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11 September 2022
03 March 2020
PENSAR EM VOZ ALTA
Procure-se “Babehoven” no Google e, inevitavelmente, leremos no topo da página “Será que quis dizer: Beethoven?” O jogo ortográfico-fonético é, evidentemente, deliberado e, se não deveremos estar à espera de uma 10ª sinfonia do mais ilustre cidadão de Bona, em Demonstrating Visible Difference of Height podemos, de certeza, contar com um peculiaríssimo pedaço de rock "indie" norte-americano, de uma banda “de Filadélfia, via Los Angeles (via Portland)” – como pode ler-se na sua conta de Twitter cujo "header" é um retrato do velho Ludwig Van pintado por Joseph Karl Stieler em 1820, a que se sobrepõe uma fotografia de Maya Bon (metade dos Babehoven de que, actualmente, a outra metade é o guitarrista e "sound artist", Ryan Albert, tamém em acção nos Pornog e The Metabolic Studio) adequadamente “beethovenizada”.
"Maybe I'm Bitter" ("Director and Animator Brin Gordon is a transdisciplinary artist and Pataphysician who uses writing, performance, and video to explore processes of meaning. Their work looks at the intersections and boundaries between forms of knowledge as diverse as poetics, science, and common sense to study the ways in which subjectivity is created and in turn creates the world around it")
Após 2 EP – Sleep (2018) e Solemnis (2019) – nos quais se adivinhava uma personagem algures entre Kristin Hersh e Stephen Malkmus iluminada por uma muito vaga memória da country, desta vez, o cenário foi o dos bosques de Vermont, onde, durante três meses, foram concebidas e gravadas as cinco faixas de Demonstrating... O que, se favoreceria o registo intimista de diário, na verdade, abre-nos as portas para um mapa de ruminações maravilhosamente desordenadas acerca do mundo, das gentes e das coisas, como quem pensa em voz alta, falando sozinho. Um exemplo basta: Maya confidencia-nos “I’m allergic to pollen, was stuck in my bed, drained of all energy, pressure in my head”; a terapêutica (“went to the salon to treat myself, searching for a way to restore my health”) conduz a um mea culpa embaraçado (“They charged me 500, I feel like a dud”) que aterra em fúria contra as pérfidas sereias do consumismo: “ As the world is depleted I paid 500 dollars to silken my hair, I feel awful, so much for self care, (…) having short hair as a femme 2019, feels like I don’t know my body, feels like I am just nobody, unless I have some silky soft hair down my back”. De onde esta veio, haverá muitas mais.
16 December 2011
É PARA AS COMEMORAÇÕES DO ANIVERSÁRIO DE ISAAC NEWTON
Leonard Cohen - The Complete Studio Albums Collection
Se alguém lhe oferecer este "box-set" contendo os 11 álbuns de estúdio gravados por Leonard Cohen (se necessário, use de todos os truques e estratagemas mais baixos que conhecer para o conseguir), é, certamente, de amor ou enorme amizade que se trata. Porque isto não se oferece: guarda-se, esconde-se, só se mostra protegido pela penumbra e faz-se regressar, de imediato, à caixa-forte onde se aferrolham os tesouros mais preciosos.
Peter Gabriel & New Blood Orchestra - New Blood/Live In London (DVD)
Escutado “a seco”, no CD, New Blood (sucessor do óptimo Scratch My Back, do ano passado), relendo diversos temas de Peter Gabriel em modalidade “no guitar, no bass, no drums” substituídos por orquestra sinfónica, parecia dificilmente à altura do capítulo anterior. Ao vivo, no Hammersmith Apollo, de Londres – com repescagem de quatro peças de Scratch... – o fôlego e a vibração de palco acrescentam-lhe o que faltava.
Throwing Muses - Anthology
No 25º aniversário do primeiro álbum da banda de Kristin Hersh e Tanya Donnelly, uma antologia em formato duplo que se apresenta menos como um "best of" do que como uma "mixtape" compilada pelo próprio grupo, incluindo o segundo disco uma visita ao baú das raridades. Frágil, intensa, vulnerável, aterradora: a música dos Muses era pura poesia pós-punk para melodias evaporadas e neblina eléctrica.
Vários - Chicas! Spanish Female Singers 1962-1974
Em prol da união ibérica, conspirando a favor de uma consoada radicalmente retro-kitsch, ou simplesmente pelo imenso prazer sem culpa de escorregar por um "time warp" abaixo, duas dúzias de canções em castelhano do tempo de Franco, interpretadas por militantes revolucionárias yé-yé como Pili Y Mili ou Los Hippy-Loyas e com programas políticos radicalmente implacáveis: “quiero un chico moderno que vaya conmigo a tomar un café”.
R.E.M. - Part Lies Part Heart Part Truth Part Garbage 1982-2011
A 21 de Setembro passado, Michael Stipe escrevia no site dos R.EM.: “Um sábio disse uma vez que a arte de participar numa festa é saber quando a abandonar. Juntos construímos algo de extraordinário. E, agora, vamos afastar-nos disso”. 30 anos de carreira como quase únicos sobreviventes da "american rock renaissance" do início dos anos 80 ficam aqui testemunhados em 40 faixas, praticamente todas clássicos.
(2011)
14 February 2011
COISA IMENSA
Nina Nastasia - Outlaster
Deve ser praticamente impossível escrever (e pior, cantar) algo mais frio e, paradoxalmente, cruel e desesperado do que “every day I tear a bit from myself and from the one I love and from the other one I love”. E com o sentido de cada golpe e cicatriz implacavelmente tatuado nas palavras que vêm a seguir: “with each tear another stitch, there's always something new to fix, till blazing flames burn it all to pitch”. A dois versos do fim, uma alusão a The Blackened Air (2002): “Through the blackened air and all will I meet you this familiar way”. Mas não se suponha que se trata de um exercício de intolerável intensidade apenas verbal: "This Familiar Way" é um jogo de massacre em forma de tango, desfigurado pelo suplício de uma orquestra de câmara esventrada a frio perante os nossos ouvidos.
Dois passos à frente, "A Kind Of Courage" coreografa uma transtornada valsa de espectros para uma cerimónia de despedida do mundo dos vivos e os termos não são mais amáveis: “Don't think about, best to ignore, no one will miss you, no one will know (...) you're one of a million more of the same mind who deserve all to fade”. E, imediatamente antes, em "What's Out There?", pelo meio de estrondos, incêndios e estridências de cordas em desordenada aflição, Nina Nastasia, como se, naquele instante, o peito se lhe esvaziasse do último sopro, uiva, em ameaça “Oh window, window, I have to smash you out and let in something mean”. De Dogs (2000) a You Follow Me (2007), o "songbook" de Nina nunca foi ameno e feliz. Em Outlaster, porém – de novo escoltada pelo invariável Steve Albini –, num derradeiro passo de gigante, devora as Kristin Hersh, Sandy Denny ou Nico de cujas carcaças sempre se alimentou e, com o orquestrador Paul Bryan no lugar de Paul Buckmaster, cria aquilo que só se pode designar como as suas Songs Of Love And Hate. Coisa imensa, sim.
(2011)
28 March 2010
SININHO HIPPIE

Joanna Newsom - Have One On Me
Estou perfeitamente disposto a admitir que o problema é meu. Até porque a explicação alternativa só poderia ir parar a uma teoria da conspiração à la Dan Brown, segundo a qual a Maçonaria, o Clube Bilderberg, a Trilateral, a Opus Dei e os Superiores Ocultos de Agartha, em coligação global, se teriam confabulado para que, em uníssono, todas as vozes críticas do universo, rendidas e deslumbradas, entoassem cânticos e louvores à sublime obra de Joanna Newsom. O que, à excepção de um ou outro "sniper", é exactamente o que está a acontecer. E, como se sabe, não é coisa apenas de agora: tanto The Milk Eyed Mender (2004) como Ys (2006) foram recebidos como a mais preciosa dádiva do "free/freak-folk" – o rótulo começa a entrar em desuso mas ainda ajuda a situar – à humanidade carente do Bom e do Belo e Joanna apresentada como a Sininho hippie por que todos esperávamos para lançar pó-de-estrelas sobre a pop.

O problema poderá ser meu mas, entretanto, darei luta. E direi que Have One On Me consegue ser três vezes pior que Ys: porque é um triplo CD; porque, no anterior, podíamos concentrar-nos nos fabulosos arranjos de Van Dyke Parks e, com algum esforço, ignorar a existência da Newsom (e, neste, isso não acontece); porque diminuir o teor “puético” de arcaísmos patetas para o substituir por platitudes do género de “Life can be difficult and lonely but we all need love” será, talvez, um início de carreira promissor na indústria da "self-help" mas não é, propriamente, um progresso. Fica, então, só uma cada vez mais pronunciada aproximação aos maneirismos vocais de gueixa mimada de Kate Bush agrafados aos agudos estridentes da Baez-diva-folk dos primórdios, alguns traços de personalidade de uma Kristin Hersh psicótica mas fofinha e um dilúvio de harpa. Se, nas próximas semanas, eu não voltar a escrever, enviem, por favor, este texto ao Dan Brown.
(2010)
Joanna Newsom - Have One On Me
Estou perfeitamente disposto a admitir que o problema é meu. Até porque a explicação alternativa só poderia ir parar a uma teoria da conspiração à la Dan Brown, segundo a qual a Maçonaria, o Clube Bilderberg, a Trilateral, a Opus Dei e os Superiores Ocultos de Agartha, em coligação global, se teriam confabulado para que, em uníssono, todas as vozes críticas do universo, rendidas e deslumbradas, entoassem cânticos e louvores à sublime obra de Joanna Newsom. O que, à excepção de um ou outro "sniper", é exactamente o que está a acontecer. E, como se sabe, não é coisa apenas de agora: tanto The Milk Eyed Mender (2004) como Ys (2006) foram recebidos como a mais preciosa dádiva do "free/freak-folk" – o rótulo começa a entrar em desuso mas ainda ajuda a situar – à humanidade carente do Bom e do Belo e Joanna apresentada como a Sininho hippie por que todos esperávamos para lançar pó-de-estrelas sobre a pop.
O problema poderá ser meu mas, entretanto, darei luta. E direi que Have One On Me consegue ser três vezes pior que Ys: porque é um triplo CD; porque, no anterior, podíamos concentrar-nos nos fabulosos arranjos de Van Dyke Parks e, com algum esforço, ignorar a existência da Newsom (e, neste, isso não acontece); porque diminuir o teor “puético” de arcaísmos patetas para o substituir por platitudes do género de “Life can be difficult and lonely but we all need love” será, talvez, um início de carreira promissor na indústria da "self-help" mas não é, propriamente, um progresso. Fica, então, só uma cada vez mais pronunciada aproximação aos maneirismos vocais de gueixa mimada de Kate Bush agrafados aos agudos estridentes da Baez-diva-folk dos primórdios, alguns traços de personalidade de uma Kristin Hersh psicótica mas fofinha e um dilúvio de harpa. Se, nas próximas semanas, eu não voltar a escrever, enviem, por favor, este texto ao Dan Brown.
(2010)
18 October 2009
JUILLIARD POP

Christina Courtin - Christina Courtin
Imaginem o que poderia ser, em termos actuais, uma superbanda: o guitarrista Marc Ribot (Tom Waits e inúmeras outras notabilidades de downtown-New York), Greg Cohen (baixista e acordeonista de currículo semelhante com Laurie Anderson pelo meio, aqui, também, enquanto co-produtor), o teclista Benmont Tench (ele, fidelíssimo dos Heartbreakers, de Tom Petty, mas também regular de Johnny Cash, U2, Sam Phillips, Bob Dylan, Roy Orbison, Rolling Stones, Elvis Costello e Fiona Apple), o baterista Jim Keltner (não há espaço para incluir metade dos ilustres), o multi-instrumentalista, produtor e "film-musician", Jon Brion (Aimee Mann, a bela Fionna, Brad Mehldau e filmes de P.T. Anderson e Michel Gondry na carteira) e ainda outras notabilidades injustamente avulsas.
Estão todos no álbum de estreia de Christina Courtin, recém-licenciada da Juilliard em violino e – como Joan Wasser, Shara Worden ou Regina Spektor, outras tantas "meninas de conservatório" – óptima e erudita "songwriter" (algures entre o melhor de Kristin Hersh, Joni Mitchell e Spektor), capaz de escrever “I thought I was a person too, turns out I’m a monster just like you” e de, por só, episodicamente, aqui, pegar no violino, desafiar a velha escola com a frase (no seu site) “Take that, Juilliard!”.
(2009)
Christina Courtin - Christina Courtin
Imaginem o que poderia ser, em termos actuais, uma superbanda: o guitarrista Marc Ribot (Tom Waits e inúmeras outras notabilidades de downtown-New York), Greg Cohen (baixista e acordeonista de currículo semelhante com Laurie Anderson pelo meio, aqui, também, enquanto co-produtor), o teclista Benmont Tench (ele, fidelíssimo dos Heartbreakers, de Tom Petty, mas também regular de Johnny Cash, U2, Sam Phillips, Bob Dylan, Roy Orbison, Rolling Stones, Elvis Costello e Fiona Apple), o baterista Jim Keltner (não há espaço para incluir metade dos ilustres), o multi-instrumentalista, produtor e "film-musician", Jon Brion (Aimee Mann, a bela Fionna, Brad Mehldau e filmes de P.T. Anderson e Michel Gondry na carteira) e ainda outras notabilidades injustamente avulsas.
Estão todos no álbum de estreia de Christina Courtin, recém-licenciada da Juilliard em violino e – como Joan Wasser, Shara Worden ou Regina Spektor, outras tantas "meninas de conservatório" – óptima e erudita "songwriter" (algures entre o melhor de Kristin Hersh, Joni Mitchell e Spektor), capaz de escrever “I thought I was a person too, turns out I’m a monster just like you” e de, por só, episodicamente, aqui, pegar no violino, desafiar a velha escola com a frase (no seu site) “Take that, Juilliard!”.
(2009)
29 March 2009
OBRIGADO, DIVINDADE FELINA!
Alela Diane - To Be Still
Headless Heroes - The Silence Of Love
Eu já tinha obrigação de saber que a suposta sageza contida nos provérbios populares não possui, propriamente, valor científico. Mas, porque estas coisas se infiltram desde o biberão e continuam a actuar subliminarmente, desta vez, por pouco me ia deixando rasteirar por um dos clássicos do género, o universalmente repetido “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. Há que conceder a atenuante de que as circunstâncias eram favoráveis ao tropeção: jovem singer-songwriter, natural de Nevada City, como Joanna Newsom, e coberta de louvores por Joanna Newsom, caminha a passos largos para a santidade "freak-folk" à custa de um álbum criado numa cabana de montanha, em Portland, na companhia de um gato. Se acabei por escutar o disco e este texto foi escrito, só pode ter sido por causa do gato, já que, pelas restantes personagens e contornos da história, o evitei cuidadosamente durante dias.
Obrigado, divindade felina: To Be Still é uma belíssima colecção de canções e, ou muito me engano, ou Alela Diane Menig rapidamente deixará na merecidíssima sombra a seita "hippy/psych" do pé descalço. Espreitem-na, no Youtube, nos três clips da série “Concerts à Emporter” de La Blogotheque – cada vez mais um lugar de atribuição de credibilidade indie através do reconhecimento “intelectual” europeu –, vagueando, de guitarra na mão, entre as pedras de Notre-Dame e a Place St. Michel. Já que aí estão, procurem também “The Rifle” (cenário de assombração flannery o'connoriana genuinamente "old weird America") e “The Pirate’s Gospel” (“While some folks pray their path to Jesus, we're gonna sing the pirate's gospel” em atmosfera de mar e trevas noturnas), do álbum anterior.
Podem, agora, passar a To Be Still e descobrir uma legítima descendente de (peso cada palavra) Sandy Denny e – muito mais obliquamente – Nico, algures, numa bissectriz mais contemporânea, entre Nina Nastasia, Kristin Hersh e Neko Case, mas (levando a utilidade do "name-dropping" às últimas consequências) com aquele teor de anacrónica excentricidade que Jolie Holland e Jesca Hoop terão de passar a partilhar com ela. No DVD que acompanha o disco, em concerto de Novembro do ano passado no Olympia de Paris, entre banjos, guitarras e bandolins, podemos, por outro lado, descobrir a personalidade de quem, em cima de um palco, parece estar com o mesmo à vontade que no alpendre do tal refúgio de Portland.
Etapa seguinte: The Silence Of Love, álbum de versões produzido por Eddie Bezalel a que Alela empresta a voz e, na companhia de gente com currículo ao lado dos R.E.M., Beck ou Red Hot Chili Peppers, reinventa temas de Nick Cave, Jesus & Mary Chain, Linda Perhacs ou Jackson C. Frank. Nos melhores momentos (“True Love Will Find You In The End”, “Just Like Honey”, “Nobody’s Baby Now”), dir-se-ia Karen Dalton a bordo dos Mazzy Star; nos outros, poderá não se voar tão alto mas também nunca há danos irreversíveis a registar. E, caso os houvesse, Alela Diane seria sempre mui justamente absolvida.
(2009)
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02 April 2008
NO VENTRE DA BESTA
In The Belly Of The Beast é uma assombrosa colecção de cartas de Jack Henry Abbott (encarcerado numa prisão de alta segurança) a Norman Mailer, onde reflecte acerca do que é viver o Inferno na terra. "No ventre da besta" é como Michael Stipe define a situação actual dos R.E.M., estabelecendo um paralelo entre a actividade de uma das mais populares bandas norte-americanas contemporâneas e a do cineasta Michael Moore: do lado de dentro do Inferno — os EUA —, usando os media a que têm acesso para o denunciar. O pretexto pode ser o lançamento de mais uma colecção de "greatest hits" (In Time: The Best Of R.E.M. 1988-2003) mas isso acaba por constituir apenas um elemento menor numa intensa conversa de olhos nos olhos com um artista norte-americano que tem visivelmente prazer em usar o cérebro.
Esta compilação de "greatest hits" foi realizada pela própria banda. Que critérios de escolha das canções a incluir seguiram?
Foi muito, muito fácil. Cada um de nós elaborou uma lista das canções que pretendia que figurassem no disco e, no final, as três listas eram muito semelhantes. Tínhamos as canções que foram publicadas como "singles" e aquelas para as quais foram realizados videoclips. O que, no fundo, desejámos foi conceber uma compilação que representasse bem a banda de uma forma razoavelmente exaustiva. Havia canções que foram grandes êxitos como "Shiny Happy People" mas também outras que tiveram menos sucesso como "Nightswimming" e que ajudam melhor a compreender a nossa faceta enquanto banda de "singles".
Vêem-se principalmente como banda de "singles"?
Não, não! Somos essencialmente uma banda de álbuns. Como vê, somos bastante antiquados nesse aspecto (risos). Mas gosto da ideia dos "singles". Não escrevemos canções a pensar se vão ser editadas em "single" ou se vão passar na rádio. É bastante embaraçoso esforçar-se para escrever algo não muito bom mas pensado como "single" e que, afinal, não resulta. Prefiro escrever canções que se apoderem da imaginação dos tipos das rádios e do público mas que não sejam nada óbvias. "Losing My Religion" é um óptimo exemplo: é indiscutivelmente a nossa canção de maior sucesso mas por um puro golpe de sorte! Não é sequer uma canção "como deve ser", dura cinco minutos, tem um bandolim como instrumento principal e não tem refrão! Como é que uma coisa assim se transforma na "canção do ano"? Nada disto se pode prever nem programar.
Li no "press release" que, para auxiliar na escolha, pediram opiniões também a fãs, amigos e familiares mas que excluiam automaticamente quem votasse em "Shiny Happy People". Odeiam assim tanto essa canção?
Não. Os media estão convencidos que a odiamos e não nos largam com isso mas não é verdade. É uma canção "bubblegum" e foi exactamente isso que quisémos que ela fosse quando a escrevemos. É uma canção para miúdos.
Tal como o próprio videoclip...
Claro. Mas, para mim, não cabia nesta compilação.
Mais de vinte anos após o início dos R.E.M., tem já uma perspectiva acerca da forma como o grupo evoluiu?
Sim, vejo com muita clareza as diversas fases e tendências. As intenções muitas vezes não se traduzem naquilo que realmente se passa. Eu tenho uma ideia bem definida de como desejo que seja um disco. Passa-se exactamente o mesmo com o Peter Buck. Ambas são interessantes. Juntam-se as duas e aí está aquilo que são os R.E.M.. Harmoniza-se e articula-se tudo isso e o resultado é algo francamente superior a cada um de nós três isoladamente.
É curioso porque, da geração de bandas americanas a que vocês pertencem — que incluia os Violent Femmes, Dream Syndicate, Green On Red, Long Ryders, Rain Parade, Jason & The Scorchers —, os R.E.M. foram os únicos que construiram uma carreira longa e com êxito...
Há Los Lobos, os Sonic Youth também...
Mas, de modo nenhum, ao vosso nível...
Como unidades criativas, eu diria que sim. Certamente, não de um ponto de vista de sucesso comercial. Não faço a mínima ideia por que motivo aconteceu assim. Nós sempre trabalhámos muito a sério e eu tenho uma paixão imensa por aquilo que faço. A vida é demasiado curta para não nos entregarmos totalmente a algo que desejemos muito fazer. Provavelmente, é só isso: não fazer senão aquilo em que acreditamos. Não há outra forma.
Como é que se sente hoje relativamente aquele período — de "Losing My Religion" e "Everybody Hurts", principalmente — quando os R.E.M. eram gigantescamente populares e era impossível não os escutar na rádio de cinco em cinco minutos?
Era divertido. Na verdade, não tinha muito tempo para ouvir rádio, estava constantemente a cumprimentar pessoas na rua... (risos) Reconheciam-nos constantemente. Mas o nosso estatuto actual é, para mim, muito confortável. Ainda vêm ter connosco e falar-nos de como as nossas canções foram importantes, em dado momento. Só tenho que agradecer. Em Detroit, houve um tipo que realmente me surpreendeu: dirigiu-se a mim e disse-me "obrigado por viverem o sonho". Não me podia ter dito nada melhor. A minha ideia, quando era adolescente, de fazer parte de uma banda, escrever canções, viajar pelo mundo, era, de facto, um sonho. Era uma completa fantasia que nada tem a ver como as coisas verdadeiramente são. Era incrivelmente glamoroso, havia todo um mundo para explorar. Pelo menos, parecia, até termos que passar metade da nossa vida metidos em aviões... (risos) Há partes muito pouco glamorosas naquilo que fazemos mas, no conjunto, para mim, ainda é muito excitante e um grande desafio.
O que resta então dos Twisted Kites — o primeiro nome do grupo — nos R.E.M. actuais?
O grupo tinha apenas dois meses de vida quando começámos a pensar como nos deveríamos chamar. De duas em duas horas, tínhamos um nome diferente. Twisted Kites foi só um deles. Acredite que eram às dúzias... (risos) Acabámos por nos decidir por R.E.M. porque, naquele tempo do punk e da new wave tinham todos nomes muito punk-rock e new wave. E nós não queríamos ser categorizados dessa forma. Tentámos sempre desafiar as diversas categorias, nunca nos encaixámos em nenhuma. Não somos uma banda de punk rock, não somos uma banda de hard rock, não somos sequer uma banda de rock, não somos uma banda de folk, não somos uma banda de country, não somos uma banda experimental. Somos cada uma e todas essas coisas ao mesmo tempo o que, penso, só se pode classificar como R.E.M.. Não, não somos realmente uma banda pop nem rock... Não porque sejamos extraordinariamente originais mas porque todas essas coisas influenciaram a nossa música, oiço-as todas naquilo que fazemos.
Falando então de influências, pareceu-me uma excelente ideia o CD-compilação que vocês organizaram para a revista "Uncut" onde incluiram coisas muito pouco previsíveis como Jimmy Smith, Ornette Coleman, fantasias para guitarra acústica sobre Carmina Burana, canções de trabalho negras para "fife and drum band", Laura Nyro...
Foi, essencialmente, trabalho do Peter. Só conheço cerca de metade delas mas há, por ali, de certeza, muitas coisas que, de uma maneira ou de outra, passaram para a nossa música. Pela minha parte, fiz uma outra lista de 21 canções para a iTunes. Podem comprá-la, para que os autores recebam dinheiro por isso. Aliás, eu próprio vou comprar a minha lista! E, por aí, se poderá descobrir toda uma faceta completamente diferente de influências: Neil Diamond, Kristin Hersh, Fleetwood Mac, Tori Amos...
Se se dispuseram a revelar as vossas influências musicais, poder-se-ia saber também quais as suas preferências em matéria de literatura, cinema...
Spike Jonze, de Being John Malkovitch, Todd Haynes, adoro o Woody Allen, John Cassavettes... O meu filme preferido actualmente é um filme francês de há cinco anos, Quem Me Amar Virá De Comboio, do Patrice Chéreau, que me faz lembrar os primeiros Dogma. Não leio muitos romances mas, quando era mais novo, devorei o Nabokov todo. Ele trabalhava com o inglês como segunda língua mas com um incrível domínio. E leio revistas, toneladas de revistas, que é de onde vem a inspiração para a maioria das músicas. E podia estar aqui até ao pôr do sol a citar-lhe nomes de fotógrafos que admiro...
Nesta compilação há uma canção, "Bad Day", que é uma explícita tomada de posição política em relação ao que é ser-se artista nos EUA sob a administração de George W. Bush...
Alguém muito sábio afirmou que, quando, na vida, as coisas ficam mesmo más, a arte tem tendência para melhorar.
Isso é uma regra?
Não, mas tem algum fundo de verdade. "Bad Day" é uma declaração política muito, muito forte. É também uma canção pop. E é situado aí mesmo que me vejo e aos R.E.M.. E também ao Michael Moore. Não estamos do lado de fora do portão, aos gritos e a atirar pedradas para tentar entrar e chamar a atenção. Estamos lá dentro, a usar os media que as pessoas reconhecem. Estamos no ventre da besta. Se for subversivo, sê-lo-à também num certo sentido populista.
É no ventre da besta que se sentem bem?
Não temos escolha. Não desejei nem planeei nada para que acontecesse assim. Mas esse é o mundo em que vivemos. É muito difícil ser um cidadão americano e não ser obrigado a reconhecer o que se passa com a actual administração. Nacional e internacionalmente.
E, quando, por exemplo, vem à Europa, não o incomoda a forma como, enquanto americano, pode ser encarado?
Acho que as pessoas reconhecem que os R.E.M. sempre tomaram atitudes políticas e sociais bastante claras. Nunca houve nenhum país na História que apoiasse os seus governantes a 100%. Ao ver-se a televisão americana, pode-se ser levado a acreditar que, neste país imensamente poderoso, a maioria das pessoas acredita que a acção do governo é positiva. Eu discordo. Há, pelo menos, metade da população que discorda também. Os EUA são um país onde as pessoas trabalham imenso, muitas têm de ter dois empregos, têm de pagar os seguros do carro (e, sem um automóvel, à excepção de Nova Iorque, não se vai a lado nenhum), da casa, de saúde, de vida, o serviço nacional de saúde não é muito bom, é preciso esforçar-se a sério para pagar a universidade dos filhos, a hipoteca da casa, é necessário haver comida na mesa, máquinas de lavar... A maioria dos americanos tem, no máximo, 45 minutos por dia para dedicar ao que se passa no resto mundo. Não que não se interessem por política. Têm é todo o tempo ocupado a assegurar que não vão ao fundo.
Parece estar a fazer um retrato do inferno...
É, de facto, um bocado infernal. Adoro o meu país e tem muitas coisas de que me orgulho. Mas uma das coisas que, muitas vezes, não se compreende é o quanto estamos separados do resto do mundo. E como isso se reflecte na nossa educação desde os primeiros anos e influencia as escolhas, os preconceitos, a forma como se vê os outros, o que sabemos e o que não sabemos. É um imenso país ingovernável. É uma pena. (2003)
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11 August 2007
UM AR MENOS NEGRO

Não se imagina que a autora de três álbuns — Dogs, The Blackened Air e Run To Ruin — onde tão pouca luz penetra ria tão frequente e espontaneamente como acontece quando entrevistada. Nina Nastasia faz enormes pausas para pensar, deixa imensas interrogações em suspenso, semeia as respostas de "I don't know" e confessa que, embora ainda sem grande êxito, gostava de ser capaz de "aligeirar" a atmosfera das suas futuras canções. Desde que não desça a (bem elevada) fasquia dos três primeiros discos, esteja à vontade.
Suponho que, como a maioria das pessoas, conheci a sua discografia de trás para a frente: primeiro The Blackened Air e Run To Ruin e, só depois, o primeiro, Dogs, reeditado o ano passado. E pareceu-me muito invulgar alguém iniciar o seu álbum de estreia com uma canção que é apenas uma única frase "Dear Rose, I do apologize, I hope you'll think of me as someone who would do anything for you"...
Como é que isso me surgiu... (risos) soa um pouco como a abertura de uma carta, não é? Pareceu-me uma boa forma de começar. Deve ter sido isso... Mas as outras canções não seguem de todo essa lógica. Já foi há tempo demais para que me recorde, de facto, qual era a ideia... Para Dogs, gravámos uma série de canções, das quais, houve várias que nem chegaram a ser incluídas no disco. Escolhemo-las como se estivéssemos a estabelecer o alinhamento de um concerto. Não obedeceu, realmente, a nenhum conceito.
Vê-o como um álbum muito diferente dos outros dois que se seguiram?
Todos os álbuns foram escritos no mesmo período de tempo. Há diversas canções antigas em Road To Ruin. Por isso, no que à escrita das canções diz respeito, não me consigo aperceber de uma grande diferença entre eles. Embora, decerto, deva haver. Não estudei assim muito o assunto... Mas, quanto aos arranjos das canções de Dogs, como já interpretava ao vivo aquele reportório com a mesma banda há bastante tempo, quando chegámos ao estúdio, estava tudo praticamente definido. Em The Blackened Air e Run To Ruin, quando começámos a gravar, ainda estávamos a trabalhar os arranjos. O que lhes terá dado um ar um pouco mais improvisado.

Porque se decidiu por Steve Albini como produtor?
Um amigo tinha trabalhado com ele e disse-me coisas muito simpáticas sobre o Steve. Também gostava muito da sonoridade de vários álbuns que ele tinha produzido. E queríamos gravar tudo ao vivo em estúdio que é como ele prefere trabalhar.
Quando começou a escrever canções?
Há cerca de catorze anos, quando vim para Nova Iorque. Desde miúda gostava de escrever poemas, contos. Tinha um amigo "songwriter" que, de certa maneira, me inspirou a fazê-lo.
Para além do seu amigo, houve outros autores que a inspirassem?Sempre ouvi muita música diferente mas não sou uma grande coleccionadora de discos nem presto muita atenção a nomes e detalhes. Em casa, os meus pais ouviam muito os Beatles. Também estudei piano clássico. Pode parecer um bocado estúpido mas não me recordo de nomes nenhuns...
Então chame-me estúpido agora a mim: quando escrevi sobre os seus discos, disse como, neles, várias coisas me recordavam gente tão diversa como Sandy Denny, Nico, PJ Harvey, Velvet Underground, Cowboy Junkies, Tom Waits, Mary Margaret O'Hara, Kristin Hersh... Isto faz algum sentido?
(risos) Bom, gosto da maioria deles, aí tem. Acertou. Gosto muito da Sandy Denny, por exemplo. Mas nem conheço grande parte da obra dela. E adorei os concertos da PJ Harvey a que assisti. Mas não diria que algum deles foi uma enorme influência que eu me tenha dedicado a analisar e estudar. Inconscientemente, no entanto, devo ter interiorizado uma ou outra coisa de vários deles... provavelmente.

Pura curiosidade: o seu nome, Nina Nastasia, tem uma certa sonoridade de Europa de Leste...
Tem, não tem? (risos) Toda a gente diz isso. Mas não é, é italiano. A família do meu pai veio da Calábria.
Está a trabalhar num novo álbum?
Estou. Na verdade, estou a pensar publicar dois ao mesmo tempo. Tenho um conjunto de canções suficientes para isso mas ainda não me decidi definitivamente se o quero fazer ou não. Estou a tentar escrever canções que sejam um pouco mais "leves" do que me é habitual. Começa a aborrecer-me ser vista sempre como autora de canções graves o obscuras. Não que me esteja a sair lá muito bem disso mas estou a tentar... (2005)
Não se imagina que a autora de três álbuns — Dogs, The Blackened Air e Run To Ruin — onde tão pouca luz penetra ria tão frequente e espontaneamente como acontece quando entrevistada. Nina Nastasia faz enormes pausas para pensar, deixa imensas interrogações em suspenso, semeia as respostas de "I don't know" e confessa que, embora ainda sem grande êxito, gostava de ser capaz de "aligeirar" a atmosfera das suas futuras canções. Desde que não desça a (bem elevada) fasquia dos três primeiros discos, esteja à vontade.
Suponho que, como a maioria das pessoas, conheci a sua discografia de trás para a frente: primeiro The Blackened Air e Run To Ruin e, só depois, o primeiro, Dogs, reeditado o ano passado. E pareceu-me muito invulgar alguém iniciar o seu álbum de estreia com uma canção que é apenas uma única frase "Dear Rose, I do apologize, I hope you'll think of me as someone who would do anything for you"...
Como é que isso me surgiu... (risos) soa um pouco como a abertura de uma carta, não é? Pareceu-me uma boa forma de começar. Deve ter sido isso... Mas as outras canções não seguem de todo essa lógica. Já foi há tempo demais para que me recorde, de facto, qual era a ideia... Para Dogs, gravámos uma série de canções, das quais, houve várias que nem chegaram a ser incluídas no disco. Escolhemo-las como se estivéssemos a estabelecer o alinhamento de um concerto. Não obedeceu, realmente, a nenhum conceito.
Vê-o como um álbum muito diferente dos outros dois que se seguiram?
Todos os álbuns foram escritos no mesmo período de tempo. Há diversas canções antigas em Road To Ruin. Por isso, no que à escrita das canções diz respeito, não me consigo aperceber de uma grande diferença entre eles. Embora, decerto, deva haver. Não estudei assim muito o assunto... Mas, quanto aos arranjos das canções de Dogs, como já interpretava ao vivo aquele reportório com a mesma banda há bastante tempo, quando chegámos ao estúdio, estava tudo praticamente definido. Em The Blackened Air e Run To Ruin, quando começámos a gravar, ainda estávamos a trabalhar os arranjos. O que lhes terá dado um ar um pouco mais improvisado.
Porque se decidiu por Steve Albini como produtor?
Um amigo tinha trabalhado com ele e disse-me coisas muito simpáticas sobre o Steve. Também gostava muito da sonoridade de vários álbuns que ele tinha produzido. E queríamos gravar tudo ao vivo em estúdio que é como ele prefere trabalhar.
Quando começou a escrever canções?
Há cerca de catorze anos, quando vim para Nova Iorque. Desde miúda gostava de escrever poemas, contos. Tinha um amigo "songwriter" que, de certa maneira, me inspirou a fazê-lo.
Para além do seu amigo, houve outros autores que a inspirassem?Sempre ouvi muita música diferente mas não sou uma grande coleccionadora de discos nem presto muita atenção a nomes e detalhes. Em casa, os meus pais ouviam muito os Beatles. Também estudei piano clássico. Pode parecer um bocado estúpido mas não me recordo de nomes nenhuns...
Então chame-me estúpido agora a mim: quando escrevi sobre os seus discos, disse como, neles, várias coisas me recordavam gente tão diversa como Sandy Denny, Nico, PJ Harvey, Velvet Underground, Cowboy Junkies, Tom Waits, Mary Margaret O'Hara, Kristin Hersh... Isto faz algum sentido?
(risos) Bom, gosto da maioria deles, aí tem. Acertou. Gosto muito da Sandy Denny, por exemplo. Mas nem conheço grande parte da obra dela. E adorei os concertos da PJ Harvey a que assisti. Mas não diria que algum deles foi uma enorme influência que eu me tenha dedicado a analisar e estudar. Inconscientemente, no entanto, devo ter interiorizado uma ou outra coisa de vários deles... provavelmente.
Pura curiosidade: o seu nome, Nina Nastasia, tem uma certa sonoridade de Europa de Leste...
Tem, não tem? (risos) Toda a gente diz isso. Mas não é, é italiano. A família do meu pai veio da Calábria.
Está a trabalhar num novo álbum?
Estou. Na verdade, estou a pensar publicar dois ao mesmo tempo. Tenho um conjunto de canções suficientes para isso mas ainda não me decidi definitivamente se o quero fazer ou não. Estou a tentar escrever canções que sejam um pouco mais "leves" do que me é habitual. Começa a aborrecer-me ser vista sempre como autora de canções graves o obscuras. Não que me esteja a sair lá muito bem disso mas estou a tentar... (2005)
09 August 2007
ARESTAS

Nina Nastasia - Run To Ruin

Kristin Hersh - The Grotto
Pode, se calhar, dizer-se que, sem Kristin Hersh, Nina Nastasia teria sido provavelmente diferente do que é. Mas, agora, deve dizer-se também que talvez esteja a fazer falta a Kristin Hersh escutar Nina Nastasia para poder imaginar uma forma sua de regressar aos óptimos tempos de Hips And Makers.
Porque todas aquelas arestas que faltam a The Grotto para ser algo mais do que apenas uma muito boa colecção de bonitas canções acústicas geradas por uma mente singular estavam já presentes em The Blackened Air (o anterior de Nastasia) e regressam agora no mini-álbum (trinta e poucos minutos) Run To Ruin: o falso ar de "lo-fi" a dissimular um verdadeiro teatro cru de emoções (cortesia da produção de Steve Albini mas não só), a rudeza e aparente desarrumação da colocação dos diversos instrumentos — viola, violino, violoncelo, banjo, piano, acordeão, dulcimer, guitarras acústica e eléctrica, bateria — no espaço sonoro, a estética de folk simultaneamente melódica-segundo-a-"tradição" e dissonantemente cauterizadora, a escrita fragmentária "beat"/surreal, a atmosfera artesalmente gótica, a superior sofisticação de um
enganador desleixo de recorte. "I Say That I Will Go" é a imagem paralisada de um labirinto rasgado de estridências, "Regrets" faz lembrar Suzanne Vega redesenhada por Sam Shepard, "The Body" sopra um murmúrio de câmara sobre a tumultuosa resolução final, "Superstar" evoca Neil Young sob o efeito de ketamina, "On Teasing" exibe um tango em forma de sofisma tragado por um tsunami e o resto contribui para a coerência global desta espécie de argumento esfarrapado para "road movie" residual. Com os de Cat Power e Neko Case, outro dos imperdíveis do ano na categoria "female-singer-songwriter". (2003)
Nina Nastasia - Run To Ruin
Kristin Hersh - The Grotto
Pode, se calhar, dizer-se que, sem Kristin Hersh, Nina Nastasia teria sido provavelmente diferente do que é. Mas, agora, deve dizer-se também que talvez esteja a fazer falta a Kristin Hersh escutar Nina Nastasia para poder imaginar uma forma sua de regressar aos óptimos tempos de Hips And Makers.
08 August 2007
O FUNDO DO AR É NEGRO

Nina Nastasia - The Blackened Air
Nina Nastasia - The Blackened Air
Uma Sandy Denny com a alma lunar de Nico, o grupo sanguíneo de Polly Jean Harvey, a enganadora doçura de Aimee Mann e a esquizofrenia de Mary Margaret O'Hara. Recitando litanias dispersas por entre os despojos da carcaça dos blues, o espectro esventrado da country e a assombração radiográfica da folk tal como ainda sobrevive nos desfiladeiros desertos de algumas cordilheiras. À volta, há estrondos e estampidos, lancinantes e longínquos glissandos de violino e serra friccionada, gemidos de acordeão, interferências de arranjos de cordas inesperadamente plausíveis, a sombra oblíqua dos Cowboy Junkies de Trinity Session ou uma certa marcialidade fúnebre dos primeiros Velvet Underground.
E muito, muito espaço vazio por entre o dedilhado de um bandolim, o desenho sinuoso da melodia e a ressonância de palavras como "my eyes are black as iron, I'm toppling houses, trees and towns, my crying makes everybody drown" cujas imagens se perfilam imediatamente à frente dos nossos olhos. "Ugly Face" é quase "The Part You Throw Away" de Tom Waits e isso só lhe faz bem, "In The Graveyard" parece o eco de um uivo das Apalaches, "Ocean" é uma refrega surda entre as frequências graves de um sismo, estridências ultra-agudas e o ectoplasma de uma valsa doente de Kristin Hersh, "The Same Day" é pura (in)existência virtual e todas as restantes nos impedem de pensar noutra coisa durante 44 minutos. E muito tempo depois também. (2002)
05 April 2007
NOMEAR O TERRITÓRIO
Quando Will McCarthy (pai de Dawn McCarthy) desistiu da sua profissão de corretor da Bolsa, celebrou essa libertação com um poema: "I no longer wish to compete. I withdraw to niches unoccupied, to hidden places between the rocks or to the porches of high bound caves, or to theaters within hollow trees, or to any other place where the zeal of silence might be". O que, se nos poderia fazer imaginar que, dentro de cada escravo engravatado do Grande Templo do Capital, vive um poeta pagão à espera do momento de quebrar as grilhetas, tratando-se de um elemento do clã McCarthy já não será algo tão inesperado.
Sim, porque gente como Dawn McCarthy (e o companheiro Nils Frykdahl e o resto da tribo que integra os Faun Fables) não aparece de geração espontânea. Por alguma razão, o episódio anterior das fábulas se chamava Family Album e não há-de ser outro acaso que, à semelhança de "I No Longer Wish To", o texto de uma das canções ("Earth's Kiss") seja co-assinado pela mãe, Michelina. Todas as peças se encaixam perfeitamente no puzzle: The Transit Rider começou por ser uma peça de teatro musical — descrita como um encontro entre Tom Waits, Frank Zappa, The Twilight Zone e Andrew Lloyd Webber (ou "gipsy Brechtian avant-folk"), onde uma mulher que viaja de metro fantasia um mundo paralelo ao da selva urbana nas entranhas da qual se desloca — e, agora, segregou a sua banda sonora enquanto "song cycle" autónomo.
(álbum integral)
Tal como acontecia já com Family Album, o universo sonoro de McCarthy/Frykdahl é omnívoro e em tudo diferente da sua dieta: Dawn, de canção em canção, tanto faz pensar em Kristin Hersh como em Shirley Collins, Marlene Dietrich, Mimi Goese ou Grace Slick, a música tritura Kurt Weill, a folk-britânica e leste-europeia, Smetana, Buffy Sainte-Marie, Stravinsky, a aura negra de Nico e Bartók, até ao nível das sub-partículas. Num glorioso exercício de ecletismo, coloca frente a frente Cristo e o seu amante, Pã (no tradicional folk inglês "House Carpenter"), recorre às composições do polaco Zygmunt Konieczny ("Taki Pejzaz/Such A Landscape"), recruta sem problemas um tema da "singing nun", Soeur Sourire ("I'd Like To Be") e acaba citando Martin Heidegger: "The song still remains which names the land over which it sings". Os Faun Fables são uma raríssima preciosidade da música contemporânea e The Transit Rider a sua segunda obra-prima indiscutível. (2006)
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04 April 2007
QUEBRAR O ESPELHO
Faun Fables - Family Album
Considerem imediatamente como um tesouro, como uma preciosidade rara, aquilo que têm nas mãos (sim, porque não tenho a menor dúvida que vão querer ter nas mãos este Family Album). Isto é o género de disco que, nos tempos que correm, praticamente não existe: música que não se parece com nada e que, ainda por cima, é sobrenaturalmente superlativa. Também não deverão conhecer muitos outros cujo texto de uma das canções ("Poem 2") seja atribuído a um fantasma ainda que isso possa colocar alguns problemas em matéria de "copyright"... Porque o que Dawn McCarthy e Nils Frykdahl aqui concretizam é uma daquelas totalmente improváveis coreografias de referências onde tudo aquilo que, por um momento, evocam, no instante seguinte deixa de se assemelhar a si próprio e se transforma em algo de definitivamente outro.
(álbum integral aqui)
Em primeiro lugar a(s) voz(es): Dawn McCarthy faz pensar em Mimi Goese (a solo e com os gloriosos e insubstituivelmente desaparecidos Hugo Largo com quem, aqui e ali, Faun Fables tem pontos de contacto), em Kristin Hersh, às vezes, até em Grace Slick; Frykdahl lembra uma impossível combinação do Bowie mais teatral e cabarético com Tom Waits. Não terão reparado mas, um segundo antes de ter colocado o último ponto final, já a enunciação de todos estes nomes deixou de fazer qualquer sentido. Depois a música, ela mesma: se "Rising Din" parece uma reconfiguração de "Ma Mort", de Jacques Brel, "Mouse Song" adapta uma "melodia tradicional suiça", a avassaladora "Carousel With Madonnas" traduz e reinventa sob um temporal uma canção polaca de Zygmunita Koniezcyniego e "Eternal" é a versão de um tema de Brigitte Fontaine. Antes, depois e durante, por entre flautas, violoncelos, guitarras, vibrafones, glockenspiels, orgãos e coros litúrgicos, pairam os espectros da folk-de-sessão-espírita, dos King Crimson, de vozes de crianças italianas num pátio de escola, deste mundo e, literalmente, do outro. Há duas frases de duas canções que poderiam sintetizar todo o disco: uma é "too new to be cautious or wise, falls into danger with an innocent eye", de "Preview"; a outra, "from root to belly, hair to thorn, I break the mirror to be reborn", de "Poem 2". Indiscutivelmente, um dos grandes discos do ano. (2004)
03 April 2007
Neko Case- Blacklisted

Foi em A New Coat Of Paint — um francamente medíocre álbum de homenagem a Tom Waits de 2000 — que, pela primeira vez, escutei Neko Case. Numa colecção de versões que nem sequer se esforçava muito por estar à altura do tornozelo do homenageado, o "Christmas Card From A Hooker In Minneapolis", de Neko Case (juntamente com Lydia Lunch em "Heartattack And Vine", Sally Norvell em "Please Call Me, Baby", Carla Bozulich em "On The Nickel" e Eleni Mandell em "Muriel"), era uma das bastante poucas manifestações de talento e individualidade de uma gravação que valia só pelo contingente feminino. E, por acaso, delas todas, era, de longe a melhor.

Blacklisted, o seu terceiro álbum e primeiro a ser distribuido em Portugal, é aquilo a que, em rigor, é obrigatório chamar "uma revelação". Um catalogador preguiçoso designá-lo-ia como "alt.country" e, logo a seguir, mereceria ser fuzilado. Porque não só é muito mais do que isso como, na verdade, é o género de música que deveria ter jorrado em permanência do juke-box no bar de Twin Peaks ou que poderia servir de banda sonora para um álbum de fotografias de Robert Frank:
melodias memoravelmente assombradas, guitarras em registo "twangy" — pensem em Nick Cave cruzado com Badalamenti —, atmosferas "noir" a trespassar os textos ("Fluorescent lights engage like birds frying on a wire, same birds that followed me to school when I was young, were they trying to tell me something, were they telling me to run?"), a brigada Giant Sand/Calexico (Howe Gelb, Joey Burns, John Convertino) a desenhar os cenários e, sobre tudo isso, a fabulosa voz de Neko, uma espécie de Kristin Hersh com muito mais estrogénios, a apresentar a candidatura a Patsy Cline do novo milénio. Até porque o caldo de cultura é sensivelmente o mesmo, recomenda-se a escuta antes ou depois de The Listener, de Howe Gelb. E é deveras difícil dizer qual dos dois é mais indispensável. (2003)
Foi em A New Coat Of Paint — um francamente medíocre álbum de homenagem a Tom Waits de 2000 — que, pela primeira vez, escutei Neko Case. Numa colecção de versões que nem sequer se esforçava muito por estar à altura do tornozelo do homenageado, o "Christmas Card From A Hooker In Minneapolis", de Neko Case (juntamente com Lydia Lunch em "Heartattack And Vine", Sally Norvell em "Please Call Me, Baby", Carla Bozulich em "On The Nickel" e Eleni Mandell em "Muriel"), era uma das bastante poucas manifestações de talento e individualidade de uma gravação que valia só pelo contingente feminino. E, por acaso, delas todas, era, de longe a melhor.
Blacklisted, o seu terceiro álbum e primeiro a ser distribuido em Portugal, é aquilo a que, em rigor, é obrigatório chamar "uma revelação". Um catalogador preguiçoso designá-lo-ia como "alt.country" e, logo a seguir, mereceria ser fuzilado. Porque não só é muito mais do que isso como, na verdade, é o género de música que deveria ter jorrado em permanência do juke-box no bar de Twin Peaks ou que poderia servir de banda sonora para um álbum de fotografias de Robert Frank:
melodias memoravelmente assombradas, guitarras em registo "twangy" — pensem em Nick Cave cruzado com Badalamenti —, atmosferas "noir" a trespassar os textos ("Fluorescent lights engage like birds frying on a wire, same birds that followed me to school when I was young, were they trying to tell me something, were they telling me to run?"), a brigada Giant Sand/Calexico (Howe Gelb, Joey Burns, John Convertino) a desenhar os cenários e, sobre tudo isso, a fabulosa voz de Neko, uma espécie de Kristin Hersh com muito mais estrogénios, a apresentar a candidatura a Patsy Cline do novo milénio. Até porque o caldo de cultura é sensivelmente o mesmo, recomenda-se a escuta antes ou depois de The Listener, de Howe Gelb. E é deveras difícil dizer qual dos dois é mais indispensável. (2003)
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