Showing posts with label Jorge Luis Borges. Show all posts
Showing posts with label Jorge Luis Borges. Show all posts

21 February 2022

AFINAL, O QUE É UMA HISTÓRIA?
 
Laurie Anderson parece já ter feito tudo mas tem sempre alguma coisa por fazer. Após mais de uma dezena de álbuns (e o dobro disso em colaborações com outros artistas – William Burroughs, John Giorno, Peter Gabriel, Lou Reed, Marisa Monte, John Zorn, Kronos Quartet...) e outros tantos filmes, videos e "audiobooks", a criação de espectáculos de música/"spoken word"/"performance art" e exposições, a participação enquanto curadora (e em inúmeros júris) de festivais de cinema, e a criação de instrumentos (o "tape-bow violin" e o "talking stick"), em 2003, aceitou ser a primeira (e, até agora, única) artista residente da NASA, de que resultaria o espectáculo The End Of The Moon: “À superfície, é o meu relatório sobre o período que lá passei. As actividades que mais me interessaram lidavam com grandes extensões temporais, podem levar até 10 000 anos a serem concluídas. Há a tendência para se pensar em intervalos de tempo muito curtos ou para se considerar apenas o futuro e esquecer o imenso passado que temos para trás. Interessaram-me as formas muito diversas como ali o tempo é abordado”, explicou-nos, na altura. Quase duas décadas depois, o Charles Eliot Norton Professorship of Poetry da Universidade de Harvard, convidou-a a ser a responsável de 2021 pelas Norton Lectures, uma iniciativa anual sobre “poesia no sentido mais amplo”, na qual ela iria acrescentar o nome a tão ilustres antecessores como T. S. Eliot, Robert Frost, Igor Stravinsky, Jorge Luis Borges, Leonard Bernstein, Umberto Eco, Luciano Berio ou Agnés Varda. (segue para aqui)

27 February 2018

COISAS EXPLODIDAS

  
No Outono passado, Laurie Anderson inaugurou no Massachusetts Museum of Contemporary Art, Chalkroom, uma instalação de Realidade Virtual, em colaboração com Hsin-Chien Huang, artista e programador de Taiwan, com quem já havia trabalhado em Puppet Motel (1994). A intenção era “investigar como seria viajar pelo interior da arquitectura das histórias, explorar um universo de letras, frases e palavras desenhadas com giz, nas paredes, flutuar através de rampas e corredores que desembocam em torres gigantescas, criar sons tridimensionais”. Num vídeo publicado por Laurie no Vimeo (“A Virtual Reality of Stories”) podemos ter uma aproximação dessa navegação labiríntica pelo meio de túneis negros, pontuados por constelações de palavras luminosas, “voando, como nos sonhos, por uma biblioteca de histórias que nunca ninguém conseguirá decifrar na totalidade”. Mas alertava: “Trata-se, na verdade, de linguagens fracturadas, coisas explodidas”



Na interpretação em palco do recente Landfall, com o Kronos Quartet, a linguagem é também explodida por meio de um programa informático que, a partir dos solos do violinista John Sherba, gera, aleatória e vertiginosamente, texto projectado num ecrã. O pano de fundo narrativo é a devastadora investida, em 2012, do furacão Sandy sobre a costa Atlântica dos EUA que provocou duas centenas de mortos e milhares de milhões de prejuízos. Entre os quais, a cave da casa de Laurie Anderson, em Tribeca, Nova Iorque: “October 2012. The river had been rising all day and a hurricane was coming up slowly from the south. We watched as the sparkling black river crossed the park, then a highway, then came silently up our street. From above, Sandy was a huge swirl, it looked like galaxies whose names I didn't know”. Após o desastre, Anderson, friamente perplexa, reflecte: “And I looked at them floating there, all the things I had carefully saved all my life becoming nothing but junk – and I thought, 'How beautiful; how magic; and how catastrophic’”. Predominantemente instrumental, em CD, essa fragmentação do discurso surge como apartes, interlúdios, de Laurie, que, nos 70 minutos e 30 faixas do álbum, sobre a ciclotímica geometria do Knonos – da impassível serenidade à mais estridente dissonância –, em regime de livre associação, conta a sua tentativa de cantar uma canção coreana num karaoke holandês, elabora listas de espécies extintas e, como que em síntese, borgesianamente, recorda-nos o aleph, primeira letra do alfabeto hebraico, “a letter with no sound, a mental letter”.

10 March 2015

World Brain 
(real. Stéphane Degoutin e Gwenola Wagon)

"The World Brain proposes a stroll through motley folkloric tales: data centers, animal magnetism, the Internet as a myth, the inner lives of rats, how to gather a network of researchers in the forest, how to survive in the wild using Wikipedia, how to connect cats and stones... The world we live in often resembles a Borgesian story. Indeed, if one wanted to write a sequel to Borges’ Fictions, he could do it simply by putting together press articles. The World Brain is made out mostly of found materials : videos downloaded on Youtube, images, scientific or pseudo scientific reports, news feeds..." (daqui; completo aqui)

Le Terrier 
(real. Stéphane Degoutin e Gwenola Wagon)

"Le film Le Terrier propose une plongée à l’intérieur des lieux physiques par lesquels transite le réseau internet : câbles sous-marins, data centers, satellites. Le film adopte le point de vue des données. Le spectateur voit le monde comme s’il était une information, traversant la planète de manière quasi instantanée, recopiée à l’infini, ou au contraire stockée dans des lieux maintenus secrets"

27 September 2014

ASSUNTO DE ESTADO


Custa a crer que o mundo tenha desejado continuar a existir depois de Shakespeare. E depois de Rimbaud, Pessoa ou Borges. Não é verdade que não haja insubstituíveis. Não serão muitos mas, para todos aqueles que dizem o que mais ninguém diz de um modo que nenhum outro disse antes ou dirá depois, não se conhece outra palavra. É por isso que não se deve estranhar que o último álbum de Leonard Cohen, Popular Problems, publicado esta semana, um dia depois do seu 80º aniversário, esteja a ser tratado como um assunto de Estado. E, se há circunstância em que a expressão “assunto de Estado” não soa pomposamente tonta, é este. Em Londres, na Mac Donald House da Canada High Comission, foi apresentado por Gordon Campbell, Alto Comissário para o Reino Unido desde 2011, na qualidade de tesouro nacional. Tal como já havia acontecido nos seus equivalentes institucionais de Los Angeles e Bruxelas.


Não devemos levar-lhes a mal. Leonard Cohen é tudo menos património geograficamente privado mas, tivéssemos nós (ou quaisquer outros) um Cohen, e mereceríamos cobrir-nos de vergonha se não fizéssemos o mesmo. Por aqui, não paira, no entanto, qualquer espírito de testamento final. É o próprio Leonard que, apesar de, a poucos metros de distância, parecer ínfimo, frágil, quase imaterial, anuncia estar o próximo volume a caminho, e que, naturalmente, se poderá chamar Unpopular Solutions. Algo como o terceiro painel de um tríptico inaugurado com Old Ideas, o que, se pensarmos um segundo, não é senão a persistência naquilo de que, desde Songs Of Leonard Cohen, não encontra o ponto de fuga (e os humanos de todos os tempos com ele): amor, sexo, culpa, redenção, morte, êxtase e condenação.


Há canções e textos que foram escritos a uma velocidade “assustadoramente rápida”, outras – como "A Street" e "Born In Chains" – que levaram entre uma e quatro décadas a serem concluídas (“em parte, por perfeccionismo, noutra parte, por pura preguiça, e, em ‘Born In Chains’, por mudança do meu muito inseguro ponto de vista teológico”): “Creio que foi Auden que disse que um poema nunca é terminado, é apenas abandonado. Não pretendo inventar a roda. Pego em formas que já existem e faço o meu trabalho sobre elas. Sinto-me grato por poder chegar ao fim de algumas das canções que inicio. Se soubesse de onde vêm as boas canções, ia até lá muito mais vezes. Pedem-me, frequentemente, conselhos. É um engano porque o meu método é obscuro e não pode ser replicado. Escrever canções é semelhante a ser uma freira: é o matrimónio com um mistério. Procuro sempre descobrir o caminho para o centro de uma canção. Tal e qual como no resto da vida. E o resultado não é muito melhor… o único conselho que posso dar é que, se não desistirmos dela, uma canção acabará sempre por ceder. Mas não me perguntem quanto tempo poderá isso levar…”


Se é possível identificar uma linha a unir os pontinhos, “é um travo de desilusão… mas só dei por isso no fim”. As vacilações teológicas poderão também rondar em "Almost Like The Blues", entoada numa voz extraída da fundura das trevas (“There is no god in heaven, and there is no hell below, so says the great professor of all there is to know”), a mesma que, em "Samson In New Orleans", se interroga “And we who cried for mercy in the bottom of the pit, was our prayer so damn unworthy the Son rejected it?”, mas, como recomendam os melhores e mais perversos tratadistas do horror, introduzindo o tempero da ironia negra e subrepticianamente brechtiana, no discurso (“I saw some people starving, there was murder, there was rape, their villages were burning, they were trying to escape (…) there’s torture and there’s killing, there’s all my bad reviews, the war, the children missing, Lord, it’s almost like the blues”).



“Almost like the blues” seria, aliás, uma bela sinopse para Popular Problems. Nas canções escritas, a quatro mãos, com Patrick Leonard, o que se escuta é quase-blues, quase-gospel, quase-folk, um "ersatz" de tudo isso, superiormente obrigado a participar do sentido da voz e das palavras – é favor colocar o mais intenso acento tónico em “voz” e “palavras” -, sem escrúpulos de “autenticidade”, mas com a máxima potência na possibilidade de expressão. Interrogado sobre as suas opiniões políticas, Leonard Cohen declara-se como “um optimista que ainda não saiu do armário” mas, em simultâneo, confrontado com a condição de canadiano, explica que “os canadianos olham para os EUA como as mulheres vêem os homens, com muito cuidado”. É um excelente "soundbyte". Falando, porém, de política pura e dura, não há académico pós-doutorado que tenha ido além da espectrografia que Cohen, sobre a silhueta de um "sample" de canto arábico, em "Nevermind", exerce sobre o (seu) Médio Oriente e posteriores jihadismos adjacentes: “I was not caught, though many tried, I live among you, well disguised (…) there’s truth that lives and truth that dies, I dont’ know which so never mind”. Acessoriamente, explica que o motivo por que aborda estes tópicos é apenas consequência de andar pelo mundo e estas coisas apanharem-se “do ar”: “Tenho passado toda uma vida a construir uma posição política que ninguém consiga decifrar”.


O programa de governo do velho estadista da “tower of song”, porém, é tântrico (“It’s not because I’m old, it’s not what dying does, I always liked it slow, slow is in my blood (…) you want to get there soon, I want to get there last”), um tanto ou quanto sabiamente hesitante na definição do adversário (“You put on a uniform to fight the Civil War, it looked so good I didn’t care what side you’re fighting for”), seguramente arrepiante (“I see the ghost of culture with numbers on his wrist, salute some new conclusions which all of us have missed”). Mas, se alguém pergunta ao literato ancião - que confessa “leio muito pouco” - o que desejaria para o seu iminente aniversário, ele hesita, conta como, na tradição familiar, esse tipo de festas e celebrações nunca foi muito levado a sério e sugere “talvez, fumar um cigarro”. Quem o escuta, vários hertz abaixo de Tom Waits, em "Did I Ever Love You" ou "Samson In New Orleans", nunca pensaria que tal terapêutica fosse necessária. Ele não o diz mas adivinha-se que a oferenda ideal seria “a weekend on your lips, a lifetime in your eyes”.

19 August 2014

O TODO E AS PARTES 


A ideia atribuída a Aristóteles segundo a qual o todo é superior à soma das partes poderá entusiasmar os adeptos das sinergias mas é bastante provável que até o velho trácio concordasse que a sua aplicação ao caso de uma banda como The Walkmen não é fácil. Não se discute que a óptima discografia do grupo de Hamilton Leithauser, Paul Maroon, Walter Martin, Peter Matthew Bauer e Matt Barrick tenha resultado da particular alquimia em acção no interior do sexteto sem a qual (ou com outra composição de reagentes estéticos) tudo teria resultado seguramente diferente. Porém – para chamar à conversa um exemplo de manual –, ao contrário do que aconteceu com os Beatles, da separação no final do ano passado, até agora, não emergiram personalidades individuais que façam sentir saudades da glória colectiva mas três belíssimos álbuns, bem distintos e a estimular o apetite para o que virá a seguir.


Já abordado Black Hours, de Leithauser, preste-se, então, atenção a We’re All Young Together, de Walter Martin, e a Liberation!, de Peter Matthew Bauer. Capítulo mais recente do género musical em formação “cool songs for cool kids” de que The Tragic Treasury, de Stephin Merritt/Gothic Archies (2006), e Leave Your Sleep, de Natalie Merchant (2010) foram antecessores directos, o álbum de Martin é o género de brinquedo que se oferece aos infantes mas com o qual os adultos também se divertem. Serviu de pretexto para colocar Matt Berninger (The National) a cantar "We Like The Zoo (Cause We’re Animals Too)", para convencer Karen O (Yeah Yeah Yeahs) a não insistir no perfil de felina neo-gótica e revelar uma faceta folk bem mais saborosa e, de um modo geral, pôr alguma da nata indie nova iorquina – Leithauser incluído – a folgar valentemente com canções sobre tigres, cascavéis e Beatles.


Peter Bauer, o discreto baixista/teclista, demonstra igualmente como, sob o quase anonimato do "line up" dos Walkmen, se escondia um excelente "songwriter" capaz de dedicar uma gravação completa aos combates com a fé nas suas várias e venenosas manifestações, num registo confessadamente influenciado por Roberto Bolaño e Elvis Presley (sim, isso mesmo), algures entre Tom Petty, Costello e Dylan, e que autoriza o diálogo com Richard Dawkins e Jorge Luís Borges (não, não é gralha).

13 August 2014

A LEI DO MENOR ESFORÇO 


Morrissey meteu-se num enorme sarilho com a publicação da sua Autobiografia em Outubro do ano passado. Já tínhamos todos, evidentemente, a noção de que, em matéria de autores de canções capazes de lidarem virtuosa e eruditamente com a linguagem, no perímetro pop, não havia assim tantos capazes de se elevarem ao nível do fundador dos Smiths. O problema é que, desde aquele volume editado pela “Penguin Classics” que o colocou na companhia de Virgílio, Homero, Sterne, Borges e Pessoa, a fasquia elevou-se de tal modo que, a partir daí, só muito dificilmente poderiam tolerar-se passos em falso. Sim, enquanto literatura pura e dura, as "memoirs" eram boas demais para que não se estabelecessem, de imediato, novos parâmetros de avaliação. É verdade que, como toda a recente discografia de Morrissey, também a Autobiografia não era, integralmente, ouro de lei: a uma primeira parte absolutamente assombrosa de autêntica e vertiginosa espeleologia do passado seguia-se um venenoso e desnecessariamente extenso ajuste de contas com o universo em geral. 


E é, justamente, isso que obriga a reparar, como, por exemplo, na faixa-título de World Peace Is None Of Your Business, é embaraçoso escutar-se rimas adolescentes do género “Brazil and Bahrain, oh Egypt, Ukraine, so many people in pain” ou, em "The Bullfighter Dies", “Mad in Madrid, ill in Seville (...), gaga in Malaga, no mercy in Murcia, mental in Valencia”. Cinco anos depois de Years Of Refusal, o que incomoda não são as já previsíveis “inconveniências” de Morrissey – caso, aqui, da idiota misoginia de "Kick The Bride Down The Aisle", da “ciência política” de taxista de “each time you vote you support the process” ou do ridículo vegetarianismo de panfleto de “wolf down t-bone steak, cancer of the prostate” – mas sim a raridade de verdadeiras pérolas e o desleixo como, no plano de textos e música (entre um rock de mão muito pesada e a persistente tendência para o turismo sonoro no perímetro arábico-ibérico), ele parece ter-se rendido à lei do menor esforço. Com romance de estreia anunciado para breve, dir-se-ia que a escrita de canções passou a ser assunto menor. Para nos consolar, fica pouco mais do que a quase larkiniana "Oboe Concerto": “The older generation have tried, sighed & died, which pushes me to their place in the queue”.

02 May 2009

JORGE LUIS BORGES (IV)



"A democracia é uma superstição baseada na estatística"

(2009)

22 March 2009

JORGE LUIS BORGES (III)



"O que podemos esperar de uma sociedade que começou a jogar xadrez e acabou a jogar futebol?"

(uma lista de restaurantes jeitosos onde, em noite de ludopédio, se possa jantar sem o desconfortável convívio com ecrãs de televisão é que era mesmo serviço público)

(2009)

02 July 2008

JORGE LUIS BORGES (II)



"Evito o demasiado local e o demasiado contemporâneo. Foi Oscar Wilde quem disse que o perigo de ser moderno é que podemos tornar-nos antiquados em qualquer momento"

(2008)

04 June 2008

ALBERT CAMUS E O LUDOPÉDIO
(resposta a pedido anónimo da caixa de comentários)

 

"Tudo o que aprendi sobre a moral e o dever devo-o, certamente, ao futebol"

Comentário: independentemente de "a moral" e "o dever" serem, provavelmente, dois dos tópicos mais desinteressantes no Top-3 dos tópicos mais desinteressantes (e de, para conhecer alguma coisa acerca deles, ser necessário recorrer ao ludopédio), só o facto de Camus conseguir citá-los na mesma frase em que inclui a palavra "futebol" demonstra, para além de qualquer dúvida razoável, como ele era uma criatura antiga.
Borges é moderno.



(2008)

03 June 2008

JORGE LUIS BORGES (I)



"O futebol é popular porque a estupidez é popular"



(2008)