SEM BANDA SONORA

Quando, há cerca de três semanas – a propósito de um
abaixo-assinado de estudantes universitários contra a elevação a catedrático de um ex-gestor da
Tecnoforma –, o douto Vital Moreira, acidamente, opinou
“Era o que faltava!... pelos vistos, há quem proponha o regresso à autogestão estudantil de Maio de 1968...” (
I), alguém deveria ter-lhe chamado a atenção de que, contra ventos e marés políticos, a reputação dos "soixante-huitards" não poderia estar, actualmente, melhor cotada. Pelo menos, no país de origem: segundo uma sondagem encomendada pelo “Nouveau Magazine Littéraire” à Harris Interactive, 79% dos inquiridos atribui à revolta de 68 consequências positivas para a sociedade francesa, incluindo-se nesses 87% dos eleitores de Macron e até 78% dos de Marine Le Pen. Meio século bastou, de facto, para que muitas das palavras de ordem e iconografia insurrectas tivessem sido recuperadas e domesticadas (ironicamente, segundo a técnica do "détournement" (
XVI) praticada pelos Situacionistas de Debord e Vaneigem, motor ideológico e criativo da sublevação):
“Sous les pavés, la plage” já foi comédia de boulevard e slogan da Orangina Schweppes; em 2005, os hipermercados E. Leclerc, na campanha
“E. Leclerc defend votre pouvoir d’achat”, recuperaram diversos cartazes de Maio (por sua vez, "détournés" por uma Brigade Anti-Pub sob o lema
“E. Leclerc vous prend vraiment pour des cons”); a Gucci, num video da campanha Outono 2018, recria o Maio de 68,
“inspirada por Truffaut e Godard”; e
“Não tenho nada para dizer mas apetece-me dizê-lo” converteu-se no
modus operandi corrente da tribo mundial de comentadores e tudólogos.
Mas, sobretudo, não esquecer o golpe de misericórdia final quando, em 2009, o governo de Sarkhozy impediu a aquisição pela universidade de Yale do arquivo de Guy Debord, considerando-o
“um dos últimos grandes intelectuais franceses”. Consideravelmente mais comedida que as investidas dos contemporâneos radicais norte-americanos –
Yippies,
Black Panthers,
Weathermen –, à revolta de 68, faltou, especialmente, uma componente essencial: a banda sonora. Da explosão do ano iniciado sob o signo de
"Déshabillez-moi", de Juliette Greco, à excepção de
"Les Anarchistes", de Leo Ferré (estreada na Mutualité, a
10 de Maio, primeira noite das barricadas no Quartier Latin), todo o cancioneiro que se lhe refere – Colette Magny, Claude Nougaro, Brassens, Moustaki – é desgraçadamente posterior. De uma outra revolução mais próxima e musicalmente riquíssima,
"Grândola", 40 anos depois, permanecia uma arma poderosa contra ex-gestores da Tecnoforma.