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26 April 2026

NÃO SERÁ UM ACASO

No início de 2023, aquando da publicação de Anadolu Ejderi, da turca Gaye Su Akyol, foi oportunidade para parar um pouco e reflectir sobre o imenso e maravilhoso mundo que, ao longo dos anos, fomos capazes de ir descobrindo sempre que nos demos ao trabalho de espreitar para lá dos muros do nosso quintal. Recordámos, então, a afegã Elaha Soroor, a saudita-paquistanesa Arooj Aftab e a israelo-iraniana Liraz, o - pelos piores motivos - recém-descoberto universo ucraniano (Folknery, DakhaBrakha, Torbán, Dakh Daughters, Joryj Kloc) ou o inesgotável baú das inúmeras variantes chinesas contemporâneas. Na verdade, era apenas uma actualização do que já antes, em Setembro de 2021, havia sido recenceado: preciosidades como Le Mystère des Voix Bulgares, Les Nouvelles Polyphonies Corses, Cocanha, San Salvador, Lankum, John Francis Flynn, Lisa O'Neill e Stick In The Wheel. Podemos, pois - enquanto as occitanas Cocanha não nos revelam o seu último álbum ("Flame Folclòre") e as estonteantes napolitanas La Niña não nos oferecem uma oportunidade de, ao vivo, nos fazer levitar ao som de Furèsta -, ir abrindo uma vaga para o quarteto integralmente feminino Seera, oriundo de Riade, capital da Arábia Saudita, estado islâmico no qual a condição feminina não é propriamente exemplar. (daqui: segue para aqui)

Seera - "Shams"

02 January 2023

UM METEORO TURCO
Sem que se tenha dado muito por isso (sempre melhor do que irromper num foguetório de "hype" que, mal explode, logo se fina), alguma da mais surpreendente música dos últimos anos tem surgido no exterior das habituais coordenadas anglo-americanas. Do óptimo Songs Of Our Mothers (2019), da afegã Elaha Soroor, a Vulture Prince (2021), da saudita-paquistanesa Arooj Aftab, ou a Roya (2022), da israelo-iraniana Liraz – por coincidência (ou não), três mulheres oriundas de quadrantes onde a condição feminina é encarada sob uma perspectiva menos que medieval –, não houve muita outra música que tivesse valido tanto a pena descobrir. Excepções apenas (também no exterior das fronteiras do “império”) para aquela que a selvática invasão russa da Ucrânia nos chamou a atenção – os belíssimos Folknery, DakhaBrakha, Torbán, Dakh Daughters, ou Joryj Kloc – e para o inesgotável universo sonoro da China contemporânea. Abra-se alas, então, para a turca Gaye Su Akyol, autora de Anadolu Ejderi (Dragão da Anatólia). (daqui; segue para aqui)

"İstersen Hiç Başlamasın"

06 September 2021

FRONTEIRAS, ORIGENS
 

Desde que, na noite 29 de Junho de 1987, no Empress of Russia (um já defunto pub de Islington, no Norte de Londres), um grupo de representantes de editoras independentes, organizadores de concertos e jornalistas – correndo, embora, o risco de guetização de tudo o que não era ocidental, pop, rock ou jazz – cunhou a designação “world music” para englobar o que, até aí, se chamava “folk”, “trad” ou “roots”, todo um novo espaço se abriu e nos permitiu o acesso mais fácil a preciosidades como Le Mystère des Voix Bulgares, a experiências de cruzamento multicultural como Les Nouvelles Polyphonies Corses (de Hector Zazou) ou a muito do que a Real World, de Peter Gabriel, ou a Luaka Bop, de David Byrne, publicaram. Com períodos de maior ou menor fulgor, nos últimos anos, o ritmo de descobertas valiosas tem-se intensificado com os belíssimos álbuns de Sam Lee, Elaha Soroor & Kefaya, Cocanha, San Salvador, The Rheingans Sisters, Lankum, Stick In The Wheel ou até 33EMYBW, Hai Qing & Li Xing, e Guzz da quase totalmente ignorada China. Vulture Prince, de Arooj Aftab, é mais outro óptimo exemplo de uma forma de abordar a música que, se ignora as fronteiras, conhece bem as suas origens. (daqui; segue para aqui)
 
"Mohabbat"

26 December 2019

MÚSICA 2019 - INTERNACIONAL (IV)

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 40)























 




 



* a ordem é razoavelmente arbitrária...

Esqueçam a lista de dez que acabaram de ler. Não só a ordenação é consideravelmente arbitrária como, nos lugares que esses ocupam, se escolhidos noutro dia e a outra hora, poderiam, sem grande esforço, residir outros tantos igualmente valiosos. Para que constem: Robert Forster – Inferno, Bill Callahan – Shepherd In A Sheepskin Vest, The Monochrome Set – Fabula Mendax, Trash Kit – Horizon, Vanishing Twin – The Age of Immunology, Trupa Trupa – Of the Sun, Modern Nature – How to Live, Laurie Anderson – Songs From The Bardo, Gauche – A People’s History of Gauche, Jesca Hoop – Stonechild, The Delines – The Imperial, Sunwatchers – Illegal Moves, Sleater-Kinney – The Center Won’t Hold, School of Language – 45, Rickie Lee Jones – Kicks, Edwyn Collins – Badbea, Filthy Friends – Emerald Valley, Sean O’Hagan – Radum Calls, Radum Calls, Divine Comedy – Office Politics, Orchestra of Spheres – Mirror. Sim, foi um ano muito bom.

22 October 2019

ROSA DOS VENTOS


Elaha Soroor estava num beco sem saída. Filha de exilados afegãos no Irão que só haviam regressado ao seu país quando o regime taliban, em 2001, foi derrotado, a atmosfera social e política que lá se vivia continuava a ser muito longe de ideal. Participante, em 2009, no programa televisivo de "descoberta de talentos”, “Afghan Star” - equivalente local do "Ídolos" - , rapidamente se tornaria alvo de várias e perigosas discriminações: enquanto mulher e cantora (uma condição moralmente intolerável aos olhos dos muçulmanos mais implacavelmente severos e da própria família) e como elemento da etnia Hazara, historicamente celebrada pela música e poesia mas, nem por isso, menos estigmatizada e perseguida. Após a publicação de "Sangsar", uma canção que denunciava a prática selvagem do apedrejamento das mulheres, as ameaças de morte escalaram e, com 18 anos, não teve outra solução a não ser a fuga de casa, acompanhada pela irmã. “Ninguém alugava um apartamento ou um quarto a uma mulher sozinha e, se me reconhecessem, seria obrigada a partir imediatamente. Acabei por ter de cortar o cabelo, usar roupas masculinas largas e fingir ser um rapaz. Durante algum tempo o truque resultou e podia caminhar livremente na rua. Foi muito bom desfrutar dessa liberdade. Mas vivia no medo constante de ser morta. Decidi que tinha de abandonar o Afeganistão: para salvar a vida e poder explorar a música”



O destino foi o Reino Unido onde se cruzaria com Al MacSween (teclista) e Giuliano Modarelli (guitarrista), aliás, Kefaya, antena permanentemente sintonizada nas “músicas do mundo”, no jazz, rock, electrónica e "dub", núcleo de “um grupo eclético de imigrantes” confessadamente alimentado por Angela Davis, Edward Said, Ken Loach, Frida Kahlo e Karl Marx, em frontal oposição às “grilhetas dos nacionalismos que pretendem confinar-nos dentro de fronteiras, 'checkpoints' e muros”. O resultado desse encontro foi o formidável Songs of Our Mothers, lugar de explosão de uma colecção de canções tradicionais afegãs onde, às belíssimas contribuições de Elaha, MacSween e Modarelli, se junta uma admirável rosa dos ventos sonora constituída por Manos Achalinotopolous (clarinete), Yazz Ahmed (fliscorne), Sarathy Korwar (tabla/dolak), Tamar Osborn (sax barítono), Sardor Mirzakhojaev (dambura), Gurdain Singh Rayatt (tabla), Jyotsna Srikanth (violino), Camilo Tirado (live electronics) e Sam Vicary (contrabaixo e baixo eléctrico), dedicada a “desmantelar todos os estereótipos de género, nacionalidade, raça, e estilo musical”.