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28 November 2018



"Lady Melania wanted to send a message. 'Take the blood of my enemies and paint the trees. Send it to the village for the Winter Harvest Festival as warning. Let no one ever cross me again. Be Best'. 'Be Best, my Lady', the underling replied and scurried away"

03 May 2011

ATÉ AO SILÊNCIO




















The Unthanks - Last

A gravura da capa de Last (informam as Unthanks, no "booklet") é uma ilustração de Winslow Homer – artista americano que viveu durante dois anos em Inglaterra pintando os pescadores do Nordeste –, para uma edição da “Harper’s Weekly”, de 1863. E, numa entrevista, explicaram que se trata do seu equivalente para “aquela tremenda capa com o comboio a vapor de Modern Life Is Rubbish, dos Blur”. É o género de confissão que, dando ar de coisa apenas trivial, ajuda a compreender mais profundamente a essência do grupo das manas Rachel e Becky e, de facto, a sintetiza em pouquíssimas palavras – imagem “antiga” (de baile galante) como moldura visual para uma colecção de canções tradicionais e contemporâneas que, se não repete que “a vida moderna não presta”, deixa (nas palavras de Adrian McNally, referindo-se à sua canção-título e único original do disco) uma outra interrogação bem mais inquietante: “A intenção não é afirmar quão maravilhoso foi o passado mas perguntar por que motivo o futuro não parece nada brilhante”.



A verdade é que, nos últimos anos, o futuro nunca foi tão risonho como agora para a música de raiz tradicional britânica, com conquista de troféus e nomeações para shortlists dos Brit Awards e do Mercury Prize a medalhar currículos. Tanto na variante "nu-folk" (a dos Mumford & Sons, Laura Marling, Johnny Flynn e cúmplices vários,) como no nicho quase privativo que as Unthanks delimitaram para si sem que isso as impedisse de viajar até à Etiópia com Damon Albarn integradas na última expedição do “Africa Express” (iniciativa de ecumenismo "world-music" criada pelo ex-Blur), de colaborar com Colin Firth (e, entre muitos outros, Ben Kingsley, Rupert Everett, Arundhati Roy e Laura Marling) no documentário/espectáculo de palco, The People Speak, de participar, juntamente com Adrian Utley, dos Portishead, numa recriação da Beggar’s Opera, dirigida por Charles Hazlewood, ou de se apresentarem na Union Chapel, de Londres, com um reportório exclusivamente constituído por canções de Robert Wyatt e Antony Hegarty. Mas, mesmo que, provavelmente, não desconhecendo aquilo que Bernard Shaw dizia acerca da capacidade de aprendizagem da espécie (“Na História, aprendemos que o homem nunca aprende nada com a História”), persistindo sempre numa espécie de pedagogia assente na sedução da música tradicional e das outras que para esse território conduzem.



No anterior e magnífico Here’s The Tender Coming (2009), o murro no estômago era "The Testimony Of Patience Kershaw", relato aterrador sobre a exploração selvagem dos operários mineiros do penúltimo século. Aqui, em cenário idêntico, os sete minutos de "Close The Coalhouse Door", em registo folk revisto por Steve Reich d’après Satie, ampliam o pesadelo até ao limite do tolerável. Até aí, entretanto, repetindo o bom hábito de transfigurar reportório alheio, envolvem de fumo, neblina e brocado de cordas ‘"No One Knows I’m Gone", de Tom Waits, como se Alice Liddell fosse uma "lassie" da Northumbria; delicadamente, quase perversamente, adensam ainda mais as trevas (“Sundown dazzling day, gold through my eyes, but my eyes turned within, only see starless and bible black”) de "Starless", dos King Crimson; e, do fúnebre lamento de "Give Away Your Heart" à sobrenatural assombração de "Gan To The Kye", passo a passo, reduzem ao silêncio o universo à volta.

(2011)

12 May 2007

WHERE ANGELS FEAR TO TREAD



Buffalo 66 - Vários (BSO do filme realizado por Vincent Gallo)

Há poucas coisas tão intrinsecamente perfeitas como aqueles raros momentos de cinema em que imagens e banda sonora se articulam (deixem-me ser pretensioso) numa pura manifestação epifânica. Em Buffalo 66, há, pelo menos, dois, o que, convenhamos, não é propriamente a norma daquilo que se observa nos ecrãs. No primeiro, Ben Gazzara, em "playback" tocado pela mão de Deus no momento em que Ele caligrafava um sublime palimpsesto visual sobre a voz de Vincent Gallo Sr. possuida pela assombração apaixonada de "Fools Rush In" (o lugar "where angels fear to tread"), converte a já samaritana Layla/Wendy Balsam/Christina Ricci ao supremo princípio da submissão perante o amor. No outro, é ela mesma que, quando a lua a ilumina através da noite que, inesperadamente, desce sobre um salão de "bowling", ensaia uma "tap dance" metafísica em torno do cenário musical de "Moonchild", dos King Crimson.



Ben Gazzara/Jimmy é suburbano, pai, putativo sogro, triste, desgraçado e oleoso. Christina/Wendy fica muito longe de corresponder às medidas oficiais das sereias do desejo. Mas, tanto um como o outro, demonstram sem remissão os "mysterious ways" de acesso ao divino.
De Buffalo 66, foram estes os dois instantes que, ao mesmo tempo, os meus olhos e os meus ouvidos guardaram para sempre. Depois, há também o inominável "Heart Of Sunrise", dos Yes, transformado em alucinação de pesadelo para "sleazy strip joint" à beira do golpe final. Nunca me ocorreria essa associação. O que só comprova que Vincent Gallo (tal como acontece na imaterial transfiguração do pirosíssimo "Moonchild") vê muito mais longe do que a maioria de nós.



Quanto ao resto, o CD com a banda sonora do filme (essencialmente da responsabilidade do próprio Vincent Gallo — músico nos Plastics e, depois, com Jean Michel Basquiat nos Gray, pintor, vendedor de guitarras em Long Island, modelo de Avedon e Yamamoto, actor em dezassete filmes, primeiro B-Boy branco na "posse" NY Breakers, produtor de televisão, vencedor de 88 troféus em motos fórmula 2, proprietário de uma colecção de quinze mil discos, sete mil filmes e de um potencial museu de aparelhagens de alta fidelidade) assegura-me que aqueles sons estavam lá. Confesso que não os escutei quando vi Buffalo 66. O que, muito provavelmente, é um sério elogio para a banda sonora "invisível" de uma história em que as personagens jogam ao toca-e-foge com as emoções e com o pavor de as sentir e, nesse labirinto, quase todas se perdem e (acreditemos na ilusão) apenas duas se encontram. Ouve-se o disco apenas porque se viu o filme e, porque se viu o filme, o disco tem obrigatoriamente de ser ouvido. (1999)