SE NÃO RESISTIRMOS
Não é, de modo nenhum, um exagero
voltar a escrever sobre
Songs of Resistance 1942 – 2018, o álbum que Marc Ribot (juntamente com Tom Waits, Steve Earle, Meshell Ndegeocello, Fay Victor, Tift Merritt, Sam Amidon, Justin Vivian Bond, Ohene Cornelius, Syd Straw e Domenica Fossati), sentiu a urgência de gravar, imediatamente após a eleição de Donald Trump:
“Os meus avós perderam irmãos, irmãs, primos, tias e tios no Holocausto e eu tenho amigos na Rússia e na Turquia, por onde viajei: sabemos bem quem é Trump e não é nenhum mistério onde acabaremos se não resistirmos. (...) A resistência – não apenas o protesto que, por definição, reconhece a legitimidade do poder a que se dirige – tinha de ser planeada. Sou músico, iniciei, então, a minha prática de resistência pela música”.
Particularmente esclareceder dessa urgência é o que, na contracapa do CD, se pode ler acerca da intérprete da canção popular mexicana
"Rata de Dos Patas" (composta por Manuel Eduardo Toscano a propósito do Presidente mexicano, Carlos Salinas de Gortari, e originalmente cantada por
Paquita la del Barrio, mas, aqui, remetida para destinatário temporariamente residente na Casa Branca):
“Devido ao receio de que a retaliação do regime de Trump pudesse ameaçar o seu visto de emigrante, a vocalista desta gravação pediu que fosse omitida qualquer referência à sua identidade. Não duvidamos que os seus receios são inteiramente justificados, por isso, actuámos de acordo com o seu desejo. Ficamos-lhe gratos pela maravilhosa interpretação e pela coragem de, apesar de tudo, ter participado na gravação. E ansiamos pelo dia em que a expressão política e artística não mais esteja sob a ameaça de uma repressão tão vingativa e racista. Venceremos!” Porém, embora admitindo que
“os arranjos e as canções neste disco foram escritos e executados, abertamente, como agitprop”, isso não excluiu a intenção de que conseguissem actuar em diversos níveis: dispensando a veneração perante a
“autenticidade histórica” e recorrendo a todas as matérias-primas – do free-jazz à country, ao cancioneiro antifascista e ao rock, à citação da poesia e textos de Yeats, Ginsberg, Pete Seeger, do economista Nicholas Stern, do
“New Colossus” (de
Emma Lazarus), do Génesis, ou à colagem de fragmentos de notícias e palavras de ordem escutadas nos protestos de rua –,
Songs of Resistance 1942 – 2018 é a concretíssima demonstração de como, no século XXI e sempre que necessário, a música de perfil político continua de belíssima saúde estética e militante.