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06 May 2026

A Dialéctica nas margens do Reno

 A dialéctica. Já ouvi falar da dialéctica: 

era assim uma espécie de regra de três

simples no papel pardo das mercearias,

a penitência dos bígamos, 

um motor a três tempos engatado

na quarta velocidade do pensamento. 

O jovem Carlos leu GWF nas longas, 

teutónicas noites de inverno e escreveu 

na Rheinische Zeitung um artigo 

sobre o roubo da lenha aos camponeses ou 

pelos camponeses: não sei bem. 

Alguns discutiram se O Capital é 

uma obra de maturidade ou um efeito 

secundário da furunculose. 

Por mim confesso: tenho saudades de tais tempos 

em que despontavam as mamas em raparigas 

acossadas pelo acne e pela delicadeza.

15 May 2023

 
A REGRA DO JOGO
 
Adivinham-se tempos difíceis: 
a obsessão apoderou-se das tribos; 
uma vírgula pode ser um crime, 
a ameaça esconde-se numa frase incompleta. 
Os jornais encheram-se de notícias peregrinas, 
os editoriais ponderam. Murmura-se 
nas fileiras, a especulação prospera. 
Com um salário que é como mau tecido, 
depois da primeira lavagem, o funcionário público 
poupa na fruta, no tabaco, no queijo. Amanhã, 
de comboio, a História enfrentará o seu destino,
 ou, pelo menos, uma cópia, que levará tempo 
(medido em lustros) a rasurar.  
 
(in Tentativa e Erro, 2011, Ed. Assírio & Alvim)
 

28 February 2020


Ruth Is Stranger Than Richard
 
Bêbedos irredimíveis,
chutadores de veia (mercadores de pó), 
velhos em lares, crianças em infantários, 
publicanos, onzeneiros, gente de virtudes 
e sinapismos, punheteiros, putanheiros, 
arrebentas, fufas, os que fugiram 
com a mão à palmatória; devotos do Nazareno, 
discípulos de Mafoma; caixeiros 
de supermercado, arrumadores de carros, 
artistas, barbeiros, professores de literatura; 
médicos, doentes, maqueiros, 
juízes, advogados e bedéis; 
cães abandonados, gatos 
a fugir da chuva, moribundos 
renitentes, suicidas entusiastas, 
os que venderam a alma e os que a perderam 
em mansarda bafienta; 
os pobres de espírito (esses estão a salvo) 
e os que deliram, por suspeitarem 
que a realidade é absurda; 
escritores de best-sellers (que a peste 
os preserve), os gordos e os asmáticos, 
vítimas de escárnio e consternação;
todos à procura de um deus menor 
ou de um diabo foragido, 
a quem dedico esta prece.

(José Alberto Oliveira - Rectificação da Linha Geral)

Robert Wyatt - Ruth Is Stranger Than Richard (todo o álbum)

05 May 2012

(O 2º ANO A SEGUIR AO) ANO DO TIGRE (LXXXVII) 


A gata e Beethoven

Entrada a noite,
a gata Electra
esquece vinganças
e senta-se
ao meu lado.
Ouvimos os trios de cordas,
eu bebo whisky,
a bem da morte sóbria
ou, pelo menos,
de um sono conforme;
a vida parece suave,
a pulsação quase perfeita
e a gata pensa
que não há direito
que alguém sofra.

(José Alberto Oliveira, Tentativa e Erro/Poemas Escolhidos e Inéditos, ed. Assírio & Alvim)

29 January 2009

OUTONO



Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.
Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala pois as tuas raízes podem estragar a carpete.
Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas.
Mas os pais disseram olha é outono.
(Russell Edson, O Túnel, trad. José Alberto Oliveira, ed. Assírio & Alvim)

(2009)

19 November 2007

DEPOIS DA FEBRE DO OURO

Depois da febre do ouro,
ficámos nós, alguns utensílios
inúteis e tratados elementares
de Química, apenas folheados.
Alguns cães abandonados
que rosnavam, lutando
por restos de comida.
Depois da febre do ouro,
regressámos a ocupações triviais
e ninguém pareceu reparar;
a descrença manteve
a temperatura habitual.


Neil Young - After the Gold Rush

UMA VELHA, NA CAVE, RECORDA DRUMMOND

Em que cisma esta velha,
com a cabeça um pouco abaixo dos escapes,
um pouco acima da merda dos cães?
Que torpor lhe povoa a cave,
que lhe poupa o rosto?
No meio do caminho há uma pedra?
- nem a velha, nem eu, parecemos capazes
de reconhecê-la, ou tropeçar nela;
nesta noite plácida, onde se escondem
perfídias, não haverá ninguém
seduzido pela tentação
de dinamitar a Casa da Moeda?

(in Nada Tão Importante Que Não Possa Ser Dito, de José Alberto Oliveira, Ed. Assírio & Alvim, 2007)