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30 November 2019

Tresloucado de fúria por estar a levar uma abada do Trampas, o Fachonaro (& Cº) inventa(m) uma conspiração internacional contra o Brasil que implica Leonardo Di Caprio, Tom Hanks, Penélope Cruz, Daniel Radcliffe, Johnny Depp, Kate Winslet e Harrison Ford

11 February 2016



... e uma justíssima homenagem de Illma Gore

"'Make America Great Again' is about the significance we place on our physical selves. One should not feel emasculated by their penis size or vagina, as it does not define who you are. Your genitals do not define your gender, your power, or your status. Simply put you can be a massive prick, despite what is in your pants"

12 March 2014

O CANSAÇO DA INVENÇÃO


Noite de Óscares. Maratona televisiva-industrial particularmente a evitar, sobretudo, quando, numa rápida operação estatística, me dou conta que, dos últimos 20 e tal anos, apenas 4 filmes vencedores – O Silêncio dos Inocentes (1991), Imperdoável (1992), Million Dollar Baby (2004) e Este País Não É Para Velhos (2007) – me apeteceria rever e a imensa maioria dos restantes nomeados nem sequer me despertou o apetite (não é snobismo, é mesmo desinteresse). Óptimo pretexto, então, para, dando um passo ao lado, resolver um mistério que, desde o ano passado, me intrigava: é verdade que transformar um dos grandes prazeres da vida – filmes de piratas – num aborrecimento fatal não é coisa fácil mas Gore Verbinsky, com a indispensável ajuda de Johnny Depp, na série Piratas das Caraíbas, havia concretizado a proeza (embora os álbuns que, colateralmente, inspirara – Rogue’s Gallery (2006) e Son Of Rogues Gallery (2013) – não fossem nada de deitar fora); no entanto, como, unanimemente, me garantiam, seria possível terem ido ainda mais longe e condenado ao mesmo triste destino o lendário Lone Ranger/Mascarilha?


Extraído das gravações a criar bolor na "box", uma hora e tal depois do início, tinha poucas dúvidas: o par Verbinsky/Depp, se deixado em liberdade, não só é capaz de mumificar toda a história do cinema como, no Lone Ranger, o faz sob a forma de uma gigantesca lasanha de citações do passado. Por um instante, contudo, apesar das esmagadoras provas, imaginei que alucinava, vítima de excesso de informação. Sequências integrais, "copy-pastes" audiovisuais de Leone, Morricone, Peckinpah, John Ford, Walter Hill... teriam eles tido tal descaro? Recorri ao melhor-amigo-Google e não, não era só eu. No “Guardian”, por exemplo, John Patterson escrevia: O Mascarilha está tão pesadamente atafulhado com os escalpes sangrentos dos velhos "western spaghetti" e dos de Hollywood que, a partir da meia hora, comecei a pensar que não estava realmente a ver um western mas um filme de Frankenstein. Há homenagens, há piscadelas de olho, há furtos criativos e, depois, há isto: construir deliberadamente um filme de género inteiro a partir de sequências saqueadas aos clássicos desse género”. Mas o Google tinha mais um presentinho para me oferecer: na véspera, os Razzies (os “Óscares” para os piores do ano) haviam distinguido The Lone Ranger na categoria de “pior prequela, remake ou plágio”. Vou passar a ver os Razzies.

03 March 2014

Retromania pura e dura (no cinema): 
The Lone Ranger *

"The Lone Ranger is so heavily littered with the bleeding scalps of old Hollywood and spaghetti westerns that after about half an hour I started to think I wasn't watching a western at all, but a Frankenstein movie. There is homage, there is the affectionate nod, there is creative artistic theft, and then there is this: knowingly building a genre movie entirely from sequences hijacked from the classic movies of that genre. The kind of thing that makes me growl, 'Too much film school, not enough living'" (aqui)

"By my second viewing, I caught even more references to old Westerns, ranging from the countless scenes set in John Ford's Monument Valley to the ironic singing of the Christian hymn 'Shall We Gather at the River' (as in Sam Peckinpah's 1969 The Wild Bunch). But what surprised me even more than the homages to, say, the beginning of Sergio Leone's Once Upon a Time in the West (1966), or the train-chase climax of Buster Keaton's The General (1926), was the feeling that Verbinski and company were exploring not just the different styles from different decades, but the historical themes of those films" (aqui)

* Razzie 2014 para "Pior Prequela, Remake ou Plágio"

01 March 2013

HERÓIS DO MAR
(dedicado ao ministro Vítor Gaspar)


A 11 de Janeiro passado, o mundo tomava conhecimento de que Mohamed Abdi Hassan, aliás "Afweyne" (“desbocado”, em somali), após uma portentosa carreira de oito anos como pirata nos mares da Somália – proezas maiores: as capturas de um cargueiro ucraniano carregado de armas e de um superpetroleiro saudita que transportava dois milhões de barris de crude avaliados em cerca de 100 milhões de dólares –, retirava-se da actividade (alegando “a falta de presas devido ao reforço de segurança nos mares efectuada por forças internacionais”) e encorajava os seus camaradas a fazerem o mesmo. Anunciava ainda ter já “estabelecido contactos com o novo governo da Somália de forma a podermos abandonar este trabalho sujo”.




De facto, a pirataria contemporânea não tem boa imprensa – nada que possa comparar-se com a dos tempos heróicos narrados na General History of the Robberies and Murders of the Most Notorious Pirates (1724), do enigmático capitão Charles Johnson, e modernamente glorificada por Stephen Snelders e Hakim Bey em The Devil's Anarchy (2005) – mas nem isso chegará para justificar o espanto do autor da notícia quando comentava que "Afweyne", vestido à ocidental, com camisa branca, casaco escuro, barba feita e óculos Ray-Ban, “parecia mais um homem de negócios que um pirata”. Como demasiado bem sabemos (BPN, BPP, Madoff et alia, fazem soar campainhas?), uma coisa não costuma excluir, necessariamente, a outra.




É preferível, por isso, investir mais nos piratas clássicos do que nos actuais (de várias pintas), empreendimento que, à boleia do "franchise" cinematográfico da Disney, Piratas das Caraíbas, com cais de partida em Rogue's Gallery: Pirate Ballads, Sea Songs And Chanteys (2006), Johnny Depp, Gore Verbinsky e Hal Willner, prosseguem, agora, com notório deleite, no novo (igualmente) duplo, Son of Rogues Gallery. O casting de corsários, no primeiro CD, é praticamente imaculado: içam-se as velas ao som do lendário bucaneiro, Shane MacGowan, em "Leaving Of Liverpool", Robyn Hitchcock, a magnífica Beth Orton e Sean Lennon mantém o rumo até os oceanos se revolverem nas profundezas com o "Shenandoah" de Tom Waits e Keith Richards e, até ao final, por entre flibusteiros de longo curso como Chuck E. Weiss, Patti Smith, Gavin Friday e outros sérios candidatos ao posto de capitão (a óptima Shilpa Ray, mas também Macy Gray, Ivan Neville, Kenny Wollesen), a bandeira negra é hasteada bem alto em "Asshole Rules The Navy" onde Iggy Pop e A Hawk And A Hacksaw filosofam sobre o que viria a ser o modelo de relacionamento futuro entre fiscais das finanças e ex-secretários de Estado portugueses.




As águas são indesejavelmente menos encapeladas no segundo disco onde verdadeiros sobressaltos apenas ocorrem com Richard Thompson ("General Taylor"), no "Rio Grande" de – quais Anne Bonny e Jack Rackham – Michael Stipe e Courtney Love, e na ébria "shanty", "The Dreadnought" (Iggy outra vez). Mas qualquer rodela de plástico que, nem que seja durante 1’51”, nos permita escutar a raríssima Mary Margaret O’Hara merece canonização instantânea. 

28 February 2010

SHANE MACGOWAN & FRIENDS - "I PUT A SPELL ON YOU"



Shane MacGowan has gathered together a group of his musician friends to record "I Put a Spell on You" in aid of Concern Worldwide's work in Haiti. The stellar cast featured vocals from Shane MacGowan, Nick Cave and Primal Scream singer Bobby Gillespie, the Sex Pistols Glen Matlock, The Pretenders Chrissie Hynde and Paloma Faith and finally Eliza Doolittle. On guitars were James Walbourne, The Clashs Mick Jones and Johnny Depp, who recorded his parts in LA. Long-time Pogues collaborator Cait ORiordan played bass, and Carwyn Ellis played Hammond organ and piano. Drums were courtesy of Rob Walbourne and the fire hydrant was played by Mick Jones.

(2010)

26 November 2009




Foto de Man Ray, 1921



Foto de Man Ray, 1921



Johnny Depp posing as Marcel Duchamp
posing as Rrose Sélavy, by Robert Wilson




(2009)

22 August 2009

E SEMPRE EM BUSCA DO RACCORD PERFEITO...



Public Enemies - real. Michael Mann




John Dillinger, Johnny Depp & Cº (aqui)

Billie Frechette (aqui)



Melvin Purvis (aqui)

Sheriff Lillian Holley ("Time", 12 de Março, 1934)

J. Edgar Hoover (aqui)



(2009)

04 July 2009

O PESSOAL DESCONFIA, TORCE O NARIZ, MAS EU SEJA CEGUINHO SE ISTO NÃO É O FIM DA CRISE...



Primeiro-cão com sotaque algarvio na Casa Branca. Papel higiénico luso, sofisticado como a sala de estar do Manuel Pinho, nas latrinas do Louvre. E, agora, Johnny Depp com chapéus de feltro de S. João da Madeira, que gritam "Por-tu-gal! Por-tu-gal!" de cada vez que ele aparece no ecrã em Public Enemies... só uma grande má-vontade pode impedir de reconhecer que, brevemente e muito antes de todos os outros, em Portugal (Por-tu-gal! Por-tu-gal!) voltarão a correr o leite e o mel.

(2009)

21 June 2008

A VERDADE AMERICANA



Tom Petty & The Heartbreakers - Runnin’ Down a Dream
(DVD real. Peter Bogdanovich)


Tom Petty nunca foi exactamente Dylan. Nem propriamente Springsteen. Nem sequer um pouco Roger McGuinn. Mas, à sua maneira quase ostensivamente despretensiosa de aspirar a ser todos eles em simultâneo e nenhum em particular, acabou por construir uma personalidade de músico e autor de canções, certamente menor em comparação com eles, mas que, nessa exacta medida, encarnou perfeitamente a história colectiva de milhares de miúdos que (citando Warren Zanes, no “booklet” de Runnin’ Down A Dream), oriundos dos inúmeros “shitholes” da América profunda, viram no rock’n’roll “uma hipótese de fuga” e “quase por instinto, formaram bandas muito antes de saber realmente o que uma banda era”.



E é bem possível que, nesse sentido, Zanes não falhe demasiado o alvo quando qualifica Tom Petty & The Heartbreakers como “America’s truest rock’n’roll band”. Também não terá sido, seguramente, por acaso que Petty escolheu Peter Bogdanovich (sim, ele, o de The Last Picture Show, facsimile audiovisual de um “shithole” texano dos anos 50, que Tom Waits gosta de referir como modelo para o seu, privado, de Laverne, na Califórnia, onde “só havia um exemplar de cada coisa: um bêbedo, uma puta, um carteiro”) para realizar este filme comemorativo dos trinta anos dos Heartbreakers e que Bogdanovich tenha aceite assiná-lo (o seu segundo documentário, após Directed by John Ford), justificando a longa duração de quatro horas com o argumento “Se Martin Scorsese, em No Direction Home, foi autorizado a gastar três horas com seis anos da vida de Bob Dylan, o que me impediria a mim de gastar quatro com trinta anos da carreira de Tom Petty?”.



É, sem dúvida, proporcionalmente justo e, além do mais, corresponde ao que Peter Bogdanovich confessa ter sido o que o aproximou da figura de Petty: “Sinto-me atraído por coisas que são muito americanas – especialmente, do Sul da América – e as canções dele possuem uma certa qualidade de impressionismo e ambiguidade que me intriga bastante. Têm a ver com o fenómeno da cultura pop que sempre me interessou. Ele foi despertado pelo Elvis, inspirado pelos Beatles e, antes disso, pelos ‘westerns’... tudo isso falou-me ao coração”. Começa e termina, então, a narrativa em Gainesville, na Florida: com abundante material de arquivo familiar e do próprio Petty, viajamos, do início dos anos 70 e dos primordiais Epics e Mudcrutch (que Tom Petty voltou, agora, a reunir em álbum para um momento de nostálgico “jantar de curso” musical) até ao concerto de celebração do “homecoming”, no campus da Universidade da Florida, a 21 de Setembro de 2006.



E, pelo caminho, apoiada nas entrevistas de Bogdanovich com Petty, nos depoimentos dos membros da banda e de Johnny Depp, Rick Rubin, Eddie Vedder, George Harrison, Denny Cordell e Dave Stewart, a biografia – temperada com meia dúzia de pinceladas “de autor” como o “insert” de Rio Bravo em que Ricky Nelson e Dean Martin cantam "Get Along Home Cindy" – flui, entre as épicas disputas de Petty com as editoras, os encontros finalmente concretizados com os heróis Dylan (os Heartbreakers foram a sua “backing band” na digressão “True Confession”, de 1986 e 1987), Johnny Cash, Roger McGuinn e Roy Orbison, as incursões colaterais – com os Travelling Willburys e a solo – e, acima de tudo (a caixa de três DVD e um CD inclui também o registo do concerto de aniversário e uma recolha de inéditos e raridades) a música e as canções de uma banda que, revela o guitarrista Mike Campbell a certa altura, sempre teve como lema “don’t bore us, get to the chorus”.

(2008)

21 May 2008

AS MANGAS E OS BOTÕES



Scarlett Johansson - Anywhere I Lay My Head

Com ele, nunca há garantia de se tratar da verdade ou apenas de mais uma efabulação. Mas, quando a “Pitchfork” perguntou a Tom Waits se tinha conhecimento de que Scarlett Johansson estava a gravar um álbum com versões de canções dele, a resposta foi “Sim, soube disso pelos jornais”. Sem qualquer irritação, no entanto. Bem pelo contrário, acrescentava mesmo um “more power to her” e explicava que “se escrevemos canções é para serem escutadas e reinterpretadas. É um sinal de que não são assim uma coisa tão pessoal que outros não possam abordar. Não faço ideia do que ela irá fazer, mas, se pegamos nas canções de outra pessoa, é para as fazermos nossas, não há outra solução. E isso, habitualmente, exige uma certa arte de alfaiataria: corta-se umas mangas, cose-se uns botões... cria-se sempre algo de diferente, é a tradição”. Até agora, não se conhece outra reacção de Waits a Anywhere I Lay My Head. Mas do que não pode haver dúvidas é que Scarlett Johansson e o produtor David Sitek (dos TV On The Radio) não hesitaram em usar e abusar da tesoura, da linha e das agulhas: quem apenas conheça de passagem a discografia de Tom Waits, sem esclarecimento prévio, dificilmente reconheceria nestas dez canções (mais um original – “Song For Jo” – de Johansson/Sitek) a assinatura dele. Aparentemente, o objectivo foi exactamente esse: pôr de lado o “respeitinho” e lidar sem grandes cerimónias com o reportório do mestre.


(experiência prévia)

Arredemos nós também o preconceito relativamente aos actores-que-se-lhes-meteu-na-cabeça-cantar. Desde Marlene Dietrich a Marilyn Monroe, Johnny Depp ou Nico (sim, ela era uma “singing-actress”), a questão nunca foi a de ousar pisar outro território que não “o seu” mas sim a de saber se havia perna suficiente para arriscar tal passo. Nos sítios da Net onde se discutem os temas reais que podem fazer vacilar o movimento da terra em torno do seu eixo imaginário, parece assente que Johansson mede pouco mais que um metro e cinquenta e cinco. Perna curta, portanto. Pelo que, sensatamente, Sitek optou por lhe utilizar o timbre de contralto exclusivamente como mais uma tonalidade da paleta – em dois temas, a voz de David Bowie é ainda outra – com que pinta um bizarro fresco algures entre os Cocteau Twins, Sinead O’Connor, Phil Spector, Debbie Harry a bordo dos My Bloody Valentine, ou Nico (lá está...) em part-time com os Mercury Rev. Quando falham – “I Don’t Wanna Grow Up”, por exemplo –, estatelam-se mas, nos momentos em que o alinhamento planetário é mais propício (“Fannin’ Street”, “Town With No Cheer”, “Green Grass”, “I Wish I Was In New Orleans”, “No One Knows I’m Gone”), a experiência chega a ser intrigantemente sedutora.



(2008)

19 July 2007

PIRATA NO MAR ALTO



Do outro lado do telefone, ao meio dia de Los Angeles, responde-me uma voz afeiçoada ao calor do "bourbon" desde o biberão. E começa por me fazer queixas amargas acerca do jornalista anterior que lhe telefonou com vinte minutos de atraso em relação à hora combinada, motivo pelo qual o mandou passear. Asseguro-lhe que eu não sou ele e, depois de me obrigar a prometer-lhe que não deixarei de participar tão grave ocorrência à editora, então, Chuck E. Weiss, dispõe-se a conversar. Chuck quê? A personagem é tão mítica quanto obscura e caracteriza-se por duas referências em canções de Tom Waits e Rickie Lee Jones e uma portentosa discografia de dois álbuns separados por um espaço de dezoito anos em que, desculpa-se ele, "esteve distraído". O segundo, Extremely Cool, co-produzido por Tom Waits, Johnny Depp e Kathleen Brennan acaba de ser publicado e (quem sabe?) passará a constituir o essencial do seu reportório até 2017. No final da entrevista, reconhecido, o cavalheiro diz-me "Thank you, sir, for making it easy for me". De nada, Chuck.



Desde que, em "I Wish I Was In New Orleans", o Tom Waits se referiu a "that old Chuck E. Weiss" e, pouco depois, Rickie Lee Jones lhe dedicou "Chuck E.'s In Love", sempre me interroguei quem seria essa personagem misteriosa. Agora que sai este seu disco, vai ter de me desvendar o enigma...
Na altura em que o Tom Waits escreveu "I Wish I Was In New Orleans", eu andava muito com ele e escrevíamos canções em conjunto. Há até uma canção minha, "Spare Parts", que ele incluiu em Nighthawks At The Diner. Conheço-o e somos amigos desde 72 embora não nos tenhamos encontrado aqui em Los Angeles mas sim em Denver, no Colorado, de onde eu sou. Por volta de 75, mudei-me para cá e conheci a Rickie Lee que era empregada de mesa e, ao mesmo tempo, tentava começar a cantar o que conseguiu, pela primeira vez, no "Troubadour" onde eu trabalhava como cozinheiro. Tornámo-nos amigos e, mais tarde, fui eu que a apresentei ao Tom. Pode-se dizer, figurativa mas não literalmente, que eu fui o "middle man" entre eles os dois.



Quando a Rickie Lee escreveu essa canção sobre si, estava mesmo apaixonado?
Não tenho bem a certeza, vai ter de lhe perguntar a ela! Sabe, naquele tempo, eu também me apaixonava com muita facilidade...Agora já não tenho tanta sorte...

Para além do Tom Waits e da Rickie Lee Jones de que conhecemos os percursos, o que aconteceu depois a esse grupo de artistas de que vocês faziam parte?
Essa cena tinha como quartel general o Tropicana Motel que era onde vivia a maioria dessas pessoas como nós, o Sam Sheppard ou o grupo punk Dead Boys. Quando os Blondie ou os Ramones vinham a Los Angeles, também ficavam lá. Não sei se está a ver, mas era um sítio bastante doido, como um dormitório sem vigilantes...(risos). Nunca ninguém deu um nome a essa nossa pequena cena apesar de ela ser muito especial. E parece-me que isso foi bom porque, até hoje, nunca foi explorada por ninguém. Agora, de repente, toda a gente parece muito interessada nela mas, na altura, era uma coisa bastante privada onde experimentávamos bastante com o "spoken word" que foi exactamente o mesmo ponto onde o rap e o hip hop acabaram por ir ter.

Entretanto, há dezoito anos, chegou a gravar um primeiro álbum que eu nunca consegui encontrar...
Ainda bem que nunca o ouviu porque desconfio que não gostaria muito dele. Chamava-se The Other Side Of Town e era uma "demo tape" que a Select transformou em disco porque não conseguiram arranjar dinheiro para eu gravar canções novas. Ficou bastante inacabado. Sei que, em França, foi distribuido pela RCA Victor.



Li no "New Musical Express" que a justificação que dá para ter passado dezoito anos sem gravar é ter andado distraído...
Pois, é mesmo verdade, andei um bocadinho distraído...(risos). Mas, durante estes dezoito anos, toquei sempre, pelo menos duas vezes por semana, em clubes, bares ou na televisão. Nunca deixei de dar concertos.

Sei que também, juntamente com o Johnny Depp, se ocupou do clube "Viper Room"...
Foi um dos sítios onde, durante quase doze anos, eu toquei. Quando um dos donos morreu e o clube (que se chamava "The Central") ficou numa situação económica complicada, perguntei ao Johnny Depp se ele não estaria interessado em comprá-lo. Mudámos-lhe o nome para "Viper Room" porque ambos adoramos a "viper music" dos anos 20 e 30, aquele jazz que o Cab Calloway, o Duke Ellington ou o Cootie Williams tornaram famoso e que era típico de New Orleans, Chicago e Nova Iorque.

Que outras músicas foi ouvindo?
Praticamente tudo o que não quer dizer que goste de tudo. Tenho gostos muito particulares. Gosto de música pouco rebuscada e parece-me que a dos últimos vinte anos tem-no sido demais. Gosto de tijuanas, de um tipo noruguês chamado Lucas, de Scatman John, dos dois primeiros álbuns dos NWA e de uma "singer/songwriter" de Los Angeles, Eleni Mandell.

Fiz-lhe essa pergunta porque, neste seu disco, oiço ecos de "cajun", música de New Orleans, delta blues, dos Cramps...Está de acordo ou estou a dar tiros ao lado?
Não, tem toda a razão à excepção de que, apesar de nunca ter realmente ouvido muito os Cramps, se calhar, fui também influenciado pelo mesmo estilo "swamp" que eles. A canção "cajun" a que provavelmente se refere, "Oh Marcy", na realidade, não pretendia ser nesse estilo, a ideia era mais ser como uma "sea shantie" cantada por piratas no mar alto!...(risos). Mas saiu assim.



Qual foi a participação real de Tom Waits neste disco?
Escrevemos em conjunto duas canções e ele ajudou-me em certas decisões da produção em relação ao alinhamento e também na escolha do que incluir do total de vinte e duas canções que eu tinha.

É verdade que o "bluesman" Willie Dixon lhe chamava "that little jew boy from Colorado with the big old head"?
Ele disse isso, de facto, numa entrevista que deu pouco antes de morrer. Cantei e gravei com ele cerca de dez canções das quais três foram publicadas a meio dos anos 70 por uma editora que já não existe chamada Rolling Rock. Já houve quem me pedisse para autografar um desses discos mas são muito difíceis de descobrir.

Chamou ao álbum Extremely Cool. É assim que vê a sua música?
Não, esse é só o título de uma das canções que faz pouco de um certo tipo de pessoas com enormes contas bancárias e pilas muito pequeninas! (risos).

"Se David Lynch abrisse um bar de strip-tease a meio caminho entre os blues, o jazz e o submundo, Chuck E. Weiss seria o perfeito mestre de cerimónias". Concorda com esta definição que deram de si?
Não sei, tinha de pensar muito bem nisso. Mas, primeiro, iam ter de me assegurar que o David Lynch tinha mudado de corte de cabelo. Faz-me muita impressão olhar para ele assim... (1999)

10 March 2007

QUINZE HOMENS NO COFRE DO MORTO


Vários - Rogue's Gallery: Pirate Ballads, Sea Songs And Chanteys

A lenda de Libertatia (ou Libertalia) — uma colónia anarquista de piratas fundada, no final do século XVII, a norte de Madagáscar, sob inspiração dos capitães James Misson, Thomas Tew e do "padre devasso", ateu e comunista, Caraccioli — teve origem na célebre General History of the Robberies and Murders of the Most Notorious Pirates, publicada, em 1724, por um misterioso e nunca identificado capitão Charles Johnson e, durante bastante tempo atribuída, aparentemente sem razão, a Daniel Defoe, o autor de Robinson Crusoe.


Mito ou realidade, terá sido apenas uma de várias utopias de "mundo virado do avesso" a que a história da pirataria está associada — das "repúblicas" de Salé/Rabat às proezas das Fraternidades corsárias da Barbária ou das Caraíbas, do simbolismo satânico/herético da Jolly Roger (a bandeira negra da caveira sobre as duas tíbias) à ética "igualitária" e contraculturalmente hedonista ("a merry life and a short one") dos "proletários dos oceanos" — e que deixou marcas fundas na literatura e no cinema assim como no que resta de algum pensamento anarco-situacionista contemporâneo. Foi a partir da memória dessas "áreas libertadas" corsárias que Hakim Bey (aliás, Peter Lamborn Wilson, poeta, escritor e ensaísta norte-americano, proto-Sufi, neo-pagão, aventureiro dos mares psicotrópicos), no contexto do seu "anarquismo ontológico", criou o conceito das TAZ (Temporary Autonomous Zones) , enclaves autónomos de liberdade absoluta, arquipélagos virtuais, fora da lei da sociedade exterior.


Justamente o mesmo Hakim Bey, que no prefácio de The Devil's Anarchy, de Stephen Snelders (ed. Autonomedia, 2005) — relato das epopeias marítimas dos piratas holandeses Claes C. Compaen e Jan Erasmus Reyning —, acerca deles escreveu: "Rimbaud ou Gauguin teriam compreendido estes seus outros eus, talvez pouco eloquentes mas decididos na acção e no regabofe, poetas da experiência vivida mais do que da literatura ou da pintura: o sonho renascido dos bucaneiros, irmãos das costas e das ilhas, utopistas sem um 'ismo'... (...) Neste sentido, a pirataria tem menos a ver com a violência ou com a caça ao tesouro do que com o desejo sem limites e a liberdade anárquica, a 'liberté libre' de Rimbaud".


Tudo isto, entretanto, é francamente mais interessante do que o último elo cinematográfico que daí decorre, Piratas das Caraíbas - O Cofre do Homem Morto (de Gore Verbinsky), aborrecidíssimo pastelão-Disney e herdeiro muito menor de todos os Against All Flags, Captain Blood, Captain Kidd ou Treasure Island do passado. Mas ao qual, a partir de agora, por via indirecta, passamos a dever um óptimo álbum duplo — Rogue's Gallery: Pirate Ballads, Sea Songs And Chanteys —, fruto de conspiração entre Verbinsky e Johnny Depp (o "capitão Jack Sparrow" do filme) entregue nas mãos do produtor Hal Willner, de que resultou esta coleccção de quarenta e três "canções dos mares" reinterpretadas por uma verdadeira arca do tesouro da pop/rock/folk contemporânea.

Hal Willner

Willner era, sem dúvida, a escolha óbvia: desde Amarcord Nino Rota (1981) até Lost In The Stars/September Songs - The Music of Kurt Weill (1985/1995), Stay Awake: Interpretations of Vintage Disney Films (1988), Weird Nightmare: Meditations on Mingus (1992), Dead City Radio (1990, em torno dos textos de William Burroughs), The Lion For Real (1990, sobre Allen Ginsberg) ou Closed On Account Of Rabies (1997, com Edgar Poe como pretexto) que o seu modus operandi de distribuição de um tema nuclear por uma elite de notáveis deu frutos bem saborosos. A presente convocatória inclui consagrados em óptimo momento de forma (Nick Cave, Richard Thompson, o clã Carthy — Martin, Eliza e Norma Waterson —, Lucinda Williams, Van Dyke Parks, Lou Reed, Loudon Wainwright III, Bono e até os inesperadamente reanimados Sting e Bryan Ferry), luminárias "underground" e alternativas mais ou menos estimáveis (Gavin Friday, Akron Family, David Thomas, Robin Holcomb, Antony, Joseph Arthur, Jolie Holland, Bob Neuwirth, Stan Ridgway, Jarvis Cocker e a sobrenatural Mary Margaret O'Hara), acólitos de eleição (elementos da banda de Elvis Costello, Bill Frisell, Kate St. John, Warren Ellis, Kate McGarrigle, Jane Scarpantoni, Robyn Hitchcock) e assombrosas revelações como o vetusto Baby Gramps.

A pirata Anne Bonny

Mas, acima de tudo, magnífica música de embriaguês e ausência, de celebração e morte, de selvajaria e deboche, de que "The Good Ship Venus" é um significativo exemplo: "The captain's daughter Charlotte was born and bred a harlot, her thighs at night were lilly white, by morning they were scarlet". Folgava-se em grande estilo a bordo... (2006)