveis, McCartney explica que, não possuindo naquela altura qualquer forma de gravar o que criavam nem conhecendo nenhum deles a notação musical, só sobreviviam aquelas melodias de que, no dia seguinte, ainda conseguiam recordar-se. Mais à frente, acrescenta o argumento com que se esgueiravam a mais insistentes interrogações acerca dessa matéria: “Éramos de Liverpool onde existe uma grande influência irlandesa e celta – por vezes, diz-se até que Liverpool é a capital da Irlanda. Os Celtas nunca registavam nada por escrito. Era a tradição dos bardos. Essa era a nossa desculpa. Eu e o John costumávamos dizer, ‘É a tradição bárdica!’” John Lennon é, muito naturalmente, figura omnipresente nas rememorações de Paul (“Eu tratava-o por ‘four eyes’ e ele chamava-me “pigeon-chest’ “): à superfície vêm as diferentes circunstâncias familiares de ambos – a de Paul, equilibrada e com um pai pianista em bandas de ragtime e jazz que gostava de tocar “showtunes” para a família; problemática e conflituosa a de John –, o modo como, hoje, encara o que viveram juntos (“Naquela altura, eu trabalhava com um fulano chamado John. Agora, olho para trás e dou-me conta de que trabalhei com o John Lennon!”) e como esse distanciamento reconfigura todo o resto (“Acabei por transformar-me num fã dos Beatles. Naquela altura, eu era apenas um Beatle. Mas, agora que o volume de trabalho dos Beatles está concluído, volto a ouvir os discos e interrogo-me “De onde é que saiu aquela linha de baixo?...” (segue para aqui)
27 March 2019
ZÉNITE
“Esquecemos muitas coisas mas há outras que não nos saem da memória. Recordo-me de quando, há 40 anos, eu e o Grant íamos a atravessar uma ponte, de carro, ele ter-me perguntado se já tinha um nome para a banda e eu ter respondido ‘The Go-Betweens’. Aquela conversa entre dois tipos de 20 anos, está agora em sinais espalhados por toda a cidade de Brisbane, e, provavelmente, vai lá ficar centenas de anos. Poderia ser o ponto de partida para um filme... Quando começamos uma banda, sonhamos com discos de ouro, tocar no Madison Square Garden, nunca pensamos que o nome dela há-de vir a ser atribuído a uma ponte da nossa cidade”, diz-me Robert Forster, a propósito de, desde 2009, Brisbane – por votação popular "online" – ter passado a incluir na sua toponímia o nome do grupo que, em 1977, ele, Grant McLennan e Lindy Morrison fundaram. Sim, os Beatles poderão ter cantado a Penny Lane, de Liverpool, Tom Waits a Kentucky Avenue, de Whittier, na Califórnia, e Van Morrison a Cyprus Avenue, de Belfast, mas, a eles, foi a cidade que lhes chamou seus.
Não virá a ser, talvez, o ponto de partida para um filme – pelo menos, um filme dele: no novo álbum, Inferno, o que diz, metaforicamente ou não, em "No Fame", é “I’m going to write a novel that is set a hundred years ago” – mas, de certo modo, haverá de servir como compensação para aqueles tempos em que alguma da mais perfeita joalharia pop foi pouco menos do que ignorada e de que ele, agora, fala, sem um pingo de modéstia, em "Remain": “I know what’s like to be ignored and forgotten when yours is the name that doesn’t come up too often, big city screens, big city dreams remain, I did my great work while knowing it wasn’t my time”. E, no entanto, nestas bem-aventuradas nove canções gravadas no estúdio de Victor Van Vugt, em Berlim (onde, como Forster relata no ”Berlin Diary”, “todas as mulheres parece terem visto um fantasma”), que, no total, não vão além dos 35 minutos e se iniciam com um poema de W. B. Yeats ("Crazy Jane on the Day of Judgement"), não existe uma sombra de ressentimento. Pergunto-lhe se “Eat only what I eat, breathe only what I breathe, well that’s me”, as últimas linhas da última canção ("One Bird in The Sky"), não contém algo daquele conceito do budismo zen que aconselha a “comer quando se tem fome, beber quando se tem sede e dormir quando se tem sono” e ele responde que apenas é “adepto de dizer coisas simples mas com significado”. Seja, então, budismo zénite, o ponto mais alto do céu.
23 November 2010
IDENTIDADES TROCADAS
München - Chaquiego
Peixe:Avião - Madrugada
Só pode ser um caso de personalidades trocadas. Porque, havendo que optar por um nome que se colasse como luva à mão para descrever a música dos autores de Chaquiego e Madrugada, muito mais facilmente se diria que o primeiro seria assinado por uma banda de nome Peixe:Avião e o outro por uns tais München. Confirma-se em absoluto: vivem-se tempos interessantes na música portuguesa e o facto de não ser exactamente intuitivo adivinhar a quem atribuir os documentos de identificação correctos é apenas mais um sintoma de que as coordenadas estéticas se encontram saudavelmente baralhadas e desalinhadas.
Prestemos, então, atenção a Chaquiego. Há quatro anos, Fala Mongue aterrava discretissimamente, qual tuna de selenitas em demanda daquela espécie de “surruralidade” de que terão ouvido Tom Waits falar, numa emissão de rádio captada, por acidente, a 384.405 quilómetros de distância. Eles mesmos preferem aludir a “mecanismos de precisão enferrujados, cordas em desuso e percussões em multiusos”, num processo deliberado de “confundir próprios e alheios”.
João Nicolau (que também realiza filmes com barcos de piratas tecnológicos, caleidoscópios felinos e personagens que praguejam "Holy Santa Maria fuck!" enquanto actuam de acordo com o lema, "sonho, amor, arte, ciência, literatura, música, tecnologia, café e rum" – falo do recente A Espada e A Rosa exibido no festival de Veneza), Mariana Ricardo (que, com Nicolau, recentemente sonorizou “The Secret Museum of Mankind”, uma singularidade fotográfica de 1935) e restante trupe de variabilíssima geometria reincidem, pois, agora, soltando o dirigível baptizado Chaquiego, programa de legos sonoros em défice de peças, de valses-musettes interpretadas por mendigos ébrios da Transnístria, de canções de roda para infantes com cometas encravados na garganta, de cerimónias tribais dos pigmeus do jardim das Hespérides. Aquele género de música que, sem se esforçar demasiado, Alexandre O’Neil poderia ter definido como “em forma de assim”. Ou, empenhando-se um pouco mais, “em forma de peixe:avião”.
Já Madrugada, cujos autores, frequente e equivocadamente (desde 40:02, de 2008), se têm visto visto associados à descendência-Radiohead, é objecto francamente urbano. E muito mais daquela urbanidade musical – mesmo que eles não se apercebam disso – com que o mundo travou conhecimento há vinte e tal anos, fruto de sismo estético com epicentro no eixo-Manchester-Liverpool. Quase invisível e subliminarmente, contaminada igualmente pelas réplicas locais tal como a Sétima Legião, na altura, as registou, ocorrência só neste momento, porém, de consequências verificáveis, mais a Norte, em Braga. O que, com tal perfil (para mais, enriquecido e amplificado pelas participações de Manuela Azevedo, dos Clã, e de Bernardo Sassetti) seria coisa para se imaginar criada por uma agremiação a quem um nome geograficamente definido vestiria bem. Como Warsaw. Ou Portishead. Ou Beirut. Ou München.