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23 March 2023

 

(sequência daqui) E não foram poucos os equívocos e controvérsias, quase todos com origem na, dir-se-ia, dupla personalidade de Bono: por um lado, magnânimo defensor de todas as causas justas do momento, brandidas em mediáticos encontros com os todo-poderosos do planeta; por outro, a deslocalização da empresa-U2 para a fiscalmente mais acolhedora Holanda (ainda que a autoridade tributária irlandesa não seja particularmente gananciosa...) o que lhe valeu ser objecto de sarcasmo em manifestações da Debt and Development Coalition Ireland nas quais, sobre a melodia de "I Still Haven’t Found What I’m Looking For", se cantava “I know avoiding tax ain’t fair, it’s just because I’m a millionaire, I don’t need to pay like you, no, I won’t pay like you, ‘cause I still will not pay to end poverty”. Ou o momento de sinergia empresarial glorificada com a Apple, quando, a 9 de Setembro de 2014, a totalidade de Songs Of Innocence foi compulsivamente descarregada em todas as contas de iTunes e 100 milhões de dólares (um bombonzinho da Apple, segundo o “Wall Street Journal”) aterravam no cofre do quarteto de.Dublin. E, também inesquecível por caricatural, o surto de empatia galopante com Lisboa e a cultura portuguesa no momento em que, no Twitter, em Setembro de 2018, entre concertos, agradeciam, embevecidos, à capital lusa o acolhimento que lhes oferecera: “Abençoada Lisboa, cidade que nos deu Ronaldo, Eusebio, Fernando Passoa, Antonio Guterres e Jose Saramango" (quatro erros de ortografia em cinco nomes e apenas dois alfacinhas reais). Delicadamente, ninguém lhes terá retorquido que, com Beckett, Wilde, Swift, Joyce e Yeats, Londres (ou será Edimburgo?) também não está nada mal servida. (segue para aqui)

13 October 2016

Não é que o Nobel da literatura seja flor que se cheire mas antes o Zimmerman que 
um qualquer Saramago


28 December 2013

29 October 2013

MATT, TOM E O BONECO DE NEVE


Segundo o Génesis, Abel, pastor de ovelhas, e Caim, lavrador, filhos dos pais fundadores, Adão e Eva, desentenderam-se porque, tendo Caim feito “do fruto da terra uma oferta ao Senhor” e Abel levado como homenagem “os primogénitos das suas ovelhas”, “o Senhor atentou para Abel e para a sua oferta, mas para Caim e para a sua oferta não atentou”. Existissem já no início dos tempos as primeiras páginas do “Correio da Manhã” e, no dia seguinte, poderia ter-se lido que, “estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou”. Qualquer Saramago vulgar, prestando um péssimo serviço à causa do ateísmo, tenderá a erguer-se, irado, invectivando Jeová ao aperceber-se que este, injustissimamente, pune Caim, expulsando-o para “leste do Paraíso”. Fará mal: de contrário, não teríamos, pelo menos, um óptimo filme de Elia Kazan (East Of Eden, 1955), extraído da obra homónima de Steinbeck, e sabe-se lá que nome teria escolhido para si a banda que gravou Mercator Projected (1969) e Snafu (1970). Mas, muito pior do que não ter entendido que o que estava realmente em jogo nesse relato mítico era o conflito histórico entre pastores nómadas e agricultores sedentários, seria ainda ter-nos privado de uma testada matriz de análise sempre à mão para tudo o que tenha a ver com as (frequentemente) problemáticas relações entre irmãos. 



E, para esse efeito, não existe "case study" mais apropriado do que The National: dois pares de irmãos – Scott e Bryan Devendorf, Aaron e Bryce Dessner (gémeos). Só Matt Berninger ficava fraternalmente desemparelhado. Até ao dia em que, preparando-se a banda para a digressão de High Violet, o mano 9 anos mais novo, Tom Berninger, se lhes juntou na qualidade de "roadie". Porém, com uma missão paralela: ele, "metalhead" para quem a música dos National não passa de “pretentious bullshit”, ele, o "underachiever" de uma família de gente bem sucedida que não tem mais para apresentar como CV do que From The Dirt Under His Nails e Wages of Sin – dois filmes domésticos de terror-série-abaixo-de-Z –, ele, o irmão desajeitado, gorducho e bebedolas do belo Matt (também amigo do copo mas com suma elegância), iria rodar um "rockumentary" sobre o grupo e a tournée. As tarefas de "roadie" foram, inevitável e, por vezes, embaraçosamente, desleixadas, mas Mistaken For Stangers (Doclisboa’13, a 29 Outubro e 2 de Novembro, no S. Jorge), o filme, acabaria por ser concluído: menos documentário do que exercício audiovisual de psicoterapia familiar, por entre incipientes tentativas de entrevistas (mas não façamos pouco de perguntas como “Levam a carteira para o palco?” – identicamente interrogado, há anos, Tom Waits respondeu com "à propos": "Nunca se deve levar a carteira para o palco. Não se pode tocar com dinheiro no bolso. Há que tocar como se precisássemos do dinheiro"), imagens de actuações e confusões de bastidores, se fosse intitulado apenas Matt & Tom não seria disparatado. Até porque, por outras palavras e imagens, bem poderia ilustrar o que Dylan Thomas escreveu: “It snowed last year too: I made a snowman and my brother knocked it down and I knocked my brother down and then we had tea”

18 November 2010

É UM LIVRO DO CARALHO (PODE DIZER-SE, NÃO É OFENSA), SIM SENHOR, MAS, POR QUE RAIO, SEMPRE QUE FALAM NELE, TÊM DE AFIVELAR UM AR MUITO SÉRIO E BOLÇAR "PROFUNDIDADES"?


Jaime Gama recebe Bíblia com textos de seis deputados: Pacheco Pereira (PSD): "Faz parte do chão em que nos movemos"; José Manuel Pureza (BE e lindo nome, na circunstância): "É a nossa história de pessoas, com os nossos começos e as nossas finitudes"; Luiz Fagundes Duarte (PS): "A Bíblia é o livro do Tempo e da Palavra que não tem fim"; Teresa Caeiro (CDS): "A mais fascinante e mais intemporal obra de todos os tempos"; Bernardino Soares (PCP): "Contém em si muito do sentir e dos anseios da Humanidade (...) e já serviu como arma de libertação para muitos"; Heloísa Apolónia (PCP aka Verdes): "Relaciona a destruição do equilíbrio fundamental entre homem e natureza com a mensagem de esperança contida na cosmogonia bíblica da criação".

... é que, assim, armados em carlospintocoelhos parlamentares, ninguém lhe apetece ir ler!... Já não bastavam as figurinhas de porteira ateia ofendida do Saramago, ainda vêm estes gabirus desencorajar o p.o.v.o. de ferrar o dente num portento de sexo e fornicação tórridos, belíssimas cenas de acção e sanguinária violência "gore", ficção científica de meter todos os Encontros Imediatos num chinelo, hippies janados a tripar no deserto, magia e artes ocultas capazes de envergonhar o Aleister Crowley, e, na segunda parte, a mais famosa história de zombies - JC The Living Dead - de sempre!
(2010)

08 July 2010

HÁ COISAS QUE CUSTA MUITO A COMPREENDER



Aparentemente, descobrir Jesus no Google Earth, num cano, em Coventry, ou no óleo de uma frigideira, quando se está a fritar bacon, é coisa perfeitamente banal e nenhum motivo de escândalo.



Mas dar com ele, numa homenagem a um Nobel da Literatura, na capa e nas páginas da "Playboy" - uma revista praticamente familiar, respeitável, e com décadas de currículo -, a levar a Boa Nova a jovens amigas em demanda da Luz, da Verdade e do Bem, é razão suficiente para encerramento imediato (mais estranho ainda: por parte da própria direcção internacional da revista!).



Querem ver que alguém, às escondidas do Hugh Hefner, está feito com a Vaticano S.A.?!...






Aparições alternativas: Jesus do Cano; Jesus do Google; Jesus da Frigideira.

(mas já houve, pelo menos, outra "Playboy" igualmente interessante...)

(2010)

20 June 2010

MOMENTOS DE LUTO (V)



"Falando em Viseu, na sessão de encerramento do XVI Congresso da Causa Real, sem nunca referir o nome de José Saramago, Duarte Pio, disse ser 'simbólico que o país neste momento esteja a homenagear como um grande herói nacional um homem que é contra Portugal, que quis que Portugal deixasse de existir como país'". (aqui)


(Coerência é isto: sempre que a criatura abre a boca, nunca há angústias nem incertezas. Se ele o defendeu, é porque é, seguramente, o ponto de vista errado. O Saramago iberista era o único Saramago que valia a pena)

(2010)
MOMENTOS DE LUTO (IV)


Dilma Rousseff, crítica literária

(2010)
MOMENTOS DE LUTO (III)



Em directo, na SIC-N, durante a apresentação de condolências aos familiares de Saramago: "E, agora, certamente um conjunto de notáveis mas que eu, infelizmente, não consigo identificar".

(a correr, lá em baixo, na barra de notícias: "90% das vuvuzelas da África do Sul são made in China")

(2010)
MOMENTOS DE LUTO (II)



1) Escutado apenas durante alguns minutos, na Antena 2, o programa "Um Certo Olhar" em que Luís Caetano "debate sobre a actualidade com Maria João Seixas, Luísa Schmidt e Miguel Real". Apenas alguns minutos mas os suficientes para poder ouvir Caetano, na sequência das respostas dos três participantes (tema: a morte de Saramago), perguntar repetidamente "Mas com coerência?..." Sepulte-se o defunto e vá a correr ler-se Fernando Pessoa.

2) A Pátria respira de alívio: as cinzas de Saramago ficam em Portugal. Ninguém, na verdade, se apercebeu mas estivemos à beira de uma nova Olivença. Nas agências de rating internacionais, houve quem não pregasse olho durante 48 horas, à espera do que poderia resultar deste embrião de querela entre o "P" e o "S" dos PIGS.

3) Isto está a correr bem para Sócrates: Mundial de ludopédio, morte, velório e funeral de Saramago (com as respectivas réplicas sísmicas asseguradas durante mais dois ou três dias) colocam "a crise" e as comissões de inquérito entre parêntesis, pelo menos, até ao fim do mês. Com um mini-bónus adicional, a saber, a grande polémica que trespassa o mundo: os grandes artistas devem ser cremados? Porque o que está em causa não é coisa menor: "não haverá um túmulo como lugar de peregrinação"!... (por breves instantes, passaram-me pela mente os dezoito prepúcios do senhorsantocristo)

(2010)

19 June 2010

ACERCA DA COERÊNCIA



"Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica.

Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.

A coerência, a convicção, a certeza são além disso, demonstrações evidentes — quantas vezes escusadas — de falta de educação. É uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é maçá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade.

Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predileções literárias, mas sensações religiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária. (...) O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelhos do ambiente transitório: é republicano de manhã, e monárquico ao crepúsculo; ateu sob um sol descoberto, é católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos do anoitecer citadino em que desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo uma invenção de louco quando, ante uma solidão de mar, ele não souber de mais do que da "Odisseia".

Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam d'essa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida".
(Fernando Pessoa, in Idéias Políticas)

(2010)
NÃO HÁ COMO A MORTE DE UMA VACA SAGRADA
PARA ABRIR AS COMPORTAS DO LUGAR-COMUM
NECROLÓGICO E DA MUITO SOLENE INANIDADE



Hugo Chávez com o irmão de outro literato amigo de Saramago

"Foi um homem que afirmou a sua criação literária através da liberdade de pensamento" - Gabriela Canavilhas, Ministra da Cultura

(já a formulação alternativa "Foi um homem que afirmou a sua criação literária através do pensamento da liberdade" ia custar um bocadinho a engolir...)

"Saramago foi muito importante pelo modo generoso como recebeu os novos autores e como sempre me tratou, com grande atenção e generosidade” - Gonçalo M. Tavares

(ah, pronto...)

"Um homem recto, sereno e lúcido" - Mário de Carvalho

(porque qualificá-lo como "um social-fascista demencialmente intolerante e incapaz de compreender o mundo out of the box" ia caír mal, não ia?)

"Foi um escritor 'arriscado e sem concessões' que soube olhar com 'o seu agudo sentido crítico a morte, as guerras e os abusos do poder'" - Carmen Caffarel, directora do Instituto Cervantes

(foi, foi, e ele, o Hugo Chávez, o Fidel e outros literatos amigos mantinham tertúlias assíduas em que exerciam o "agudo sentido crítico"...)

"Um exemplo de coragem, pela sua coerência* - Lídia Jorge

(exacto: tal e qual como esse outro gigante da democracia, Barreirinhas Cunhal)

* Oh!... a coerência...

(2010)

24 May 2010

MELHOR DO QUE QUALQUER SARAMAGO COMUM



Tiago Guillul - V

Indo direito ao assunto e para acabar de vez com as indefinições: o que pode um agnóstico/ateu (ou, noutro plano algo diferente, um católico vulgar de Lineu) retirar do “panque roque” criado e gravado por um pastor evangélico baptista que não só não esconde a sua condição como a expõe abertamente nas canções? Tiago Guillul digere mal este tipo de generalização mas, ainda assim, é indispensável dizer que o que ele e restante trupe FlorCaveira – que nem sequer é, confessionalmente, homogénea – produzem não possui o mínimo ponto de contacto estético com aquilo que é, habitualmente, conhecido como “rock cristão” ou com o kit-pronto-a-usar do pseudo-gospel de IURDs, Manás e afins.



A minha (só minha) resposta exige um prévio "disclaimer": na escala-Richard Dawkins (de 1 a 7) de “probabilidade teísta”, situo-me, tal como Dawkins, no 6-a-escorregar-para-o-7, isto é, ateu de facto“não posso ter a certeza absoluta mas acho Deus muito improvável e vivo assumindo que não existe”. Arrumada a questão, há que reconhecer que, como bom protestante exegeta da Bíblia – essa fantástica compilação de histórias de violência, ódio, paixão, vingança, mistério, acção, fantasia, aventura, ficção científica e pornografia –, Tiago dá-lhe muito melhor uso do que qualquer Saramago comum.



E se, aqui e ali, o pé lhe foge demais para a homilia ("Nem Um Só Cabelo Será Perdido") ou se agarra a metáforas um tanto herméticas ("Roma E Avinhão"), com tão boa matéria-prima seria difícil falhar. E ele não falha: o caldo de cultura poderá ser oitentista mas há também suficiente África, ferrugem e impurezas várias surripiadas, para dar origem a óptimas canções – e escutá-las desprovido de fé só lhes acrescenta um picante suplementar – prontas a receber o testemunho da melhor época dos GNR (Reininho assina o ponto), Pop Dell’Arte e Variações e oferecer-lhe uma sequência inteiramente à altura.

(2010)

05 March 2010

SHOWBIZ É SHOWBIZ, LÁ ISSO É VERDADE...


Um dos efeitos especiais mais impressionantes
que a Jehova's Shock & Awe SFX está a preparar
para apresentar, em Maio, em Lisboa e no Porto


Ou como diz o vereador do CDS na CML, António Carlos Monteiro, se "há dinheiro para a Red Bull Air Race e para a Fundação Saramago", como é que não há para "um dos acontecimentos mais importantes na cidade de Lisboa este ano", a saber, o "Papa In Rio" (até porque, falando de "Rio", o outro já entrou com o guito)?

Compreende-se a indignação do porta-voz autárquico da Vaticano S.A.: então a empresa envia em tournée o próprio CEO, planifica um grande espectáculo de luz e cor à beira do Tejo (com o qual beneficiarão, pelo menos, algumas dezenas de roulottes de bifanas e couratos e quase toda a hotelaria de 0 e 1 estrelas), não cobra bilhetes, e, para a montagem do OVNI-seixo, não vê nem um tusto da Câmara? É verdade que o "pulling power" do Sumo Patífice não é lá grande espingarda mas, que raio, "the show must go on"!

(quer dizer... isto também não ajuda nada, não é verdade?... - é que nem os funcionários da Vaticano S.A. se safam das escutas...)

edit (06.03.10): e ainda tinha escapado esta... desde já, formal e solenemente me comprometo a usar parte da tolerância que me for concedida para aqui colocar uma série de posts a incluir no label "ateísmo".

(2010)

19 January 2010