Houve um riquíssimo – e injustamente menosprezado – filão da música do século XX redescoberto à beira do novo milénio que, embora, à época, tenha produzido descendência apreciável, não chegou a ser exaustivamente garimpado. Os Stereolab, Broadcast, Saint Etienne, High Llamas, Pizzicato Five, Tipsy, Combustible Edison, Pram ou Oranj Symphonette, quais intelectuais renascentistas, poderão ter arregalado os ouvidos perante as três dezenas de volumes recheados de tesouros da série Ultra Lounge (e as muitas outras reedições que recolocaram no mapa Les Baxter, Martin Denny, Ray Coniff, Yma Sumac, Arthur Lyman, e Juan Garcia Esquível enquanto legítimos herdeiros de Bach, Telemann, Debussy ou Satie e antecedentes directos de Cage, Chet Baker e Brian Eno) mas, no vastíssimo universo easy listening/lounge/muzak/exotica/elevator music, muito ficaria ainda por explorar. Acrescente-se ainda a recuperação das obras dos pais fundadores da electrónica – Raymond Scott, Robert Moog, Louis e Bebe Barron –, o encontro com as excentricidades sonoras de Gravikords, Whirlies & Pyrophones (1998), a reavaliação de inúmeras bandas sonoras para "gialli" e eternos residentes nos rodapés da história do cinema – a magnífica recolha Crime & Dissonance, de Morricone, mas também Fabio Frizzi, Krzysztof Komeda, Gene Moore – e o poço sem fundo da "library music", e ficar-se-á com uma razoável ideia da inesgotável matéria-prima pronta para centrifugação laboratorial.
Foi justamente por aí que Le SuperHomard, banda francesa de Avignon (ou, mais exactamente, Christophe Vaillant, compositor, Julie Big, voz, e acólitos), se orientou, criando uma descendência contemporânea para tão glorioso passado. Situando-se algures no ponto em que uma reinvenção dos ABBA às mãos de membros avulsos dos Saint Etienne e Stereolab se cruzaria com a suave troca de genes entre uns Black Box Recorder menos perversos e um Syd Barrett um segundo antes de se evadir para os anéis de Saturno (eles chamam-lhe “pop retro-futurista” e confessam-se também em dívida relativamente a Morricone. François de Roubaix, Love), Meadow Lane Park é um garboso exercício de "space age bachelor pad music" angélica, um luminoso modernismo sonoro imaginado sob o signo de Vasarely. "Paper Girl" diz tudo: “Take a page, draw a happy face inside a heart, picture you, picture me, picture everyone, draw the lines of fireworks exploding in the sky, red and blue, pink and green, cover all the white”.
20 April 2016
E-Z
No frenético vai-e-vem das recuperações, reavaliações e repescagens com que a indústria discográfica se entretém – e, através das quais, actualmente, tenta, pura e simplesmente, sobreviver – nenhuma terá sido tão inesperada e tão surpreendentemente interessante como a do “easy listening”/”muzak”/”elevator music”, na segunda metade dos anos 90 do século passado. Nem necessitava de se reivindicar de linhagem ilustre (de Bach a Telemann, Mozart, Satie, Cage ou Brian Eno), porque aquilo que o velho baú, há muito fechado, foi revelando valia por si mesmo: Les Baxter, Martin Denny, Ray Coniff, Burt Bacharach, Yma Sumac, Arthur Lyman, Juan Garcia Esquível (particularmente preciosos foram os cerca de 40 volumes da colecção Ultra Lounge, da Capitol) e inúmeros outros praticantes daquela música “sem qualquer assunto nem objectivo, semelhante a uma cadeira de repouso” sobre que Erik Satie e Henri Matisse terão divagado, não apenas demonstravam que existira vida musicalmente sofisticada antes do rock mas obrigavam também a redescobrir um universo sonoro francamente mais aventureiro do que muita música contemporânea.
A verdade, porém, é que esse movimento revivalista tivera, pelo menos, um antecedente notório: as duas E-Z Listening Muzak Cassettes publicadas, em 1981, pelos Devo, em exclusivo para o seu clube de fãs, e só seis anos depois, reeditadas em CD pela Rykodisc. Continham “Muzak versions of your favourite Devo tunes performed by Devo at a rare casual moment” e, nessa obliqua homenagem à empresa e conceito musical criados pelo brigadeiro George Owen Squier, despiam 20 peças do seu reportório (e "Satisfaction", dos Rolling Stones) até ao osso, como que numa ilustração sonora da sua “de-evolution theory”, defensora da ideia de que, em vez de continuar a evoluir, a espécie humana teria iniciado um processo de regressão evidenciado pelas disfunções e mentalidade de rebanho da sociedade americana. Agora empacotadas sob a forma de "box set" de dois CD ou dois vinis, curiosamente, o resultado a que os manos Mothersbaugh e Casale chegam não se situa demasiado longe daquele a que, exactamente pela mesma altura, em Cardiff, os Young Marble Giants (dos outros irmãos Moxham), em Colossal Youth e Testcard EP, tinham ido dar.
20 June 2008
O MUNDO JÁ NÃO ERA O QUE É
Hoje, é perfeitamente claro: desde o fim dos anos 50/início de 60, está em marcha uma conspiração com o objectivo de apagar da História da música a pop-antes-da-pop. Dirigida pela maçonaria da «nova pop» contra a «velha pop» e pelo rock contra tudo aquilo que o antecedeu, só fugazmente a memória do que era a música popular anterior a essa época é autorizada a vir a superfície. Sob o imenso guarda-chuva do «easy listening» (ou «muzak» ou «música de fundo» ou «música ambiente», ou «música para elevadores» ou...) foi deliberadamente lançado em arquivo morto tudo o que sucedeu antes da era inaugurada pelo rock'n'roll, considerando essa pré-história como mero «entretenimento ligeiro» que uma geração posterior de «artistas» animada de uma superior missão estética haveria de sepultar no caixote de lixo da História. Por acaso, a verdade não é bem essa. A «velha pop» não era mais «ligeira» ou mais «séria» do que a «nova» e nem sequer as tradições de que se inspiraram eram tão diferentes uma da outra. Num e noutro caso, convergiram as heranças da música branca, negra e do resto do mundo, numa como na outra se revelaram notáveis músicos, autores e compositores. Tudo o mais decorre apenas dos cíclicos fenómenos de moda e, se hoje (por um desses inexplicáveis eternos retornos de que só Zeus e a indústria discográfica conhecem os segredos), o tal «easy listening» parece estar de volta, não é isso que o vai tornar mais ou menos respeitável.
Andy Williams - "Music To Watch Girls By"
Já se sabe que Bach, Mozart, Satie, Debussy, Chet Baker, Tom Jobim ou Brian Eno não teriam considerado como insulto chamar-se «música ambiente» a muitas das peças que escreveram. Convém agora que se perceba igualmente que o «easy listening» propriamente dito também não tem de se ofender por ser assim tratado. E o momento para isso não podia ser mais adequado com toda uma série de velhas jóias a serem trazidas à superfície e, de novo, expostas à curiosidade de quem com elas nunca travou conhecimento. Pode começar-se mesmo pelo princípio, isto é, por um CD da respeitabilíssima editora Hyperion, totalmente dedicado aos British Light Music Classics, interpretados pela New London Orchestra, dirigida por Ronald Corp. Façam então o favor de descobrir, entre outros, os notáveis Archibald Joyce (1873-1963, «the british waltz king»), Sydney Baines (1879-1938, director da trupe de «dancing girls» do Palace Theatre), Albert William Ketelbey (1875-1959, expoente da «música narrativa exótica»), Eric Coates (1886-1957, rei da rádio e criador de música para espevitar os ritmos laborais), Charles Williams (1893-1978, «film, radio and TV musician»), Ronald Binge (1910-1979, inventor das «cascading strings» na orquestra de Mantovani) ou o «jovem» Robert Farnon (1917, autor do tema mais utilizado de sempre em genéricos, «Jumping Bean»). Estão lá todos e ajudam bastante a introduzir um certo sentido de perspectiva e a definir uma linhagem ilustre.
Xavier Cugat - "She's a Bombshell from Brooklyn"
Depois, há o verdadeiro baú do tesouro: a sumptuosa colecção de 12 CD da Capitol * que dá pela designação genérica de Ultra Lounge. Minuciosamente concebida e executada (do grafismo, aos textos, ao «artwork», à selecção de materiais e à organização temática), todos os títulos, do primeiro ao último, exigem ser referidos de tal modo são auto-explicativos: Mondo Exotica, Mambo Fever, Space Capades, Bachelor Pad Royale, Wild Cool and Swinging, Rhapsodesia, The Crime Scene, Cocktail Capers, Cha Cha De Amor, A Bachelor In Paris, Organs In Orbit e Saxophobia falam por si próprios. O que, traduzido por outras palavras, equivale a um verdadeiro luxo asiático daquela imensa variedade de músicas que, entre ritmos latinos, variedades francesas, vaudeville, êxitos da Broadway e do cinema, «crooning», jazz e swing bands, «torch songs», exotismos, futurismos e experimentalismos diversos, constituiram a dieta sonora jndispensável antes (e, num universo paralelo, durante e depois) de E1vis Pres1ey ter subido ao trono.
Joi Lansing - "Web Of Love"
Os textos introdutórios de R. J. Smith combinam sabiamente erudicão e humor fino, o fundo da caixa de cada disco é uma muito apropriada reprodução de pele de leopardo e, em todos, existe a sugestão do «cocktail» adequado (e respectiva receita) para acompanhar a audição. Nos 12 títulos, há varias presenças recorrentes (gigantes como Martin Denny, Les Baxter, Yma Sumac, Julie London, Nelson Riddle, Dean Martin ou Billy May) e é absolutamente necessário saborear as deliciosas ilustrações de Tommy Steele e Andy Engel bem como os «headlines» e textos de contracapa que sintetizam cada álbum. Exemplos avulsos: The Crime Scene anuncia «Spies, thighs & private eyes», Cha Cha De Amor situa-se «From Mamboland to Bossanovaville» e Saxophobia promete «A horn-a-copia of sax-ual delights», enquanto nas costas de A Bachelor In Paris se explica o seu conteúdo como «eighteen vintage hi-fi ensembles from our designer vaults styled with a continental flair. Haute couture! C'est magnifique! C’est si bon! Vive la diffférence! Vive la France! French fry! French toast! Ooh-la-la ma chérie! Bon appetit! Voilá!». A atenção ao pormenor e à encenação de cada conjunto de temas é exactamente o que se desejaria num arquivista enciclopédico que, em simultâneo, dominasse a ironia «kitsch» e a arte do «marketing» superiormente culta. Em suma, o género de colecção que qualquer hedonista digno desse nome revolve céus e terra para lhe chamar sua.
Martin Denny - "Quiet Village"
Mergulhando um pouco mais em profundidade no catálogo da Capitol, há ainda o magnífico duplo The Exotic Sounds of Martin Denny, compilação de música do criador do universo sonoro «exotica», uma espécie de «world music avant la lettre», concebida por desígnio divino no Havai, na esplanada do Dagger Bar, de Don the Beachcomber. Denny tinha nascido em Nova Iorque e estudado com tão insignes mestres como Doctor Wesley La Violette (professor de piano e contraponto, fervoroso crente na teoria da reencarnacão e tradutor do épico sânscrito Bhagavad Gita) e Doctor Arthur Lange (especialista da instrumentacão para «small combo» e expoente máximo da sinestesia tal como a Sociedade Teosófica a entendia). No início, enquanto pianista, acompanhou luminárias extraordinariamente ignoradas com The Incomparable Hildegarde, mas foi em Honolulu que lhe ocorreu a ideia de conjugar timbres polinésios, africanos, orientais, árabes, vibrafones jazzy, o coaxar das rãs, o canto dos pássaros e uma visão do mundo como Disneylandia sonora, para fornecer o pano de fundo musical sob o qual os turistas debicavam pipocas e lendário surfista Duke Kahanamoku bebericava Blue Hawaiians. Em 1959, James A. Michener escreveu-lhe as «liner notes» para o álbum Hypnotique («Esta é musica para ser vista e, neste disco, há muitos sons novos que obrigarão o ouvinte a criar as suas próprias imagens verbais»), Sammy Davis, Xavier Cugat ou John Sturges alimentaram a lenda e, numa íntima relação com Les Baxter, encarregou-se de popularizar ao vivo as ideias que o outro concebia no laboratório do estúdio. Modernos discípulos como os Beach Boys, Devo, Yellow Magic Orchestra ou Combustible Edison prolongaram o mito. Mas não há como escutar «Quiet Village», «Bali Hai», «Ringo Oiwake», «Oro (God of Vengeance»), «Llama Serenade», «The Left Arm Of Buddha», «Mau Mau», «Tse Tse Fly» ou «Voodoo Love» para compreender como o mundo, muito antes da aldeia global, já tinha deixado de ser o que é.
Há um ano, esta era a música do passado. E de um passado consideravelmente distante. Hoje é, pelo menos, uma das músicas do futuro. Haverá alguma lição a retirar daí? Provavelmente só aquela que ensina que, daqui em diante, vigora a mais absoluta amoralidade estética. Por outras palavras, não há princípios firmes e eternos. Se o «easy listening» (em leitura contemporânea, «E-Z listening») era uma história longínqua de avós às voltas com a decoração de interiores e a melhor forma de não incomodar os ouvidos dos convidados durante a «cocktail-party», agora, acha-se reconvertido em «música ambiente» respeitada e aceitável, reivindicando-se de Mozart, Satie, Cage e Brian Eno. A verdade é que sempre foi assim. Pensava-se em Ray Coniff, Percy Faith e Martin Denny e regressavam a galope os fantasmas da «música de fundo» decorativa e descartável... Mas se os nomes fossem Eno, Chet Baker ou Debussy, o escudo de respeitabilidade cultural já era diferente. O problema (se existe um problema...) é que já ninguém pensa muito nisso. Nenhum é melhor do que os outros e, se se trata de aromatizar a atmosfera com sons, é apenas uma questão de gosto.
Yma Sumac - "Pachamama"
Mike Flowers, a recente vedeta E-Z - após a versão de «Wonderwall» dos infinitamente inferiores Oasis -, fala, com toda a razão, dos conceitos de «pop orchestra» e «expanded combo». Explica logo a seguir que se trata de um «não-género» com referência à canção popular, ao jazz, à música latina, à pop, ao rock, à folk, ao country e ao classicismo orquestral, misturando «os sons exóticos de Bacharach e Bjork, a perspectiva histórica e caleidoscópica do cravo eléctrico e a exuberância de Jimmy Webb» num cadinho psicoacústico que convida o público a saborear «as atmosferas criadas pelos Velvet Underground e Sérgio Mendes, apimentadas por Prince, com um toque de tijuana». Tem programa e tudo: «A nossa ética é essencialmente positiva, desafiamo-nos a esquecer as diferenças e a procurar um terreno comum. Depois, descontraiam-se e divirtam-se pois trata-se de uma atitude não competitiva em que o objectivo é o prazer e a aceitação mútua, um divertimento democrático e espectacular para toda a família». Como escreveu Christophe Conte, em «Les Inrockptibles», a propósito das versões de Mike Flowers para «Wonderwall», e «Light My Fire», «tudo bem pesado, qual dos dois grupos é mais 'kitsch', Mike Flowers Pops ou Oasis? Qual dos dois cantores roça mais de perto o ridículo, Mike Flowers ou Jim Morrison?». Aceitam-se todas as respostas, rejeitam-se os conflitos entre «Please Release Me», de Engelbert Humperdinck, e «All Tomorrow's Parties»/«Venus in Furs»/«White Light White Heat», dos Velvets, em nome do ecumenismo E-Z (não é a «Velvet Underground medley», como diz Mike Flowers, a «ambient section» dos seus concertos em que o ambiente é Nova Iorque?) e compreende-se inteiramente que os Tindersticks encomendem partituras a Juan Garcia Esquivel, o papa exótico da música de vida fácil.
Frank Pourcel - "Concorde"
Para conferir profundidade histórica ao empreendimento, existem também as reedições em CD de Dig It e The World of James Bond/Adventure, oriundos da época em que o «easy listening» dava novos mundos sonoros ao mundo. Acompanhando o desenvolvimento dos sistemas de alta-fidelidade, «Dynagroove», da RCA, «Dynacoustic», da Somerset, «Visual Sound Stereo», da Liberty, «Living Presence Series», da Mercury, «360 Degree Sound», da Columbia, ou «Full Dimensional Stereo», da Capitol, o «Phase Four Stereo», da London, distribuía vozes e timbres instrumentais pela esfera acústica e, com as orquestras de Frank Chacksfield, Larry Page, Ted Heath, Roland Shaw, Ivor Raymonde ou Ronnie Aldrich, convertia a subversiva pop emergente em amenas aguarelas sonoras capazes de estimular digestões difíceis e aplacar conflitos domésticos. Ontem como hoje, de «Tequilla» a «These Boots Are Made for Walking» ou às composições de John Barry para James Bond, a receita era eficaz e, no final da refeição, havia sempre lugar para os «40 exotic rhythms from the ruler of all things latin», isto é, Edmundo Ros, celebridade da rádio, «superstar» absoluta do início dos anos 60 nos clubes noturnos londrinos, favorito da realeza e das donas de casa. Rumbas, sambas, temperos exóticos, «pop à la carte» ou árias de ópera com molho de calypso faziam as delícias dos convivas.
Martin Denny - "Exotica"
Algo mais vanguardistas (entendam a palavra como quiserem) eram Les Baxter, Martin Denny, Chick Floyd, Yma Sumac ou os 80 Drums Around the World. Nenhum deles sabia mas, nos anos 50, estavam a inventar o conceito de «world music», observado sob a perspectiva «naive» americana. Chamavam-lhe «exotica», combinava sons da Polinésia, da China, do mundo árabe, de África, da Índia, do Havai e do coaxar das rãs e gerou personagens únicas como Les Baxter, explorador pioneiro do «theremin» e único compositor em simultaneo para os filmes de Ingmar Bergman, Roger Corman e Ed Wood. Exportam-nos, hoje, ao lado de receitas para «cocktails», evocações de colonialismo turístico e aventuras na selva. Espécimes destes e muito mais é o que consta de Mondo Exotica e da série Ultra Lounge, da Capitol, que promete poesia pura em títulos como Bachelor Pad Royale, Space Capades, Wild, Cool & Swinging, Rhapsodesia, Cha Cha de Amor, Organs in Orbit ou Saxophobia...
(1996)
28 April 2008
O LABORATÓRIO DO HORROR (a propósito de Diary Of The Dead, de George A. Romero)
“Evidentemente, a banda sonora é uma quimera do cinema. É som e ruído, ruído e música, música e voz, voz e som”, afirma Philip Brophy na introdução de 100 Modern Soundtracks (2004). Mas se, numa apreciável parcela da “film music” que, desde os primórdios dos “talkies”, foi sendo composta, o lugar atribuído a essa “quimera” tendeu a ser apenas ilustrativamente subsidiário da imagem, no subgénero dos “horror movies”, por força do pretendido efeito de choque que é da sua própria natureza, a sua função expressiva adquiriu um relevo incomparavelmente maior. E constituiu, inclusivamente, um campo particularmente fértil para experimentalismos sonoros e/ou musicais que, noutras áreas cinematográficas, tendem a ser menos bem acolhidos.
The Fall Of The House Of Usher
O exemplo de Os Pássaros, de Hitchcock (1963), é inevitável: inteiramente desprovido de “música”, tal como, habitualmente, a identificamos, todo o aterrador universo sonoro “aviário” foi electronicamente produzido por Remi Gassmann e Oskar Sala, sob a supervisão de Bernard Herrmann. Particularmente surpreendente, no que respeita ao radicalismo do vocabulário musical empregue, é a colecção de temas de Ennio Morricone recolhida em Crime & Dissonance (2005), compostos para diversos “gialli” (fantástico + terror + policial + pornochanchada de série-Z, em versão italiana), aliás, um inesgotável filão nesta matéria.
Altered States
No entanto, desde a partitura de Franz Waxman para The Bride Of Frankenstein (1935) aos flirts com a “vanguarda” de Les Baxter, em House Of Usher e The Pit And The Pendulum (1960 e 1961), de Corman, às incursões musicais de John Carpenter para os vários Halloween ou The Fog (1980), às soturnas ameaças de , em Rosemary’s Baby (1968), às estridências eruditas cerzidas por Kubrick, em The Shining (1980), às dissonâncias de John Corigliano, em Altered States (1981), às tatuagem sonoras de John Williams para Jaws (1975), de Jerry Goldsmith, em The Omen (1976), de Danny Elfman em Beetlejuice (1988) ou ao glorioso pastiche contemporâneo de tudo isso encenado por Tarantino em Grindhouse (2007), o mundo sonoro do “horror”, sem abdicar do estatuto de culto, é, seguramente um dos mais fascinantes da música para cinema.