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29 May 2017

UTOPIAS

(post convidado no Delito de Opinião)

Adão dá nomes aos animais - Theophanes de Creta, sec. XVI
 
Ia jurar ter lido algures que, acerca de Marx – Karl, não Groucho –, alguém terá dito que fez todas as perguntas certas e deu todas as respostas erradas. Procurei o autor mas não fui capaz de descobri-lo. Caso o consigam, agradeço. Se não, podem sempre atribuir-me a citação. Até porque, com autor devidamente identificado (Voltaire), há outra pelo menos tão eloquente: “Devemos julgar um homem pelas perguntas que faz mais do que pelas respostas que dá”. Em Janeiro deste ano, “Le Monde”, numa das suas publicações “hors-série”, actualizava L’Atlas des Utopies, lançado pela primeira vez em 2012. Quase 200 páginas, outros tantos mapas e 25 séculos de História repletos de perguntas e respostas. Mas, naturalmente, num inventário que vai da propriamente dita Utopia – acerca de cuja autoria os académicos hesitam: se muitos pensam ter sido Thomas More, outros, adeptos das “teses de Boliqueime” de um doutor honoris causa em Letras pelas universidades de Goa e Heriot-Watt, de Edimburgo, juram tratar-se de Thomas Mann – à República, de Platão, ao esperanto (designação anterior daquilo a que, hoje, chamamos “inglês”), às comunas owenianas, fourieristas, comunistas, socialistas e anarquistas (para cima de uma centena de covis de bisavós hippies), ou às profecias de Marx – Karl, não Groucho –, a utopia primordial é, sem dúvida, o Paraíso bíblico (ou Jardim do Éden), sobre o qual, mais do que exigir respostas, há imensas perguntas a fazer.

Lilith - Kenyon Cox, 1892
 
Umberto Eco, por exemplo, em Serendipities: Language and Lunacy, interrogava-se a propósito de um perturbante mistério: se, em Génesis 2:20, Adão teve por missão dar nome “a todos os animais: os rebanhos domésticos, as aves do céu e a todas as feras”, quem (sim, quem?) nomeou os peixes? Aliás, logo a seguir, surge outra dilacerante dúvida: se, em Génesis 1:27, lemos “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”, por que divino raio, em inexplicável "raccord" com o episódio da bicharada, somos testemunhas de um Jeová que, verificando que "Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”, não apenas pratica o primeiro acto cirúrgico precedido de anestesia – “Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne” – como realiza uma pioneiríssima clonagem transgénero: “com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele” (Génesis 2:21, 22)!... Onde pára, então, a miúda que nos tinha sido apresentada em Génesis 1:27?

Lilith (Suméria)

Poderá não ser a melhor resposta mas, algures entre os séculos VIII e XI, alguém arriscou dá-la, no Alfabeto de Ben Sirach. Afinal, no original, deveria ler-se assim: “Depois de ter criado Adão, Deus disse: não é bom que o homem esteja só. Criou, então, da terra, uma mulher para Adão, tal como o havia criado a ele e chamou-lhe Lilith. Adão e Lilith começaram imediatamente a desentender-se. Ela disse, ‘Não me deitarei por baixo de ti’, e ele disse ‘Não me deitarei por baixo de ti, apenas por cima. Foste feita para ficar por baixo e eu por cima’. Lilith respondeu ‘Somos iguais porque fomos ambos criados da terra’. Mas não chegaram a acordo e, quando Lilith se apercebeu disso, pronunciou o nome inefável e voou pelos ares”. Ou seja, tudo terá tido origem numa inconciliável diferença de preferências sobre posições coitais: enquanto Adão era adepto da que – por boas razões – viria a ser conhecida como “do missionário”, Lilith era, decididamente, uma “cowgirl”.

Fellatio Interruptus - Miguel Ângelo, sec. XVI 

Os sarilhos de Adão com mulheres continuariam com a segunda concubina, Eva. Por um motivo, aliás, teologicamente peculiar: em Génesis 2:16, Jeová, para autorizar o casal a viver no Eden Condominium, obrigara-o contratualmente a uma condição “De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás”. Traduzindo: uma vez que “o conhecimento do bem e do mal” é aquilo a que chamamos moral, se pretendiam permanecer eternamente felizes, não deveriam preocupar-se sequer com tais ninharias. E, a fazer fé (pois é disso que se trata) na maravilhosa representação do fellatio interruptus no qual Miguel Ângelo os apanha no tecto da Capela Sistina, cumpriam à risca o acordo. Momento dramático, porém: é justamente nesse instante que, enroscada na árvore, a serpente oferece o fruto proibido (como vimos antes, a moral) à compreensivelmente distraída Eva. E nova perplexidade surge: de cabeça perdida, Jeová vira-se para o surpreendido réptil e amaldiçoa-o: “Rastejarás sobre o teu próprio ventre!” (Génesis 3:14). Seguramente, mais tarde ou mais cedo, a paleontologia criacionista haverá de descobrir provas da existência de serpentes bípedes ou quadrúpedes contemporâneas de Adão e Eva. Mas, numa história que começou tão problemática e só pode ter prosseguido com um reprovável festival de incesto, é capaz de ser optimismo demasiado pensar em utopias.

12 January 2017

... e mais interessantes pormenores sobre Lilith (ou Lola, Lilou, Leyla, Lolita, Lalitha, Layla, Liliane...)

Dante Gabriel Rossetti - Lady Lilith (1868)

04 November 2015

LEVEZA 


Na formidável colectânea de histórias de ódio, xenofobia, ficção-científica, violência sanguinária, pornografia e trepidante aventura que é o Antigo Testamento, nunca foi prestada a devida atenção ao facto de, logo a abrir, no Génesis, Adão e Eva terem sido proibidos de comer não uma inocente maçã (apenas a partir do século XIII, na iconografia religiosa europeia, o pecado original foi assim representado) mas sim “o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal”. Isto é, o casal que (após a separação litigiosa de Adão e da primeira mulher, Lilith, devido a desentendimentos acerca da legitimidade da posição coital "girl on top" – ver Alfabeto de ben Sirach, 700/1000 EC) vivia em paradisíaco concubinato, estava contratualmente obrigado a ignorar a moral. Amoralidade essa que, sendo um dos requisitos para não ser expulso do Condomínio Éden, deveria conferir também uma maravilhosa leveza à existência.


No conto de fadas de George MacDonald, The Light Princess (1864), a protagonista lida com problema semelhante: em consequência do feitiço de uma tia malvada, desconhece a gravidade. Tanto a propriamente física – ao menor movimento, flutua no ar – como a que a impede de chorar e ver o lado sério das coisas. No suposto final feliz, é salva pelo proverbial príncipe apaixonado que a devolve às garras da maldição de Newton e, em pleno turbilhão emocional, desaba em pranto - de onde poderá, uma vez mais, concluir-se que a educação moral é, invariavelmente, causa de sarilhos e infelicidade. Já Tori Amos, autora de uma respeitável discografia (de que, no contexto em apreço, deverão destacar-se Abnormally Attracted to Sin, 2009, e a memorável estrofe “So you can make me come, that doesn't make you Jesus”), travou conhecimento com a gravidade da pior maneira, ao estatelar-se na adaptação do conto de MacDonald para o formato "musical". Desesperantemente convencional tanto no plano da composição como – a avaliar pelo que via-YouTube se pode perceber – naquilo que à produção do Royal National Theatre de Londres diz respeito, é peça a lonjura sideral, por exemplo, das colaborações de Lou Reed e Tom Waits com Bob Wilson e irmã quase gémea dos produtos da linha de montagem-Andrew Lloyd Webber. Indiscutivelmente, um pecado. Porém, nada original.

13 August 2015

A sério, há tipos adultos, chefes de família, pais de filhos, que acreditam nestas merdas * (via DdO)

* daí, ter sido necessário inventar certas
 técnicas de robustecimento para compensar os danos da amputação

(e não esquecer a maravilhosa hipótese-Lilith)

30 March 2015


"The Church even dictated how you were supposed to have sex. Anything other than the common 'missionary position', for example, was considered unnatural and therefore a sin, according to the Church. The woman on top position, or entering her from the rear (sex a tergo) were not favored because they interfered with the natural order of male-female roles. Anal and oral sex were sins because they could only be practiced for pleasure, not procreation, which for the purists was the only purpose of sex. Punishments for those using 'deviant' sexual positions could be very harsh: three years' penance for the woman on top and the same for both oral intercourse and sex a tergo, which was generally seen as the most sinful position ... with the possible exception of anal intercourse"

23 May 2012

O PENSAMENTO FILOSÓFICO PORTUGUÊS (XCV)

Pedro Arroja

(cortesia de mr. apostate)

Duas (postagens) seguidas pode ser um exagero mas há coisas boas demais para terem de ficar à espera

"O que é que visa o assédio, o que é que se pretende conseguir com este comportamento que é na origem feminino e dirigido a um homem, embora nas sociedades femininas seja indiscriminadamente praticado, nas mais variadas formas,  por mulheres e homens e sobre homens e mulheres?

O que é que uma mulher visa assediando um homem?

Desconcentrá-lo.

Desconcentrá-lo de tudo o que seja espiritual ou do intelecto, para o trazer à terra, para o virar para aquilo que é real e concreto - ela, em primeiro lugar. Uma mulher não abdica de ser o centro das atenções, e este é um dos mais distintivos comportamentos femininos. Ela disputa este lugar a Deus.

Tudo começou no Jardim do Eden. Adão estava lá concentrado, olhos postos no céu, a meditar em Deus. Eva passou uma vez e, à primeira, ele nem reparou nela. Ela passou a segunda vez. Desta vez, ele baixou o olhar, mas rapidamente o voltou de novo para o céu, como que envergonhado, e o espírito para Deus. Ela passou mais uma vez e ainda outra.

Não demorou muito tempo até que ele estivesse na posição do missionário *, de costas  voltadas ao céu e a Deus". (aqui)

*  não considerando a hipótese Lilith, claro.

30 January 2009

EVEN COWGIRLS GET THE BLUES

Lilith - John Collier, 1892

"After God created Adam, who was alone, He said, 'It is not good for man to be alone'. He then created a woman for Adam, from the earth, as He had created Adam himself, and called her Lilith. Adam and Lilith immediately began to fight. She said, 'I will not lie below', and he said, 'I will not lie beneath you, but only on top. For you are fit only to be in the bottom position, while I am to be the superior one'. Lilith responded, 'We are equal to each other inasmuch as we were both created from the earth'. But they would not listen to one another. When Lilith saw this, she pronounced the Ineffable Name and flew away into the air". (The Alphabet of Ben-Sirach)

(2009)