Espantoso seria se fosse caso único (mas o que se aplica ao Chevalier, aplica-se a todos)
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08 January 2018
06 March 2015
NÓSTOS + ÁLGOS
Por muito que a “marca Portugal” (inserir aqui um discreto “lol”) desejasse deter o "copyright" mundial sobre a palavra e o conceito de “saudade”, a verdade é que foi o médico suíço, Johannes Hofer, quem, em 1688, a partir dos termos gregos nóstos e álgos, literalmente inventou a “nostalgia”, ou "mal de Suisse", quadro clínico afim da melancolia, que afectava os soldados em campanha, longe da terra mãe. Se este padecimento, originalmente, se definia por um afastamento territorial, não foi preciso muito para que passasse a incluir também o "longing" ou "yearning" (duas óptimas traduções para a “intraduzível” saudade que, curiosamente, em gaélico irlandês, se diz “fadó”), esse anseio por tempos idos, real ou imaginariamente, “de ouro”. Isto é, a matriz para todas os futuros ímpetos nostálgicos e retro que conduziriam Simon Reynolds, a declarar, trezentos e alguns anos depois, que “the avant garde is now an arrière garde”.
Alvo de uma crítica decididamente afirmativa foi, em Maio de 71, a loja de moda "vintage" londrina, “Biba”, atacada à bomba pelos anarquistas da Angry Brigade que, parafraseando Dylan, proclamavam: “If you’re not busy being born, you’re busy buying”. E acrescentavam: “Na moda, como em todo o resto, o capitalismo apenas pode andar para trás, não tem para onde ir, está morto. O futuro é nosso”. Não podiam estar mais errados. Se, no século XXI, as provas da sua esmagadora derrota abundam, na pop, pode considerar-se humilhante: o império-retro é avassalador e o recente Classics, de She & Him, outra lança em território inimigo. She é Zooey Deschanel – assim baptizada em homenagem a Zooey Glass, personagem de Salinger, “nascida” 45 anos antes dela –, a eterna Manic Pixie Dream Girl americana, e Him é M. Ward, criatura de credenciais indie, desde 2006, via S&H, convertido a uma minuciosa operação de reciclagem das preciosas antiguidades detectáveis no perímetro Motown/Spector/Tin Pan Alley/Nashville. Desta vez, o empreendimento não recorre à cosmética fake ao jeito-Lana Del Rey: Deschanel e Ward atiram-se de frente a treze temas dos anos 30 a 70 popularizados por Johnny Mathis, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Aznavour ou Frank Sinatra (vendo bem, se Dylan pode, porque não eles?) e o resultado é, deveras, "cute". Os avós vão adorar.
02 July 2014
NO PARAÍSO DIGITAL
Publicado em 1997, Industry, de Richard Thompson e Danny Thompson, não era, de certeza, apenas uma mera evocação histórica da indústria britânica, do século XVIII à era pós-industrial, com todas as suas glórias, misérias e multidão de vítimas que o desenvolvimento tecnológico condenaria a pouco mais do que deixar-se ficar “sitting in the evening, dreaming of the old times when a job was there for the steady and strong”. Mas, embora no final dos anos 90 os sinais fossem já visíveis, provavelmente, nem um nem outro imaginariam que, quase vinte anos depois, o formidável universo virtual inventado pelas novíssimas tecnologias se preparasse para transformar os infernos de Dickens (povoados por “faces of condemned men who did no wrong”) num quase Eldorado perdido. Anselm Jappe (“O principal problema actual não é apenas a exploração do trabalho mas o facto de cada vez maiores grupos da população se terem tornado ‘supérfluos’ por uma produção que dispensa o trabalho humano”) ou o Manifesto Contra o Trabalho, do Krisis Group (“Um cadáver domina a sociedade – o cadáver do trabalho”), poderiam ser chamados à conversa, mas quem encararia isso senão como uma intolerável recusa do pensamento positivo?
Então, no maravilhoso paraíso digital do Facebook, do YouTube, dos blogs, do Spotify, das "start-ups", onde a macumba está à disposição de todos, o bispo de Roma perdoa os pecados através do Twitter, e até podemos apaixonar-nos perdidamente por um sistema operativo (ver Her, de Spike Jonze), vamos armar-nos em queixinhas? Vejamos, pois, a questão sob outro ângulo. Que, para o que, agora, interessa, é exactamente aquele que acaba de fornecer à crítica musical uma poderosa ferramenta capaz de demonstrar, instantaneamente, por a + b, que o problema de Lana Del Rey não é o da autenticidade vs artifício (viva o artifício!) mas o de não ser mais do que um gigantesco Lego de clichés: chama-se “Lana Del Rey Song Title Generator” e, de borla, oferece uma infinita lista de hipóteses maravilhosamente intermutáveis: “Warhol Rapture”, “Patty Hearst Shotgun”, “Ketamine Bitch”, “Bardot Pansexual”, “Wallstreet Dysmorphia”, “Kerouac Erotica”, “Instagram Murder”, “Sharon Tate Ladykiller”... Com saboroso bónus adicional: a probabilidade de algum deles vir a saltar para o mundo real não é, de todo, negligenciável.
21 June 2014
01 January 2013
2012 - EM FRENTE, PARA O PASSADO
Em Regresso Ao Futuro, Marty McFly/Michael J. Fox, a bordo de um DeLorean DMC-12 convertido em máquina de viajar no tempo, recua até Novembro de 1955 e, pelo meio de mil peripécias, alterando o rumo dos acontecimentos e a relação entre diversas personagens, não só procura evitar desastres futuros, como, de caminho, realiza o seu sonho de ser músico de rock’n’roll, criando "Johnny B. Goode" e o "duckwalk" e oferecendo, de bandeja, a Chuck Berry “that new sound you’re looking for”. A 10 de Dezembro último, o Google Doodle do dia (variações gráficas sobre o logo do Google com o objectivo de celebrar efemérides, eventos políticos, desportivos ou culturais, e aniversários de figuras marcantes) evocava Lady Ada Lovelace (1815 – 1852): filha de Lord Byron, e pioneira da computação (sonhava com a construção de um modelo matemático capaz de explicar como os pensamentos se formam no cérebro), a “máquina analítica”, precursora dos computadores, que o seu amigo Charles Babbage inventara e para a qual ela conceberia o primeiro algoritmo destinado a ser processado mecanicamente, fascinava-a a tal ponto que, em 1842, assegurava que ela “poderia compor músicas elaboradas e científicas em qualquer grau de complexidade e extensão". Mas, sensatamente, sublinhava que "a máquina analítica não tem quaisquer pretensões de originar coisa alguma. Pode apenas executar seja o que for que saibamos mandá-la fazer".
Dir-se-ia que, em 2012 (prosseguindo, teimosamente, o rumo por que a década anterior já enveredara), a cultura pop – com as honrosas excepções habituais – optou, em definitivo, por repetir a viagem de Marty Mc Fly. Mas, ao contrário dele, que tirou partido do passo atrás para forçar os acontecimentos a dar vários em frente, preferiu transportar na bagagem o equivalente contemporâneo da máquina do doutor Babbage e, sem “quaisquer pretensões de originar coisa alguma” (ainda que proclamando o oposto), entreteve-se a gerar infindáveis duplos e cópias a partir do catálogo de estilos e géneros passados. Confortavelmente empantufados nas décadas de 60, 70 e 80 (a de 90 já se perfila para entrar em cena também), aos Marty Mc Fly actuais não ocorre sequer a ideia de que é possível alterar as coordenadas em que se alojaram e fazer delas trampolim para um salto no futuro: Ariel Pink, Tame Impala, Lana Del Rey ou Beach House (para referir apenas alguns dos mais proeminentes nomes das numerosas tropas do cerco retromaníaco), conscientemente ou não, o que fizeram foi levar a sério uma entrevista, de 1995, de Brian Eno à “Wired”, na qual ele especulava sobre a hipótese de concepção de sistemas de software capazes de "criar" mais música "original" de Shostakovich, de Brahms, ou dele próprio.
Sharon Van Etten - "Magic Chords"
A consequência foi uma colheita musical em que, fora do perímetro cercado, apenas é possível identificar pouco mais de duas dezenas de gravações sem cheiro a mofo nem enjoativa sensação de "déjà vu" (para além da lista de 10, é importante referir, igualmente, Mr. M, dos Lambchop, Tramp, de Sharon Van Etten, Life Is People, de Bill Fay, Shields, dos Grizzly Bear, Wrecking Ball, de Bruce Springsteen, Who’s Feeling Young Now?, dos Punch Brothers, Long Black Cars, dos Wave Pictures, Tempest, de Bob Dylan, e mais três ou quatro) e, inclusivamente, no que à música portuguesa diz respeito, para além do fado à boleia da UNESCO, espírito verdadeiramente aventureiro só foi possível detectar na improbabilíssima aliança luso-grega de Amélia Muge e Michales Loukovikas, na continuação da saga dos Gaiteiros e na geometria em movimento dos Abztraqt Sir Q. O futuro segue (?) dentro de momentos.
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07 July 2012
"No conservador universo do rock & roll só
existem duas medidas para aferição da verdade: ou se é 'autêntico' ou
'artificial'” (aqui)
NÃO, NÃO E NÃO: "Não são o artifício e a manipulação que incomodam (venham sempre mais e, de preferência, em overdose generosa) mas sim o facto de os cordelinhos se verem claramente na imagem e a pose de ninfa trágica enfastiada ter cerca de metade da espessura shakespeareana de uma personagem de telenovela"
NÃO, NÃO E NÃO: "Não são o artifício e a manipulação que incomodam (venham sempre mais e, de preferência, em overdose generosa) mas sim o facto de os cordelinhos se verem claramente na imagem e a pose de ninfa trágica enfastiada ter cerca de metade da espessura shakespeareana de uma personagem de telenovela"
06 March 2012
PROVETA COLORIDA

Goldfrapp - The Singles
(2012)
Goldfrapp - The Singles
Não é, de todo, que os treze anos da carreira dos Goldfrapp (aliás, Alison Goldfrapp e Will Gregory) se tenham traduzido apenas por um estatuto de culto confidencial, pouco frequentador de tabelas de vendas e distinções da indústria: possuem ouros, platinas, nomeações e prémios suficientes para tornar verde de inveja boa parte da concorrência. Mas, se tudo tivesse corrido verdadeiramente muito bem, por esta altura, deveriam já encontrar-se a caminho daquele Olimpo das divindades pop onde conviveriam diariamente com gente como os ABBA ou T. Rex e aí seriam acolhidos como pares de pleno direito. Não é ao calhas que se jogam para a conversa os nomes do quarteto de "Super Trouper" ou da banda de Marc Bolan: a discografia Goldfrapp é daquelas em torno das quais se estruturaria facilmente um "workshop" acerca da requintada arte pop de construir canções musicalmente complexas mas que, ao mesmo tempo, se barricam nos tímpanos, impedindo qualquer hipótese de despejo.
E, porque é disso que se trata, naturalmente, uma compilação de singles é uma das mais apropriadas formas de contribuir para a sua maior e merecidíssima glória. Aproveitando para reparar como nesta colorida proveta sonora borbulham e se combinam de modo mais que perfeito moléculas dos Blondie, dos Beatles, de Donna Summer, das bandas sonoras lustrosamente góticas que Morricone deveria ter escrito para David Lynch (Lana Del Rey, toma e embrulha!), do "disco"-versão-Moroder, de fluorescências "electro-glam", das cinzas do trip hop de que Alison e Will emergiram, tudo atapetando décors de banda desenhada S&M, festiva decadência (“don’t want it Baudelaire, just glitter lust”) e adorável luxúria pedrada (“Think I want you still but it may be pills at work”). Como sempre deveria ser.
(2012)
06 February 2012
AMERICAN IDOL
Lana Del Rey - Born To Die
A lista de compras: Pabst Blue Ribbon, Diet Mountain Dew, Baccardi, um Bugatti Veyron, cocaína, um Pontiac branco, champanhe Cristal, vestido vermelho, óculos de sol em forma de coração, alojamento no Chateau Marmont, baton vermelho, Schnapps de cereja, gasolina da Chevron, verniz de unhas vermelho. Momentos poéticos-chave: “sometimes love is not enough and the road gets tough”; “the way I roll like a rolling stone”, “you made my eyes burn, it was like James Dean”; “you were sorta punk rock, I grew up on hip-hop”; “love hurts”; “heaven is a place on earth”; “you’re no good for me but baby I want you”; “heaven’s in your eyes”; “your face is like a melody”; “no one compares to you”; “then I saw your face and you blew my mind”; “take a walk on the wild side”; “I was lost but now I am found, I can see but once I was blind”. Personagens centrais: a menina boa e o rapaz mau e/ou a menina má e o rapaz mau. Autora: Lana Del Rey, aliás, Lizzy Grant, aliás (atenção: redundância!), “the gangsta Nancy Sinatra”, aliás, "torch singer" de um sonho húmido de David Lynch (considerar, em alternativa, Walt Disney), Lolita de série B, Rita Hayworth da era-YouTube, Jessica Rabbitt 3D, Peggy Lee ressuscitada para consumo adolescente.
Por que motivo, então, a propósito de Lana Del Rey (putativa "next big thing" em suposto figurino "noir") e Born To Die se precipitam, a galope, todos os clichés? Talvez – conferir em “lista de compras” e “momentos poéticos-chave” –, justamente, porque uma e outro não sejam mais do que um densíssimo concentrado de, como dizer?... clichés a que ninguém se deu ao trabalho de aplicar sequer um "spin" warholiano. Explicando melhor: o cliché é matéria-prima pop esssencial mas, para ser eficazmente processado, exige que, ao olharmos, por exemplo, para a representação de uma lata de sopa Campbell’s, o cérebro, sorrindo, nos dispare imediatamente a mensagem “ceci n’est pas une Campbell’s soup can”. E é por aí mesmo que (muito mais do que a questão de saber se Lizzy/Lana é coisa “genuína” ou fabricação industrial – polémica "unpop" por definição –, se pagou o imposto da vida pela tabela-Winehouse ou é "a rich daddy’s little pet") a construção desaba: o Pontiac é apenas um Pontiac, o “walk on the wild side” é só copianço, o Dean e a Hayworth descobrem-se sequestrados no casting para um "teenage drama" pateta, e, azar supremo, é pelos pesadelos e não pelos sonhos de Lynch que mais o veneramos. Não esquecendo (pormenor nada desprezível) que "name dropping" e "product placement" como combustível estético (não risível) para canções é território privativo de Lloyd Cole e Vincent Delerm.
Resulta, pois, romantismo kitsch e melodrama de cartoon, mas daqueles kitsch e cartoon embaraçosamente rudimentares que, aspirando a uma impossível bissectriz "low budget" entre Kate Bush, Portishead e Goldfrapp com fermento orquestral "mock"-épico, não destoariam em eliminatórias de festival da Eurovisão ou batendo-se bravamente por um lugar no pódium do American Idol. Não são o artifício e a manipulação que incomodam (venham sempre mais e, de preferência, em overdose generosa) mas sim o facto de os cordelinhos se verem claramente na imagem e a pose de ninfa trágica enfastiada ter cerca de metade da espessura shakespeareana de uma personagem de telenovela. Nada de grave, no entanto: se uma concha de bivalve sem molusco lá dentro é capaz de, a partir de uma Germanotta comum, gerar uma Lady Gaga pronta a competir no mercado, porque não há-de uma Lizzy banal ser o casulo de outra rentável Lana?
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