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19 April 2017
21 March 2017
PA’LANTE!
Stephin Merritt não terá mais razões para se inquietar. Porque, como que em resposta ao que canta em "They’re Killing Children Over There" (de 50 Song Memoir) – “Now that everyone is fat and complacent, I haven't heard a protest in years” –, a música popular norte-americana acaba de gerar o primeiro grande álbum pós-Trump de canções explicitamente políticas. Dirijam-se, então, os aplausos para Alynda Segarra (ou, se preferirem o "nom de plume", Hurray For The Riff Raff), "singer-songwriter" do South Bronx novaiorquino, de ascendência portoriquenha, que, aos 17 anos, na ressaca de uma adolescência punk no Lower East Side, sonhou ser Woody Guthrie: em périplo pelo país (clandestina a bordo de comboios de mercadorias), estacionou em New Orleans onde se embriagou de folk e blues e alinhavou os primeiros registos de atmosfera genericamente “americana”. De regresso a Nova Iorque, mergulhou numa expedição de descoberta interior da identidade e das origens que, 13 anos após a fuga da Grande Maçã, a conduziu, agora, a gravar The Navigator.
O momento eureka, contudo, ocorreu ao aperceber-se que Ziggy Stardust And The Spiders From Mars, de Bowie, lhe oferecia de bandeja o esquema narrativo e conceptual de que andava à procura: o/a "alien" seria, desta vez, o seu alter-ego ficcional, Navita (“Uma versão BD de mim com 17 anos”), criatura entre-culturas e – sufocada pela distopia urbana – combatente contra a pobreza, a gentrificação dos "barrios" e a colonização cultural. Evocando (e invocando) tanto o “dirty realism” do Lou Reed de New York quanto Laura Nyro, a Patti Smith inicial, os ritmos da "bomba" e "plena" afro-caribenhas, e heróis da diáspora de Porto Rico como Julia de Burgos, Pedro Pietri e Sylvia Rivera, a imprecação é feroz (“First they stole our language, then they stole our names, then they stole the things that brought us fame, and they stole our neighbors, and they stole our streets”), os alvos são claros (“Now all the politicians they just squawk their mouths, they said, ‘We’ll build a wall to keep them out’, and all the poets were dying of a silence disease, so it happened quickly and with much ease”) e – em "Pa’lante" (“Em frente”), alusão ao jornal dos Young Lords, irmãos de armas hispânicos dos Black Panthers – o programa não poderia ser mais preciso: “Do your best, but fuck the rest, be something!”.
13 July 2009
SALVE REGINA!

Regina Spektor - Far
Não existe, hoje, ninguém a escrever canções como as que Regina Spektor assina. E – embora isso possa afugentar aqueles (oh quão previsíveis!) fãs da primeira hora que nunca verão com bons olhos que o seu secreto tesouro indie possa ter-se tornado património público – uma óptima notícia é que tão excelente songwriter (em especial, desde o último Begin To Hope, de 2006) tenha conquistado a visibilidade que, sem a obrigar a exercer a mais antiga e honrosa profissão do mundo, lhe permite alojamento temporário no genericamente mal frequentado espaço das tabelas de vendas. Até porque não seria, de todo, evidente que isso poderia acontecer: a esta “irmã” – mais nova e só um pouco menos inquietante – de Fiona Apple, descendente oblíqua de Joni Mitchell e Laura Nyro, com a indeterminação estética da Björk mais pop, a bizarria menos hippie de Kate Bush e o lirismo cirúrgico de Suzanne Vega, a esta alma russa-americana de outro e de nenhum século capaz de, sem hesitar, colocar, lado a lado, Madonna e Bob Dylan, como exemplos de quem admira "por estarem sempre em mudança", a esta estilista da auto-irrisão que alinha frases como "but sometimes I forget I got a perfect body cause my eyelashes catch my sweat", nada disto estava destinado.
Far é, então, puríssimo e requintado classicismo pop com suficientes pontas soltas para baralhar as hipóteses de leitura imediata, vestígios q.b. da primordial piano-punk com formação de conservatório, visões desconfortáveis do futuro ("And I'm downloaded daily, I am part of a composite, hooked into machine"), farrapos de filme ("I found a wallet, inside were pictures of your small family,you are so young, your hair dark brown, you had been born in 1953"), haikus envenenados ("Two birds on a wire, one tries to fly away and the other watches him close from that wire, he says he wants to as well, but he is a liar"). Tudo aparentemente cálido como uma aragem de Verão.
(2009)
Regina Spektor - Far
Não existe, hoje, ninguém a escrever canções como as que Regina Spektor assina. E – embora isso possa afugentar aqueles (oh quão previsíveis!) fãs da primeira hora que nunca verão com bons olhos que o seu secreto tesouro indie possa ter-se tornado património público – uma óptima notícia é que tão excelente songwriter (em especial, desde o último Begin To Hope, de 2006) tenha conquistado a visibilidade que, sem a obrigar a exercer a mais antiga e honrosa profissão do mundo, lhe permite alojamento temporário no genericamente mal frequentado espaço das tabelas de vendas. Até porque não seria, de todo, evidente que isso poderia acontecer: a esta “irmã” – mais nova e só um pouco menos inquietante – de Fiona Apple, descendente oblíqua de Joni Mitchell e Laura Nyro, com a indeterminação estética da Björk mais pop, a bizarria menos hippie de Kate Bush e o lirismo cirúrgico de Suzanne Vega, a esta alma russa-americana de outro e de nenhum século capaz de, sem hesitar, colocar, lado a lado, Madonna e Bob Dylan, como exemplos de quem admira "por estarem sempre em mudança", a esta estilista da auto-irrisão que alinha frases como "but sometimes I forget I got a perfect body cause my eyelashes catch my sweat", nada disto estava destinado.
Far é, então, puríssimo e requintado classicismo pop com suficientes pontas soltas para baralhar as hipóteses de leitura imediata, vestígios q.b. da primordial piano-punk com formação de conservatório, visões desconfortáveis do futuro ("And I'm downloaded daily, I am part of a composite, hooked into machine"), farrapos de filme ("I found a wallet, inside were pictures of your small family,you are so young, your hair dark brown, you had been born in 1953"), haikus envenenados ("Two birds on a wire, one tries to fly away and the other watches him close from that wire, he says he wants to as well, but he is a liar"). Tudo aparentemente cálido como uma aragem de Verão.
(2009)
01 January 2009
MÚSICA 2008 - REEDIÇÕES
Karen Dalton - "It Hurts Me Too"
Karen Dalton - In My Own Time e Green Rocky Road
Bill Fay - Bill Fay
Laura Nyro - More Than A New Discovery
Marianne Faithfull - Come My Way
Weekend - Live At Ronnie Scott’s
Fairport Convention - What We Did In Our Holidays e Unhalfbricking
GNR – Independança
Caetano Veloso - Tropicália
Caetano Veloso – Caetano Veloso
Caetano Veloso - Araçá Azul
Laurie Anderson - Big Science
(2008)
Karen Dalton - "It Hurts Me Too"
Karen Dalton - In My Own Time e Green Rocky Road
Bill Fay - Bill Fay
Laura Nyro - More Than A New Discovery
Marianne Faithfull - Come My Way
Weekend - Live At Ronnie Scott’s
Fairport Convention - What We Did In Our Holidays e Unhalfbricking
GNR – Independança
Caetano Veloso - Tropicália
Caetano Veloso – Caetano Veloso
Caetano Veloso - Araçá Azul
Laurie Anderson - Big Science
(2008)
28 June 2008
ACADEMIA: ART & SOUL

My Brightest Diamond - A Thousand Shark’s Teeth

Joan As Police Woman - To Survive
Quando, há dois anos, foi publicado Bring Me The Workhorse, de Shara Worden/My Brightest Diamond, e, em simultâneo, Begin To Hope, de Regina Spektor, os pontos comuns da biografia de ambas permitiram que, sem esticar demasiado a lógica, os dois álbuns fossem tratados no mesmo texto. Uma e outra provinham de famílias musicais e, com currículo académico de conservatório (estudo da música de Purcell e Debussy na University of North Texas e aulas de canto operático em Nova Iorque para Worden, e, da Moscovo natal aos Purchase College e Manhattan School Of Music, uma licenciatura em piano, no caso de Spektor), tinham acabado por se dedicar a variantes distintas do idioma pop/rock, demonstrando como não é uma fatalidade que a atmosfera erudita das salas de aula conduza à amputação de uma criatividade menos universitariamente configurada.
Também por essa altura, em 2006, era editado Real Life, o álbum de estreia de Joan Wasser (aliás, Joan As Police Woman), outra ilustre frequentadora daquelas instituições cujas paredes transpiram a tradição clássica europeia: aulas de piano desde os seis anos e de violino a partir dos oito, prosseguidas na Universidade de Boston (sob a orientação de Yuri Mazurkevich, discípulo de David Oistrakh) onde, naturalmente, integrou a Boston University Symphony Orchestra. É, portanto, quase inevitável que, agora que My Brightest Diamond e Joan As Police Woman chegam aos respectivos segundos álbuns, estes, exactamente pelos mesmos motivos, voltem a ser igualmente emparelhados. O mais interessante, no entanto, é que, tal como já sucedia com Worden e Spektor, sejam bastante mais significativas as diferenças entre eles do que qualquer hipotético elo espiritual “académico” que os reunisse.
Concebido ao mesmo tempo que Bring Me The Workhorse (num processo que vem desde 2002), A Thousand Shark’s Teeth deveria ter sido o segundo painel para quarteto de cordas do díptico que os dois constituiriam. Na verdade, cresceu para um elenco final de cerca de vinte elementos – secções de cordas, guitarras, vibrafones, clarinetes, corne inglês, harpa – que dá corpo orquestral às magníficas peças de Shara Worden, algures entre o que poderia ter sido uma Kate Bush imensamente menos afectada, Björk, Jeff Buckley, e tudo o que ela própria enumera como pontos de referência: Lewis Carroll, Tom Waits, os filmes de Jean Pierre Jeunet, a pintura de Anselm Kiefer, a fotografia de Robert ParkeHarrison, Maurice Ravel e Tricky (aos dois últimos, cita-os explicitamente em “Black & Costaud” e “Like A Sieve”). Se Workhorse foi uma estreia memorável, Shark’s Teeth não apenas a confirma integralmente como é, seguramente, um dos enormes álbuns deste ano.
To Survive é de outra estirpe: a dos “singer-songwriters”, na tradição de Joni Mitchell, Carole King ou Laura Nyro, uma espécie de soul branca sofisticada (pensem em Nina Simone mas também em Cat Power ou Mary Margaret O’Hara), criada por quem já pisou estúdios e palcos ao lado de Lou Reed, Tanya Donelly, Sparklehorse, Antony & The Johnsons e Rufus Wainwright (integrou as bandas de ambos). Repescar a ideia de “torch song” – despida de adereços, excesso de maquilhagem e luxo de guarda-roupa – não será demasiado despropositado num álbum de maioritariamente belas canções onde, com alguma surpresa, Wasser troca preferencialmente o violino pelo piano e David Sylvian e Rufus (discretíssimo como lhe fica melhor) contribuem vocalmente em duas faixas.
(2008)
My Brightest Diamond - A Thousand Shark’s Teeth
Joan As Police Woman - To Survive
Quando, há dois anos, foi publicado Bring Me The Workhorse, de Shara Worden/My Brightest Diamond, e, em simultâneo, Begin To Hope, de Regina Spektor, os pontos comuns da biografia de ambas permitiram que, sem esticar demasiado a lógica, os dois álbuns fossem tratados no mesmo texto. Uma e outra provinham de famílias musicais e, com currículo académico de conservatório (estudo da música de Purcell e Debussy na University of North Texas e aulas de canto operático em Nova Iorque para Worden, e, da Moscovo natal aos Purchase College e Manhattan School Of Music, uma licenciatura em piano, no caso de Spektor), tinham acabado por se dedicar a variantes distintas do idioma pop/rock, demonstrando como não é uma fatalidade que a atmosfera erudita das salas de aula conduza à amputação de uma criatividade menos universitariamente configurada.
Também por essa altura, em 2006, era editado Real Life, o álbum de estreia de Joan Wasser (aliás, Joan As Police Woman), outra ilustre frequentadora daquelas instituições cujas paredes transpiram a tradição clássica europeia: aulas de piano desde os seis anos e de violino a partir dos oito, prosseguidas na Universidade de Boston (sob a orientação de Yuri Mazurkevich, discípulo de David Oistrakh) onde, naturalmente, integrou a Boston University Symphony Orchestra. É, portanto, quase inevitável que, agora que My Brightest Diamond e Joan As Police Woman chegam aos respectivos segundos álbuns, estes, exactamente pelos mesmos motivos, voltem a ser igualmente emparelhados. O mais interessante, no entanto, é que, tal como já sucedia com Worden e Spektor, sejam bastante mais significativas as diferenças entre eles do que qualquer hipotético elo espiritual “académico” que os reunisse.
Concebido ao mesmo tempo que Bring Me The Workhorse (num processo que vem desde 2002), A Thousand Shark’s Teeth deveria ter sido o segundo painel para quarteto de cordas do díptico que os dois constituiriam. Na verdade, cresceu para um elenco final de cerca de vinte elementos – secções de cordas, guitarras, vibrafones, clarinetes, corne inglês, harpa – que dá corpo orquestral às magníficas peças de Shara Worden, algures entre o que poderia ter sido uma Kate Bush imensamente menos afectada, Björk, Jeff Buckley, e tudo o que ela própria enumera como pontos de referência: Lewis Carroll, Tom Waits, os filmes de Jean Pierre Jeunet, a pintura de Anselm Kiefer, a fotografia de Robert ParkeHarrison, Maurice Ravel e Tricky (aos dois últimos, cita-os explicitamente em “Black & Costaud” e “Like A Sieve”). Se Workhorse foi uma estreia memorável, Shark’s Teeth não apenas a confirma integralmente como é, seguramente, um dos enormes álbuns deste ano.
To Survive é de outra estirpe: a dos “singer-songwriters”, na tradição de Joni Mitchell, Carole King ou Laura Nyro, uma espécie de soul branca sofisticada (pensem em Nina Simone mas também em Cat Power ou Mary Margaret O’Hara), criada por quem já pisou estúdios e palcos ao lado de Lou Reed, Tanya Donelly, Sparklehorse, Antony & The Johnsons e Rufus Wainwright (integrou as bandas de ambos). Repescar a ideia de “torch song” – despida de adereços, excesso de maquilhagem e luxo de guarda-roupa – não será demasiado despropositado num álbum de maioritariamente belas canções onde, com alguma surpresa, Wasser troca preferencialmente o violino pelo piano e David Sylvian e Rufus (discretíssimo como lhe fica melhor) contribuem vocalmente em duas faixas.
(2008)
02 April 2008
NO VENTRE DA BESTA
In The Belly Of The Beast é uma assombrosa colecção de cartas de Jack Henry Abbott (encarcerado numa prisão de alta segurança) a Norman Mailer, onde reflecte acerca do que é viver o Inferno na terra. "No ventre da besta" é como Michael Stipe define a situação actual dos R.E.M., estabelecendo um paralelo entre a actividade de uma das mais populares bandas norte-americanas contemporâneas e a do cineasta Michael Moore: do lado de dentro do Inferno — os EUA —, usando os media a que têm acesso para o denunciar. O pretexto pode ser o lançamento de mais uma colecção de "greatest hits" (In Time: The Best Of R.E.M. 1988-2003) mas isso acaba por constituir apenas um elemento menor numa intensa conversa de olhos nos olhos com um artista norte-americano que tem visivelmente prazer em usar o cérebro.
Esta compilação de "greatest hits" foi realizada pela própria banda. Que critérios de escolha das canções a incluir seguiram?
Foi muito, muito fácil. Cada um de nós elaborou uma lista das canções que pretendia que figurassem no disco e, no final, as três listas eram muito semelhantes. Tínhamos as canções que foram publicadas como "singles" e aquelas para as quais foram realizados videoclips. O que, no fundo, desejámos foi conceber uma compilação que representasse bem a banda de uma forma razoavelmente exaustiva. Havia canções que foram grandes êxitos como "Shiny Happy People" mas também outras que tiveram menos sucesso como "Nightswimming" e que ajudam melhor a compreender a nossa faceta enquanto banda de "singles".
Vêem-se principalmente como banda de "singles"?
Não, não! Somos essencialmente uma banda de álbuns. Como vê, somos bastante antiquados nesse aspecto (risos). Mas gosto da ideia dos "singles". Não escrevemos canções a pensar se vão ser editadas em "single" ou se vão passar na rádio. É bastante embaraçoso esforçar-se para escrever algo não muito bom mas pensado como "single" e que, afinal, não resulta. Prefiro escrever canções que se apoderem da imaginação dos tipos das rádios e do público mas que não sejam nada óbvias. "Losing My Religion" é um óptimo exemplo: é indiscutivelmente a nossa canção de maior sucesso mas por um puro golpe de sorte! Não é sequer uma canção "como deve ser", dura cinco minutos, tem um bandolim como instrumento principal e não tem refrão! Como é que uma coisa assim se transforma na "canção do ano"? Nada disto se pode prever nem programar.
Li no "press release" que, para auxiliar na escolha, pediram opiniões também a fãs, amigos e familiares mas que excluiam automaticamente quem votasse em "Shiny Happy People". Odeiam assim tanto essa canção?
Não. Os media estão convencidos que a odiamos e não nos largam com isso mas não é verdade. É uma canção "bubblegum" e foi exactamente isso que quisémos que ela fosse quando a escrevemos. É uma canção para miúdos.
Tal como o próprio videoclip...
Claro. Mas, para mim, não cabia nesta compilação.
Mais de vinte anos após o início dos R.E.M., tem já uma perspectiva acerca da forma como o grupo evoluiu?
Sim, vejo com muita clareza as diversas fases e tendências. As intenções muitas vezes não se traduzem naquilo que realmente se passa. Eu tenho uma ideia bem definida de como desejo que seja um disco. Passa-se exactamente o mesmo com o Peter Buck. Ambas são interessantes. Juntam-se as duas e aí está aquilo que são os R.E.M.. Harmoniza-se e articula-se tudo isso e o resultado é algo francamente superior a cada um de nós três isoladamente.
É curioso porque, da geração de bandas americanas a que vocês pertencem — que incluia os Violent Femmes, Dream Syndicate, Green On Red, Long Ryders, Rain Parade, Jason & The Scorchers —, os R.E.M. foram os únicos que construiram uma carreira longa e com êxito...
Há Los Lobos, os Sonic Youth também...
Mas, de modo nenhum, ao vosso nível...
Como unidades criativas, eu diria que sim. Certamente, não de um ponto de vista de sucesso comercial. Não faço a mínima ideia por que motivo aconteceu assim. Nós sempre trabalhámos muito a sério e eu tenho uma paixão imensa por aquilo que faço. A vida é demasiado curta para não nos entregarmos totalmente a algo que desejemos muito fazer. Provavelmente, é só isso: não fazer senão aquilo em que acreditamos. Não há outra forma.
Como é que se sente hoje relativamente aquele período — de "Losing My Religion" e "Everybody Hurts", principalmente — quando os R.E.M. eram gigantescamente populares e era impossível não os escutar na rádio de cinco em cinco minutos?
Era divertido. Na verdade, não tinha muito tempo para ouvir rádio, estava constantemente a cumprimentar pessoas na rua... (risos) Reconheciam-nos constantemente. Mas o nosso estatuto actual é, para mim, muito confortável. Ainda vêm ter connosco e falar-nos de como as nossas canções foram importantes, em dado momento. Só tenho que agradecer. Em Detroit, houve um tipo que realmente me surpreendeu: dirigiu-se a mim e disse-me "obrigado por viverem o sonho". Não me podia ter dito nada melhor. A minha ideia, quando era adolescente, de fazer parte de uma banda, escrever canções, viajar pelo mundo, era, de facto, um sonho. Era uma completa fantasia que nada tem a ver como as coisas verdadeiramente são. Era incrivelmente glamoroso, havia todo um mundo para explorar. Pelo menos, parecia, até termos que passar metade da nossa vida metidos em aviões... (risos) Há partes muito pouco glamorosas naquilo que fazemos mas, no conjunto, para mim, ainda é muito excitante e um grande desafio.
O que resta então dos Twisted Kites — o primeiro nome do grupo — nos R.E.M. actuais?
O grupo tinha apenas dois meses de vida quando começámos a pensar como nos deveríamos chamar. De duas em duas horas, tínhamos um nome diferente. Twisted Kites foi só um deles. Acredite que eram às dúzias... (risos) Acabámos por nos decidir por R.E.M. porque, naquele tempo do punk e da new wave tinham todos nomes muito punk-rock e new wave. E nós não queríamos ser categorizados dessa forma. Tentámos sempre desafiar as diversas categorias, nunca nos encaixámos em nenhuma. Não somos uma banda de punk rock, não somos uma banda de hard rock, não somos sequer uma banda de rock, não somos uma banda de folk, não somos uma banda de country, não somos uma banda experimental. Somos cada uma e todas essas coisas ao mesmo tempo o que, penso, só se pode classificar como R.E.M.. Não, não somos realmente uma banda pop nem rock... Não porque sejamos extraordinariamente originais mas porque todas essas coisas influenciaram a nossa música, oiço-as todas naquilo que fazemos.
Falando então de influências, pareceu-me uma excelente ideia o CD-compilação que vocês organizaram para a revista "Uncut" onde incluiram coisas muito pouco previsíveis como Jimmy Smith, Ornette Coleman, fantasias para guitarra acústica sobre Carmina Burana, canções de trabalho negras para "fife and drum band", Laura Nyro...
Foi, essencialmente, trabalho do Peter. Só conheço cerca de metade delas mas há, por ali, de certeza, muitas coisas que, de uma maneira ou de outra, passaram para a nossa música. Pela minha parte, fiz uma outra lista de 21 canções para a iTunes. Podem comprá-la, para que os autores recebam dinheiro por isso. Aliás, eu próprio vou comprar a minha lista! E, por aí, se poderá descobrir toda uma faceta completamente diferente de influências: Neil Diamond, Kristin Hersh, Fleetwood Mac, Tori Amos...
Se se dispuseram a revelar as vossas influências musicais, poder-se-ia saber também quais as suas preferências em matéria de literatura, cinema...
Spike Jonze, de Being John Malkovitch, Todd Haynes, adoro o Woody Allen, John Cassavettes... O meu filme preferido actualmente é um filme francês de há cinco anos, Quem Me Amar Virá De Comboio, do Patrice Chéreau, que me faz lembrar os primeiros Dogma. Não leio muitos romances mas, quando era mais novo, devorei o Nabokov todo. Ele trabalhava com o inglês como segunda língua mas com um incrível domínio. E leio revistas, toneladas de revistas, que é de onde vem a inspiração para a maioria das músicas. E podia estar aqui até ao pôr do sol a citar-lhe nomes de fotógrafos que admiro...
Nesta compilação há uma canção, "Bad Day", que é uma explícita tomada de posição política em relação ao que é ser-se artista nos EUA sob a administração de George W. Bush...
Alguém muito sábio afirmou que, quando, na vida, as coisas ficam mesmo más, a arte tem tendência para melhorar.
Isso é uma regra?
Não, mas tem algum fundo de verdade. "Bad Day" é uma declaração política muito, muito forte. É também uma canção pop. E é situado aí mesmo que me vejo e aos R.E.M.. E também ao Michael Moore. Não estamos do lado de fora do portão, aos gritos e a atirar pedradas para tentar entrar e chamar a atenção. Estamos lá dentro, a usar os media que as pessoas reconhecem. Estamos no ventre da besta. Se for subversivo, sê-lo-à também num certo sentido populista.
É no ventre da besta que se sentem bem?
Não temos escolha. Não desejei nem planeei nada para que acontecesse assim. Mas esse é o mundo em que vivemos. É muito difícil ser um cidadão americano e não ser obrigado a reconhecer o que se passa com a actual administração. Nacional e internacionalmente.
E, quando, por exemplo, vem à Europa, não o incomoda a forma como, enquanto americano, pode ser encarado?
Acho que as pessoas reconhecem que os R.E.M. sempre tomaram atitudes políticas e sociais bastante claras. Nunca houve nenhum país na História que apoiasse os seus governantes a 100%. Ao ver-se a televisão americana, pode-se ser levado a acreditar que, neste país imensamente poderoso, a maioria das pessoas acredita que a acção do governo é positiva. Eu discordo. Há, pelo menos, metade da população que discorda também. Os EUA são um país onde as pessoas trabalham imenso, muitas têm de ter dois empregos, têm de pagar os seguros do carro (e, sem um automóvel, à excepção de Nova Iorque, não se vai a lado nenhum), da casa, de saúde, de vida, o serviço nacional de saúde não é muito bom, é preciso esforçar-se a sério para pagar a universidade dos filhos, a hipoteca da casa, é necessário haver comida na mesa, máquinas de lavar... A maioria dos americanos tem, no máximo, 45 minutos por dia para dedicar ao que se passa no resto mundo. Não que não se interessem por política. Têm é todo o tempo ocupado a assegurar que não vão ao fundo.
Parece estar a fazer um retrato do inferno...
É, de facto, um bocado infernal. Adoro o meu país e tem muitas coisas de que me orgulho. Mas uma das coisas que, muitas vezes, não se compreende é o quanto estamos separados do resto do mundo. E como isso se reflecte na nossa educação desde os primeiros anos e influencia as escolhas, os preconceitos, a forma como se vê os outros, o que sabemos e o que não sabemos. É um imenso país ingovernável. É uma pena. (2003)
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23 March 2008
RECAPITULANDO
Laura Nyro - More Than A New Discovery
Nascer no Bronx, ser simultaneamente fã de Leontyne Price, Billie Holiday, John Coltrane, Ravel, as Shirelles, Nina Simone, Van Morrison, Debussy ou Curtis Mayfield e começar uma carreira profissional de “singer-songwriter” aos dezassete anos não é propriamente o tipo de detalhes biográficos mais comuns. Mas é o que, inevitavelmente, terá de ser referido sempre que se fala de Laura Nyro.
E, apesar de ter entrado já na lenda pop, não se fala ainda suficientemente dela e de álbuns memoráveis como Eli And The Thirteenth Confession (1968) ou New York Tendaberry (1969), preferindo-se demasiadas vezes sublinhar a sua qualidade de “one-woman-hit-machine” para a carreira de outros ("Blowing Away", "Wedding Bell Blues", "Stoned Soul Picnic", "Sweet Blindness", "Save The Country" e "Black Patch", para os Fifth Dimension, "And When I Die" para os Blood, Sweat & Tears e Peter Paul & Mary; "Eli's Coming" para os Three Dog Night). More Than A New Discovery, álbum de estreia de 1967 que lhe fugiu excessivamente das mãos para as do produtor Herb Bernstein, era já, no entanto, o anúncio inegável de uma das vozes mais singulares da canção americana. (2008)
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