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20 July 2024

(não sei se fui só eu a ficar surpreendido com a dedicatória: "À Ana Cristina Leonardo, ao António Araújo, ao Francisco José Viegas, ao João Lisboa e ao João Pereira Coutinho. Porque, sem saberem, me ajudaram a escrever este livro"; a propósito do uso da palavra "nigger", ver aqui)

29 May 2009

CIVILIZAÇÃO (J. P. Coutinho)

Viajo de comboio todas as semanas. Porto-Lisboa. Lisboa-Porto. São três horas de pura delícia que obedecem a ritual estabelecido. Entro em Campanhã, instalo-me no lugar. Descalço-me. As meninas da CP, que obviamente já me conhecem, não ousam servir-me um «sumo», ou um «guaraná». Passam directamente - e discretamente - para bebidas mais proteicas. Entre Campanhã e Aveiro, ponho as notícias em dia. Três jornais diários - dois portugueses, um inglês. Em quarenta e cinco minutos, eu e o mundo tratamo-nos por tu. Em Aveiro tudo muda: recosto-me na cadeira, desaperto levemente o nó da gravata e sei que, até Coimbra, não há incómodos. O telemóvel permanece confortavelmente desligado. Acordo em Coimbra. Foram quarenta minutos de ronco suave - ou, como dizem os americanos, «the beauty sleep». Faço dois ou três telefonemas (profissionais), mais dois (sentimentais) e mais um (puramente clínico). Entre Coimbra e, digamos, Santarém, vou tomando notas para artigos diversos. Uma frase. Uma ideia. Um assomo de delírio. E de Santarém a Lisboa, é o grand final: trinta ou quarenta páginas de uma biografia, de um romance, de um ensaio. Quando chego a Lisboa, com a Cavalleria Rusticana a soar triunfalmente no portátil, sinto que rejuvenesci vários anos e, mais, que aquelas três horas foram as três horas mais felizes da minha miserável semana. Sem falar da nobre arte do engate, que ganha no comboio uma dimensão de cinefilia. O bar. A inesperada companhia de viagem. Os corredores, onde se cai sempre para o lado errado. E, claro, as minúsculas e tremidas casas de banho, cujos lavatórios foram anatomicamente concebidos por Cupido lui-même. Pois bem. Este mundo vai acabar. De acordo com o optimismo do tempo, Porto e Lisboa estarão a duas horas de distância. Talvez menos. É o TGV. É a adoração orgásmica da velocidade e a ânsia doentia de chegar. A ejaculação precoce do executivo moderno, sempre pronto a trocar o avião pelo comboio - desde que o comboio, claro, seja rápido e asséptico. Esta gente vai invadir o meu paraíso. Bárbaros igualmente produzidos e vestidos, a beber «Ice Tea» (não vomitem), o cabelo empastado com resina - e uma obsessão patológica por «mercados», «montes alentejanos» e «as tetas» de uma galdéria qualquer. O TGV não me rouba apenas uma hora de prazer inofensivo. O TGV acabará por liquidar um dos últimos vestígios de genuína civilização. (aqui) (2009)

04 April 2009

HOMENS E LOBOS *
João Pereira Coutinho

* (mas o que interessa são os gatos)



Existem momentos em que fico horas a olhar para o meu gato. Com inveja, sempre com inveja. Só Deus sabe o que existe na cabeça de um felino. Mas acompanho as rotinas dele e sei, filosoficamente falando, que ele é feliz. Nós, humanos, seres temporais por excelência, vivemos aprisionados à ideia do nosso próprio fim. E, como se não bastasse essa terrível condenação, somos também incapazes de habitar cada momento inteiramente. O presente, em nós, está sempre carregado de passado e de futuro: do que fomos, das memórias que temos, do caminho e das escolhas que fizemos; e daquilo que gostaríamos de ser, ou ter, ou fazer. O presente, para nós, não é um lugar para estar. É uma breve passagem a caminho de outra breve passagem. Sempre e sempre e sempre até a despedida final. Por isso, aconselho: se quiserem entender a natureza da felicidade, comprem um gato.



E acompanhem a forma como ele cumpre as suas rotinas com entrega contida e total. Ele não espera nada, ele não deseja nada. A felicidade, para ele, não existe por adição: de objectos, experiências, lugares. Mas por repetição: ele repete as experiências que são significativas. E, em cada repetição, existe a certeza da mesma felicidade. Um gato ajuda a entender tudo isso. Mas um livro publicado recentemente reforça a ideia. Confesso: comprei o livro sem expectativas numa livraria do aeroporto de Heathrow, em Londres. Só o título despertou a curiosidade: "The Philosopher and the Wolf: Lessons from the Wild on Love, Death and Happiness" (o filósofo e o lobo: lições do selvagem sobre amor, morte e felicidade; Granta, 246 págs.). Não é manual de filosofia "ligeira". Longe disso. O livro de Mark Rowlands é uma mistura erudita de experiência pessoal e reflexão metafísica, em que Nietzsche, Heidegger e Camus têm participação direta.



Ponto de partida: certo dia, o professor Rowlands leu anúncio no jornal. Alguém vendia lobos por US$ 500. Rowlands entrou na aventura. Horas depois, a casa estava destruída pelo novo hóspede, de nome Brenin, que não poupou a mobília e as cortinas. Primeira lição: um lobo não é um cão. E, nos 11 anos seguintes e após treino apertado, Brenin foi a companhia do professor. Em casa. Na rua. Em viagem. E até nas aulas, para espanto de colegas e alunos: enquanto o professor dissertava sobre Platão e Aristóteles, o lobo dormitava ao seu lado. As aulas terminavam com um uivo. O livro de Rowlands é uma descrição pessoal de tudo isso: da relação idiossincrática de um homem com um lobo. Mas o livro de Rowlands oferece-se essencialmente como uma longa meditação sobre a natureza da felicidade humana. Ou, se preferirem, sobre a sua impossibilidade.



Impossibilidade? Precisamente. A modernidade ofereceu-se aos Homens como projecto de construção secular. Por meio da Razão, seria possível conquistar a "sorte" que tanto afligia os gregos e realizar na Terra o que a cristandade medieval apenas prometia para o Reino dos Céus. A felicidade seria uma construção individual e progressiva rumo a um fim determinado. Paradoxalmente, essa ideia libertadora apenas trouxe o seu reverso: se a felicidade era responsabilidade nossa, a infelicidade também. E, adicionalmente, se a felicidade era convertida em projecto, ela seria igualmente convertida em insatisfação interminável: jamais estaremos onde queremos estar; jamais seremos o que queremos ser; jamais teremos o que queremos ter. A felicidade moderna converteu-se numa vigília permanente: a vigília de Homens insatisfeitos; de Homens esmagados pelos seus próprios ideais de felicidade e perfeição. Viver com Brenin ensinou a Rowlands essa crucial diferença entre Homens e animais: nós vivemos mergulhados no tempo e nas nossas próprias teleologias pessoais. E a forma como desejamos sempre momentos que são posteriores ao momento presente impede-nos de viver qualquer momento de forma real e total.



A infelicidade humana não nasce da nossa ignorância ou da nossa imperfeição. Muito menos da ignorância ou da imperfeição das nossas sociedades. A infelicidade humana é um produto da nossa específica temporalidade. Resta uma questão final: serão os Homens superiores aos animais? A resposta de Rowlands talvez seja a mais honesta: depende do que entendemos por "superioridade". Sim, um lobo jamais pintaria o tecto da Capela Sistina. Mas será a Capela Sistina uma necessidade para um lobo? Ou, pelo contrário, será antes uma necessidade para nós? Uma forma de completarmos a parte que nos falta das várias partes que nos faltam? (começou aqui, na caixa de comentários, saltou para aqui, foi parar ali e ainda sobrou para aqui, com o bónus do Eliot-link que, por acaso, até tinha partido cá de casa - ou as maravilhas da Net)

(2009)