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14 April 2021


(sequência daqui) O hip hop, como os blues, pode já não ser exclusivamente negro e Django Reinhardt, guitarrista cigano franco-belga, pode ter tocado com Coleman Hawkins e Duke Ellington, mas o ponto de vista não se deixa abalar: “É verdade. Mas eu desejaria que os Rolling Stones, os Led Zeppelin e o Paul Simon (o David Byrne é um caso um pouco diferente), em vez de se colocarem tão à defesa quando se lhes aponta o facto de se terem obviamente alimentado das músicas negras, aproveitassem a oportunidade de terem tantos relacionamentos multi-raciais – e, sem dúvida, existe esse desejo espontâneo de se misturarem e tocarem uns com os outros – para abordar o problema. Imagine se o Keith Richards tivesse dito ‘Tudo o que faço baseia-se na experiência de pessoas negras que eu nunca serei capaz de compreender’... Porque era bastante natural que os blues e o rhythm’n’blues tivessem uma ressonância na vida de miúdos ingleses pobres da altura. Mas teria sido muito diferente se ele acrescentasse ‘Vou dedicar a minha voz, o meu dinheiro, a minha energia e a minha projecção pública à justiça racial’. Vivemos num mundo que favorece as pessoas brancas. Tem sido assim há centenas de anos. Isto não significa que o racismo seja culpa minha. Mas disponho de uma excelente oportunidade para falar sobre o meu papel relativamente a ele. Recordo-me de que, quando o Bruce Lee veio até à Califórnia para dar aulas de kung fu a toda a gente, negros incluídos, houve uma grande resistência da comunidade local acerca de quem poderia ser autorizado a participar. Importante é termos consciência de que as pessoas de côr neste país não estão dispostas a continuar a viver desta forma”. (segue para aqui)

25 October 2011

ADMIRÁVEL CAOS




Tom Waits - Bad As Me

Quando, em Março deste ano, com Neil Young na qualidade de anfitrião, Tom Waits foi admitido no Rock’n’Roll Hall Of Fame – o equivalente, na circunstância, à canonização pela Vaticano S.A. dos possuidores de superpoderes – fez questão de marcar distâncias relativamente aos perigos da institucionalização, declarando “Dizem-me que não tenho êxitos e que não é fácil trabalhar comigo... como se isso fosse um defeito!...” e, na sua muito privada forma de descrever o que é ser músico, acrescentou “As canções são apenas coisas interessantes que podemos fazer com o ar”. Como é habitual, poupa-nos trabalho: a personagem (razoavelmente estável ainda que em permanente evolução) fica suficientemente caracterizada e, daí em diante, trata-se apenas de encaixar os novos dados nos espaços livres da tabela periódica waitsiana.



Bad As Me – que, tal como Tom Waits provavelmente gostaria que acontecesse, já alguém (des)entendeu como “Bad Ass Me” –, por exemplo: décimo sétimo álbum de estúdio, sete anos após Real Gone (classificação mais elevada de sempre, no “Billboard”: #28) e cinco depois do esplendoroso compêndio de raridades extraviadas em formato triplo, Orphans: Brawlers, Bawlers & Bastards. Novíssima jóia que, antes de ser polida em estúdio, foi registada num gravador de cassetes “do tamanho da minha mão; é como fazer um desenho nas costas de um cartão de visita: não passa de uma tela”. E cujas habitantes “feitas com o ar” são apenas hipóteses estéticas de circulação rodoviária (“Com uma canção, construímos estradas em que, se tudo correr bem, outras pessoas viajarão”) que é indispensável localizar e capturar: “Temos de estar sempre à coca porque elas escondem-se. Fellini dizia que a morte se esconde nos relógios. Quem sabe onde se escondem as canções? Eu não”.



Terá sido até, talvez, ao flexível formato de Orphans... que Bad As Me foi procurar o design do bengaleiro onde dependurar cada tema que, entre revisitações convenientemente marinadas em ácido sulfúrico do romantismo dos anos-beatnik da Asylum (filão já explorado, sob apneia, em Alice, de 2002) e colisões frontais com o outro Waits (o do genialmente implacável Blood Money, publicado simultaneamente com Alice) sempre em risco de entrar em combustão espontânea, arruma, em explosiva contiguidade, desarmantes vulnerabilidades fora-de-horas com melodias de mel arrancadas ao granito, pianos ébrios e acordeões, como "Pay Me", "Back In The Crowd", "Last Leaf", "Kiss Me" (“I want to believe our love’s a mystery, I want to believe our love’s a sin, oh will you kiss me like a stranger once again”), ou "New Years’Eve" (com "Auld Lang Syne" a fazer de refrão e tudo) e selváticos massacres sonoros da estirpe de "Hell Broke Luce" (“When I was over here I never got to vote, I left my arm in my coat, my mom she died and never wrote, we sat by the fire and ate a goat, just before he died he had a toke, now I’m home and I’m blind and I’m broke, what is next?”), "Satisfied" (com língua de fora aos Stones: “Now Mr. Jagger and Mr. Richards, I will scratch where I’ve been itching”), "Get Lost", "Bad As Me", "Raised Right Men" ou caneladas disfarçadas de crooning (“We bailed out all the millionaires, they’ve got the fruit, we’ve got the rind”). A troika de guitarras – Marc Ribot, Keith Richards, David Hidalgo – provoca infinitamente mais danos do que a (menos desejável) outra, e o resto do temível corpo de intervenção (Casey Waits, Charlie Musselwhite, Larry Taylor, Augie Meyers, Flea,) assegura que, se nenhuma pedra fica sobre pedra, o caos que daí resulta é absolutamente admirável.

(2011)

20 June 2010

MOMENTOS DE LUTO (I)


(clicar para ampliar)

"Stanley Goldfarb morreu e os familiares e a congregação reuniram-se para uma noite de orações e palavras de luto. Quando chegou o momento de a congregação fazer os elogios fúnebres, ninguém se mexeu. Depois de esperar vários minutos, o rabino ficou irritado; recordou aos presentes que tinham o dever de encontrar algo de bom para dizer em memória de Goldfarb.

- Alguém deve ter uma coisa simpática para dizer sobre ele!

Depois de outro período de silêncio, um velhote que estava sentado ao fundo da igreja levantou-se e gaguejou:

- Posso dizer isto pelo velho Stanley: o seu irmão Morris era pior". (Heidegger e um Hipopótamo Chegam às Portas do Paraíso, Thomas Cathcart & Daniel Klein)

(2010)

31 May 2008

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXXVI)



"É verdade que a minha música se tem tornado cada vez mais despojada. Até se reduzir quase só a uma frase. Sinto necessidade de qualquer coisa rudimentar, fundamental. Actualmente, prefiro escrever sem nenhum instrumento, só com a minha voz. E estalando os dedos. Isso liberta-me da tirania do teclado ou da escala da guitarra. A perfeição é inimiga do bom. Repare na pop: actualmente, parece o Exército de Salvação, uma troca de trapos velhos. Mesmo que se coloque dezassete instrumentos numa canção, ela continuará desencarnada. O que faz falta são canções. O que é superficial desaparecerá. No hip-hop, uma bateria e um órgão podem chegar. São simétricos, satisfatórios. E quais são as raízes do hip-hop? Os blues.

(...)

"Descobri os blues quando era miúdo, ainda que os artistas mais importantes para mim fossem os tipos da country: Johnny Horton, Bobby Bare, Marty Robbins. Foi uma transmissão filial: em San Diego, vivia ao nosso lado uma família de boémios, entre os quais um leiteiro estranho. O meu pai e ele trocavam discos. E o organista da igreja era doido por blues. A música difundia-se através da rádio, do boca-a-boca, dos viajantes. Hoje em dia, é muito mais simples descobrir coisas, na minha opinião, simples de mais até. Sentamo-nos ao computador e podemos encontrar tudo o quisermos sobre qualquer artista. Há muito mais do que o necessário e não é preciso fazer nenhum esforço. Não digo que seja forçosamente mau. Mas, para criar, é necessário batermo-nos por isso, perdermo-nos, dissiparmo-nos. Ser músico é tentar invocar a sorte. Agrada-me muito a ideia de combater um inimigo invisível. Se, ao fim de um dia no estúdio, não estou de gatas e com os cabelos em pé, é porque a coisa não correu nada bem.

(...)



"Encontrei-me com o Bukowski uma ou duas vezes. Foi mais ou menos como quando conheci o Keith Richards, procurei enfrentá-los copo a copo. Mas, ao pé daqueles tipos, é-se sempre um principiante, uma criança. Estamos a beber com piratas de longo curso. É melhor esquecer tudo o que julgamos saber acerca de beber sem cair para o lado. Estava convencido que lhes podia dar luta mas, tanto com um como com o outro, nem lá perto cheguei. São feitos de outra massa. Parecem estivadores. Mas foi muito interessante.

(...)

2006



(2008)