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19 October 2022

"My Blood"

(sequência daqui) “Para mim, é tudo exactamente igual a quando Alan Lomax andava por todo o mundo a descobrir as músicas locais. As canções estão aí para ser colhidas”, dizia ela à WNYC. Isto, enquanto, com Greg Ahee e Michael Wallace, alimentava a fogueira dos Bloodslide, trio pós-punk de incandescências elétricas. Agora, em Dirt! Soda!, continuando rodeada de gente dos círculos privados de Bill Laswell, Julia Holter, Yves Tumor e Joan As Policewoman, à excepção de "Strings of Nashville", dos Pavement, e "Broken Hearted Wine", dos Codeine (fundidas numa liga metálica única), e de "Then You Can Tell Me Goodbye", de The Casinos, AJ assina todos os outros temas. E o que se escuta é coisa hipnótica de essência medularmente lynchiana, traduzida e expandida para o vocabulário já antes, em várias tonalidades, ensaiado por Julee Cruise, PJ Harvey, Nick Cave, Kate Bush ou Chrysta Bell.

17 February 2022


 
(sequência daqui) Entende-se melhor olhando os videos que realizou para três das canções de Metal Bird, o terceiro álbum após os ainda insuficientemente definidos In Hell (2017) e Candy Colored Doom (2019): todos a preto e branco, "Butterflies" é puro David Lynch, com Eve despreocupadamente perseguindo e fotografando borboletas pelo campo enquanto, à distância, “the grim reaper” espia; "La Ronde" captura um sonho de luzes e movimento sob a grande roda de um parque de diversões; e "Prisoner" coreografa uma claustrofobia sonâmbula observada do lado de fora da vigia de um avião. Com Bryce Cloghesy/Military Genius no papel de Angelo Badalamenti, algures entre Hope Sandoval e Julee Cruise, desde a primeira faixa Eve Adams mostra o lugar mental que habita: “Time it comes running at your heels in the dark, chasing your memory like a dog with no bark, memories of mowing lawns and pink masquerades, ruby red slippers and the song that’s the same”.

02 June 2017

SOMBRIA E ASSUSTADORA



Angelo Badalamenti deverá estar eternamente grato a Ivo Watts-Russell, o patrão da 4AD, por, sem sequer se ter apercebido disso, lhe ter proporcionado a oportunidade de tornar-se o compositor às ordens de David Lynch. Na verdade, em Blue Velvet (1986), Lynch desejava muito ter na banda sonora não apenas "Song To The Siren" (de Tim Buckley), na interpretação dos Cocteau Twins para It’ll End In Tears (1984) – o álbum do colectivo multi-artistas da 4AD, This Mortal Coil –, como pretendia que os próprios Robin Guthrie e Elizabeth Fraser figurassem no filme. Watts-Russell, porém, não foi pobre a pedir pelo licenciamento e essa hipótese foi abandonada (seria finalmente concretizada em Lost Highway, 1997, embora sem Robin e Liz no ecrã), abrindo a porta a Badalamenti.



Recrutado como "coach" vocal de Isabella Rossellini e responsável pela totalidade da BSO – que incluiria também "In Dreams", de Roy Orbison’, "Love Letters", de Ketty Lester’, e "Blue Velvet", de Bobby Vinton –, para ela, em substituição de "Song To The Siren", escreveria "Mysteries Of Love" (com texto de Lynch) e a restante música que, segundo a vontade do realizador, deveria ser “inspirada em Shostakovich, muito russa, o mais bela possível, mas, ao mesmo tempo, sombria e assustadora”. Rossellini acabaria por desistir de cantar e seria Julee Cruise, um vozeirão da Broadway devidamente domesticado e anestesiado por Badalamenti, a interpretá-la. O trio funcionou tão bem que, sem pausa, daria origem ao primeiro álbum de Julee Cruise, Floating Into The Night (1989), matriz tanto do "musical" experimental Industrial Symphony No. 1: The Dream of the Broken Hearted (1990), apresentado por duas vezes na Brooklyn Academy Of Music de Nova Iorque, como, sobretudo, da memorável banda sonora da série Twin Peaks para cuja atmosfera "noir"-narcótica contribuiu com "Falling", "Rockin' Back Inside My Heart", "Into the Night", "The Nightingale" e "The World Spins". Já na longa metragem Twin Peaks: Fire Walk With Me (1992), o triângulo Lynch/Badalamenti/Cruise apenas regressaria num tema, "Questions in a World of Blue".

23 September 2015

17 July 2012

ATÉ QUE O OUTONO REGRESSE
 

Beach House -  Bloom
 
Os Beach House têm uma canção e tocam-na e cantam-na muito bem. É, aliás, a mesma canção que já haviam repetido por dez vezes em Teen Dream (2010) e que, em igual número de sucedâneos, voltam a incluir no alinhamento de Bloom. Embora os 7 052 389 169 humanos que constituem a população do planeta (descontando Alex Scally e Victoria Legrand, o duo Beach House) no instante em que escrevo possam sentir uma natural dificuldade em o confirmar, Victoria assegura que, desta vez, se trata de uma obra sobre “o insubstituível poder da imaginação e a forma como ele se relaciona com a intensa experiência da vida”. Poderá resultar de um insanável défice no meu “insubstituível poder da imaginação” mas nunca seria devido às suas propriedades decorrentes da “intensa experiência da vida” que me ocorreria recomendá-lo como dieta sonora de Verão.


Na verdade, isso deve-se a motivos assaz diferentes: é, justamente, naqueles dias e semanas em que as elevadas temperaturas tendem a paralisar o funcionamento do cérebro, a reduzir o metabolismo até valores pouco acima do coma e as “intensas experiências de vida” não são, de todo, recomendáveis, que a música dos Beach House deverá ser considerada como terapêutica de primeira linha. Esta infusão de "dream-pop" que destila, em diluição homeopática, meia molécula de Mazzy Star e um pouco menos do que isso de Cocteau Twins (análises laboratoriais mais rigorosas conseguirão detectar outros vestígios), esta espécie de suave tinnitus benigno em regime de beatitude pós-coital que recupera as qualidades opiáceas de Julee Cruise/Badalamenti e as converte em papel de parede para moradia de férias à beira-mar é tudo o que poderíamos desejar até que o amável Outono regresse.

25 November 2008

LUXUOSA DECADÊNCIA
 
  
Marianne Faithfull - A Secret Life
 
Começa com um excerto da Divina Comédia, de Dante ("Midway this way of life we're bound upon, I woke to find myself in a dark wood where the right road was wholly lost and gone") e termina com outro da Tempestade, de Shakespeare ("We are such stuff as dreams are made of and our little life is rounded with a sleep"). Pelo meio, no decurso de "Bored By Dreams", deixa cair, quase inadvertidamente, num murmúrio, "after a certain age, every artist works with injury". Segundo se anuncia, este seria o álbum do apaziguamento de Marianne Faithfull. Será, pelo menos, o apaziguamento possível em alguém para quem a ideia de paz interior nunca foi a descrição mais adequada.
 
"Love In The Afternoon" (álbum integral aqui) 
 
E que, ao escolher para compositor das melodias que, em A Secret Life, envolvem os seus textos o mesmo Angelo Badalamenti dos pesadelos narcóticos de David Lynch e da mórbida suavidade de Julee Cruise, acertou no encenador exacto para o trecho mais recente do seu teatro privado. Como talvez se adivinhe, esta Secret Life é a de uma luxuosa decadência. Já não se debate violentamente por entre fúria e imprecações como em Broken English nem se refugia na interpretação de versões de outros como fizera em Strange Weather. Agora, num disco confessadamente acerca de "love, sex and doubt", fala na primeira pessoa, ocasionalmente socorre-se do apoio de Frank McGuiness (autor de "Someone To Watch Over Me"), mas conduz todo o percurso por portentosas cortinas orquestrais, melodias de uma enganadora serenidade clássica e um quase comprazimento na beleza infinita de uma dor que se aprendeu a apreciar. Se calhar, só um efeito do tempo e da distância que ensinaram como os sonhos podem provocar o tédio e obrigaram a compreender que "things are never what they seem, they play a part most of the time". Amarga e magnífica Marianne Faithfull. (1995)