Showing posts with label Laura Marling. Show all posts
Showing posts with label Laura Marling. Show all posts

02 January 2025

MÚSICA 2024 - INTERNACIONAL (VI) 

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 27)
 
 
 
 
 
 
 
  
 
 
 
 
 
  
 
 
* a ordem é razoavelmente arbitrária  
 

10 November 2024

"Child Of Mine"
 
(sequência daqui) Há ruidos domésticos deliberadamente não eliminados, interlúdios instrumentais mas, de um modo geral, uma estrutura musical purificada na qual, quase insensivelmente, se infiltram os subtilíssimos arranjos de cordas (de Rob Moose) que se esquivam à gravidade e deixam estas onze peças a pairar na memória. Laura Marling ensaia uma síntese possível: "Tendo os 34 anos que, agora, tenho, 15 anos de carreira e 8 álbuns, não consigo fugir à sensação de que cada álbum constituiu como que um capítulo da minha vida (apesar de alguns serem realmente premonitórios). E eis-me aqui, após uma juventude tentando desesperadamente compreender o que é ser uma mulher, no topo da colina, com uma perspectiva enorme e inteiramente nova à minha volta. Um dos grandes privilégios da minha vida é, porque comecei muito cedo, ter agora a possibilidade de abrandar. Há até uma parte de mim que pergunta 'e se eu desaparecesse?' Talvez fosse bom esconder-me, fugir dos holofotes. Como a Kate Bush".

07 November 2024

"No One’s Gonna Love You Like I Can"
 
(sequência daqui) E foi-o, sem dúvida, ao longo de 7 belíssimos álbuns - Alas, I Cannot Swim (2008), I Speak Because I Can (2010), A Creature I Don't Know (2011), Once I Was an Eagle (2013), Short Movie (2015), Semper Femina (2017) e Song for Our Daughter (2020) - e de um percurso temerário que a levou a vaguear solitária pelos EUA, a viver no deserto, a aproximar-se de figuras inquietantemente hippie/new age e, por fim, a regressar a Inglaterra. Um mês antes do nascimento da primeira filha, entregaria uma tese de mestrado sobre a psicanálise que era um sinal de que o seu processo de reequilíbrio interior estava no melhor caminho: "Cheguei à conclusão que a psicanálise era uma bela anedota - um assunto ridículo e completamente antiquado, recheado de erros problemáticos gritantes". Agora, Patterns In Repeat apresenta-se como um diário de reflexão sobre a maternidade e o universo à volta, higienicamente limpo de detritos sentimentais mas capaz de, com o mínimo de palavras - "Pullеd for meaning, I arched my back, and then from thе black you were born, forward leaning at first, abstract, you soon contract into form" -, propor uma infinidade de sentidos. (segue para aqui)

03 November 2024

"Patterns"
 
(sequência daqui) Na verdade, não será exactamente assim. Quando Sir Charles William Somerset Marling (o tal 5º baronete de Marling), mal Laura tinha completado 6 anos, se dispôs a ensinar-lhe os rudimentos da guitarra acústica, a primeira canção que aprendeu foi "The Needle And The Damage Done", de Neil Young, mais uma lista de TPC que incluía Bert Jansch e James Taylor e, hoje, se estende até Townes van Zandt e ajoelha perante o intocável Leonard Cohen ("Cohen foi um poeta de extraordinária elegância, um dos raros realistas-românticos, um género a que fui buscar inspiração para as minhas ainda curtas vida e carreira. O universo lírico dele é tão intenso, melancólico e solitário... mas, crucialmente, nunca isolado. É um 'storytelling' moderno, uma turbulência romântica adulta. Sempre o imaginei com 30 e tal anos, de fato completo, sempre olhando amavelmente para o mundo, interrogando-se sobre como caminhar nele, reflectindo sobre a sua última paixão e guardando espaço no coração para a seguinte"). Foi essa a Laura Marling que, aos 16 anos, trocou o Hampshire por Londres, mais exactamente pela nu-folk scene - Johnny Flynn, Mumford & Sons ou Noah & The Whale - que, na segunda metade dos anos 00, fervilhava no microscópico clube Bosun’s Locker, em Fulham. Porém, a pálida musa que, um atrás do outro, foi despedaçando corações no pequeno oásis folk, a partir de determinado ponto, sentiu-se desconfortável com o colectivismo instituido: "Tocar com toda a gente, ao mesmo tempo, tornava tudo demasiado homogéneo. Tinha de fazer coisas diferentes. Senti que a minha música estava a ficar igual à de todos os outros e queria que, para mim, ela fosse especial. Não era capaz de funcionar dentro de um gang, tinha um grande ego. Desejava ser única". (segue para aqui)

31 October 2024

UMA INFINIDADE DE SENTIDOS
No penúltimo número da "Uncut", o álbum do mês era Patterns In Repeat, de Laura Marling. 18 páginas à frente, na secção das reedições, a lista era encabeçada pelo 4º volume dos Joni Mitchell Archives, The Asylum Years (1976 - 1980). Para o desenho de um triângulo perfeito, faltaria, talvez, a presença de algo de Marianne Faihfull. Porque, se a relação de intimidade estética entre Laura e Joni sempre foi evidente e claramente confessada ("Se Joni Mitchell não existisse, eu nunca teria existido", declarou Marling em 2017), de modo muito menos claro e explícito mas não menos real, pontos comuns existirão também entre Laura, filha do 5º baronete de Marling ("of Stanley Park and Sedbury Park in the County of Gloucester") e Marianne, baronesa Erisso von Sacher-Masoch. Não apenas na ascendência aristocrática mas, especialmente, na condição de "starlets" adolescentes de perfil folk cujo amadurecimento foi acontecendo muito fora desse perímetro. À "Mojo", Laura Marling deixa muito poucas dúvidas: "Nunca ouvi música folk. Sei que o Bob Dylan e muitos outros provêm do que é, desatentamente, considerada a tradição folk. Mas eu sou o eco, do eco, do eco de tudo isso. Não poderia estar mais distante". (daqui; segue para aqui)

"Caroline"

15 February 2024

Anna Calvi on scoring the music of Peaky Blinders season 5
 
(sequência daqui) Tendo como tema principal "Red Right Hand", de Nick Cave, muitas outras eminências da música actual - PJ Harvey, Laura Marling, Radiohead, Sam Lee, White Stripes, Sinéad O'Connor, Lisa O'Neil... - se lhe foram agregando. Nas duas últimas temporadas, foi, porém, a magnífica Anna Calvi a ocupar o lugar central, criando 37 temas agora recolhidos em Peaky Blinders: Season 5 & 6 (Original Score). Há 4 anos, aquando da publicação de Hunted, dizia-nos: “Queria ter a noção de quão profundamente seria capaz de entrar naquele imenso abismo negro do espírito do Tommy Shelby, a personagem principal. Explorar aquelas trevas e vulnerabilidade, aquela brutalidade e sensibilidade que sempre procurei na minha música, como se eu fosse ele. Uma espécie de diálogo que me conduziu a procurar inspiração na música dos 'westerns' porque Peaky Blinders é, de facto, um 'western' situado em Birmingham”. Bem-vindos ao imenso abismo negro.

01 June 2020

Laura Marling - "A Hard Rain's A Gonna Fall" (B. Dylan)
(recorded especially for the TV series Peaky Blinders)

22 May 2018

UM PONTO DE EQUILÍBRIO


Cinco anos após About Farewell, Alela Diana publica Cusp, um álbum composto entre o nascimento das duas filhas e – por esse motivo mas não só – acerca da experiência da maternidade: “Se somos artistas mas também mulheres e mães, o caminho é muito mais difícil. Neste disco, quis especificamente escrever sobre esse tópico. Tenho a sensação que se espera que o varramos para baixo do tapete, não se fale mais nisso e se ande para a frente como se nada tivesse acontecido nem merecesse ser abordado. Mas, para mim, mudou tanto a minha vida que não me passaria pela cabeça não escrever sobre isso”. Um saber de amarga experiência feito: “Exerce-se uma enorme pressão sobre as mulheres para serem jovens, belas e se manterem desejáveis, e a questão da maternidade levanta imensos obstáculos. Quando fiquei grávida da minha filha mais velha, tinha saído da Rough Trade mas havia uma outra editora que estava interessada. No entanto, assim que souberam que eu estava grávida, desistiram. Tinha-me tornado, subitamente, obsoleta, inapta para trabalhar, dar concertos, e um enorme problema de marketing. Isto tem um nome: discriminação”. 

    Cusp foi composto durante uma residencia artística no Arts Center de Caldera, na encosta das Cascade Mountains, no Oregon. Mas To Be Still (2009) também já havia resultado de um processo semelhante de isolamento, numa cabana de Portland, apenas com um gato por companhia...

Foi bastante diferente. No caso de To Be Still, eu, de facto, vivia numa cabana, em Portland. Era mais nova e tinha toda a reclusão de que precisava. Desta vez, tratou-se de uma residência artística, durante três semanas e meia, em Caldera, no Oregon, em Janeiro de 2016. Já tinha uma filha de três anos e precisava de toda a calma e tranquilidade para poder escrever. Encontrar um ponto de equilíbrio entre a vida familiar e a criatividade não é fácil.

    Mas alguma forma de isolamento é-lhe essencial?

Esse isolamento tanto pode acontecer numa cabana nas montanhas como num qualquer outro lugar sereno. Preciso de espaço mas também pode perfeitamente acontecer que escreva o texto de uma canção à mesa de um café que é um sítio ruidoso, desde que consiga habitar o meu mundo e possa dispor de momentos para por alguma ordem no pensamento.
 


    
    Ter composto a maior parte deste álbum ao piano modificou o carácter ou a tonalidade das canções de alguma forma? Consegue imaginar como teriam sido se as tivesse composto à guitarra?

Não sei... é verdade que o piano abre um pouco mais as canções, evoca um tipo de sensações diferentes. Mas, reflectindo sobre a forma como resultou – até porque foi a minha primeira experiência com o piano –, parece-me que, sem dúvida, modificou o espírito do álbum.

    Numa entrevista sua que li numa publicação francesa, às tantas, diz que “no fundo, as pessoas não querem saber da folk para nada”... 

Eu disse isso?

    Foi o que eu li... 

Há pessoas que, nesta matéria, são muito tradicionalistas e puristas e não suportam que não se leve a tradição à letra. Isso nunca foi coisa que me interessasse... 

    Mas ainda existem muitos espécimes dessa corrente de pensamento-Pete Seeger?...

Há, há... Eu não sou purista de modo algum mas compreendo que exista quem se preocupe dessa forma, quem leve terrívelmente a sério a história e a tradição folk. Creio que, nessa entrevista, estaria a falar acerca do facto de, no contexto musical em geral, actualmente, a folk music não ser a "hot new thing" que já foi, por volta de 2005. Quando, nessa altura, publiquei The Pirate’s Gospel, a redescoberta da folk, a recuperação das sonoridades e instrumentos acústicos, estavam num momento de grande evidência e muita gente lhes prestava imensa atenção. Mas os gostos e as tendências mudam muito rapidamente e, hoje, estamos longe de viver uma situação idêntica.


    Mas continuam a existir bastantes músicos e artistas que podem ser incluídos nessa área e que não são propriamente ignorados... a Jesca Hoop, a Tamara Lindeman (dos Weather Station), a Laura Marling, a Nina Nastasia, a Sharon Van Etten, que até apareceu num dos episódios desta última temporada de Twin Peaks...

A sério?... Que sorte... Pois... esse meu comentário deve ser entendido no contexto geral daquilo que é mais popular nos media, actualmente. 

    Sempre suspeitei da Sandy Denny que existia em si. E, agora, em Cusp, aparece uma canção sobre ela e a ela dedicada...

Tenho um imenso respeito por ela enquanto "singer/songwriter". Era extraordinariamente poderosa e arrebatadora. E aquela voz... Descobri-a quando andava pelos vinte e poucos anos e estava a iniciar a minha própria carreira musical, apaixonei-me pela voz dela. Primeiro, através dos discos com os Fairport Convention e, depois, os outros, a solo. Não posso dizer que tenha ouvido tudo, tudo que ela gravou. Mas aqueles que conheço são uma preciosidade.

    Se quiséssemos identificar alguma influência dela neste seu último álbum, poderíamos dizer que provém mais dos últimos discos a solo, mais densamente orquestrados?

Não sei... eu inspiro-me em bastante música do passado mas nunca de uma forma absolutamente deliberada, como se escutasse um disco e pensasse fazer uma réplica exacta dele. Isso pode incluir, por exemplo, tanto gravações da Joni Mitchell nas quais ela explora orquestrações mais jazzy e com cordas, como as coisas da Sandy Denny de que temos estado a falar. Vou escrevendo as minhas canções e explorando as formas que me parecem mais adequadas a cada uma delas. Mas não estou o tempo todo a pensar em música nem me dedico a conhecer o catálogo integral de um artista de que goste. Gosto muito do Leonard Cohen ou da Joni Mitchell mas não conheço todos os álbuns deles.
 


     
    Neste álbum, algumas canções socorrem-se de belíssimos arranjos de cordas ("Émigré", por exemplo) e "Yellow Gold" acaba afogada em dissonâncias... 

É uma maneira de assegurar que, para mim, as coisas continuem a ser interessantes: experimentar arranjos diferentes em que aconteçam surpresas sonoras. 

    Quando, em 2011, Bob Dylan celebrou 70 anos, o “Observer” perguntou a uma série de músicos que presente gostariam de lhe oferecer. A Alela sugeriu uma tarte de maçã. Agora que ele é um ilustre Nobel da Literatura, mantinha essa sugestão?

(risos) Tenho a certeza que ele pode comprar aquilo que lhe apetecer mas uma tarte de maçã caseira continuaria a ser uma prenda oferecida do fundo do coração. E no que respeita ao Nobel, como não reconhecer que, há décadas, ele escreve as palavras que tanta gente, em todo o mundo, adora? O homem é um escritor. E um muito bom escritor.

13 December 2017

METEOROLOGIA

  
No preciosíssimo Nighthawks At The Diner (1975), logo após a "Opening Intro", Tom Waits lança-se num encantadoramente rosnado "Emotional Weather Report" no qual anuncia “Things are tough all over when the thunderstorms start increasing over the southeast and south central portions of my apartment, I get upset and a line of thunderstorms was developing in the early morning ahead of a slow moving cold front”. É o mais explícito mas não o único exemplo da pequena obsessão meteorológica de Waits: no próprio Nighthawks..., há ainda "On A Foggy Night" e, em matéria de chuva, haverá que indexar "A Little Rain" (Bone Machine, 1992), "Make It Rain" (Real Gone, 2004), "More Than Rain" (Franks Wild Years, 1987), "Rain Dogs" (Rain Dogs, 1985) e "Rains On Me" (Orphans: Brawlers, Bawlers & Bastards, 2006). A que poderão acrescentar-se ainda as outonais "November" (The Black Rider, 1993) e "Last Leaf" (Bad As Me, 2011), e a ruminativa "Strange Weather" (Big Time, 1988). Chegou mesmo a fazer uma brevíssima teorização – de âmbito um pouco mais alargado – sobre o assunto: “A minha ideia é que todas as canções devem referir-se ao clima, ter nomes de cidades e ruas, um ou dois marinheiros e alguma coisa que possa comer-se, no caso de sentirmos fome”



Nada garante que a canadiana Tamara Lindeman (aliás, numa vida paralela como actriz de cinema e televisão, também conhecida por Tamara Hope), quando tratou de escolher o "pen name", tenha ido pescar nas metáforas climáticas de Tom Waits. Mas, sem dúvida, The Weather Station, ainda que não literalmente, inscreve-se nessa linhagem em que as atmosferas exterior e mental se confundem. Ao quarto álbum, aparenta ter chegado a um lugar vizinho do ocupado por Laura Marling embora Joni Mitchell, Suzanne Vega e Aimee Mann devam ser, especialmente, chamadas à conversa. Há um transbordante vai-e-vem de palavras entre o mundo supostamente objectivo e o filtro através do qual o julgamos decifrar (“With the radio on, and they're talking another shooting, floods creeping in the lowlands, everybody's shouting, and I just hold your hand” ou “Gas stations I laughed in, I noticed fucking everything, the light, the reflections, different languages, your expressions”) e um inesgotável baú de melodias e joalharia orquestral capazes de imobilizar o tempo num aforismo: “Love, it is no mystery, I love because I see”.

20 June 2017

BOA MÚSICA NO TITANIC


Se, por estes dias, os putos rufias do planeta – o Kim, o Donald, o Vlad-meia-leca – se engalfinhassem a sério, segundos antes de vermos surgir na linha do horizonte um fabuloso "light show" de fulgurantes cogumelos, de uma coisa, pelo menos, poderíamos estar certos: os últimos seis meses de vida do mundo "as we know it" tinham sido, musicalmente, riquíssimos. Fraco consolo para quem, logo a seguir, se iria transformar em fóssil radioactivo, espécie de estátua de sal bíblica para futuros estudiosos extraterrenos do mal sucedido projecto-homo sapiens. Mas que até contribuiria para explicar por que motivo, no grande e pérfido desígnio cósmico, os seis meses restantes de 2017 seriam desnecessários. E que, aliás, também confirmaria a tese de Arthur Koestler acerca do primata supremo, enquanto “aberração biológica resultante de um grave erro no processo evolutivo” – coisa que, na verdade, qualquer cristão, leitor atento do seu manual de instruções, sabe que, logo no Génesis, começou desastradamente mal –, Janus bifronte capaz do melhor e do aterradoramente pior.

E, musicalmente falando, indiscutivelmente do melhor, até agora, foram as tentativas para localizar alguma fugidia tranquilidade de Brian Eno (Reflection), Ryuichi Sakamoto (async), das Unthanks (Molly Drake), Julia Holter (In The Same Room) ou de Thurston Moore (Rock’n’Roll Consciousness), este em registo neo-hippie no meio de uma tempestade eléctrica. Entretanto, pela terceira vez, Dylan, com Triplicate, deu corda à orquestra do Titanic planetário enquanto Jarvis Cocker e Chilly Gonzales (Room 29) nos conduziam pela mão a espreitar através do buraco da fechadura de cada um dos quartos, e Aimee Mann ensaiava uma hipótese de diagnóstico – koestlerianamente correctíssima – a que, nada surpreendentemente, chamou Mental Illness. A comemoração dos 50 anos de carreira do veterano folk, Michael Chapman (50), e de outros tantos de vida de Stephin Merritt (50 Song Memoir) contribuiram decisivamente para manter elevada a fasquia que Memories Are Now, de Jesca Hoop, e Semper Femina, de Laura Marling, empurraram ainda mais para cima. Olhando a besta de frente, dos dois lados do Atlântico, English Tapas, dos Sleaford Mods, e The Navigator, de Alynda Segarra/Hurray For The Riff Raff, não deram tréguas mas foi dos britâncos Gnod a última palavra: Just Say No To The Psycho Right-Wing Capitalist Fascist Industrial Death Machine.

14 March 2017

PELE


Vamos conhecendo Laura Marling, literalmente, pela pele. Ou pelo que ela vai inscrevendo na pele. Em 2013, por altura da publicação de Once I Was An Eagle, ficámos a saber que, no pulso direito, tem tatuado o lema dos baronetes de Marling – cujo primeiro titular foi, desde 1882, Sir Samuel Marling, industrial, filantropo e político liberal –, nulli praeda sumus (“não somos presa de ninguém”). Agora, no momento em que surge Semper Femina, descobrimos que, aos 21 anos, tatuou discretamente o título do álbum (citação deliberada e ironicamente truncada da Eneida, de Virgílio: varium et mutabile semper femina (”a mulher sempre vária e volúvel”) na elegantíssima coxa esquerda. E, acessoriamente, o brasão da casa de Marling no outro pulso. Não é caso para alarme: ela não é, de todo, uma versão contemporânea de O Homem Ilustrado, de Ray Bradbury. Muito mais facilmente esta autoconfessada “mistura estranha de completa neurótica e espantosa procrastinadora nada perfeccionista”, loira e pálida, encarnaria uma qualquer heroína de Jane Austen. Porém, capaz de, ao mesmo tempo, afirmar: “Não é possível conceber tragédias a partir das minhas personagens. A nossa cultura adora tragédias femininas. Por isso, agora, concentro-me em reescrever essa ideia da mulher trágica”.  


Semper Femina é, então, uma detalhada e preciosa trajectória quase folk – isto é, mais próxima do espírito “de câmara” de Once I Was An Eagle do que do anterior Short Movie –, entre evocações de L’Origine du Monde, de Courbet (“A origem do mundo ser aquela imagem muito gráfica do sexo de uma mulher sempre me pareceu uma coisa poderosíssima”), da Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, de Leonard Cohen (“Um dos raros românticos realistas, um género a que fui buscar inspiração para a minha ainda curta vida”), da surrealista Leonora Carrington, ou – nos dois videoclips por ela dirigidos, para "Soothing" e "Next Time" –, de Roy Andersson, realizador de Um Pombo Pousou Num Ramo a Reflectir Sobre a Existência, único filme autenticamente genial que (até agora) o século XXI produziu. Não temamos perder-nos nela. É a própria Laura Marling que o autoriza: “O meu desejo de ser mal entendida é permanente. Posso parecer uma hippie tresloucada mas acredito que a escrita de canções é uma arte obscura, uma forma de encantamento. É impossível explicá-la”.