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13 February 2008

DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (XIV)



The Langley Schools Music Project - Innocence & Despair




Sigur Rós - ()

Bem vindos ao maravilhoso mundo da ilusão! A saber, aquele onde, a partir de nada ou de muito pouco, se edificam fabulosas miragens e insondáveis portentos estéticos. Num universo um pouco mais prosaico, a isto é comum chamar-se, pura e simplesmente, "hype" mas também já foi conhecido como "great rock'n'roll swindle" ou apenas "o conto do vigário".

Exemplo nº1: numa vulgar escola canadiana dos anos 70, o esforçado professor de Educação Musical local constitui com os seus alunos de tenra idade um coral-orquestra dedicado a interpretar os êxitos pop da época, dos Beach Boys a Bowie, Beatles, Neil Diamond ou Eagles. Como seria de imaginar, os meninos não cantam particularmente bem, as desafinações abundam e por vezes chegam a doer, ritmicamente a coisa anda pela estética do pé-de-chumbo e, entre vozinhas candidamente infantis e instrumental Orff apropriadamente martelado, o resultado é pouco menos do que sofrível. Não tem mal, mesmo que, para exclusivo consumo doméstico dos directamente interessados e respectivas famílias, tenham sido gravados dois LP. Acontece apenas que, trinta anos depois, se dá... "a descoberta"! E uma legião de críticos embascados (e John Zorn, e David Bowie...) derrama louvores e relatos de epifanias a propósito do arrepiante contraste entre a "inocência" dos fedelhos e o conteúdo perturbantemente adulto das canções que interpretavam. Entre todos, apenas Stephin Merritt (Magnetic Fields) ousa confessar a sua "fobia pelas vozes de crianças". Conclusão: uma grande oportunidade perdida de projecção internacional para o Côro de Santo Amaro de Oeiras!



Exemplo nº2: os islandeses Sigur Rós publicam um álbum cujo título/não-título é (), de que as faixas também não possuem nome e onde o "booklet" consiste de folhas de papel vegetal em branco. A música não é extraordinariamente diferente do anterior Agaetis Byrjun — uma amável derivação do ambientalismo 4AD com sofisticação ECM, os já previsíveis jogos dinâmicos de tensão/distensão, algum minimalismo e vozes de querubim — mas, desta vez, ou particularmente invertebrada e indolente ou, em alternativa, pomposamente épica do lado errado de Glenn Branca, não apenas repetitiva mas também francamente inferior relativamente a Agaetis que chegava a ser hipnoticamente belo. Mas, oh milagre!, "o conceito" — aliás, já sobejamente explorado, por exemplo, no laconismo gráfico da Factory, nos anos 80 — sai vencedor sobre a música e sucedem-se os ensaios de hermeneutica delirantemente metafísica acerca do "vazio parentético", dos "jogos de receptáculos" e do "fluxo de conteúdos", além do já conhecido "paisagismo vulcânico e lunar" de raiz glaciar. Aprendam como se criam mitos. Afinal, é fácil. (2002)