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16 December 2025

Que, no exterior de todos os comícios do neo-facho, um carro com potente megafone lhe ofereça uma riquíssima banda sonora (XII)

Ederlezi: Time of the Gypsies - Goran Bregović, Emir Kusturica

06 November 2025

Que, no exterior de todos os comícios do neo-facho, um carro com potente megafone lhe ofereça uma riquíssima banda sonora (V):
Emir Kusturica & the No-Smoking Orchestra - "Bubamara" (de Black Cat, White Cat, real. Emir Kusturica;, BSO; Goran Bregović)

22 November 2013

A STRAUSS ODYSSEY

2001: Odisseia no Espaço - real. Stanley Kubrick, 1968

Gato Preto, Gato Branco - real. Emir Kusturica, 1998 (o 1º minuto)

07 June 2009

BOUILLABAISSE



OqueStrada - Tasca Beat: O Sonho Português

Desfazendo, de imediato, hipotéticas confusões: se os Deolinda se diriam directamente extraídos de uma sequência de O Pátio das Cantigas, os OqueStrada apenas poderiam ser personagens e autores da banda sonora de um filme realizado pelo Kusturica da melhor época, rodado entre Paris, Lisboa, Nova Orleães, Buenos Aires e Cabo Verde, segundo argumento de Pedro Almodovar.



É importante a distinção porque, naquele tipo de escuta desatenta – embora, neste caso, tivesse de ser extraordinariamente desatenta – em que os "marketeers" gostam de confiar, não seria impossível chegar a imaginar que uns surgem à boleia do sucesso dos outros. Falso, falso, falso. Não só a história dos OqueStrada conta já uns respeitáveis sete anos de vida de saltimbancos mundo fora, como a sua surreal "bouillabaisse" sonora é algo de absolutamente singular:



levados pela mão e pela voz de Miranda – provável nome próprio, Carmen, admirável e camaleónica criatura capaz de interiorizar diversas personalidades simultaneamente e em sucessão –, inventam, desvairadamente, no espaço de uma só canção, tangos/musette, mornas/flamenco, fados balcânicos e bossas/ska, saltam, sem tropeçar, do português para o crioulo e deste para o castelhano, o inglês ou o francês (com regresso à casa de partida), trocam, num segundo, a máscara de Billy Idol pela de Roberta Flack e, qual filarmónica "on acid", Pablo, Lima, Zeto e Donatelo engendram, finalmente, aquilo em que, quem inventou o termo "world music", só podia mesmo estar a pensar.

(2009)

03 March 2008

NUM CERTO SENTIDO



Flat Earth Society - Isms

O mundo é um lugar pouco saudável. De onde, provavelmente, só se pode sair incólume praticando uma variedade de loucura mansa que consiste em conduzir o sentido de humor até ao extremo absoluto do "nonsense" radical sem nunca perder a compostura. Isto é, interiorizar a atitude-Monty Python não como género de comédia mas enquanto procedimento normal do dia-a-dia. Há quem o pratique de modo habitual e corrente. Por exemplo, os animadores das diversas "Flat Earth Societies" que pululam pela Net. Todas dedicadas, evidentemente, a demonstrar que a Terra não é esférica mas sim plana, se uma atribui a responsabilidade do "grande embuste" que, há séculos, nos "é impingido" a um tal de "Grigori Efimovich que o resto do mundo mais tarde viria a conhecer como Cristóvão Colombo" (Grigori Efimovich era o nome de Rasputine mas isso, claro, não interessa), outra, "através da investigação patafísica, da pesquisa empírica e da troca de ideias", defende que "a Terra é plana e tem cinco lados, todos os locais no universo chamados Springfield não passam de portais para uma dimensão superior e todas as afirmações são verdadeiras em determinado sentido, falsas em certo sentido, sem qualquer sentido num outro sentido, verdadeiras e falsas em ainda outro sentido, verdadeiras e sem sentido num certo sentido, falsas e sem sentido em algum sentido e verdadeiras, falsas e sem sentido noutro sentido".


(aerial dancing no festival de jazz de Vancouver de 2006;
em fundo, a Flat Earth Society)


Ainda que isto (em certo sentido) possa evocar o espírito e a letra de algumas campanhas eleitorais, imagino que não fosse exactamente nisso que os militantes da "Flat Earth" estivessem a pensar. Mas só pode ter sido numa idêntica lógica Lewis Carroll-com-anfetaminas que Peter Vermeersh estava a pensar quando baptizou como Flat Eart Society a sua big-band de dementes furiosos e iconoclastas belgas. Tentem visualizar uma violenta batalha campal entre, de um lado, Morricone, Sun Ra, Captain Beefheart e Stravinsky, comandados por John Zorn, e, do outro, a No Smoking Band de Kusturica, Frank Zappa, Bela Bartok e John Barry, sob as ordens de Carl Stalling. A estética geral será a da colisão frontal de dois TGV em velocidade máxima, o cenário é o do "Apocalypse Now Casino" a inaugurar em breve numa galáxia perto de si e acredite que está tudo bem (não, não está sofrer de alucinações visuais/auditivas) se vir as silhuetas de Nick Cave, Louis Armstrong ou Charles Bronson com a sua harmónica, numa conga-line, à frente de um desfile do dragão chinês, embalado pelo Bolero de Ravel. Mike Patton compilou e publicou. Estou francamente convencido que, num certo sentido, o mínimo que se pode chamar a isto é genial. (2005)

20 January 2008

GO EAST/GO WEST



Beirut - The Flying Club Cup

No primeiro álbum, Gulag Orkestar (2006), Zach Condon, americano de Santa Fe, criou a sua ficção privada do que seria a música cigana dos Balcãs – já a Black Ox Orkestar, os Gogol Bordello, The One Ensemble ou A Hawk and a Hacksaw haviam bebido desse cálice –, tal como a escutou nos filmes de Kusturica e nos discos do Taraf de Haidouks. A relação não seria etnomusicologicamente exacta (tal como Beirut – a cidade – se situa um nadinha mais a Leste) mas o álbum era muito bom. Em The Flying Club Cup, aparentemente, o eixo de referências ter-se-à deslocado para Paris (acerca da qual, Condon cita recorrentemente Jacques Brel – alguém que o esclareça sobre a sua nacionalidade belga), “chanson & musette” incluídas. Detecta-se, de facto, um ou outro aroma de Beaujolais e Veuve Cliquot sem que isso, no entanto, tenha anulado os intensos odores “balcânicos” anteriores. Esses e os também muito presentes de Stephin Merritt, Divine Comedy, Rufus Wainwright (felizmente q.b. e só q.b.) e mesmo Sufjan Stevens. O “bouquet” ficou consideravelmente enriquecido e há que dizer que o potencial desta estética-InterRail ainda mal começou a ser explorado.

(Vive La Blogothèque!)


















(2007)

28 July 2007

O BORDEL CIGANO



Quando esta entrevista teve lugar, os Gogol Bordello eram ainda só uma banda de culto responsável pela invenção de um género – o gypsy-punk, algo como um filho bastardo alucinadamente delirante dos Pogues com Kusturica – que, desde há vários anos, ateava meia dúzia de incêndios no Lower East Side de Nova Iorque. Acontece que, cerca de quinze dias depois, a 7 de Julho, no palco londrino do Live Earth, Madonna faria questão de apresentar como seus convidados especiais – numa versão dificilmente descritível de “La Isla Bonita” – “my Romani gipsy friends from Gogol Bordello, Eugene and Serge”. É bem provável que, a partir daí, a cotação da banda composta, entre vários outros, por um ucraniano, dois russos, um israelita e um californiano tenha subitamente disparado e que, no festival de Sines, possamos ser testemunhas de um dos seus primeiros passos na qualidade de estrelas planetárias. Mas Eugene Hütz – o porta-voz e vocalista ucraniano – prefere falar de política pura e dura.



Quando partiu de Kiev para Nova Iorque, já tinha experiência de tocar em bandas locais?
Na verdade, quando, em 1989, saí da Ucrânia, a banda de que fazia parte estava nas tabelas de vendas locais. Nem sei muito bem como fomos lá parar. Tocávamos uma música tipo “no-wave”, uma mistura de Brian Eno com Teenage Jesus & The Jerks.



Mas esse género de música era facilmente acessível na Ucrânia?
Claro que sim. No mercado negro, conseguia ter-se acesso a tudo. Nunca passava na rádio ou na televisão mas nós tínhamos os nossos contactos... (risos) Uma outra enorme influência foi um concerto que os Sonic Youth deram, em Kiev, em 1989. Foram eles que realmente me inspiraram a mudar-me para Nova Iorque. Depois do concerto, conversei durante uns minutos com eles nos bastidores, contaram-me que eram de Nova Iorque e eu percebi imediatamente que era para lá que tinha de ir. Os responsáveis por isso foram eles.

O chamado gypsy-punk em que se incluem decorre essencialmente de uma consciência muito séria da sua ascendência cigana ou foi também determinado por outros factores?
De ambas as coisas. É um híbrido que surgiu em consequência da minha própria experiência e de coisas que fui lendo e conhecendo. As três componentes essenciais – música cigana, punk e reggae – são bastante óbvias e são aquilo que, na verdade, partilhamos. Mas, para além dessas, há elementos da banda que têm outros interesses como a música sinfónica ou a do Astor Piazzola (é o caso do Yuri, o acordeonista), eu gosto de música electrónica... Por outro lado, o facto de uma parte da minha família ser de origem cigana tornou-se uma fonte de inspiração e conduziu-me a um certo ponto de vista filosófico acerca das coisas: que interessa ter nascido e sido criado na Ucrânia? Os Romani são uma cultura tão eternamente marginal que isso nos obriga a reflectir bastante sobre um grande conjunto de questões.



Mas esse ponto de vista filosófico diferente incidiu sobretudo em quê?
Especificamente – ainda que não faça ideia de como essa ideia surgiu –, sempre senti que, embora tivesse nascido na Ucrânia, na verdade, eu não pertencia aquele país. Quando atingi a maioridade (aquele momento em que, supostamente, nos tornamos cidadãos portadores de documentos de identificação civis e militares que nos atribuem uma responsabilidade), fiz a experiência do que era ser ucraniano. Quando vim para os EUA, essa experiência repetiu-se, agora com toda a papelada e burocracia estatal norte-americanas. Mas de uma coisa adquiri a certeza: no caso de uma qualquer guerra, nunca me irão encontrar de nenhum dos lados, nunca combaterei por país nenhum. Nunca irei disparar contra alguém que vista uma farda diferente.



Existe realmente uma comunidade cigana importante na Ucrânia? A verdade é que quando lá estive, no ano passado – claro que posso não ter prestado atenção –, pareceu-me haver muito mais em Portugal do que lá...
Sim, sempre existiu. Mas a maioria vive nos Cárpatos embora também existam muitos à volta do Mar Negro. Continuam a viver em comunidades, em pequenas aldeias, e é preciso dizer-se que são objecto de uma segregação que é bastante imposta. Aqueles que conseguem atingir um nível de vida mais desafogado tendem a deixar-se assimilar, a dissimular a sua origem e a não se fazer muito notados. Há, pelo menos, meio milhão de ciganos na Ucrânia. No final dos anos 90, diversas organizações animaram um movimento bastante vigoroso de defesa dos direitos cívicos da comunidade cigana, contra a brutalidade policial e em diversos outros campos. Neste aspecto, a Ucrânia está à frente da maioria dos outros países europeus de Leste.

Em Nova Iorque, relaciona-se também com outros músicos e bandas, fora do circuito gypsy-punk?
Antes de mais, criámos a nossa própria cena. Quando chegámos, as primeiras pessoas com que nos relacionámos eram gente do “underground” – como o Kid Congo Powers – ou que tinha tocado com os Cramps, os Bad Seeds, essa escola de bandas. Foi espantoso ter-me dado conta de como, no fundo, eu era um fruto daquela árvore. Embora tivesse crescido a uma enorme distância geográfica, mal começámos a tocar, todos eles foram aparecendo nos nossos concertos e o Jim Sclavunos (dos Bad Seeds) produziu mesmo o nosso primeiro disco. No espaço de um ano, estávamos já a tocar para salas de mil pessoas. Gradualmente, fomos atraíndo bastante gente que (também através das minhas sessões de DJing) ia descobrindo a música cigana e da Europa de Leste e, como todas as cenas precisam do seu CBGB’s, passámos a reunir-nos no “Bulgarian Bar”. Sempre que a Fanfare Ciocarlia ou o Taraf de Haïdouks vinham a Nova Iorque, era ali que, de um modo mais ou menos espontâneo, acabavam por ir parar e tocar. Depois disso, como todos os espectáculos no “Bulgarian Bar” davam sempre origem a festas explosivas, até outras bandas que não têm nada a ver com a nossa estética ou com a nossa cena – como os Interpol ou os Yeah Yeah Yeahs – começaram a aparecer por lá.



Depois disso, já voltou a tocar na Ucrânia ou noutros países de Leste?
Demos o nosso primeiro concerto, em Moscovo, há três meses. A reacção reflectiu um bocado a insegurança que ali se sente em relação aos próprios gostos: estão à espera que sejamos levados em ombros no Ocidente para, só então, nos aceitarem. Vivem paralisados por uma atitude seguidista em relação ao Ocidente. Do que realmente gostam é de dançar de calções à volta da piscina, como viram nos videoclips imbecis do Snoop Doggy Dog, é a ideia que agora fazem do que é ser feliz e “ter classe”. De um modo geral, até correu bem mas foi evidente que os russos irão ser sempre os últimos a reconhecer aquilo que é, basicamente, russo. (2007)

06 July 2007

TRANSCULTURAIS



Tinariwen - Amassakoul




Erik Marchand et Les Balkaniks - Pruna

Naqueles raros momentos em que "world music" significa algo mais do que apenas uma designação de "marketing" para impingir ao Ocidente a música do resto do mundo (ou aquela da antiga tradição do seu mundo) que ele imperialmente ignora, podem surgir álbuns como estes dois. Espontaneamente transculturais ou deliberadamente miscigenados. Amassakoul ("viajante") é a consequência musical inteiramente orgânica de um colectivo de combatentes armados tuaregues originários do Mali que — com passagem pelos campos de treino da Líbia de Kadhafi —, desde o final dos anos 70, não perderam tempo a distinguir o que era cantiga e o que era arma. Usaram ambas.



Aparentemente apaziguadas, desde 1996, as tensões políticas e sociais que estiveram na raiz da guerra civil no seu país, os Tinariwen prosseguiram a actividade como músicos de que Amassakoul é o mais recente testemunho: blues do deserto hipnóticos e circulares, recitações de quase-rap, estridentes vozes femininas guturais, guitarras entre John Lee Hooker, Ali Farka Touré e Hendrix, percussões ocultas de cabaças e darbukas, flautas, coros encantatórios. Literalmente, uma "trip" militante e alucinada pelo excesso de luz do Sahara.



Pruna, por outro lado, procura voluntariamente o contacto de idiomas musicais geográfica e culturalmente longínquos: o "gwerz" bretão e o mosaico de géneros romeno/balcânico/turcos da zona de Banat, na Roménia (a região europeia que conta o mais elevado número de minorias étnicas). Erik Marchand — veterano do canto tradicional bretão cuja discografia já inclui experiências idênticas com o Taraf de Caransèbes —, acompanhado por dezena e meia de músicos romenos, moldavos, sérvios, trácios e franceses, descobre o sentido último da configuração do puzzle (lançando até, às tantas, sobre a mesa, dois temas de... Carlos Paredes) e, por entre coreografias de puro virtuosismo, invocações poéticas e estonteantes nós-cegos de melodia, harmonia e ritmo, avista um outro ângulo daquela paisagem que é habitualmente cenário vivo dos delírios de Kusturica. (2004)