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29 October 2025

 
 
(sequência daqui) E propunham uma - chamemos-lhe assim - visão do mundo que poderia resumir-se a "Os seres humanos estão a involuir". Inspirados por teóricos lamarckianos do século XIX e sua errática descendência tardia - H.G.Wells, personagens dos DC comics, Kurt Vonnegut ou H. P. Lovecraft -, o quinteto de Akron, Ohio, composto por por dois pares de irmãos, (Mark e Bob Mothersbaugh, Gerald e Bob Casale) e Alan Myers, retirariam o seu nome e a sua filosofia global desse conceito de "de-evolução/involução. Segundo o crítico de música Steve Huey, a banda "adaptou a teoria à sua visão da sociedade americana como um instrumento de repressão rígido e dicotómico que assegura que os seus membros se comportam como clones, marchando vida fora com a precisão mecânica de uma linha de montagem, sem tolerância para a ambiguidade" O documentário acompanha a ascensão da banda do estatuto de putos excêntricos de Akron a heróis de culto da cena punk dos anos 70 e, posteriormente, a estrelas da MTV. Ao longo do filme, recordamo-nos como o seu repertório não se resume a "Whip It" que, em 1980, se instituiria como o único verdeiro sucesso de vendas dos Devo (14º no Hot 100 da "Billboard"). Canções como "Jocko Homo" e "Beautiful World" surgem não como curiosidades bizarras, mas como críticas mordazes disfarçadas de música pop. Ao vermos hoje os vídeos da banda, com os seus desastrados cenários de cartão e coreografias espasmódicas, parece-nos menos um exercício de nostalgia e mais um momento de arte profética — como se, décadas antes, tivessem antecipado a cultura do TikTok. A teoria social da "de-evolução", seria uma ideia central no trabalho inicial da banda, que se caracterizava por um estilo agrestemente dissonante de art-punk que combinava rock com música eletrónica. (segue para aqui)

01 September 2022

OS DETALHES DO MUNDO 

Regina Spektor conhece bem aquilo de que fala: Home, Before and After. Nascida na Moscovo ainda soviética de 1980 com avós originários da Ucrânia, mal as primeiras frestas da “perestroika” se abriram autorizando a emigração de cidadãos judeus, a família Spektor – Ilya, o pai fotógrafo e violinista, Bella, a mãe professora de piano, Boruch, o irmão, e ela –, em 1989, voou para os EUA. Todas essas memórias deverão ter-lhe regressado a galope quando, no passado dia 24 de Fevereiro, em pleno início da invasão russa da Ucrânia, escreveu no Instagram: “Hoje dói-me o coração porque, por mais enormes obras de arte e de música que existam a denunciar os horrores da guerra (Guernica.... 'Masters Of War'... Vonnegut... Remarque... tantos filmes em tantas línguas...), novos senhores da guerra se vão erguendo em todas as nações, enviando novos jovens para se massacrarem mutuamente”. Mais recentemente, à “NPR”, confessaria: “É verdade, estou devastada. Não acredito que isto possa estar a acontecer. Os meus avós são da Ucrânia e combatemos todos juntos na Segunda Guerra Mundial. Cresci na Rússia soviética e não existia qualquer diferença entre os nossos familiares de Moscovo e os de Odessa. Era um lugar colectivo onde todos tínham sofrido horrores, todos tínham combatido os nazis e vivido o pesadelo de ver o nosso território invadido. Mas, agora, na Ucrânia, o que vemos são milhões de civis arrastados para uma guerra, cidades vibrantes cheias de famílias. Não consigo ver mais reportagens. Já chorei demais, já me enfureci demais. É aterrador”. (daqui segue para aqui)

"Up the Mountain"

07 February 2017

ANACRONISMOS 

Siouxsie & The Banshees - "Hong Kong Garden" (Marie Antoinette, real. Sofia Coppola, 2006)

Na segunda sequência de Once Upon a Time In The West, pretendendo que não restem dúvidas sobre a origem irlandesa da família McBain – que, pouco depois, será implacavelmente chacinada –, Sergio Leone faz questão que uma das personagens trauteie meia dúzia de compassos de "Danny Boy", um quase hino da comunidade irlandesa emigrada. Detalhe relevante: a acção do filme decorre na segunda metade do século XIX mas "Danny Boy" apenas foi escrita em 1910, por Frederic Weatherly. Na verdade, nada de muito grave: deliberados ou involuntários, anacronismos desse género integram a própria natureza do cinema – sempre que nos dispomos a ver um filme, não assinamos necessariamente um pacto de "suspension of disbelief"? Sem recuar demasiado, escutar Siouxsie & The Banshees, New Order, Cure, Bow Wow Wow ou os Gang Of Four lado a lado com Vivaldi, Rameau ou Scarlatti, na banda sonora de Marie Antoinette, de Sofia Coppola (2006), terá sido sequer vagamente escandaloso? Descobrir Madonna, T. Rex, Police, Nirvana ou Elton John na Montmartre "fin de siècle" (onde “eclodirá” também "The Sound Of Music”), em Moulin Rouge, de Baz Luhrmann (2001), despenteou irremediavelmente alguma regra de ouro? 

"Smells Like Teen Spirit" (Nirvana - em Moulin Rouge, Baz Luhrmann, 2001)

No território das séries de televisão, no qual boa parte da narrativa audio-visual contemporânea mais interessante ocorre, os exemplos não faltam. Em The Borgias (2011), ilustrar a coroação do papa Alexandre VI com Zadok The Priest, de Haendel, composta só três séculos mais tarde, poderá ter esticado demais a corda. Mas é impossível não falar da recente Westworld. Num universo paralelo – um parque temático "western" virtual habitado por andróides que, à medida que o argumento progride, obrigam a reformular tudo o que supomos saber acerca das fronteiras do humano e da relação com a inteligência artificial –, uma pianola mecânica (sugerida pelo Player Piano, de Kurt Vonnegut) instalada no bordel de Sweetwater (vénia subliminar ao nome do terreno dos McBain, de Leone), de acordo com as exigências do guião, vai extraindo dos rolos de papel perfurado versões instrumentais de "Paint It Black", dos Rolling Stones, "House Of The Rising Sun", dos Animals, "A Forest", de The Cure, "Black Hole Sun", dos Soundgarden, ou "Exit Music (For A Film)", dos Radiohead. Afinal, como justifica Ramin Djawadi, responsável pela música da série, “num 'western' com robots, por que motivo não poderia haver canções modernas tocadas por um robot primitivo (a pianola)?”

16 December 2010

"FUCK ME, RAY BRADBURY": THE MAKING OF
(sequência daqui)


When a woman in her early twenties asks a ninety-year-old man to fuck her, there's usually an oil fortune involved - unless, of course, the ninety-year-old man is author Ray Bradbury. Rachel Bloom's poppy ode to the sci-fi master, "Fuck Me, Ray Bradbury," has garnered a million hits on the Internet in less than a week.

UCB Comedy Blog: Tell us a little bit about the process of making "Fuck Me, Ray Bradbury."

Rachel Bloom: I was sitting at home about two years ago during the summer between my junior and senior years of college, and I was re-reading The Martian Chronicles by Ray Bradbury. I was going through a weird sadness/lull on the boy front, and I kept thinking, "Man, Ray Bradbury is so smart...he'd be the ideal boyfriend." I thought it would be funny to do a passionate love song about Ray Bradbury. Then, I thought it would be even funnier to do like, a sexy pop song about Ray Bradbury. So, I sat down at my parents' piano and came up with the essential structure in about an hour. 2 years later, I revisited the song and refined it.

We shot the video at St. Cecilia's, an old Catholic school in Brooklyn. (...) I produced the video myself - I did all the casting, found the crew, and asked my friends to direct/DP. It was a lot of work, a lot of e-mails going back and forth for a few weeks. I will say that you don't have to be a genius to put together a good film shoot - it's just a lot of work.



UCBCB: The video was obviously influenced by one of the greatest TRL videos ever - "Hit Me Baby, One More Time." When you were a kid, did you ever dream about being in one of those '90s pop videos?

RB: The weird thing about me as a kid is that I outwardly wanted to be against the establishment, but secretly wanted to be a part of it. I was made fun of a lot right around the time "Baby One More Time" came out, so although I publicly railed against these pretty popular people and their awesome clothes, I privately danced to the song like a fiend alone in my room. I resented the fact I wasn't cool or pretty enough to be a Britney Spears fan, but couldn't deny that I was a Britney Spears fan. I always openly loved 'N Sync, though. Ah, to be 12 and full of contradictions.

UCBCB: If you were doing a whole literary fuckfest, what other authors would be on your list?

RB: I would fuck Kurt Vonnegut, Philip Roth and J.K. Rowling. Those are the top of my orgy list. (daqui)

(2010)