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03 November 2022


"EL - A mudança passará tanto pelos movimentos sociais como pela arte ou pelo voto. Em contrapartida, não penso que se deva procurar o bem comum, mas sim as fracturas, as oposições, as tensões, que de qualquer modo existem. Porque o bem dos dominados será possível contra o que os dominantes vêem como sendo o seu bem. Não é o bem comum, é a melhoria da vida dos que sofrem, contra aqueles que têm tudo" (Diálogo Sobre Arte e Política - Ken Loach/Édouard Louis)

22 October 2019

ROSA DOS VENTOS


Elaha Soroor estava num beco sem saída. Filha de exilados afegãos no Irão que só haviam regressado ao seu país quando o regime taliban, em 2001, foi derrotado, a atmosfera social e política que lá se vivia continuava a ser muito longe de ideal. Participante, em 2009, no programa televisivo de "descoberta de talentos”, “Afghan Star” - equivalente local do "Ídolos" - , rapidamente se tornaria alvo de várias e perigosas discriminações: enquanto mulher e cantora (uma condição moralmente intolerável aos olhos dos muçulmanos mais implacavelmente severos e da própria família) e como elemento da etnia Hazara, historicamente celebrada pela música e poesia mas, nem por isso, menos estigmatizada e perseguida. Após a publicação de "Sangsar", uma canção que denunciava a prática selvagem do apedrejamento das mulheres, as ameaças de morte escalaram e, com 18 anos, não teve outra solução a não ser a fuga de casa, acompanhada pela irmã. “Ninguém alugava um apartamento ou um quarto a uma mulher sozinha e, se me reconhecessem, seria obrigada a partir imediatamente. Acabei por ter de cortar o cabelo, usar roupas masculinas largas e fingir ser um rapaz. Durante algum tempo o truque resultou e podia caminhar livremente na rua. Foi muito bom desfrutar dessa liberdade. Mas vivia no medo constante de ser morta. Decidi que tinha de abandonar o Afeganistão: para salvar a vida e poder explorar a música”



O destino foi o Reino Unido onde se cruzaria com Al MacSween (teclista) e Giuliano Modarelli (guitarrista), aliás, Kefaya, antena permanentemente sintonizada nas “músicas do mundo”, no jazz, rock, electrónica e "dub", núcleo de “um grupo eclético de imigrantes” confessadamente alimentado por Angela Davis, Edward Said, Ken Loach, Frida Kahlo e Karl Marx, em frontal oposição às “grilhetas dos nacionalismos que pretendem confinar-nos dentro de fronteiras, 'checkpoints' e muros”. O resultado desse encontro foi o formidável Songs of Our Mothers, lugar de explosão de uma colecção de canções tradicionais afegãs onde, às belíssimas contribuições de Elaha, MacSween e Modarelli, se junta uma admirável rosa dos ventos sonora constituída por Manos Achalinotopolous (clarinete), Yazz Ahmed (fliscorne), Sarathy Korwar (tabla/dolak), Tamar Osborn (sax barítono), Sardor Mirzakhojaev (dambura), Gurdain Singh Rayatt (tabla), Jyotsna Srikanth (violino), Camilo Tirado (live electronics) e Sam Vicary (contrabaixo e baixo eléctrico), dedicada a “desmantelar todos os estereótipos de género, nacionalidade, raça, e estilo musical”.

12 October 2010

NOIR LIGHT



Cherry Ghost - Beneath This Burning Shoreline

Existia aqui, talvez pela primeira vez, o concentrado de ingredientes necessário que permitiria dar o passo decisivo do conceito (já um pouco estafado) de “banda sonora para filme imaginário” para o de “banda sonora para filme imaginário que dispensa por completo o imaginário filme”. Se o primeiro e muito louvado álbum dos Cherry Ghost (Thirst For Romance, 2007), nas palavras de Simon Aldred, "mastermind" da banda, fora concebido segundo as coordenadas “Willie Nelson meets Walt Disney”, este opta por se situar em pleno centro do território onde o "southern gothic" faz um pacto de sangue com o "film noir", abençoado pela figura tutelar de Ken Loach. Afinal, nada de exótico ou anacrónico, di-lo, em Film Noir and The Cinema Of Paranoia (2009), Wheeler Winston Dixon, sem nunca ter ouvido os Cherry Ghost: “Esta é a idade do 'film noir'. Apesar de o género datar do final dos anos 1930 e início dos 1940, as suas obsessões com o desespero, o falhanço, o engano e a traição são, sob muitas formas, mais premonitórias no século XXI do que na sua origem”. E, porque Aldred escreve como quem via O Terceiro Homem e escutava a leitura de Flannery O’Connor enquanto mamava no biberão (“In a certain light, your face could launch a bareknuckle fight” ou “we sleep on stones, there’s a killer in our homes thar drives the night in” não são para todos) e tem as referências certas e devidamente catalogadas, existem argumento completo, personagens definidas e cenários escolhidos. O que falha, então? Tragicamente, a banda sonora: onde se deveriam escutar Cash, Cave, Scott Walker ou Tindersticks, o empolamento orquestral escorrega, desastradamente, para a ligeireza Coldplay. Sim, tão grave quanto isso. Quase apetece suplicar: vá, tentem lá outra vez.

(2010)