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30 December 2022

 
(sequência daqui) Mas, pelo meio, podemos observar como, diversas vezes, Florence consulta o placard coberto de folhas com fragmentos de textos, fonte de alimentação das canções em processo de gravação. Algures por ali – sob os espectros de Sterne, Burroughs, Gysin e Laurie Anderson –, John Parish, no posto de (discreto) comando, esforça-se por arrumar tudo ao jeito de um diário dadaísta, acondionado por um "brainstorming" instrumental em comunicação mental com os Wire, Pavement, Johnny Marr e Robert Fripp. Na capa do sucessor de New Long Leg, um sabonete no qual o título do álbum se desenha numa elegantíssima filigrana de pelos púbicos. Um manifesto? “For a happy and exciting life, locally, nationwide or worldwide, stay interested in the world around you”.

27 August 2016

25 June 2015

OS LUGARES ERRADOS


Na edição de Abril da “Cosmopolitan”, Jana Hunter publicou um texto onde recordava o momento, por volta dos 4 anos, em que explicara aos pais, irredutivelmente católicos, que era um rapaz e não uma rapariga. O facto de (pouco surpreendentemente) a reacção ter sido tudo menos acolhedora, não a impediu, porém, de, hoje, se declarar “incrivelmente confortável com as minhas muito fluidas identidade de género e sexualidade”. Ainda que continue a perturbá-la bastante a circunstância de alguém que não se identifica como “mulher” poder ser objecto da misoginia predominante no universo pop/rock, por mais "indie" que ele se afirme. Aceitemos, então, isso na qualidade de atenuante para o título do terceiro álbum da sua banda – os Lower Dens – ser Escape From Evil, última obra de Ernest Becker, seguidor norte-americano da amaldiçoada superstição freudiana. Felizmente, tal assombração não se nota demasiado na matéria do próprio disco, exemplo singularíssimo de uma colecção de canções que, aparentando ajoelhar perante o altar da retromania, é, afinal, algo diferente. 



É Jana quem, sem subterfúgios, coloca as cartas na mesa: Escape From Evil alimenta-se esteticamente da celebrada pop dos anos 80. Mas não se contenta em ficar pela homenagem. Usamos o passado, os seus clichés e inocência, como uma lente através da qual imaginamos um futuro aberto e queer”. O que, na realidade, se escuta é um exercício de cuidadosa arrumação das peças em todos os lugares errados do puzzle, dedicado a fintar a previsibilidade através de meia dúzia de manobras de diversão bem sucedidas: raptar Debbie Harry e colocá-la à frente dos Joy Division aos quais, entretanto, se ofereceu a aura sonora dos Cocteau Twins que, no mesmo instante, se viram com Siouxsie Sioux no lugar de Liz Frazer e assistiram à disputa entre Johnny Marr e Will Sargeant pela vaga de guitarrista nuns Cure em gravidade zero, produzidos por Brian Eno acabado de ser expulso dos Feelies, subitamente devotos do krautrock. Espreitem o assaz lynchiano video de "To Die In LA": as coordenadas de Escape From Evil menos óbvias à superfície exibirão, sem excessiva dissimulação, a sua "seedy underbelly" talhada por medida para a anunciada reencarnação de Twin Peaks.

16 June 2011

THE QUEEN IS DEAD - THE SMITHS (16.06.1986)


"The Boy With The Thorn In His Side"


"Bigmouth Strikes Again"/Vicar In A Tutu"

(2011)

03 January 2011

2010 - MEIA IDADE


M.I.A. - "Born Free"

A 4 de Novembro passado, no “Guardian”, John Harris, num texto intitulado “Someone out there, please pick up a guitar and howl”, interrogava-se acerca dos motivos porque, após “dois anos de tumulto pós-crash” e na sequência dos violentos protestos de rua em reacção às medidas tomadas por David Cameron no Reino Unido, a cultura pop permanecia “descomprometida, carregada de ironia, essencialmente apolítica”. Mais especificamente, no caso da música, sublinhava que “actualmente, o espírito de dissidência, parece ter-se tornado demasiado um exclusivo de gerações anteriores que existe mais para ser saudado com reverência do que reinventado”. E – antes de, quase em desespero, terminar com o apelo às armas que serviria de título ao artigo – adiantava duas hipóteses explicativas: 1) a pop, na totalidade do seu espectro geracional e em todo o planeta, entrou definitivamente na meia-idade, encontrando-se, hoje, muito mais vocacionada para vender telemóveis do que para banda sonora de revoltas sociais; 2) porque ocorreria a alguém exprimir ideias de insurreição através da forma de arte preferida do capitalismo?



Não existirá melhor exemplo de como a pop, em boa medida, se transformou (também) em território consensual para amável troca de galhardetes políticos do que o episódio ocorrido a 8 de Dezembro, no parlamento britânico, por altura da votação dos cortes nas verbas para o ensino público, entre David Cameron e uma deputada da oposição trabalhista, quando esta lhe perguntou o que – sendo ele um confessado fã dos Smiths – pensava do facto de, via Twitter, tanto Johnny Marr como Morrissey o terem, simbolicamente, “proibido de gostar deles”. E acrescentou: “Se o primeiro-ministro sair vencedor do voto de quinta-feira, que música imagina que os estudantes estarão a ouvir naquele momento? ‘Miserable Lie’, ‘I Don’t Owe You Anything’ ou ‘Heaven knows I’m miserable now’?” Tranquila e sorridentemente, Cameron respondeu: “Acho que, se estiverem a pensar em mim, não vai ser ‘This Charming Man’. Mas, se eu estiver ao lado do Secretário de Estado, William Hague, provavelmente será ‘William, It Was Really Nothing’”.



Na verdade, se a pop nunca marchou, de armas na mão, sobre os Palácios de Inverno do mundo, não se descobre já, a cada esquina, um Phil Ochs ou uns MC5, e não será amanhã que um novo grupo de guerrilheiros urbanos alucinados como os Weathermen dos anos 70 se inspirará numa canção de um qualquer Dylan para iniciar as hostilidades. Casos como o de M.I.A. e do seu polémico vídeo “Born Free” (mas diz-se “polémico” e o impacto é, instantaneamente, amortecido...) são a excepção e não a regra. Laurie Anderson ainda ousa dizer “You thought there were things that had disappeared forever, things from the Middle Ages, beheadings and hangings and people in cages, and suddenly they’re alright, welcome to the American night”. Mas a pop tem mais com que se preocupar.

(2011)

22 April 2009

CAN THEY?



Pet Shop Boys - Yes,

A virgula, a seguir ao Yes, está lá por algum motivo. E, correndo o risco da demasiada especulação, eu diria que o que finalizaria a afirmação seria um muito provável “we can”. Porque – mesmo sem abdicar de alguma da melancolia electro-pop que é uma das marcas registadas dos Pet Shop Boys – o espírito do álbum procura sintonizar aquele mesmo ímpeto optimista do zeitgeist obamiano apontado para a "common people" (“You don’t have to be a big bucks Hollywood star, don’t have to drive a super car to get far, don’t have to live a life of power and wealth… you need more, you need love”),



em reaquecida ideologia hippie (“city life just leaves me weak, all this madness on the street, need to get away today, live my life a different way”) e quase messiânica (“Coming soon, something good, something we can share, in the air I can feel something magical becoming real”). O resto é PSB-business as usual, cantaroleiros, disco-divas suavemente trágicas, com tempero de Tchaikovski, Owen Pallett e Johnny Marr.

(2009)