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26 April 2026

NÃO SERÁ UM ACASO

No início de 2023, aquando da publicação de Anadolu Ejderi, da turca Gaye Su Akyol, foi oportunidade para parar um pouco e reflectir sobre o imenso e maravilhoso mundo que, ao longo dos anos, fomos capazes de ir descobrindo sempre que nos demos ao trabalho de espreitar para lá dos muros do nosso quintal. Recordámos, então, a afegã Elaha Soroor, a saudita-paquistanesa Arooj Aftab e a israelo-iraniana Liraz, o - pelos piores motivos - recém-descoberto universo ucraniano (Folknery, DakhaBrakha, Torbán, Dakh Daughters, Joryj Kloc) ou o inesgotável baú das inúmeras variantes chinesas contemporâneas. Na verdade, era apenas uma actualização do que já antes, em Setembro de 2021, havia sido recenceado: preciosidades como Le Mystère des Voix Bulgares, Les Nouvelles Polyphonies Corses, Cocanha, San Salvador, Lankum, John Francis Flynn, Lisa O'Neill e Stick In The Wheel. Podemos, pois - enquanto as occitanas Cocanha não nos revelam o seu último álbum ("Flame Folclòre") e as estonteantes napolitanas La Niña não nos oferecem uma oportunidade de, ao vivo, nos fazer levitar ao som de Furèsta -, ir abrindo uma vaga para o quarteto integralmente feminino Seera, oriundo de Riade, capital da Arábia Saudita, estado islâmico no qual a condição feminina não é propriamente exemplar. (daqui: segue para aqui)

Seera - "Shams"

25 December 2025

 
"Briogais"
 
(sequência daqui) E, em ambos os casos, o trânsito para dentro e para fora da banda (uma dúzia de músicos nos Mànran, 16 nos Fairports) foi intenso. O que, sem insinuar que os 4 primeiros álbuns da banda escocesa se contentaram em navegar por águas tranquilas à espera da inquietação que este To The Wind traria, obriga, porém, a reconhecer que este é o ponto de partida para uma nova etapa na qual o actual septeto Mànran se compraz numa múltipla identidade: sem arriscar gestos estéticos tão extremos como os de John Francis Flynn ou Lankum, mistura no mesmo caldeirão a raiz folk/gaélica e um enérgico virtuosismo pop que, por entre vozes, violino, uilleann pipes, acordeão, guitarra, bateria e baixo, disparam em remoinhos instrumentais e acrobáticos port-a-beul que lançam achas sobre a já imensa fogueira.

05 November 2025

Lankum - "Ghost Town"

 
"Dublin folk miscreants Lankum have returned with a new, stand-alone single: a devastatingly powerful and otherworldly interpretation of The Specials’ 1981 number one, ‘Ghost Town’. The original single was a haunting and perfectly timed piece of social commentary, capturing the bleak national mood of urban decay, mass unemployment, and racial tension that culminated in widespread riots across Britain just as the song topped the charts. As Lankum state below, it feels eerily relevant to be referencing it yet again. The release, announced today by Rough Trade Records, is accompanied by a stunning, 8-minute short film. Directed by the renowned Leonn Ward and shot on location in County Wicklow with cinematography by Oscar-nominee Robbie Ryan (Poor Things, American Honey), the video is a haunting piece of visual art, reminiscent of Andrei Tarkovsky, that matches the track’s unsettling intensity" (daqui; ver também aqui)

12 September 2025

"Adieu Lovely Erin"

(sequência daquiComo já acontecera antes com vários elementos de diversas bandas, membros dos Landless e Lankum, convergiram para formar os Poor Creature: Ruth Clinton (ex-membro dos Niamh & Ruth e dos Landless) juntou-se a Cormac MacDiarmada dos Lankum, mais tarde - em consequência de desassossegos pandémicos - passando a trio com John Dermody dos The Jimmy Cake (e baterista em concerto dos Lankum). Com All Smiles Tonight, criaram um álbum cuja particular identidade se constrói em torno da tensão entre sonoridades acústicas e contaminações pós-rock e gentilmente psicadélicas, acomodando drones de cordas (viola de arco e violino) e electrónica. Muito em particular, rebuscada na fertilíssima area vintage à qual Ruth Clinton foi ressuscitar uma "keytar" nascida nos 80s, uma Organetta Hohner que ofereceria o esqueleto primordial de duas ou três faixas, um Otamatone japonês e um vetusto Theremin.

08 September 2025

GENTIL PSICADELISMO

Não tem sido devidamente investigado o conjunto de circunstâncias que estarão na raiz do súbito surgimento de uma corrente particularmente experimental de música folk irlandesa. Mas é indiscutível que, com epicentro em Dublin, um universo em permanente expansão - Lankum, Landless, Brìghde Chaimbeul, Radie Peat, ØXN, Ye Vagabonds, Skipper’s Alley, Lisa O'Neill, John Francis Flynn - vem sistematicamente publicando aquilo que, seguramente, no futuro, haverá de ser encarado como uma preciosíssima arca de tesouros. Detectada por Geoff Travis e Jeannette Lee (da Rough Trade) quando se aperceberam da existência de “beautiful and strange traditional music from Britain, Ireland and beyond”, para ela criaram a etiqueta River Lea - "a division of Rough Trade Records" - e reservaram quase em exclusivo os dotes de produção de John "Spud" Murphy, espécie de Martin Hannett tardio das margens do Liffey. (daqui; segue)
 
 Poor Creature - "All Smiles Tonight"

16 April 2024

ESCUTAR A TERRA
Talvez não se tenha devidamente reparado mas Old Wow, de Sam Lee, foi um dos mais importantes álbuns publicados em 2021. Se, desde há anos, escutando The Unthanks, Stick In The Wheel, Hack-Poets Guild, Lankum e mais uns quantos, podia afirmar-se que as músicas de raiz tradicional e raio de acção contemporâneo haviam entrado numa nova idade de ouro que em nada ficava atrás da era dos Fairport Convention, Seeleye Span ou June Tabor, não se estava propriamente â espera do surgimento de uma personagem renascentista que elevasse tudo a um nível superior. Reunindo todas as pontas soltas, Sam Lee abraçou quantas causas ambientais foi capaz - fundou a Music Declares Emergency, associou-a â Featured Artist Coalition e esteve na origem de The Nest Collective - e, no mesmo gesto, entregou-se à redescoberta da música tradicional britânica. Em particular, aquela que foi recolhendo no contacto com aa comunidades cigana/"traveller" locais. (daqui; segue para aqui)
 
"Bushes And Briars"

18 January 2024

(sequência daqui) "A música folk é História preservada. Conta a história de uma classe que nunca deteve o poder. Que nunca escreveu os livros. Penso ter sido Frank Harte quem disse: 'Quem tem o poder escreve a História, quem sofre escreve as canções'. Continuar a cantar estas canções é mantermo-nos em contacto com a história das classes trabalhadoras e manifestar-lhes solidariedade no presente", disse também Flynn a "The Thin Air". E isso poderia ser integralmente transposto para abordar CYRM, dos ØXN, colecção de 6 canções maioritariamente sob uma perspectiva feminina e retratando uma espécie de eternas trevas mentais medievais, nas quais a selvajaria exercida sobre mulheres supostamente possuídas por demónios ou outras entidades malignas é regra. Fruto da maravilhosa promiscuidade estética de Dublin, a banda é constituída por Radie Peat (voz dos Lankum), Eleanor Myler (Percolator), Katie Kim e John ‘Spud’ Murphy (produtor dos Lankum). ØXN designa uma variedade de touros castrados usados como bestas de carga na velha Irlanda e CYRM um maligno encantamento feminino. Reforçando a faceta das coincidências significativas, o grupo teve origem no fatídico dia 6 de Janeiro de 2021, quando, ao mesmo tempo que, em Washington DC, uma multidão de bárbaros enfurecidos assaltava o Capitólio, Peat, Kim e Myler celebravam o Nollaig na mBan (Natal das Mulheres irlandês) actuando na mesma torre militar de vigia debruçada sobre o Atlântico onde os Lankum gravaram False Lankum. "Cruel Mother", "The Trees They Do Grow High", e "Love Henry" injectam o soro de misoginia, vingança, perda e assombração de raiz tradicional e "The Wife of Michael Cleary" (de Maija Sofia) e "The Feast" (inspirado pelo romance de Nick Cave, And The Ass Saw The Angel), são a demonstração concreta da linha contínua que une o Mal de todas as épocas. Os 13 arrasadores minutos finais de "Farmer in the City", extraída de Tilt, de Scott Walker (1995), não autorizam espaço nem tempo para que um único soluço possa ocorrer.
 

11 January 2024

 
(sequência daqui) Na verdade, não se trata apenas dele mas de uma comunidade informal de músicos irlandeses de Dublin que tem, até agora, como figuras mais destacadas os Lankum (publicaram, este ano, o belíssimo False Lankum) mas igualmente os nada menores Lisa O’Neill (All Of This Is Chance, acabado de entrar para o cânone em 2023) e, idem aspas, os ØXN, de CYRM. John Francis cresceu a tocar "tin whistle", estudou música na universidade e considerou a hipótese de vir a ser professor. A "pós-graduação", porém, fê-la pelos "pubs" de Stoneybatter e Capel Street, na margem norte do Liffey, mas, sobretudo, no Cobblestone, em Smithfield (anunciado como "A drinking pub with a music problem"). Foi por aí que descobriu as gentes dos Lankum e afins, deu corda aos Skipper’s Alley e, em 2021, por ocasião da campanha contra o extermínio do Cobblestone às mãos dos tubarões do imobiliário, as várias pontas de um problema começaram a tornar-se evidentes: "Quando as coisas ficam hiper-globalizadas, as habitações são devastadas pelos grandes negócios, é impossível pagar uma casa na nossa própria cidade, e nos descobrimos à deriva num mar de 'branding' empresarial, temos de nos dedicar realmente às raizes culturais. Começamos a interrogar-nos de onde somos e o que isso significa e é muito fácil agarrarmo-nos à nossa identidade: basta cantar uma canção ou escutá-la". Mais ou menos o mesmo que, há um par de anos, Radie Peat, dos Lankum, no "Irish Independent", perguntava: "Desejamos realmente uma cidade onde tudo é propriedade da mesma gente, só existem Lidls e Aldis e as lojas de esquina desapareceram?" (segue para aqui)

13 September 2023

Natalie Merchant interview - Keep Your Courage, love in all its forms, and a lot more
(ver aqui e também aqui)

08 August 2023

31 July 2023

 
(sequência daqui) Falando acerca de False Lankum, o quarto álbum do quarteto irlandês agora publicado, Ian recentra o problema: "Sabemos bem o que a tradição é porque temos andado bastante à volta dela. Por isso, sabemos também que o que fazemos não é música tradicional. É algo no qual a música tradicional é um elemento muito importante mas, na verdade, apenas um elemento entre muitos outros. Vejo a tradição como uma corrente. Não um género musical mas, antes, um processo. Importante é que as canções que interpretamos tenham alguma ressonância no que é a nossa vida". Se o anterior, The Livelong Day, era da linhagem dos clássicos intantâneos, False Lankum ousa não se deixar abater por tal peso. Desde o início, com a intensa voz a cappella de Radie Peat abrindo os 9 minutos da missa negra "Go Dig My Grave", ao exercício de afogamento da jovial reel "Master Crowley" nas cisternas do Inferno, ao banho de sangue da sea shanty, "The New York Trader", ou à catedral em lento desmoronamento de "The Turn", com três curtas "Fugues" ("Um caos sonoro que reflecte o tempo movendo-se para trás") como pontuação, o álbum foi concebido durante a noite num forte militar à beira do Atlântico e gravado, de dia, no Hellfire Studio, de Dublin. Quase se adivinhava.

27 July 2023

COMO UMA CORRENTE 

Há três anos, aquando da publicação do belíssimo Heart’s Ease, de Shirley Collins, a veterana padroeira da folk britânica, sem papas na língua mas com alguma dose de injustiça pelo meio, a propósito daqueles que poderiam constituir a sua "descendência" actual, dizia-me: "Para ser sincera, as Unthanks fazem música lindíssima mas parecem-me demasiado repetitivas, prefiro um pouco mais de substância. E os Stick In The Wheel dão-me a sensação de estarem a cantar sempre a mesma música. Mas adoro os Lankum – a Radie Peat é uma cantora extraordinária!..." No último número da "Songlines" – na capa, os Lankum, sob o título de "The Fearless Future of Folk" –, a mui respeitável Natalie Merchant, unindo pontas, contava como, tempos antes, quando procurava uma versão de Shirley Collins para o tradicional "Hares On The Mountain", deparara com um vídeo de Radie Peat e Daragh Lynch (metade dos Lankum) interpretando esse tema: "Fiquei imediatamente rendida à tonalidade da voz dela e ao desenho hipnótico da guitarra. Escavei mais fundo e descobri 'The Young People' e 'Hunting The Wren' (ambos de The Livelong Day, 2019). Parei imediatamente. Os textos do Ian Lynch e o talento da banda para reinventar a tradição são impressionantes. Se 'Hunting The Wren' fosse um poema, não seria menos poderoso. Mas, com aquela voz, naquela música, é devastador". (daqui; segue para aqui)

27 April 2023

 
(sequência daqui) E, assim sendo, os irmãos Charles e Andrew Hendy acrescidos de Sean McKenna e um grupo flutuante de acompanhantes (somando guitarras, baixo, banjo, bateria, acordeão, flauta e gaita de foles), escolheram como santa padroeira Mary Walloper, prostituta das docas de Dundalk, amante de cidra e lendária zaragateira. Alimentados desde o berço a música tradicional irlandesa posteriormente vitaminada com extractos de punk e – indetectável mas confessado – hip hop clássico (Grandmaster Flash e 'The Message', era sobre a vida real de todos os dias. O mesmo lugar onde o punk e a folk germinam”), é ouvi-los em atmosfera de desbunda bordélica bem regada, exibindo desavergonhadamente o carregadíssimo sotaque, acamaradando com os Lankum, e cumprindo à risca o ponto único do seu programa: “Escrevemos sobre as coisas que nos irritam”.

25 November 2022

APENAS "MÚSICA LINDÍSSIMA"

Há 12 anos, preparavam-se Rachel e Becky Unthank para actuar no Olga Cadaval, em Sintra, pareceu-me urgente anunciar a verdadeira dimensão do que iríamos testemunhar: “Desde a era dos Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle, Richard & Linda Thompson e das irmãs Collins – ainda que com valiosíssimos porta-estandartes como June Tabor durante o interregno –, não surgia nenhum grupo na cena folk inglesa capaz de deixar absolutamente clara a ideia de que, no idioma popular tradicional, circulava ainda sangue suficientemente oxigenado e pronto a garantir que ‘os anos de ouro’ nunca seriam apenas uma antiga e saudosa memória. The Unthanks, em três magníficos álbuns – Cruel Sister (2005), The Bairns (2007) e Here’s The Tender Coming (2009) –, mudaram tudo”. Desde então, vários outros notáveis - Kinnaris Quintet, Lankum, Stick In The Wheel, Mànran, Sam Lee – se lhes juntaram. (daqui; segue para aqui)
 
"The Old News"

31 October 2021

BELO E ESTRANHO
 

Será um caso típico de mais vale tarde que nunca. Mas a Rough Trade que sempre fez questão de andar um passo à frente da concorrência, só há pouco se deu conta de que existia “beautiful and strange traditional music from Britain, Ireland and beyond” (refira-se, contudo, a atenuante de lhe devermos a publicação de Between The Earth And The Sky, 2017, e The Livelong Day, 2019, dos extraordinários Lankum). Para a dar a conhecer, criou a etiqueta River Lea – dirigida por Geoff Travis e Jeannette Lee – na qual publicou já álbuns de Lisa O’Neill, Ye Vagabonds, Brìghde Chaimbeul e, agora, I Would Not Live Always, a imperial estreia a solo de John Francis Flynn, também muito activo membro do quinteto folk de Dublin, Skipper’s Alley. Foi, justamente, num concerto dos Lankum de que Flynn realizava a primeira parte, que Travis se apercebeu da impressionante riqueza daquela música que não se deixava sufocar pelo respeitinho à tradição mas a fazia explodir em mil direcções. (daqui; segue para aqui)

06 September 2021

FRONTEIRAS, ORIGENS
 

Desde que, na noite 29 de Junho de 1987, no Empress of Russia (um já defunto pub de Islington, no Norte de Londres), um grupo de representantes de editoras independentes, organizadores de concertos e jornalistas – correndo, embora, o risco de guetização de tudo o que não era ocidental, pop, rock ou jazz – cunhou a designação “world music” para englobar o que, até aí, se chamava “folk”, “trad” ou “roots”, todo um novo espaço se abriu e nos permitiu o acesso mais fácil a preciosidades como Le Mystère des Voix Bulgares, a experiências de cruzamento multicultural como Les Nouvelles Polyphonies Corses (de Hector Zazou) ou a muito do que a Real World, de Peter Gabriel, ou a Luaka Bop, de David Byrne, publicaram. Com períodos de maior ou menor fulgor, nos últimos anos, o ritmo de descobertas valiosas tem-se intensificado com os belíssimos álbuns de Sam Lee, Elaha Soroor & Kefaya, Cocanha, San Salvador, The Rheingans Sisters, Lankum, Stick In The Wheel ou até 33EMYBW, Hai Qing & Li Xing, e Guzz da quase totalmente ignorada China. Vulture Prince, de Arooj Aftab, é mais outro óptimo exemplo de uma forma de abordar a música que, se ignora as fronteiras, conhece bem as suas origens. (daqui; segue para aqui)
 
"Mohabbat"

01 December 2020

DE BEM VIVA VOZ

 

Após 38 anos sem gravar um disco, a primeiríssima dama da folk britânica, Shirley Collins, regressou, inesperadamente, em 2016, com o belíssimo Lodestar. A disfonia que a afectara aparentemente vencida, reincide, agora, com Heart’s Ease, outra pérola do reportório folk que, aos 85 anos nos oferece, não demasiadamente desconfortável com o confinamento (“Desde há muito que vivo sozinha, já estou habituada”) mas tremendamente furiosa com o rumo que o Reino Unido tomou: “Boris Johnson, que homem horrível! Como é que a Inglaterra pode ter chegado a este ponto! Eu sou europeia!...” 

    Em Electric Eden, Rob Young cita-a: “Sempre soube que esta música tinha nascido em mim. Sabia como cantá-la e nunca me iria afastar daí”. Foi, de facto, assim? 

Durante a 2º guerra mundial, era eu ainda criança, vivíamos em Hastings, na costa Sul de Inglaterra. Havia, frequentemente, raides aéreos e tínhamos de correr a refugiar-nos em abrigos onde os meus avós cantavam para mim e para a minha irmã, Dolly. Só mais tarde percebi que o que nos cantavam eram canções folk, música tradicional. Canções que eles, naturalmente, cantavam e que faziam parte da vida diária. Creio que começou tudo aí: adorava os meus avós, sentia-me segura junto deles, muito cedo essas músicas entraram em mim e nunca mais sairam. 

    No início do folk revival, havia aquela atitude militante de recolha e preservação da “música do povo”, levada extremamente a sério por gente como Alan Lomax (com quem viajou aos EUA numa expedição de recolha) ou Ewan MacColl... Como lidava com isso? 

Até certo ponto, compreendo-a uma vez que se trata de algo importante que deve ser preservado. Mas é uma forma um bocado agressiva de lidar com a música. Prefiro que as pessoas se sintam livres para fazer o que gostam sem necessitarem de regras estabelecidas por outros. O Ewan MacColl foi o pior de todos nessa atitude de ditar aquilo que podia e não podia ser cantado.* Não gostava nada dele, por isso também não liguei muito ao que dizia. Pareceu-me sempre um bocado falso, não era genuíno. Já o Alan Lomax era diferente, tinha consciência da importância de salvar do esquecimento a música tradicional de todos os países e do orgulho que as pessoas deveriam sentir na sua herança musical.

  

    Mas essas tradições musicais estavam, realmente, moribundas e necessitavam de ser preservadas?  

Era necessário mantê-las vivas porque estavam a ser exterminadas pela grande máquina da indústria musical que nos atira a mesma música para cima, seja qual for o lugar do mundo onde nos encontremos. Claro que também produz música óptima mas, no seu caminho, esmaga tudo, nada resta das músicas originais que fazem parte da História e das tradições dos povos. É terrível mas não tenciono deixar de lutar. 

    Na viagem aos EUA, com Alan Lomax, sentiu-se um pouco como um Colombo “ao contrário”, indo descobrir na América aquilo que já conhecia em Inglaterra? 

(risos) Sim, sobretudo nas montanhas Apalaches e Ozark, no Kentucky e no Arkansas, onde encontrámos canções originalmente inglesas, irlandesas e escocesas. Era fascinante escutar, em versão americana, canções que eu conhecia das colecções do Cecil Sharp. Evidentemente, ao longo dos anos tinham-se transformado gradualmente. E pude cantar algumas das versões que conhecia que as pessoas de lá receberam com a alegria de constatarem que, como diziam, “back in the old country”, ainda eram conhecidas. 

    Aos seus olhos, Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle, foram bem-vindos? 

Foi fantástico, de um modo geral, foi muito bom. A música era muito bem tocada, eram todos músicos que conheciam bem aquilo com que estavam a lidar, não era uma moda de que, mais tarde, se iriam arrepender. Acreditavam no que estavam a fazer. Era claro que, por exemplo, os álbuns de "morris dances", nunca iriam ser populares. Mas era uma questão de manter viva aquela música, de uma forma fresca e que não a rebaixava nem insultava.


  Como foi a experiência de, com a sua irmã Dolly, colaborar com David Munrow e o Early Music Consort em Anthems In Eden (1969) e Love, Death And The Lady (1970)? 

Devem ter sido os momentos mais emocionantes da minha vida musical! Para além de, como já lhe contei, os meus avós nos ensinarem canções tradicionais, o meu tio Fred fazia-nos ouvir muitos discos de Monteverdi. Aprendi, assim, a adorar também a música antiga. Conheci o David Munrow em Londres, com a Dolly. Fomos ter com ele ao Early Music Center porque adorávamos o trabalho dele, cheio de vida e energia. Passado algum tempo, surgiu a possibilidade de gravarmos Anthems In Eden e o David aceitou interpretar os arranjos da Dolly com o Early Music Consort. Ele era imensamente entusiástico, estar ao pé dele era como estar ligado a uma central eléctrica. Não duvidava que esta música deveria ser tocada e interpretada de uma forma rigorosa. Mas era tão gentil, o género de pessoa com quem nos apetece estar sempre... Eu não lia música (e continuo a não ler), o que, ao entrar para estúdio, me deixou um bocado nervosa. A Dolly tinha partituras para todos e, quando ele me disse que a minha entrada era no sexto compasso, tive de lhe confessar que não lia música. Respondeu-me: “Não há problema. Durante muito tempo, eu também não li música e, quando andei pela América Central, fui apanhando tudo de ouvido!” Era um músico extraordinário e foi o grande responsável da redescoberta e do interesse pela música antiga. A verdade é que tenho tido muita sorte com todos os extraordinários músicos com que me fui cruzando. 

    Também teve sorte por ter conseguido recuperar a voz... 

É verdade. O David Tibet, dos Current 93, veio visitar-me durante o período em que eu tinha deixado de cantar e disse-me que adorava os meus álbuns e que gostava que eu cantasse uma ou duas coisas num álbum dele. Ao fim de anos a tentar convencer-me, falou-me de um concerto que iria dar na Union Chapel de Londres e, depois de tanto tempo a dizer não, disse que sim!... E cantei mesmo. 

    Surpreendeu-se ao descobrir, em Shirley Inspired, que tinha tantos novos fãs como Lee Ranaldo, Meg Baird, Rozi Plain, Bonnie 'Prince' Billy?... 

Sim!...Foi uma grande surpresa ver aquela enorme variedade de músicos pegarem nas minhas canções. Não é uma questão de falsa modéstia mas tenho consciência que a música que faço se destina a um pequeno nicho. 

    Qual a sua opinião sobre gente recente como as Unthanks, Stick In The Wheel?..

Para ser sincera, as Unthanks fazem música lindíssima mas parecem-me demasiado repetitivas, prefiro um pouco mais de substância. E os Stick In The Wheel dão-me a sensação de estarem a cantar sempre a mesma música. Mas adoro os Lankum – a Radie Peat é uma cantora extraordinária! – e o Alasdair Roberts.;

    Tanto em Lodestar como em Heart’s Ease, o processo de selecção do reportório foi o que sempre utilizou? 

Sim, e não foi difícil encontrar as canções. Poderia gravar mais 20 álbuns se fosse necessário. O essencial é que os arranjos nunca se sobreponham â canção. Os músicos com que tenho trabalhado são perfeitos para mim, comprendem instantaneamente o que cada canção pede. São pessoas inteligentes, divertidas... e lêem livros! (risos) Já agora, tenho de dizer-lhe que a minha filha deu-me a conhecer a obra do José Saramago. Comecei por A Jangada de Pedra e, agora, estou a ler o Manual de Pintura e Caligrafia. É extraordinário!
 

* ver aqui e aqui