Showing posts with label Kurt Weill. Show all posts
Showing posts with label Kurt Weill. Show all posts

10 October 2024

(sequência daqui) Laurie Anderson - É curioso porque, durante todo o processo de composição, nunca tive consciência dessa relação. E, de facto, ambas têm como desfecho um desastre. Não faço a menor ideia de por que motivo isso aconteceu. 

    João Lisboa - Amelia teve um longo percurso até atingir esta forma final... 

    LA - Amelia deu os primeiros passos em 2000. Foi uma encomenda. O Dennis Russel Davies - actual maestro da Filarmónica de Brno, na República Checa - veio ter comigo, disse-me que iria apresentar no Carnegie Hall um espectáculo cujo tema era o voo e no qual seriam apresentadas peças de Philip Glass, Kurt Weill, e Samuel Barber. E perguntou-me se não me apeteceria escrever também alguma coisa, se me sentia capaz de escrever uma obra orquestral. Não fazia a menor ideia de como o fazer. Não me pergunte porquê mas prefiro sempre sentir-me no lugar do principiante. Gosto de fazer coisas que não sei como fazer, se já sei fazê-las não me interessam tanto. Por isso, não me acobardei. E o resultado foi muito mau. Mesmo. No entanto, alguns anos depois, o Dennis veio ter outra vez comigo e disse-me que gostava muito das partes de cordas dessa primeira tentativa. Fomos, então, por aí e a recuperação nem resultou mal. O passo seguinte seria deixar de lado todo o resto. Por mim, o processo estava concluído. Mas, durante a pandemia, ele veio-me com a ideia de aproveitarmos esse tempo e gravarmos tudo. Na verdade, as três versões que foram sendo concretizadas têm entre si apenas uma relação familiar muito longínqua. E, uma vez que tenho em curso um outro projecto, Ark, precisava de concluir este com alguma rapidez. (segue para aqui)

23 October 2023

(Franks Wild Years, na íntegra aqui)

(sequência daqui) Ao longo de Rain Dogs (1985), Franks Wild Years (1987) Bone Machine (1992) e The Black Rider (1993), Waits montaria, peça a peça, uma improvável escultura sonora feita dos escombros de Kurt Weill, Harry Partch, Captain Beefheart, aromas de New Orleans, folk irlandesa, blues, tango e rascunhos de Tin Pan Alley, em busca do essencial: "É verdade que a minha música se tem tornado cada vez mais despojada. Até se reduzir quase só a uma frase. Sinto necessidade de qualquer coisa rudimentar, fundamental. Actualmente, prefiro escrever sem nenhum instrumento, só com a minha voz. E estalando os dedos. Isso liberta-me da tirania do teclado ou da escala da guitarra. Repare na pop: actualmente, parece o Exército de Salvação, uma troca de trapos velhos. O que faz falta são canções. O que é superficial desaparecerá. No hip-hop, uma bateria e um órgão podem chegar. São simétricos, satisfatórios. E quais são as raízes do hip-hop? Os blues". (segue para aqui)


08 June 2023

 
Bob Dylan c/ Suze Rotolo
 
(sequência daqui) 3) No documentário da BBC Dylan’s Women (2011), não espiolhando em modo "paparazzo" a vida privada de Bob Dylan, registam-se, porém, aquelas mulheres que, de um modo ou de outro, foram determinantes na sua vida. A saber: Terri Thal, primeira "manager" cuja residência em Greenwich Village funcionava como santuário para os músicos folk do início dos anos 60 e ponto de encontro para discussões sobre música, política e teatro. Foi ela quem lhe conseguiu o primeiro concerto no Gerde’s Folk City, lendário clube da época em Nova Iorque; Carolyn Hester, figura importante do "folk revival" da qual Dylan encontrou forma de se aproximar, praticamente suplicando que o autorizasse a fazer a primeira parte de um concerto em Boston e logrando um convite para tocar harmónica no álbum que ela se preparava para publicar pela Columbia. John Hammond não estava desatento e, pouco depois, contratá-lo-ia; Suze Rotolo, a companheira na capa de The Freewheelin' Bob Dylan (1963) que lhe daria a conhecer Bertolt Brecht, Kurt Weill, e sobretudo, Rimbaud cujo “Je est un autre” lhe viraria o mundo às avessas (“Todas as campaínhas começaram a tocar. Aquelas palavras faziam perfeito sentido”); Joan Baez, que, com ele, durante um breve espaço de tempo (iniciado no Newport Folk Festival de 1961), constituiu a suprema sizígia folk; Sara Lownds, a “Sad Eyed Lady Of The Lowlands”, actriz, modelo e força benigna apaziguadora com quem foi casado de 1965 a 1977. (segue para aqui)

06 April 2021

TOM DE SÉPIA

Em 2015, Lael Neale tinha publicado I’ll Be Your Man (“O título era como se estivesse atrás do Leonard Cohen mas sem nunca poder tocar-lhe”), um álbum de estreia que ficou bastante longe de a satisfazer: “A prática habitual de montar diversas takes de uma canção e criar uma espécie de versão-Frankenstein dela deixou-me sempre com a sensação de que, tal como ao monstro, a vida tinha-lhe sido subtraída. Depois disso, passei anos em diversos estúdios, com diferentes músicos, gravei álbuns inteiros apenas para os atirar para o lixo logo a seguir. As canções ficavam sobrecarregadas de arranjos estéreis e instrumentações supérfluas. Precisava de me despojar de tudo o que era desnecessário ao processo de escrita. A ideia de começar pelo esqueleto era emocionante”. A primeira ferramenta que lhe ocorreu para esse processo de depuração foi o Novachord, um vetusto sintetizador polifónico produzido pela Hammond entre 1939 e 1942, o qual, apesar de ter sido usado em diversas bandas sonoras de filmes de terror e "sci-fi", e também por Kurt Weill, Villa-Lobos e Hans Eisler, não teve vida útil muito longa. Seria, afinal, o produtor Guy Blakeslee a oferecer-lhe a solução: um Omnichord – espécie de "keytar" infantil fabricado pela Suzuki nos anos 80 e abençoado por Brian Eno, Daniel Lanois, David Bowie e Magnetic Fields – e um rudimentar gravador de 4 pistas que instalou no canto de um bungalow nas colinas de Echo Park, em Los Angeles, cenário ideal para a criação de Acquainted With Night. (daqui; segue para aqui)

21 January 2020

DILETANTES GENIAIS

  
Faltava ainda quase uma década para que a Alemanha deixasse de estar dividida em Leste e Oeste mas, no início dos anos 80, com polos em Dusseldorf, Hamburgo, Colónia, Hagen e, naturalmente, Berlim, um desassossego subcultural agitava músicos, artistas, gente do cinema, da fotografia, da moda e do design, oxigenada pelas correntes de ar fresco que sopravam do pós-punk novaiorquino e britânico. Foi por essa altura – pouco depois de David Bowie ter gravado a “trilogia de Berlim” e em simultâneo com a chegada à cidade do Spree de Nick Cave e dos Birthday Party – que travámos conhecimento com Einstürzende Neubauten, Die Tödliche Doris, Sprung Aus Den Wolken, Der Plan, Freiwillige Selbstkontrolle (F.S.K.), Palais Schaumburg, Ornament & Verbrechen, e Deutsch Amerikanische Freundschaft (D.A.F.), praticantes de abalos sonoros que tanto se alimentavam do futurismo, dadaismo e situacionismo como dos Cabaret Voltaire, Throbbing Gristle, Glenn Branca e William Burroughs. 



O seu momento histórico ocorreria a 4 de Setembro de 1981, quando, no Tempodrom de Berlim Ocidental, teve lugar o festival “Geniale Dilletanten” (Diletantes Geniais), ponto de encontro de radicais livres, agitadores e provocadores vários e futura designação geracional do informal movimento. No interior dele, Gudrun Gut, Bettina Koster, Beate Bartel, Christine Hahn, Manon P. Duursma e Susanne Kuhnke, aliás, Malaria!, oriundas de incubadoras artísticas diversas mas absolutamente enxutas de qualquer sarro académico, foram um colectivo feminino de relativamente curta duração em cujo acelerador de partículas colidiam desgovernadamente o punk, techno, jazz, Kurt Weill, batida motorik, Bowie, disco e Nico. Compiled 2.0/Full Emotion – reeditado em vinil duplo – é uma preciosidade a (re)descobrir.

17 September 2019

O RÁDIO INTERIOR


Young Man's Fancy é um "bootleg" gravado no Dorothy Chandler Pavilion, de Los Angeles, na última noite da digressão a solo de Neil Young, em 1971. After the Gold Rush tinha explodido 5 meses antes mas mais de metade das canções interpretadas apenas seriam publicadas posteriormente em Harvest (1972), Time Fades Away (1973) e On The Beach (1974). Só vem a propósito falar dele porque Rickie Lee Jones – no confessionário de “My Life In Music”, da “Uncut” – o identifica como o disco que maior influência teve sobre ela: “Ouvi-o vezes sem conta. Durante anos, na escola, cheguei até a imitar a voz do Neil Young. Tinha canções que retratavam perfeitamente a solidão e a angústia adolescentes”. Praticamente no mesmo plano de afinidades está a banda sonora de West Side Story, de Leonard Bernstein: “Este foi o disco que, desde a terceira classe, escutei continuamente, memorizei todas as nuances. Sou ainda capaz de cantá-lo de fio a pavio!” 


E só interessa conhecer tudo isto porque Rickie Lee acaba de publicar Kicks, o seu quinto álbum de versões – após Girl At Her Volcano (EP de 10”, de 1983), Pop Pop (1991), It’s Like This (2000) e The Devil You Know (2012) – o que, segundo ela, não é substancialmente diferente de criar e interpretar canções originais suas: “A sensação é a mesma. Quando canto, é sempre a ressonância da voz contra o meu esqueleto e os meus músculos. Tanto faz que seja uma canção minha ou escrita por outros. Fazem tão parte do meu vocabulário emocional como aquelas que eu escrevo”. Terá sido uma questão de veneração pelas mais preciosas memórias mas, de Young e Bernstein, apenas ousou aproximar-se de "Only Love Can Break Your Heart" (em The Devil You Know) e "One Hand, One Heart" (em It’s Like This). Kicks, elaborado na companhia de uma brigada de músicos de New Orleans (para onde Rickie se mudou em 2013) comandada pelo percussionista Mike Dillon, viaja entre 1952 ("Cry", de Johnnie Ray) e 1974 ("Lonely People", dos America), numa sequência de prodigiosas reinvenções e transfigurações: "Bad Company", da banda homónima, é "bayou noir" ameaçador e profundo, "Mack The Knife" (Kurt Weil) e ‘Quicksilver Girl’ (Steve Miller Band) dissolvem-se em transparências de vibrafone, "Cry" abre as veias de um country-jazz lancinante. Na verdade, apenas a decantação de tudo aquilo que “quando era miúda, ouvi: R&B, country, rock, os mais sofisticados 'singer-songwriters' da altura. Todas estas canções estão sempre a tocar no meu rádio interior. E eu adoro cantá-las”.

26 June 2018

BOAS ÁGUAS

  
Robin Hood’s Bay é uma pequena vila piscatória na costa Norte do Yorkshire. É pouco provável que Robin Hood alguma vez tenha andado por lá – tão pouco provável quanto a própria existência histórica da personagem – mas uma velha balada conta que, após um saque das embarcações de pescadores locais por piratas franceses, o lendário herói terá vencido os corsários e distribuído o produto da pilhagem pelos pobres da terra. O lugar situa-se a pouco mais de hora e meia, a pé, do porto de Whitby, cenário inspirador para o Dracula, de Bram Stoker, povoação natal de Cædmon, o mais antigo (sec. VII) poeta inglês de que há registo, e não demasiado longe de Scarborough, cuja feira foi usada como intrigante metáfora para "Scarborough Fair", balada possivelmente anterior ao sec XVII e que, depois de diversas versões – Ewan Mac Coll, A.L. Lloyd, Martin Carthy, Shirley Collins, Bob Dylan (sob o título "Girl From The North Cuntry") – se tornaria um êxito para Simon & Garfunkel, em 1966. Foi com Martin Carthy que Paul Simon a aprendeu, numa das suas, então habituais, deslocações a Inglaterra. 



Feche-se, agora o círculo: gravado na Fisherhead Congregational Church de Robin Hood’s Bay (onde reside o casal Martin Carthy/Norma Waterson), Anchor assinala o momento em que Carthy, que jurara não voltar a cantá-la (memórias amargas de direitos de autor sonegados na banda sonora de The Graduate...), regressa a "Scarborough Fair". É uma interpretação óptima e consideravelmente diferente mas a importância do álbum está muito longe de se ficar por aí: verdadeira reunião de duas gerações da realeza folk britânica, Norma Waterson & Eliza Carthy With the Gift Band – tal como já acontecera antes sob a designação Waterson:Carthy – junta Eliza com os pais, Marty e Norma (ambos a chegarem aos 80 anos), e, em geografia historicamente adequada, não apenas convoca toda a memória dos Watersons, Steeleye Span, Fairport Convention, Albion Band e Brass Monkey, mas, sem reflexos nostálgicos, abre-a também a saborosas contiguidades ("Lost In The Stars", de Kurt Weill, a desaguar em "The Galaxy Song", dos Monty Python), belíssimas transfigurações ("Strange Weather", de Tom Waits, "The Beast", de Michael Marra, a assombrada "Shanty Of The Whale", de KT Tunstall), ou à redescoberta da empolgante "The Elfin Knight", prima afastada de... "Scarborough Fair". Depois do óptimo Lodestar (2016), gravado por Shirley Collins aos 81 anos, Anchor confirma: a folk britânica só pode ser, sem dúvida, território de boas águas.

21 June 2018

O BAÚ BRANCO


Olha-se, de relance, a capa do duplo CD e a primeira sensação é que José Mário decidiu tirar partido do nome de família e, evocando uma outra distinta genealogia, publicar o seu “álbum branco”. Observando com um pouco mais de atenção, descobre-se, porém, que não, não se trata, de todo, de uma réplica da capa de Richard Hamilton para os Beatles: sob o nome do autor, em cinzento pálido, pode ler-se Inéditos 1967 – 1999. Se, por algum acaso, no entanto, se começasse a escuta do disco pela segunda metade do CD2, não seria impossível que a dúvida regressasse: "Fim de Verão (à maneira dos Conchas)" é uma cançoneta pop estival exumada por José Mário Branco da memória dos anos 60 – com todos os rigores de reconstituição histórica ao cuidado dos Ena Pá 2000 – para Agosto, filme de 1988, de Jorge Silva Melo. Não é o único exemplo de peça “de época” com essa origem: "Le Cafard" é “à maneira de Eddy Mitchell” (o cantor dos lendários Chaussettes Noires), e "Sotto Il Sole, Sulla Spiaggia", "Trompete Slow" e "Dô-Yô" são, respectivamente, "pastiches" de Adriano Celentano, Helmut Zacharias e The Shadows. 



Talvez não se tivesse noção disso mas JMB escreveu consideravelmente para o cinema: estão aqui também as belíssimas "Cantar da Viúva de Emigrante" (de Gente do Norte, Leonel Brito, 1975) e "Fuga do Mar" (de O Ladrão do Pão, Noémia Delgado, 1979), mas também "Alma Herida", outra composição “à maneira de”, no caso, o bolerista cubano, Antonio Machin (A Raiz do Coração, Paulo Rocha, 1999), de entre as quase duas dezenas de filmes – de Luís Galvão Teles, César Monteiro, João Canijo, António-Pedro Vasconcelos, Solveig Nordlund... – para que compôs. Não se resume, naturalmente, a isto a abertura (nao exaustiva) do riquíssimo baú: ordenadas cronologicamente, de entre maquetes restauradas a partir das bobines originais, singles e temas que, há muito tempo, exigiam ser recuperados, há que ouvir (ou reouvir), obrigatoriamente, as fundadoras "Cantigas de Amigo" (incluindo "Mar de Vigo", de Martim Codax, excluída do EP original... por falta de espaço), as militantes "Mãos Ao Ar!", "Le Proscrit de 1871" (sobre texto do "communard" Eugène Châtelain) e a versão kurtweilliana de "Remendos e Côdeas", as duas exuberantes marchas populares, "Fim de Festa" e "São João do Porto" e, sobretudo, os três andamentos da completamente inédita "Fantaisie Languedocienne". para flauta, guitarra, violoncelo e piano.

12 April 2017

PELO BURACO DA FECHADURA

  
O Chateau Marmont, no 8221 de Sunset Boulevard, em Los Angeles – projectado segundo o modelo do Château d’Amboise, residência real francesa no vale do Loire –, foi um edifício de apartamentos de luxo, convertido em hotel em 1931, devido à enorme improbabilidade de, durante a Grande Depressão, haver quem pudesse suportar as elevadíssimas rendas. Ao longo dos anos, porém, acabaria por ganhar o estatuto de Chelsea Hotel da West Coast: como que aceitando o conselho de Harry Cohn, presidente da Columbia Pictures (“If you must get in trouble, do it at the Chateau Marmont”), foi lá que James Dean se atirou de uma janela, Jim Morrison caíu do telhado, John Belushi sucumbiu a uma overdose, Scott Fitzgerald teve um ataque cardíaco, os Led Zeppelin passearam de Harley Davidson pelos corredores, e, aos pares ou em grupos mais liberalmente alargados, celebridades várias (Dennis Hopper, Nicholas Ray, Natalie Wood, Jean Harlow, Clark Gable, Erroll Flynn, Marlene Dietrich, Scarlett Johansson, Benicio del Toro...) travaram conhecimento bíblico. Exactamente o género de matéria-prima que um "peeping tom" profissional e erudito como Jarvis Cocker – também ele, ainda com os Pulp, hóspede do hotel, no quarto 29 – dificilmente deixaria escapar. 



Concebido como um ciclo de 16 canções a quatro mãos, com o pianista canadiano Chilly Gonzales, Room 29 (primeiro álbum da Deutsche Grammophon a ostentar o aviso "Parental Advisory: Explicit Content") inaugura praticamente o sub-género de banda sonora para um documentário imaginário: algures num registo entre Satie e Kurt Weill espevitado por Noël Coward, o ponto de partida é esclarecedor: tratando-se de “a comfortable venue for a nervous breakdown”, obviamente, a questão que se impõe é “is there anything sadder than a hotel room that hasn’t been fucked in?” Daí, decorre, com naturalidade, uma sucessão de instantâneos e observações sobre personagens anónimas (“You’re a tearjerker, you don’t need a girlfriend, you need a social worker”) ou nem por isso (‘Howard Hughes Under The Microscope’, dissecado, em conversa com Cocker, por David Thomson, autor do clássico ensaio The Big Screen) e hábitos de consumo peculiares (“We ordered ice-cream as main course, in a turban of silk, drinking chocolate with milk, with a shot of rum on the side, well of course”). Ou não fosse, afinal, um caso exemplar de, como ali, à beira de Hollywood, é obrigatório apresentar-se “life with the boring bits edited out”.

15 August 2016

GÉNIO


A obra literária de William S. Burroughs – entre textos de ficção e não-ficção – não é extraordinariamente extensa mas, se lhe acrescentarmos a discografia, o panorama altera-se significativamente. Desde os numerosos álbuns de "spoken word" puro (em particular na Giorno Poetry Systems) às colaborações com diversos músicos (Frank Zappa, John Cage, Philip Glass, Laurie Anderson, Bill Laswell, Ministry, Kurt Cobain, R.E.M.), seria, porém, sob produção de Hal Willner que a articulação entre texto, voz e música(s) descobriria as condições ideias de temperatura e pressão para ocorrer da melhor forma. Willner, especialista de álbuns monotemáticos – Amarcord Nino Rota (1981), Lost In The Stars: The Music of Kurt Weill (1985), Stay Awake: Various Interpretations of Music from Vintage Disney Films (1988), Weird Nightmare: Meditations on Mingus (1992), Closed On Account Of Rabies - Poems And Tales Of Edgar Allan Poe (1997), The Raven (de Lou Reed, também em torno de Poe, 2003), Rogue's Gallery: Pirate Ballads, Sea Songs and Chanteys (2006) e Son of Rogues Gallery (2013) – entregues nas mãos e talentos de gente vária, capitaneara para Burroughs os óptimos Dead City Radio (1990, com John Cale, Donald Fagen, Chris Stein e os Sonic Youth) e Spare Ass Annie and Other Tales (1993, com os Disposable Heroes of Hiphoprisy). 



E, sabemo-lo agora, pouco antes da morte de Burroughs, em 1997, recrutara o guitarrista Bill Frisell, o teclista Wayne Horwitz e o violinista Eyvind Kang, para criarem a moldura sonora numa leitura de textos de Naked Lunch. Segundo Willner, em linguagem convenientemente burroughsiana, esses registos ficaram, até hoje, “abandoned and collecting dust on a musty shelf as forgotten as a piece of rancid ectoplasm on a peep show floor”. Quase vinte anos depois, e decisivamente enriquecido pelos contributos do canadiano Arish Ahmad Khan/King Khan, do compositor, “performer” e contra-tenor novaiorquino M Lamar, e da banda psych/punk australiana The Frowning Clouds, Let Me Hang You, abrindo com a voz de além-túmulo de Burroughs a proclamar “They call me The Exterminator!”, é mais uma belíssima peça no glorioso cânone de psicose e devassidão de, segundo Norman Mailer, “the only living American novelist who may conceivably be possessed by genius"

12 January 2016


David Bowie's graduation speech at Berklee College of Music: “What I really enjoyed the most, was the game of 'what if?' What if you combined Brecht-Weill musical drama with rhythm and blues? What happens if you transplant the French chanson with the Philly sound? Will Schoenberg lie comfortably with Little Richard? Can you put haggis and snails on the same plate? Well, no, but some of the ideas did work out very well.” (1999)

10 August 2015

PARA QUINZE PESSOAS 

 
Deverá haver quem, por esta altura, imagine que Momus terá já metido os papéis para a reforma. Não que, mesmo quando, na segunda metade dos anos oitenta, publicou Circus Maximus, The Poison Boyfriend, Tender Pervert e Don’t Stop The Night, se tenha sequer aproximado do final do corredor que dá acesso à transição de personagem de culto segredado para candidato a pop star. De onde em onde, alguém achava apropriado atribuir importância aquela espécie de síntese improvável entre Cohen, Brel, Bowie, Weill, Gainsbourg e, a partir de certa altura, Pet Shop Boys, capaz dos mais requintados jactos de sarcasmo (“If you get no joy from music hall, remember there is always alcohol, and if you get no joy from gin, here is the abyss: jump in!”), minuciosas explorações devassamente antropológicas (“What is the cultural meaning of coming in a girl's mouth?”) ou a entomologia social de tipos como o “maoist intellectual” (“My downfall came from being three things the working classes hated: agitated, organised and over-educated”). Mas nada que lhe garantisse, ao menos, o lugar de assessor do bem mais famoso discípulo, Jarvis Cocker. 

 
Na verdade, Momus, aliás, Nicholas Currie, criador do lema distorcidamente warholiano, “In the future, everyone will be famous for fifteen people", nunca parou: nomadeando entre o Reino Unido, Paris, Nova Iorque, Berlim e Tóquio – seria aqui que, realmente, se tornaria “big in Japan”, em plena onda Shibuya-kei, a dos Pizzicato 5, Cornelius e Kahimi Karie, para quem comporia diversas canções –, editou, no total, 30 álbuns, colaborou com a “Wired”, “New York Times” e “Art In America”, deu aulas de sound-art na Universidade de Hokkaido, participou em conferências, foi “unreliable tour guide” no Whitney Museum, na Schrin Kunsthalle, de Frankfurt, e no Museu Nobel, de Estocolmo, publicou quatro livros, teorizou e polemizou na blogocoisa. E, este ano, após ter lançado o triplo Turpsycore, anuncia o novo Glyptothek e o romance Herr F (Everything Living Forever is Screaming Forever), uma variação sobre o tema de Fausto. Naturalmente, com o miserável número de caracteres que me resta até bater no fundo desta coluna (que terá, inevitavelmente, sequência), apenas adiantarei que o 2º e 3º CD de Turpsycore são dedicados a David Bowie e Howard Devoto, o misantropo pós-punk, ávido de Kafka e Dostoievsky. (continua aqui)

07 October 2014

26 September 2014

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (XVIII)

(com a indispensável colaboração do R & R)

(clicar na imagem para ampliar)

24 December 2012

OITO (+ QUATRO) ACHAS PARA A FOGUEIRA (III)



Tom Waits - Swordfishtrombones

Em Tom Waits, existe, indiscutivelmente, um a.S. (antes de Swordfishtrombones) e um d.S. (depois de Swordfishtrombones). Se, na primeira fase, ele representava o papel de jovem herdeiro do legado "beatnik", eterno habitante das "small hours", com um copo de "bourbon" sempre pronto para dar de beber a um piano alcoólico, na segunda, à boleia dos blues, de Captain Beefheart, Harry Partch e Kurt Weill, partiu em demanda da América “surrural” e descobriu-a reflectida num espelho deformante (“Agora, o meu ponto mais forte é pegar numa coisa, combiná-la com outra com que não tenha nada a ver e conseguir que isso faça sentido. Digamos que procuro formas diversas de usar um guarda-chuva. A maior parte dos instrumentos são quadrados mas a música é sempre redonda e a verdade é que não gosto de linhas rectas”). Escancarando a nova era, estava o magnífico Swordfishtrombones.

17 August 2011

MASSACRE


















GNR - Vôos Domésticos

Não deveriam existir grandes preconceitos nem oposições de princípio perante a hipótese de versões do Pierrot Lunaire, de Schoenberg, para cavaquinho, gamelã balinês e "tin whistle", ou do reportório dos Led Zeppelin para "consort" de sopros renascentista. Em qualquer dos casos, em última análise, o resultado final do
empreendimento estético haveria de ser sempre decisivo e o excessivo respeitinho relativamente à hipotética degola das vacas sagradas nunca deveria ultrapassar a condição de mera nota de rodapé. Já se escutaram exercícios de violenta iconoclastia (cometidos, por exemplo, sobre Kurt Weill, Cole Porter ou Burt Bacharach) dos quais imenso bem veio ao mundo e muitos outros, carregados de cerimónia e infinita veneração, que a História da música, mui justamente, ignorou. Por maioria de razão, quando a iniciativa da profanação parte dos próprios autores, mais forte será a legitimidade.

Acontece que nada disto serve para absolver ou ser usado como atenuante relativamente ao massacre que, perante todos nós, e com o previsível sucesso comercial, os GNR acabam de perpetrar sobre catorze temas do seu património privado. Recorde-se: nos seus melhores momentos, a pop-rock portuguesa deve-lhes algumas das mais preciosas jóias da sua coroa numa quase perfeita síntese entre new wave, experimentalismo, engenho literário no formato-canção e insolência pop. Reencadernadas por eles mesmos, por ocasião do 30º aniversário da banda, exibem todos os sinais de uma cirurgia plástica que correu desastrosamente mal: as arestas e “imperfeições” lustrosa e arrepiantemente polidas, os arranjos vertidos para um idioma inexplicavelmente de bar de hotel, a pica original castrada e “sofisticadamente” amansada. Resta o consolo de que, pelo Outono, a discografia do grupo, tal como as muito boas memórias a recordam, será integralmente reeditada.

(2011)

24 June 2011

PARECE SER ASSIM MAS AFINAL É ASSIM


















Thao & Mirah - Thao & Mirah

De Mirah, já sabemos que podemos sempre esperar alguma coisa razoavelmente inesperada. Nunca fazendo explodir estrondosamente as fronteiras da folk-"indie" que lhe proporcionou a senha de entrada na K Records, de Olympia, Washington, acaba, muitas vezes, por encontrar forma de, lateralizando a abordagem, não corresponder exactamente àquilo para que tais coordenadas apontariam. E isto, caso seja necessário esclarecer, é, sem dúvida, um enorme ponto positivo. O que – não cobrindo, etapa por etapa, a sua trajectória discográfica iniciada (oficialmente) em 2000 com o esclarecedoramente intitulado You Think It’s Like This But Really It’s Like This - poderá ser facilmente exemplificado através de To All We Stretch The Open Arm, (2004) com interpretações de Weill, Dylan, Cohen e Foster ou Share This Place: Stories And Observations (2007), magnífico ciclo de canções, fundador do novíssimo género folk-entomológica, naturalmente, sobre a vida dos insectos.



Desta vez, porém, tudo teve início num encontro com Thao Nguyen (Get Down Stay Down), durante a edição do ano passado do Noise Pop Festival, de S. Francisco, em que, a quatro mãos e duas vozes, interpretaram peças do reportório de ambas. Thao & Mirah, o CD, é consequência lógica e "upgrade" considerável desse momento: co-produzido por (e com participação importante de) Merrill Garbus, dos sobreexcelentes tUnE-yArDs de whokill, a sua marca detecta-se um pouco por todo o lado, ora no improvável formato Young Marble Giants-meets-Rip Rig & Panic de "Likable Man", ora no futurismo primitivo de "Eleven" e no funk-soul a escorregar para o "free-form" delirante de "Rubies And Rocks" ora na "Space Oddity" artesanal de "Spaced Out Orbit", com alguma (falsa e rapidamente desencaminhada) candura folk de permeio para não espantar a caça. Um belíssimo naco de música.

(2011)