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26 June 2023

"Shadow Forces"
 
(sequência daqui) No novo Love In Exile, é como se essa singularidade se acentuasse mais ainda buscando, paradoxalmente, a dissolução nas ondas sonoras que, com o pianista e compositor Vijay Iyer e o multi-istrumentista Shahzad Ismaily – gente da intimidade estética de Laurie Anderson, Lou Reed, Tom Waits, Jolie Holland, Laura Veirs, Bonnie Prince Billy, Faun Fables, Secret Chiefs 3, John Zorn ou Elysian Fields –, conduz por um puzzle de estrofes em Urdu cerzidas por uma teia de melismas encantatórios. “Fomo-nos escutando uns aos outros e conduzimo-nos por caminhos que desconhecámos. Sem nunca nos perdermos”.

11 April 2010

GESTÃO DE EQUILÍBRIOS



Lonely Drifter Karen - Fall Of Spring

Explicar por que motivo Clare & The Reasons estão um milímetro para o lado errado do "cute" e Lonely Drifter Karen – em boa verdade, praticamente vizinhos do mesmo condomínio estético – se situam no ponto exactamente simétrico, não é a tarefa mais simples deste mundo.



Talvez se trate apenas de uma gestão de equilíbrios: se, em ambos os casos, tudo acontece no interior daquele perímetro onde o (frequentemente perigosíssimo) "bom gosto" convive com uma certa ideia de boémia-BCBG – a saber: canção-pop de fino recorte nos arranjos, entre o classicismo mais ou menos beatleano, o cabaret, a "old-time-music" e uma versão domesticada do aventureirismo sonoro de Tom Waits –, no caso do trio multinacional composto pela austríaca Tanja Frinta, pelo teclista maiorquino Marc Sobrevias e pelo percussionista italiano Giorgio Menossi, o ângulo inclina-se, favorável e contraditoriamente, no sentido por onde caminham também Jolie Holland e a Björk mais pop e não tanto para o lado-the-hills-are-alive-with-the-sound-of-music (o que não deixa de ter piada quando se sabe que Julie Andrews foi o primeiro amor de Tanja). Nada de muito novo em relação a Grass Is Singing (2008) mas igualmente simpático.

(2010)

29 March 2009

OBRIGADO, DIVINDADE FELINA!



Alela Diane - To Be Still




Headless Heroes - The Silence Of Love

Eu já tinha obrigação de saber que a suposta sageza contida nos provérbios populares não possui, propriamente, valor científico. Mas, porque estas coisas se infiltram desde o biberão e continuam a actuar subliminarmente, desta vez, por pouco me ia deixando rasteirar por um dos clássicos do género, o universalmente repetido “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. Há que conceder a atenuante de que as circunstâncias eram favoráveis ao tropeção: jovem singer-songwriter, natural de Nevada City, como Joanna Newsom, e coberta de louvores por Joanna Newsom, caminha a passos largos para a santidade "freak-folk" à custa de um álbum criado numa cabana de montanha, em Portland, na companhia de um gato. Se acabei por escutar o disco e este texto foi escrito, só pode ter sido por causa do gato, já que, pelas restantes personagens e contornos da história, o evitei cuidadosamente durante dias.


Obrigado, divindade felina: To Be Still é uma belíssima colecção de canções e, ou muito me engano, ou Alela Diane Menig rapidamente deixará na merecidíssima sombra a seita "hippy/psych" do pé descalço. Espreitem-na, no Youtube, nos três clips da série “Concerts à Emporter” de La Blogotheque – cada vez mais um lugar de atribuição de credibilidade indie através do reconhecimento “intelectual” europeu –, vagueando, de guitarra na mão, entre as pedras de Notre-Dame e a Place St. Michel. Já que aí estão, procurem também “The Rifle” (cenário de assombração flannery o'connoriana genuinamente "old weird America") e “The Pirate’s Gospel” (“While some folks pray their path to Jesus, we're gonna sing the pirate's gospel” em atmosfera de mar e trevas noturnas), do álbum anterior.



Podem, agora, passar a To Be Still e descobrir uma legítima descendente de (peso cada palavra) Sandy Denny e – muito mais obliquamente – Nico, algures, numa bissectriz mais contemporânea, entre Nina Nastasia, Kristin Hersh e Neko Case, mas (levando a utilidade do "name-dropping" às últimas consequências) com aquele teor de anacrónica excentricidade que Jolie Holland e Jesca Hoop terão de passar a partilhar com ela. No DVD que acompanha o disco, em concerto de Novembro do ano passado no Olympia de Paris, entre banjos, guitarras e bandolins, podemos, por outro lado, descobrir a personalidade de quem, em cima de um palco, parece estar com o mesmo à vontade que no alpendre do tal refúgio de Portland.



Etapa seguinte: The Silence Of Love, álbum de versões produzido por Eddie Bezalel a que Alela empresta a voz e, na companhia de gente com currículo ao lado dos R.E.M., Beck ou Red Hot Chili Peppers, reinventa temas de Nick Cave, Jesus & Mary Chain, Linda Perhacs ou Jackson C. Frank. Nos melhores momentos (“True Love Will Find You In The End”, “Just Like Honey”, “Nobody’s Baby Now”), dir-se-ia Karen Dalton a bordo dos Mazzy Star; nos outros, poderá não se voar tão alto mas também nunca há danos irreversíveis a registar. E, caso os houvesse, Alela Diane seria sempre mui justamente absolvida.

(2009)

26 October 2008

IS THE WORLD ON FIRE?



Jolie Holland - The Living And The Dead

Estirados sobre a cama, Jack Kerouac, Joan Vollmer (a mulher de William Burroughs que este, acidentalmente, mataria a tiro) e Edie Parker (companheira de Kerouac) conversam: "What's that black smoke rising, Jack? Is the world on fire? What's that distant singing? Is it a heavenly choir of the living and the dead?". É o cenário de “Mexico City”, o painel de abertura de The Living And The Dead, o último álbum de Jolie Holland.



Mas que, ao contrário dos tomos anteriores, se afasta da reconstituição das atmosferas a preto e branco da velha América cinematográfica de “speakeasy”, preferindo-lhe as tonalidades “country/folk” que M Ward e Marc Ribot transportam na paleta. Poder-se-ia dizer que ela entra melhor numa personagem do que na outra mas a verdade e que, a Jolie Holland, ambas assentam bem. O “comic relief” final, “Enjoy Yourself”, de Guy Lombardo, é uma queda de pano contrastantemente adequada.

(2008)

19 October 2008

DE VIAGEM



Lonely Drifter Karen - Grass Is Singing

Se, num maravilhoso universo paralelo, tivesse passado pela cabeça de François Truffaut convidar Tom Waits para, a meias com Björk, compor a banda sonora de um filme musical seu – avisando-os, porém, que as partes vocais deveriam ser interpretadas, à vez, por Jolie Holland, Lhasa de Sela e Doris Day (sim, sim) –, o resultado final, muito provavelmente, não andaria assim tão longe de Grass Is Singing.



Neste menos maravilhoso universo, há que contar a história da austríaca Tanja Frinta que, de viagem entre Viena e Barcelona, via Gotemburgo, se cruzou com o teclista maiorquino Marc Sobrevias e com o percussionista italiano Giorgio Menossi, constituindo um trio baptizado com o nome de uma personagem de Os Idiotas, de Lars Von Trier. Como, de certo modo (mas de modos diferentes), acontecia também nos óptimos álbuns de Jesca Hoop, Hanne Hukkelberg e Phoebe Killdeer, somos instantaneamente capturados por uma suave vertigem onde “chanson”, cabaret, “nursery rhymes”, Wurlitzers, “film noir” e a Boadway coexistem no interior do espírito de uma Mary Poppins delicadamente demente e nem por um único instante nos apetece tão cedo sair de lá.

(2008)

09 September 2008

MÚLTIPLO



Down The Tracks: The Music That Influenced Bob Dylan - DVD real. Steve Gammond

Os infinitos “eus” em que a personalidade de Bob Dylan se fractura – e que foram a própria matéria de I’m Not There, de Todd Haynes – parecem ser virtualmente inesgotáveis. Poder-se-ia pensar que, depois de No Direction Home, de Scorsese, do primeiro volume das suas Chronicles e de todo o dilúvio de publicações sobre Dylan que, nos últimos anos, se multiplicaram, pouco mais haveria a acrescentar no processo de decifração da personagem.


Blind Willie McTell - "Wabash Cannonball"

Down The Tracks não vem lançar nenhuma luz fulgurantemente reveladora sobre o tema – muito do material de arquivo, por ser o único que existe, já o conhecemos de outras origens – mas, através dos depoimentos e participações de músicos, produtores e autores como Lawrence Cohen, Michael Marquese, Pete Seeger, Tom Paley, Jolie Holland, Joe Boyd, Martin Carthy, Sid Griffin ou The Handsome Family, ajuda francamente a arrumar e sistematizar diversas peças soltas do puzzle da música e da cultura americanas (dos “beats” a Leadbelly, Hank Williams, Woody Guthrie, Blind Willie McTell ou à Anthology, de Harry Smith) que, com decisivas interferências externas (caso da poesia de Rimbaud), ajudaram à transformação de Robert Allen Zimmerman no múltiplo Bob Dylan.

(2008)

25 September 2007

O BOM, O BELO E O BIZARRO



Danny Cohen - Shades of Dorian Gray

Danny Cohen vive no Paraíso. Mais exactamente, em Paradise, no norte da Califórnia, na região de Butte County, no sopé das montanhas da Sierra Nevada. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, não se dedica propriamente a nenhum género de música vagamente bucólica e campestre. Gaba-se, aliás, de, no início dos anos 60, com as suas bandas de liceu (as magnificamente obscuras Polka & The Dots, Organized Confusion e, sobretudo, Charleston Grotto), ter sido o inventor do punk através de canções ignotas e nunca gravadas como “Kill The Teacher”. Depois, pura e simplesmente, desapareceu e não há biografia nenhuma que, ao menos, explique se, durante quarenta anos, vagueou pelo deserto e foi tentado por Satanás (com esforço, descobre-se apenas que, em data indeterminada, terá feito parte da seita de Captain Beefheart), até que a Tzadik, de John Zorn (na colecção “Lunatic Fringe”), em 1998 e 1999 – com Self-Indulgent Music e Museum Of Dannys –, o ressuscitou para o mundo dos mais ou menos vivos. Devia estar escrito algures que haveria de aportar à Anti, abrigo de Tom Waits, Neko Case, Jolie Holland e outros casos gloriosamente peculiares da música americana que, em 2004 e 2005, lhe editou Dannyland e We’re All Gunna Die e, agora, reincide com este fabulosamente bizarro Shades Of Dorian Gray.



Segundo o próprio, o método assenta na divisão de personalidades: o autor das canções é intuitivo, o intérprete é visceral e o produtor (com direito a heterónimo e tudo: Sir Errol Sprague) analítico. Daqui resulta o que, logo a abrir (“Prayer In The Black And White”), se apresenta como uma charanga enxovalhada de sopros tropegamente em desalinho, prossegue com uma litania para bramido de elefante beefheartiano, órgão processional e percussão metronómica (“Avian Blues”), tropeça na estética-Waits de glorificação do ferro-velho sonoro cerzido sobre retalhos de jazz puído e pseudo-theremin (“For George ), avança para uma assombração “sci-fi” de comboio fantasma na variante Herrmann-em-tenda-de-feira (“Vertigo”) e, eventualmente, repousa numa belíssima balada dylaniana com serpentinas de violino (“Palm Of My Hand”) ou no que o próprio Danny descreve como “Neil Young meets ‘Rosemary’s Baby’” (On The Fall”) e “a nod to Procol Harum about the nobility of death” (“Death Waltz”). Os “Waits men” Ralph Carney e (o irmão) Greg Cohen dão uma importante mãozinha e, à terceira ou quarta audição, nacos de texto como “trembling like a leaf, Zoloft for my grief” e “snow in early fall, debt collectors call, lawyers contradictions, doctors write prescriptions” começam a fazer todo o sentido. (2007)

04 September 2007

EM LOUVOR DO DESVIO



Mirah & Spectratone International - Share This Place: Stories And Observations




Ray’s Vast Basement - Starvation Under Orange Trees




Holly Golightly & The Brokeoffs - You Can’t Buy A Gun When You’re Crying

Um pequeno desvio do ângulo de visão. Uma alteração de regras, mais ou menos invisível, a meio do jogo. Ou um discreto puxar de tapete debaixo dos pés. Muitas vezes, é quanto basta para introduzir o efeito de perturbação necessário, capaz de fazer chocalhar de modo produtivo os neurotransmissores que se ocupam dos processos criativos. O que, de modo completamente diferente em cada um, aconteceu nestes três álbums, comprovando bastante satisfatoriamente a tese. De Mirah – aliás, Mirah Yom Tov Zeitlyn de seu nome completo – esperar-se-ia qualquer coisa que, mesmo com heterodoxias como o seu album de canções “militantes” (To All We Stretch The Open Arm, 2004) de Weill, Dylan, Cohen, Foster e outros, não andasse demasiado longe da sua variante de “folk-indie”, tal como a K Records, de Olympia, Washington, a reconhece e aprova. E, sendo Mirah quem é, até não seria nada mau. É aqui, então, que devemos enviar os nossos entusiasmados agradecimentos ao Institute for Contemporary Art de Portland que, tendo-lhe dirigido a encomenda de um ciclo de 12 canções a ser estreado no International Children’s Festival de Seattle, em Maio passado, lhe ofereceu a possibilidade de gravar este mui excelente Share This Place, improvável álbum conceptual sobre… a vida dos insectos.



Saudemos, pois, o nascimento da folk-entomológica e corrijamos a saudação já de seguida: não só a música que Kyle Hanson (acordeão), Lori Goldston (violoncelo) – ambos ex-Black Cat Orchestra que acompanhara Mirah em To All We Stretch…) – Jane Hall (percussão) e Kane Mathis (alaúde árabe) executam deve muito pouco ao convencional cânone folk e imenso a uma rica dieta transcultural de “early music”, cabaret, klezmer e arabismos vários, como os textos de Mirah (inspirados na obra do entomologista francês do século XIX, Jean-Henri Fabre e na Insect Play do checo Karel Čapek), em plano picado sobre este microcosmos de rituais de acasalamento, metamorfoses, organismos colectivos e estratégias de sobrevivência, não fugindo ao tema, falam tanto sobre minúsculas criaturas quitinosas de seis patas como acerca de lamentáveis humanos de apenas duas, em esclarecedoras parábolas e interpelações inter-espécies de que “Community” é um óptimo exemplo: ”We communicate with chemicals but this is not as you might think just mechanical, it’s an expressive art, instinctually smart, secretions quiet and dependable”.

Starvation Under Orange Trees sobe um bocadinho na taxonomia e ocupa-se de ratos e homens. Mais exactamente de Of Mice And Men, o romance de John Steinbeck adaptado para o palco pelo Actors Theatre de S. Francisco. Entra (literalmente) em cena Jon Bernson – inventor do ficcional Ray’s Vast Basement, lugar imaginário na topografia alternativa de Drakesville –, alma gémea de Jeff Tweedy (Wilco), Willy Vlautin (Richmond Fontaine) ou Howe Gelb e neto hipotético de Randy Newman, ansioso por confessar que “Steinbeck é um dos meus músicos preferidos: nem sempre lhe compreendo os textos mas as suas melodias valem ouro”.



Naturalmente, o desafio de compor uma banda sonora para o Actors Theatre pareceu-lhe valer platina (a verdadeira, não a dos “discos de”) e, esquivando-se à tentação de macaquear o “dustbowl realism” de Woody Guthrie ou do Ghost Of Tom Joad, de Springsteen, na transposição para o álbum, ampliou o espectro de referências a diversas personagens e circunstâncias de outras obras de Steinbeck como Tortilla Flat, Cannery Row, Grapes of Wrath ou East Of Eden. Sobrevivem fragmentos de música incidental que funcionam enquanto tecido conjuntivo na articulação das canções e atribuem uma certa dimensão cinemática a um universo musical que reinventa a tradição folk/blues/country/jazz e, simultaneamente (com a participação de Nate Query, dos Decemberists, e Enzo Garcia, da banda de Jolie Holland), a faz disparar para coordenadas não muito afastadas do Morricone mais libertário.



Holly Golightly & The Brokeoffs (isto é, Holly Golightly e a personagem que responde pelo nome de Lawyer Dave) aplicam-se numa outra ficção: reencenar a música da América profunda, aquela com esterco agarrado às botas, terra nas unhas, os blues do Delta a temperar o bourbon e rockabilly encardido a escorrer do jukebox num honky-tonk insalubre. A mais que perfeita música ambiente desenhada por medida para a Tarantinoland que, um dia, virá a ser inevitavelmente edificada sob direcção artística de Tom Waits. Sim, mas onde o desvio em You Can’t Buy A Gun When You’re Crying? Holly Golightly, nativa do East Sussex, UK, é tão britânica como a “steak and kidney pie”. (2007)

03 September 2007

JOY?



Jenny Owen Youngs - Batten The Hatches

Só pode ser uma muito negra ironia que, das iniciais do nome de Jenny Owen Youngs, resulte a palavra “joy”. Ou, então, faz o mais perfeito sentido. Porque, embora em praticamente todas as canções de Batten The Hatches (inicialmente publicado, de modo quase confidencial em 2005, mas agora reeditado) a tonalidade seja predominantemente amarga e sarcasticamente autodepreciativa, o perfil musical é o de uma pop muito amadurecidamente clássica, aqui e ali a escorregar para a folk ou o jazz, mas nunca lúgubre e morbidamente melancólica.



Bem pelo contrário: “Fuck Was I” é o género de canção que agrafa palavras como “Love grows in me like a tumor, a parasite bent on devouring its host, I'm developing my sense of humor, till I can laugh at my heart between your teeth, till I can laugh at my face beneath your feet (...) maybe I’ll be the one that doesn’t burned, what the fuck was I thinking?” ao amável desenho de uma valsa e “Voice On Tape” sobrepõe um ar de ingénua “lullabye” à frieza de “since I don’t need you physically around, I’ve got your voice on tape, I’ve got your words in me, I don’t want anything else”. Pensem no melhor de Aimee Mann, Regina Spektor, Fiona Apple, Jolie Holland, Liz Phair e Suzanne Vega. Andarão muito perto de Batten The Hatches, um daqueles discos de estreia que prometem quase tudo. (2007)

11 April 2007

VELUDO E NICOTINA


Eleni Mandell - Miracle Of Five

Quando, em Novembro do ano passado, propus a Laura Veirs que indicasse os “songwriters” actuais de que se sente mais próxima, o primeiro nome na ponta da língua foi o de Eleni Mandell. Seis anos antes, acontecera exactamente o mesmo, em conversa com Chuck E. Weiss (a lendária personagem desaparecida de “I Wish I Was In New Orleans”, de Tom Waits, e de “Chuck E’s In Love”, de Rickie Lee Jones, então em período de regresso ao mundo dos vivos com Extremely Cool), tinha Eleni ainda gravado apenas Wishbone (de 1999, produzido por Jon Brion) e Thrill (2000). Pouco depois, tropecei em New Coat Of Paint, um bastante pouco memorável álbum de homenagem a Tom Waits, onde não se salvava muito mais do que a sua versão de “Muriel” e a de Neko Case para “Christmas Card From A Hooker In Minneapolis”.


As peças começavam a juntar-se. Mas, só agora, ao sexto álbum de Eleni Mandell, se pode, finalmente, enxergar a configuração total da genealogia: produzido por Andy Kaulkin (responsável pela Anti que acolhe também Jolie Holland, Danny Cohen, Nick Cave, Neko Case e Tom Waits), Miracle Of Five convocou uma associação instantânea de todos esses nomes acrescentados dos de Ambrosia Parsley/Shivaree, PJ Harvey, Fiona Apple ou Cat Power.



Sim, existe aqui, sem dúvida, uma inegável atmosfera de família. Que ela própria, Eleni, não desmente: ajoelha perante Weiss que a apresentou a Waits e, aí mesmo, estabeleceram uma sociedade de apreciação mútua, jura que a sua mais preciosa relíquia é um poema que Charles Bukowski lhe autografou, coloca em plano de igualdade enquanto factores decisivos na sua formação o dicionário de rimas que Mrs Block (a professora do 6º ano) lhe ofereceu por ocasião do Bar Mitzvah e uma adolescência passada a ouvir a banda punk de Los Angeles, X, e confessa que a sua veia de “songwriting” entronca na linhagem dos Gershwins, Porter e Rogers & Hammerstein tal como Ella Fitzgerald, Nina Simone ou Billie Holiday os cantaram. Ah, e não dispensa o golfe e a máquina de costura.


Suponho que, através desta “declaração de interesses”, começarão a ficar com uma ideia do que Miracle of Five (capa inspirada em Saul Bass, designer gráfico dos genéricos de The Man With The Golden Arm, Psycho, Vertigo e inúmeros outros filmes clássicos) contém: um cocktail em registo “after-hours” de folk, jazz, blues e country (Andy Kaulkin chama-lhe “o elo perdido entre Hoagy Carmichael e Leonard Cohen”) para guitarras eléctrica e acústica (Nels Cline, dos Wilco), dobro, lap-steel, banjo, orgão, mellotron, sax, harpa, clarinete e a voz de veludo e nicotina de Eleni enroscada em melodias e palavras como “I am a marble the color of candy, I’ll make you money whenever you’re gambling, I am the dice you roll in the alley, I am the pennies that come in handy”. A garrafa de “bourbon” é um acessório de escuta obrigatório. (2007)

07 April 2007

Jolie Holland - Springtime Can Kill You



A Anti Records sabe o que faz. Não só agarrou Tom Waits, Daniel Lanois e Solomon Burke (entre vários outros figurões igualmente respeitáveis) para o seu catálogo, como parece apostada em assegurar a hegemonia no sub-sector das ruivas bem apessoadas, de voz singular e com francamente mais do que apenas talento para a escrita de canções. Por outras palavras, Neko Case e Jolie Holland já lá cantam e, assim de repente, não estou a ver quem possa ter ficado de fora. Este ano, a primeira publicou o muito bom Fox Confessor Brings The Flood e, agora, Holland acrescenta considerável esplendor à glória da valorosa "indie" com Springtime Can Kill You.



Desde Catalpa (as suas "basement tapes" de 2003) e Escondida (2004), a corte de fãs inclui caça de grande porte como Nick Cave e Tom Waits (não, decerto, por solidariedade editorial, que ele não é especialmente dado a isso) o que, só por si, não chegaria como legitimação (Waits, incompreensivelmente, também venera... Daniel Johnston) se a música não tratasse de mostrar os comos e porquês. E demonstra. Muito. Daquela peculiar forma a que só se pode chamar (mas convém utilizar a classificação parcimoniosamente) "intemporal". Sim, Jolie Holland, começou por explicar que não é incompatível escrever textos como "some people say you got a psychedelic presence, shining in the park with a bioluminescence" ou "nobody sings like Mary Sue Bell, nobody prays like Willie McTell, nobody walks a mile in my shoes like I do" e convencer-nos que isso poderia perfeitamente ter saído de um dos "field recordings" de Alan Lomax.



Desta vez, ao terceiro capítulo, nem por um segundo duvidamos que nos encontramos refastelados num qualquer "honky-tonk" do cu-do-mundo-texano, por entre Jacks, Daniels e outros inomináveis, enquanto a miúda da banda que toca como se palitasse os dentes canta por mais um copo. Assim mesmo: folk e country de mangas encardidas, jazz e blues de hálito turvo, valsas e cajun a preto-e-branco-Jarmusch, "I'm flirting with the birds, I'm talking to the weeds, look what you've done to me". E os Jacks, os Daniels e os outros, durante um instante, parecem quase gente. (2006)