Não era, de todo, previsível que Gwenno Saunders - filha do poeta da Cornualha, Timothy Saunders, e de mãe galesa com cadastro policial por activismo político nacionalista -, se convertesse em adolescente primeira bailarina de "Lord Of The Dance", durante 2 anos, em Las Vegas, onde viveria num complexo de apartamentos "com piscina e ginásio mas pouco mais que fazer do que beber, tomar drogas e lidar com distúrbios alimentares". E, continua ela, "todos os sábados, íamos a um clube techno chamado Utopia e ficávamos completamente pedrados até segunda-feira quando tínhamos de voltar a trabalhar". Recorda-o porque o nome do clube iria inspirar o título do novo álbum e, ajudaria a assinalar os dois períodos da carreira de Gwenno: o primeiro, com Y Dydd Olaf (2014), Le Kov (2018) e Tresor (2022), todos cantados em galês e cornish; e o segundo, iniciado com este Utopia, predominantemente em inglês. (daqui; segue para aqui)
"Utopia"
13 September 2007
TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XII)
"Há uma semana, fiz uma experiência em que só usámos viola de arco, contrabaixo e violoncelo. Criámos uma espécie de colónia de formigas pontilhista. Aconteceu tudo muito espontaneamente. Às vezes, dá resultado combinar músicos de orquestra com outros que tocam na estação do metro. Através desse conflito de escolas, chegamos a sítios inesperados, zonas libertadas, vamos cair naqueles triângulos das Bermudas de ritmo e melodia. E, nos últimos tempos, são esses os lugares que eu mais gosto de visitar.
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"Eu digo mentiras?!... Não, digo sempre a verdade. Menos à polícia. É um reflexo antigo.
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"Não tenho paciência para aquelas pessoas que envernizam o que escrevem. Gosto que me digam que havia pastilha elástica colada por baixo da mesa, coisas assim... Para se escrever boas canções é preciso ser-se uma espécie de detective privado. Numa canção, prefiro que um tipo me diga que foi à farmácia e não havia preservativos do que escreva que 'os rumos das nossas vidas se cruzaram na semente do universo'. Parece-me um bocado de lixo cósmico a mais...
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"Actualmente, considero-me um empregado de bomba de gasolina no desemprego, uma lenda no meu próprio espírito, uma espécie de rumor na minha época, um tumor na minha cabeça. Nem sequer estou à beira da notoriedade nacional.
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"Não conheço ninguém que tenha engatado uma miuda por ter um álbum do Tom Waits. Só eu tenho três e nunca me serviram de nada.
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"Já toquei em lugares onde a média de idades era 'falecido'.
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"Nunca passam as minhas canções na rádio. Tocam mais o Marcel Marceau do que me tocam a mim!
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"O Francis Ford Copolla é muito musical e é uma das pessoas mais calorosas, abertas, vulneráveis, loucas e imaginativas que conheci. Deu-me uma sala com piano, cortinados, forrada a madeira e com vista para a bomba de gasolina! Eu levantava-me de manhã, fazia a barba, vestia um fato e ia para o trabalho... Acho que não há ninguém como ele. É um vigarista e um pequeno ditador, um pássaro exótico, um professor, uma bailarina, um palhaço e um coleccionador de tralha. Faz um óptimo esparguete... é muito italiano. Francis Ford Mussolini. Adoro aquele homem.
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"Compor para o cinema é como escrever canções para o sonho de outra pessoa. Até 0ne From The Heart, escrever canções era uma coisa que eu fazia quando tinha estado a beber.
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"Las Vegas é um cemitério de artistas, uma paródia do sonho americano. É muito confuso. De manhã, podes estar a engraxar sapatos e, à noite, seres milionário. Mas, a maioria das vezes, é ao contrário.
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"Não vejo por que razão deveria desejar coisas que não compreendo por razões que não aceito. Ter um grande êxito significa fazer muito dinheiro e muitas pessoas saberem quem nós somos e isso não me parece que seja muito atraente. Não entendo a importância de ter a minha cara numa lancheira no Connecticut. Não vejo como é que, no grande esquema, isso possa ser um objectivo... Muita gente procura afecto e aceitação sob a forma de um grupo anónimo de pessoas que pensa que nós somos maravilhosos. Eu não quero escolher os meus amigos assim arbitrariamente.