Showing posts with label Laetitia Sadier. Show all posts
Showing posts with label Laetitia Sadier. Show all posts

19 June 2025

 
(sequência daqui) Grande é, pois, o pasmo quando, agora, perante Instant Holograms On Metal Film - o proverbial álbum de fumo colectivo do cachimbo da paz -, se escuta as vozes de Sadier e Marie Merlet declarando "The numbing is not working anymore, an unfillable hole, an insatiable state of consumption, assigned trajectory". E, logo a seguir, "Killing the possibilities, of there being other stories, conceptualisations, of progress and development, Open are the possibilities! A deluding promise of a middle class for old times on". É verdade que ainda persistem sinais de baixa filosofia-de-redes-sociais mas, no seu melhor, é como se a banda tivesse dobrado a fita do tempo e, colando o passado sobre o presente, tivesse gerado um universo alternativo onde Magritte e Hopper - por entre Deleuze e Guattari, pulsações motorik e funk electrónico - trabalham no projecto de uma catedral Bauhaus para a Bacia de Aitken, no Sul Polar da Lua.

16 June 2025

A FITA DO TEMPO
No ano passado, Rooting For Love apresentava-se com todos os preocupantes sintomas da obra de final de carreira: Laetitia Sadier, ao 5º álbum a solo após a separação dos Stereolab (2009), parecia desinteressar-se de vez do, até aí, fértil cruzamento entre a estética retro-futurista e o diálogo com o marxismo e o situacionismo e escorregava, ideologia abaixo, para o território das "personal politics", abeirando-se mesmo da involuntária comicidade "new age":“Smile at your spleen, inundated with light, and be serene, smile at your kidneys, lights escaping, color is blue, feel your organs smiling back at you”. Os Stereolab tinham emergido em Londres no acampamento "indie" local dos anos 90, mas, na verdade, nunca soaram como os seus contemporâneos. Se mantinham alguns pontos de contacto exteriores, estes situavam-se no pós-rock, no revivalismo do easy listening, na eletrónica experimental e na cena underground que revelou bandas como Pram, Broadcast e Plone.  (daqui; segue para aqui)

01 May 2025

"Pont Du Poivre" (álbum na íntegra aqui)

(sequência daqui) James Elkington, o guitarrista, compositor e produtor britânico adoptado por Chicago e favorito de Jeff Tweedy, Tortoise, Eleventh Dream Day, Richard Thompson, Laetitia Sadier, Michael Chapman, Steve Gunn e Joan Shelley estará, provavelmente, à beira de uma circunstância semelhante. Enquanto no álbum anterior - Me Neither (2023) - apenas terá "arranhado a superfície de uma nova metodologia que supunha poder retomar facilmente", na verdade, para esta nova colecção de 27 peças instrumentais minimais, sentiu-se como alguém que, por entre flashes de Robert Fripp e John McLaughlin, tenha sido forçado a saltar do mapa para o território real. O que talvez será apenas satisfatoriamente explicado quando viermos a compreender a conspiração linguística que conduziu a que o álbum, na língua de Camões & Pessoa, viesse a ser intitulado Pastel de Nada.

28 March 2024

"Who + What"
 
(sequência daqui) Agora, ao 5º álbum a solo (Rooting For Love), após a separação dos Stereolab (2009), Laeticia desloca o seu centro de gravidade para o terreno das "personal politics" e, aqui e ali, abeira-se perigosamente da vacuidade "new age": se, em "Don’t Forget You’re Mine", o quadro desenhado é explícito ("Hey, don't scream with rage / It's vain, I'm not impressed /Just exasperated again / A good slap is what you need /A good slap is what you want /Take that, takе that / Get up"), "The Inner Smile", em arranjo coral angélico, chega a ser embaraçoso: “Smile at your spleen / Inundated with light / And be serene / Smile at your kidneys / Lights escaping / Color is blue / Feel your organs smiling back at you”. Bem mais urgentes são as últimas palavras de "Cloud 6" - meia Laurie Anderson, meia Meredith Monk -, “I’m not fucking around / We’re halfway dead”.

25 March 2024

PERSONAL POLITICS
Nos anos 90, Robert Christgau, decano da crítica musical norte-americana, despachava os Stereolab classificando-os como “Marxist background music” e, numa interrogação que deveria ser lida como um elogio, acrescentava: "So it isn't just silly punk songs - yet other people want to fill the world with silly Marxist songs, and what's wrong with that?" Era a altura na qual a banda de Tim Gane e Laetitia Sadier, socorrendo-se de todas as referências a que podia deitar a mão ("avant-pop", "electronica", "post-rock", "krautrock", "lounge", minimalismo, John Cage, bossa nova, "chanson"), se entretinha a polvilhar de alusões anarco-situacionistas o "consomé" sonoro da dezena de álbuns de estúdio que, entre 1992 e 2010, publicou. Exemplo supremo destes exercícios de ironia assassina, "Ping Pong" (1994): "It's alright, 'cause the historical pattern has shown / How the economical cycle tends to revolve / In a round of decades three stages stand out in a loop / A slump and war then peel back to square one and back for more / There's only millions that lose their jobs". (daqui; segue para aqui)

"Panser L'Inacceptable"

26 December 2021

 
(sequência daqui) Ookii Gekkou (em japonês, “Big Moonlight”) aprofunda e dilata o horizonte desta enigmática terra incógnita assente sobre infinitas fantasias Dada-abstraccionistas, "space-age free jazz" em lento processo de dissolução, orientalismos em contraluz, o infatigável dínamo rítmico de Valentina Magaletti, evocações distorcidas de afrofunk e “samples” de ronronar felino. Uma microscópica música molecular em interminável mutação às mãos do (agora) quarteto composto pela “mastermind” Cathy Lucas, Magaletti, Susumu Mukai e Phil MFU, armados de xilofone, glockenspiel, sintetizadores, mellotron, guitarra, baixo e bateria, com o recrutamento externo de cordas e sopros eventuais (e da "special guest star" Lætitia Sadier, em guitarra). Caleidoscópio do ano.

01 December 2021

 
(sequência daqui) Para o último, The French Dispatch, voltou a recorrer a Desplat que comporia música inspirada em Erik Satie e Thelonious Monk e pediu a Jarvis Cocker que gravasse uma versão de "Aline" (1965), baladona lacrimejante de Christophe, ídolo “romântico” da pop francesa. Não se ficariam, no entanto, por aí: o nativo de Sheffield com o mais tolerável sotaque francês do Reino Unido, sob a produção executiva de Anderson, ampliaria a ideia para um álbum inteiro – Chansons d’Ennui Tip-Top –, “companion piece” e “extensão musical” do filme, onde, com supremo garbo e nenhuma iconoclastia, e na companhia ocasional de Lætitia Sadier (Stereolab), ressuscitaria 12 vetustos sucessos de Dalida, Brigitte Bardot, Nino Ferrer, Jacques Dutronc, Serge Gainsbourg, Françoise Hardy, Alain Delon, Marie Laforêt e Brigitte Fontaine. No filme, "Aline" é escutada emanando diegeticamente do jukebox do café Le Sans Blague. É, sem dúvida, a melhor forma de saborear esta “period piece”.

11 August 2020

AGITADORES


No extenso e desvairado menu da esfera conspiranóica, um dos pratos actualmente com mais saída é o do “marxismo cultural”, herdeiro legítimo do “bolchevismo cultural” nazi. Simplificando bastante porque não é de digestão fácil, algures numa obscura caverna, uma seita de temíveis radicais apostados em virar o mundo do avesso, trabalharia dia e noite para manter em frenética actividade os seus agentes espalhados pelo planeta (e, em especial, pelos media, universidades, artes, letras, ciências sociais), soldadinhos da subversão do Ocidente branco e cristão e da militância por causas com as quais, na maioria, Marx nunca sequer sonhou: políticas de género, ambientalismo, imigração, secularismo, questões identitárias. Não basta ser direitolas para combater nas fileiras dos anti-marxistas culturais, é indispensável acreditar que, desta vez, “o espectro” anda mesmo por aí e que, sem darmos por isso, vai devorar-nos as entranhas. 

"New Left Review #2" (álbum integral aqui)

Por, em 1985, terem chegado cedo de mais – o papão do “marxismo cultural” só foi detectado no início dos anos 90 – ou por tenderem para um marxismo mais "old school", os McCarthy de Malcolm Eden, Tim Gane, John Williamson e Gary Baker (Lætitia Sadier juntar-se-lhes-ia fugazmente antes de, com Gane, fundar os Stereolab) nunca caíram no index da nova Inquisição mas, na qualidade de agitadores infiltrados na cultura pop, houve muito poucos como eles. Adepto do distanciamento brechtiano, Eden (a locomotiva ideológica da banda), ao modelo punk de agit-prop irada, preferia as interrogações educadamente irónicas (“Who made the wealth in this pleasant land? The entrepreneurs made it with their only free hand. Why do prices rise? Who's to blame for that? The workers put up prices with their pay demands”) envoltas no doce crochet de guitarras de raiz Byrds/Smiths. The Enraged Will Inherit The Earth (1989) – segundo volume antes do terceiro e final Banking, Violence And The Inner Life Today (1990) –, agora reeditado em duplo vinil com as proverbiais raridades, não há-de escapar outra vez às patrulhas de vigilância.

17 September 2012

UMA OU DUAS IDEIAS


















Laetitia Sadier - Silencio
  
Há uma ou duas ideias feitas acerca da coisa pop que se, aqui e ali, terão algum sentido, transformadas em “tábuas da lei”, só podem conduzir ao disparate (uma tendência inerente às “tábuas da lei”, aliás). A opção pelo “acústico” – por oposição ao “eléctrico” – como revelador da “essência” última de uma canção, é uma delas. Outra gira em torno do “artista finalmente emancipado na sua transbordante criatividade da banda que lhe tolhia a liberdade de movimentos” (ok, no caso Björk/Sugarcubes, não poderia ter sido mais verdade). A Laetitia Sadier, pós-Stereolab, aplicar-se-iam ambas: Silencio, não repudiando integralmente o recorte "space age bachelor pad music" (o peculiar cocktail de Young Marble Giants, "easy listening", pais fundadores da electrónica, Bacharach e "motorik" germânica), investe claramente no nicho da canção de raiz acústica e apenas decorativamente “krautificada” (e, acessoriamente, “tropicalizada”); em roda livre, embora ainda acompanhada por Tim Gane, não pode afirmar-se que Sadier tenha sido capaz de voar muitos pés acima da banda.


Claro que a uma parisiense nascida em Maio de 68 não deve pedir-se que desista de cantar “The ruling class neglects again responsability, overindulged children drawn to cruel games, pointless pleasures, impulsive reflexes, a group of assassins” pelo meio de coros lânguidos. Mas se os Stereolab já tinham devidamente homenageado John Cage em
"John Cage Bubblegum" com o melhor texto minimal possível (C'est le plus beau, et c'est le plus triste, c'est le plus beau paysage du monde”), mesmo tendo-se comemorado há dias 60 anos sobre a estreia de 4’33”, eram dispensáveis os 4’29” de “Invitation Au Silence” em louvor do silêncio das igrejas que nos faz descobrir “as profundas dimensões do eu”.